Only Ones Who Know
4 The calm among the chaos
Notas iniciais
Sentada na varanda, Hinata tomava uma xícara de café enquanto lia O Conde de Monte Cristo pela segunda vez. A casa em que vivia era antiga e pequena, mas o suficiente para uma pessoa que morava sozinha. Quando se mudara, precisou chamar um empreiteiro para arrumar a porta dos armários da cozinha, mas com exceção disso não houveram outros grandes problemas. A sala ocupava a maior parte da casa e ela havia decorado o ambiente a sua maneira, com quadros, velas e flores que deixavam o lugar mais aconchegante. O quarto de Hinata — o único da casa — era simples, predominantemente lilás e ficava do lado do banheiro que dispunha de uma grande banheira branca.
No entanto, o seu lugar preferido era a varanda, que ficava na parte de trás da casa. Ela adorava ler enquanto apreciava a fresca brisa matinal e escutava os sons exóticos dos animais que vinham de uma floresta distante. Com o livro no colo e a xícara nas mãos, Hinata estava fazendo o possível para manter seus pensamentos em qualquer coisa que não fosse o estado atual de sua vida. Naquele momento, queria ser capaz de ser qualquer pessoa menos ela. Perguntava-se como a vida podia ser tão surpreendente e, ao mesmo, tempo tão trágica. Ela não precisou de muito tempo para entender que, por mais que possamos gostar das coisas como estão, nada permanece igual por muito tempo.
Embora não fosse sua intenção pensar no loiro de olhos azulados em um momento como aquele, ela não conseguiu evitar de pensar que também fora assim com Naruto. Deus, já havia passado anos! Perguntava-se até quando iria continuar pensando nele e no passado, mas como logo percebera, esquece-lo parecia não ser tão simples. Como estaria agora se todos os sonhos e planos que fizera com ele tivessem acontecido? Talvez ela estivesse casada, talvez tivesse filhos, talvez até mesmo uma casa com uma cerca branca ao redor do jardim. Teria um Volvo ou uma mini-van e iria à Disney nas férias. Esta vida definitivamente parecia boa, mas seria melhor?
Quando terminou seu chá, ela marcou a página na qual havia parado a leitura e colocou o livro sob uma pequena mesa de madeira. Suspirando, Hinata saiu da varanda e foi até o quarto. Vestiu um vestido leve, pegou a bolsa e depois saiu trancando a porta de casa. Os raios de sol iluminavam as copas das árvores. Era uma quinta-feira e isso significava que o dia seria um pouco mais atarefado do que o normal.
***
Sasuke passara boa parte da manhã organizando sua agenda de trabalho, remarcando todos seus compromissos e tomando o cuidado de adiar todos aqueles que considerou os de menor importância. No momento, ele não tinha nenhuma pretensão de voltar para Tóquio e pretendia ficar com Mikoto por parte integral de seu tempo.
Há três dias, quando Fugaku ligara, Sasuke recebeu o que eventualmente tornou-se o pior telefonema de sua vida. Na ligação, seu pai também lhe avisara que havia entrado em contado com Itachi. Da última vez que tivera alguma notícia do irmão mais velho, descobriu que o mesmo estava na África do Sul. Itachi havia escolhido seguir carreira diplomática e, desde então, tornou-se difícil acompanhar seu paradeiro. Assim como para Sasuke, Fugaku não revelou o motivo específico do telefonema para Itachi. Se tivesse, Sasuke tinha certeza que Itachi já estaria dentro do primeiro meio de transporte que deixasse o continente africano rumo ao Japão.
— Você definitivamente se tornou um homem de negócios – disse Mikoto ao observar o filho sentado na mesa da cozinha rodeado por documentos.
Sasuke parou de ler o documento que segurava, ergueu os olhos e viu Mikoto perto da porta da cozinha. Ela havia recebido alta no início da manhã e estava notavelmente mais feliz estando em casa de novo. Sasuke sentiu orgulho da mãe. Ela era uma mulher e tanto. Mikoto demonstrava estar mais segura e confiante, como se houvesse recuperado a energia que parecia ter perdido enquanto estava internada naquele quarto de hospital. Se ele dissesse que isso não fez com que despertasse certa esperança com relação à possíveis melhorias no estado de saúde da mãe, ele estaria mentindo.
— É o que se espera do herdeiro da Uchiha’s Co.
