Onusto
1 Interrompendo-o
Notas iniciais
Essa história é muito especial pra mim, espero que gostem!
Observando a noite pela janela de um táxi, a fixa caiu. Naquele momento eu percebi que estava realmente em outro país, longe de tudo que eu já havia conhecido até então.
Depois que meu pai morreu, minha situação em casa ficou complicada. Decidi fugir, e por tal razão abandonei minha vida social e me dediquei aos estudos por um ano inteiro. Com as minhas notas sensacionais, consegui entrar na melhor faculdade do Reino Unido.
Peguei um avião de Sydney e voei até a Londres. Com minhas três malas, entrei em um táxi e viajei até a república de apartamentos da Western London State University.
Era Janeiro de 2005. Quatro e meia da manhã quando o táxi encostou ao lado de um prédio de tijolos à vista. Tinha três andares e, a partir daquela madrugada, seria minha casa por quase dois anos.
O taxista, um senhor de idade cujo nome até hoje é um mistério, desceu minhas três malas do porta-mala. O agradeci, o paguei e fiquei parada em frente ao prédio, encarando o cenário ao meu redor. Estava frio pra caramba. A calçada estava congelada, mas não havia neve. Li na internet que raramente nevava em Londres.
Fiz duas viagens até a porta de entrada para transportar todas as malas. Eram três porque eu havia trazido absolutamente tudo de casa. Do bolso do meu casaco, peguei as chaves da porta principal da república.
A faculdade tinha um guichê especial no aeroporto, feito para receber os novos alunos e entregar as chaves dos apartamentos aos novatos, além de um kit de boas vindas. Me impressionei pelo fato de que mesmo que eu tenha chegado de madrugada, eles estavam me esperando.
Destranquei a porta com cuidado. Ela era enorme e achei que qualquer movimento poderia causar um ruído que acordasse estudantes adormecidos. Enquanto eu carregava mala por mala para dentro do prédio, ouvi o som estridente de uma guitarra.
Um fato sobre mim é que toco guitarra desde meus oito anos. Meu falecido pai me ensinou e sempre foi muito rígido. Aos dezessete, naquela noite, naquela república, eu já era profissional.
Meus ouvidos sangraram. Eu conhecia a música que aquela pessoa estava tentando tocar, e ficava cada vez pior. Era o único som que se ouvia — vinha de outro cômodo mas ecoava no prédio inteiro. Naquele momento, me perguntei como todas as luzes estavam apagadas e como alguém — se havia alguém dormindo — não havia acordado.
Chaveei a porta cuidadosamente. Havia uma escada em minha frente, que levava para os quartos, e caixas de correio para cada número, na parede esquerda. Na direita, um cômodo de batente vazio, de onde vinha uma luz e o som da guitarra.
Abandonei minhas malas e entrei na sala. Me deparei com uma sala de estar chique, repleta de sofás, poltronas e prateleiras cheias de livros. Num sofá, que estava de frente para mim, um garoto.
Curiosamente, ele estava sem camisa. Músculos extremamente desenvolvidos à mostra e abdômen contraído, me deu água na boca. Sentado, tocava a guitarra atrapalhadamente, aparentemente concentradíssimo.
Seus cabelos loiros e ondulados caíam levemente sobre a testa e, mesmo que seus olhos estivessem inclinados para a guitarra, percebi que eram azuis. Usava uma calça de moletom cinza e, por alguns segundos, apenas observei sua beleza. Acho que até me apaixonei instantaneamente.
"Você está fazendo errado" O som da minha primeira palavra fez o garoto pular do lugar e parar tudo o que estava fazendo. Fiz uma pausa para rir do susto que tomou, e continuei: "Now I'm Here, do Queen?"
"Deus... Você quase me matou de susto." Ele disse, largando a guitarra sobre o sofá enquanto rapidamente pegava uma camiseta do chão, vestindo-a, levantando e me deixando surpresa por sua altura. Alto demais.
"Como uma grande fã do Brian May, peço que você pare de tentar assassinar o legado dele." Falei, arrancando um sorriso dele.
O garoto me encarou e vi que seus olhos eram mais azuis do que pareciam ser. Pra falar a verdade, até hoje eu nunca vi olhos tão coloridos quanto os dele.
"Então..." Disse ele, agarrando sua guitarra pelo braço e segurando-a em minha direção. "...honre seu ídolo."
Sorri largamente. Meu maior prazer era mostrar para um homem de que eu era mais capaz do que ele em alguma coisa. Faço desde que era pequena, e é incrível ver a reação de cada um. Naquele momento, eu estava particularmente interessada em presenciar a reação do garoto loirinho-gostoso que eu havia acabado de conhecer.
Mordi o lábio inferior para evitar um sorriso ainda maior e tirei as luvas das minhas mãos, largando-as sobre uma poltrona no canto da parede, ao meu lado. Andei até o garoto e, em frente a ele, evitei olhá-lo nos olhos. Homens bonitos são uma ameaça.
Ao invés, encarei a guitarra. Linda. Gibson Les Paul, igual a do Slash. Agarrei-a, sentei no sofá onde o garoto antes sentava e passei minhas mãos ao longo das cordas.
"Linda, não?"
"Sim." Murmurei, sem nem me importar de olhar para ele. "Aqui vai a maneira correta."
Coloquei os meus dedos na posição inicial e deixei a mágica acontecer. Me deixei levar pela melodia e — para não parecer muito confiante e egocêntrica — toquei o solo que o garoto tentava replicar e apenas o solo.
Quando parei, levantei e coloquei a guitarra sobre o apoio dela que descansava no chão, ao lado de um pequeno amplificador.
"Incrível." Ele disse, chamando minha atenção. O encarei por alguns segundos, recebendo seu olhar maravilhoso em retribuição. "Ual, você é alta."
"Você também."
Foi o que eu disse de volta. Sempre me diferenciei das outras garotas por ser mais alta. Desde dezesseis anos fiquei empacada com 1,75. Aquele garoto, naquela noite, era alto suficiente para que eu tivesse que olhar um pouco para cima para encará-lo.
Geralmente, garotos não eram muito maiores do que eu.
"Eu me chamo Adam." Estendeu sua mão para mim.
"Katherine." Respondi, apertando sua mão forte imediatamente.
"Não é comum novos alunos chegarem na madrugada." Adam disse, encarando de relance as minhas malas no corredor.
"Foi a passagem mais barata que encontrei." Admiti, rindo. "Mas aposto que também não é comum novos alunos chegarem enquanto um veterano seminu falha miseravelmente em tocar um solo de guitarra."
"Estava tão ruim assim?" Ele franze o cenho, logo rindo e fazendo-me assentir com a cabeça. "Eu vi que você tem umas quantas malas. Precisa de ajuda?"
"Na verdade sim." Disse, finalmente tendo uma oportunidade de sair de perto dele. Eu já estava ficando com calor. "Estão muito pesadas."
Dei a volta pelos sofás até o corredor. Adam me seguiu.
"Mulheres..." Ele sussurrou, me obrigando a encará-lo com cara feia.
Assim que o fiz, sorriu. Seu sorriso desfez-me por inteira e apenas virei para frente de novo, indo até as malas. Agarrei a menor pelo gancho e com o outro braço fiz o mesmo com uma das grandes.
Ele agarrou a última e soltou um gemido ao forcejar com ela.
"Pesado, não?" Perguntei enquanto eu mesma me esforçava para subir um degrau por vez.
"Você carrega chumbo aqui dentro?" Debochou ele, rindo em seguida. "Por favor me diga que o seu quarto não é no terceiro andar."
"Pra sua sorte, é no segundo." Ri também.
Fiz força pra puxar minhas malas. O silêncio se instalou.
"Então, você é australiana?" Adam puxou o assunto para nos tirar da tortura de ouvirmos apenas o som de nós mesmos forcejando com as malas, lentamente. "Seu sotaque entrega."
"Sim." Respondi, olhando para trás rapidamente enquanto o vejo sorrir.
"Qual engenharia você vai-" fez uma pausa rápida para puxar a mala um degrau acima. "cursar?"
"Como você sabe que planejo ser uma engenheira?" Lanço outra pergunta, carregando as duas malas a mais dois degraus para cima.
"Essa república é voltada aos estudantes de exatas." Respondeu-me prontamente e consegui ouvir seu sorriso. "Deduzi que você tem cara de engenheira."
"Interessante." Complementei, finalmente alcançando o topo da escadaria. Joguei uma mala para o segundo piso, depois a outra. "Que tipo de cara tem um engenheiro?"
O barulho me incomodou, mas desde que Adam estava tocando guitarra às alturas, não me importei com isso. Ele riu da minha pergunta.
O loiro me alcançou rapidamente. No segundo andar, colocamos as malas sobre suas rodinhas e ele me seguiu até que encontrássemos a entrada da ala feminina.
"Como você sabe que sou um veterano?"
"O quê?" Perguntei, fazendo uma pausa rápida enquanto procurava o chaveiro no meu bolso.
"Você me chamou de veterano seminu, antes." Disse, gargalhando.
"Você tem cara de veterano." Destranco a porta e me viro para Adam, que em pé, me encara sedutoramente. "Estou errada?"
Ele suspira. Me viro para a porta e a abro. Escancarada, eu entro com minhas duas malas e o garoto me segue.
"Não." Responde.
Eu enxergo uma chave de luz e a acendo imediatamente. As lâmpadas acesas nos revelam um cômodo de tamanho médio, ocupado por uma sala de estar simples, com dois sofás — um de três e outro de quatro lugares, uma televisão de parede, mesa de jantar com seis lugares e uma cozinha espaçosa. Tudo em um ambiente.
No fundo, há um corredor fino e profundo. Lá, seis portas que revelam seis quartos individuais, contendo um banheiro para cada três.
"Engenharia mecânica, respondendo a sua pergunta." Eu quebro o silêncio.
"A área feminina é bem melhor que a nossa." Adam exclama, fazendo-me olhar para ele. "E engenharia mecânica... Ual, quantas outras surpresas você tem preparadas pra essa noite?"
Meu coração falha uma batida. Isso foi uma cantada?