Ela se aproximou, estendendo a mão delicadamente em direção ao rosto do filho.
— Lembro quando você ficava sentado nessa mesma mesa esperando seu pai chegar do trabalho — Mikoto olhou nos olhos que eram tão escuros quanto os seus — Mesmo já tendo passado da hora de dormir.
— Isso já faz algum tempo. — Ele sorriu brevemente — Faz tanto tempo que até mesmo aquela torneira funcionava direito.
Sasuke fez sinal em direção a pia com a cabeça. Enquanto esteve na cozinha, ele percebeu que havia um lento gotejamento que, com o passar do tempo, havia deixado marcas de ferrugem na porcelana.
— O gotejamento começou pouco tempo depois de você se mudar para Tóquio. Cheguei a pensar que sua súbita decisão de se mudar fosse para se livrar da culpa por ter quebrado a torneira da minha cozinha.
Sasuke ergueu as mãos na defensiva.
— Não tenho nada a ver com isso, mas se está tão preocupada, posso concertá-la.
Mikoto riu para o filho.
— Na verdade isso não me incomoda, mas não posso deter um ato espontâneo de cavalheirismo e altruísmo — ela disse, e Sasuke gostou de poder ouvir o humor na sua voz — A caixa de ferramentas continua no mesmo lugar de sempre, mas pode ser que esteja com algumas teias. Já faz algum tempo que ninguém mexe naquilo. Tome cuidado, Sasuke, querido.
— Acho que posso lidar com as aranhas e com a torneira – Sasuke riu — Mas acho que você deveria descansar um pouco. A doutora Tsunade me passou a lista dos medicamentos que você está tomando e eles são um pouco forte.
— Me sinto bem — Mikoto respondeu, balançando as mãos — Mas se está tão preocupado, acho que posso descansar enquanto assisto meu programa de reformas de casas.
Mikoto estendeu a mão para alcançar o braço de Sasuke, e depois de alguns passos eles já estavam na sala. Ela se sentou no sofá enquanto o filho subia para seu antigo quarto. Sasuke colocou um jeans e uma camisa antiga. Quando desceu os degraus outra vez, parou no armário debaixo da escada para pegar a caixa empoeirada de ferramentas. Estando na casa em que um dia chamou de lar, ele não conseguiu evitar ficar sentindo-se nostálgico. Estar de volta em sua cidade natal o fazia repensar constantemente no passado e cogitava se era essa a razão de ter passado a noite anterior com imagens de Hinata na cabeça.
***
Sasuke finalmente terminara de concertar a pia quando escutou o som da campainha. A torneira tinha dado mais trabalho do que imaginara. No entanto, estava satisfeito com o resultado: o gotejamento incessante parara. Foi o que concluira ao chegar na porta da frente.
— Oi — disse ela — Espero não estar atrasada.
— De modo algum — Sasuke respondeu, encostando o corpo na porta — Você chegou bem na hora.
Hinata não pode evitar olhar para os músculos de Sasuke, cuja camiseta colada ao corpo deixava transparecer, e sentiu o rubor subir-lhe a face. Ela sabia, naquele momento, que estava corando e praguejou mentalmente por isso. Sasuke percebeu rapidamente que os olhos perolados estavam desviavando constantemente dos seus.
— Algo errado?
Encarando o chão, Hinata colocou uma madeixa do longo cabelo escuro atrás da orelha.
— Sua camisa.
Sasuke olhou para baixo e percebeu que a blusa que estava usando tinha ficado bastante húmida durante a tentativa bem-sucedida de concertar a torneira.
— Ah — disse tranquilamente — Estou distraindo você?
Como Sasuke já imaginava, as bochechas de Hinata ficaram ainda mais vermelhas.
Meu Deus, como ela é bonita.
— Onde está Mikoto? – Ela indagou rapidamente, olhando por cima do ombro do moreno, ainda sem encará-lo.
— Na sala — respondeu Sasuke, por fim, sem conseguir evitar sorrir.
***
Quando Hinata parou na porta da sala, observou Mikoto assistir concentradamente ao programa de TV. Para seu alívio, ela percebeu que Mikoto definitivamente parecia mais com ela mesma fora daquele quarto de hospital, como se suas energias tivesses sido subitamente recarregadas. Sobretudo naquele momento, Hinata não podia negar que tinha ficado extremamente feliz pela decisão que o amigo tomara.