Um garoto gato desses me cantando? Oh Deus... Aproveito que estou de costas e nem olho para ele. Lembro de seu abdômen nu e vejo estrelas.
"Ahn... Qual o seu quarto?"
A pergunta de Adam me faz perceber que talvez eu tenha ficado parada fantasiando — com ele — por algum tempinho.
"O dois."
"Deixe-me fazer as honras!" Exclama ele, já se atravessando em minha frente com um sorriso enorme.
"As portas geralmente ficam abertas no primeiro dia."
Estava certo. Adam abriu a porta livremente e me revelou um quarto pequeno, mas repleto de tudo que eu precisaria. Estante, armário, cama, escrivaninha e sapateira. No fundo do quarto de paredes lilás, uma porta branca é a que eu supus que levaria ao banheiro.
O garoto largou minha mala que carregava no meio do quarto e virou-se para mim.
"Quarto bonito." Disse, olhando em volta rapidamente até focar seu olhar azul em mim. "Só não parece combinar com uma engenheira e guitarrista profissional."
"Você parece entender muito de garotas." Não me contive, o encarando rapidamente enquanto mordia o lábio inferior para esconder um sorriso debochado.
Levei minhas malas para dentro do quarto e deixei-as num canto, logo andando até ficar frente a frente com o loiro alto e gostoso no meu quarto.
"Entendo." Respondeu, fechando sua expressão simpática. Ele pareceu nervoso quando me aproximei.
"Você ainda não me disse o que cursa." Falei, tentando melhorar o clima.
Em minha frente, Adam grudou seus olhos nos meus. Senti meu corpo esquentar de maneira impressionante apenas por aquele olhar. Adam abriu a boca para falar, mas acabou gaguejando.
Estávamos perto demais para duas pessoas que acabaram de se conhecer. Acho que a minha última frase soou um pouco sexy, como se eu quisesse seduzi-lo.
Apesar de não ter sido a intenção, percebi que se ficasse ali por mais um segundo, acabaria saltando no garoto e o beijando ferozmente. Talvez ele também. Não teria sido ruim — muito pelo contrário — mas eu não ficava com garotos que acabara de conhecer. Pelo menos não naquela época.
Desviei de Adam e fui até o fundo do quarto, abrindo a porta do banheiro.
"Engenharia civil." Respondeu-me depois de alguns segundos, virando para minha direção. "Estou começando meu segundo ano."
"Foi difícil?" Perguntei, adentrando o banheiro e encarando o cômodo.
Era todo branco. Haviam três boxes de chuveiros conjuntos, três pias e três espelhos. Para um banheiro compartilhado, era bem individual. Eu até chamaria de luxo.
"É puxado, mas me acostumei. Você também..." Ouço Adam bocejar no meio de sua frase. "...Vai sofrer, mas acabar se acostumando."
"Bom saber." Falei, cruzando os braços e me escorando no batente do banheiro.
"Katherine..." Me encarou profundamente, fazendo meu coração falhar uma batida. Seu silêncio e expectativa por uma fala me fez entender que ele queria meu sobrenome.
"Hunter."
"Hunter." Assentiu, sorrindo levemente. "Foi um prazer tremendo conhecer você."
"Igualmente." Respondi, sorrindo. Bocejei sem querer e resmunguei: "Estou podre."
"Se eu fosse você, dormiria agora." Ele disse, espreguiçando seus braços para o alto. "Você chegou cedo, teve o ótimo vislumbre de um veterano seminu solando uma música do Queen e vai aproveitar algumas horas de silêncio, mas... Lá pelas oito da manhã, esse lugar vai estar lotado de calouros e você mal vai conseguir cochilar."
"Obrigada pelo conselho, Adam." Falei, entrando no quarto e fechando a porta do banheiro.
"Como você pode ver, esse veterano agora vestido está caindo de sono." Contou, dando alguns passos para trás, sem tirar os olhos de mim.
"Vai dormir." Mandei, sorrindo sem mostrar os dentes.
"Seu desejo é uma ordem, Katherine." Dando passos para trás, ele bateu a cabeça e as costas contra a parede, logo ao lado da porta.
O estrondo me assustou, mas eu imediatamente comecei a gargalhar.
"V-Você está... Bem?" Perguntei, entre risadas.
"Estou ótimo." Ele ri junto comigo, me fazendo perder a razão ao encarar seu sorriso. "Boa noite, Katherine. Eu... Te vejo por aí."
De maneira boba, Adam puxa a porta e a fecha, desaparecendo atrás dela. Rindo, eu vou até a cama e sento nela, repetindo em minha cabeça a cena do garoto — que acabei de conhecer — batendo a cabeça na porta por estar muito concentrado... Em mim.
Ri pensando nisso. Deitei, jogando meu agasalho — que eu ainda usava e derretia de calor — e apaguei a luz num interruptor perto da cama. Me peguei imaginando o que o futuro me reservaria naquela faculdade. Era um novo começo para mim, afinal, eu havia abandonado absolutamente tudo para a faculdade.
Me perguntei, pouco antes de dormir, se meu futuro envolveria Adam. Com certeza sim. Eu só esqueci de me perguntar se seria bom.
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