Mesmo em conversas triviais, Mikoto lhe revelara que desejava ver a família reunida com mais frequência. Conhecendo-a bem, Hinata sabia que ela amava os filhos, e com os dois morando longe, sentia uma falta constante de ambos. Talvez essa fora uma das principais razões das duas terem mantido contado mesmo depois da mudança de Sasuke. Para Hinata, Mikoto sempre estivera muito próxima de uma figura materna e, pela maneira que a Uchiha a tratava, ela tinha certeza que o sentimento era mútuo.
Assim que notou a presença de Hinata e Sasuke na porta, Mikoto desligou a televisão e foi até eles, recebendo a jovem com os braços abertos.
— Sasuke, espero que esteja sendo educado — disse ela, vendo as bochechas coradas de Hinata.
— Ah, sim – respondeu Hinata com timidez, evitando que Mikoto se preocupasse.
— Muito — Enfatizou Sasuke, com bom-humor.
Mikoto avaliou o filho.
— Você está com uma aparência horrível, Sasuke. Está encharcado!
Sasuke riu.
— Obrigado pelo voto de confiança mãe, mas na verdade me sinto muito bem. Hinata até disse que fico melhor assim.
— Eu não disse isso – retrucou Hinata rapidamente.
Pela primeira vez desde que chegara, ela encarou o par olhos escuros do homem que estava ao seu lado. Os olhos ônix pareciam alegres, apesar de provocativos. Hinata sentiu como se estivesse sento envolta por uma atmosfera particular, mas não achou essa sensação ruim.
— Quer beber alguma coisa, Hina? — ofereceu Mikoto.
— Claro. Deixa eu te ajudar.
Hinata seguiu Mikoto até a cozinha, e quando as duas começaram a conversar, Sasuke seguiu até o lance de escadas. Ele foi até seu antigo quarto outra vez, e trocou a blusa molhada por uma das camisas que tinha trago. Ainda a estava abotoando quando voltou para a cozinha, parando próximo do balcão.
Do outro lado, Hinata estava pegando um pote de açúcar, e percebeu que tinha ficado muito consciente da presença dele a sua volta. Virou-se para Mikoto, na esperança de que Sasuke não tivesse notado isso.
— Mais açúcar?
Mikoto fez que sim com a cabeça.
— Ah, como senti falta de poder preparar minha própria comida. Não acho a comida do hospital tão ruim como muitos dizem, mas devo admitir, meu chá é muito melhor que o café amargo que serviam.
Hinata sorriu, feliz em notar que Mikoto continuava tão radiante como sempre se lembrara.
— Não importa quantas vezes eu tente, nunca consigo fazer um chá como oseu.
— O segredo está no tempo. É o tempo de infusão é que tem que ser preciso. Mas não se preocupe, querida, eu mesma demorei anos para aperfeiçoar essa técnica.
Sasuke também se serviu um pouco da bebida, observando mais atentamente a cena a sua frente. Era agradável poder se sentar na cozinha e observar as expressões de Hinata enquanto conversava com Mikoto É claro que ela era bonita e inteligente – ele sabia disso há muito tempo. E mesmo tendo conhecido outras mulheres bonitas e inteligentes, havia algo em Hinata, algo no relacionamento deles, que o fizera afrouxar um pouco seu controle normalmente rígido desde o princípio. Era como se ele ficasse mais confortável ao lado dela – sim, devia ser essa a palavra adequada.
***
— Ah, preciso buscar Hanabi em meia hora — Hinata disse, olhando para o relógio pendurado na parede da cozinha.
Cerca de duas horas haviam se passado desde que Hinata chegara e a maior parte da conversa entre elas tinha sido sobre o festival de Konoha. Esse ano era o primeiro em que Mikoto deixara de ir ao centro da cidade para ajudar a organizar o evento que acontecia anualmente. Era um festival para fazer com que todos da cidade entrassem no clima do verão com comidas típicas, artesanatos, competições e um parque de diversões.
— Obrigada por vir — disse Mikoto, inclinando-se para dar um abraço inesperado.
— Eu gostei muito. Obrigada por me receber – Hinata respondeu, retribuindo o gesto.
Quando ela se virou para ir embora, Sasuke se aproximou, indicando que a levaria até a porta. Hinata passou a mão pelos cabelos, afastando algumas mexas soltas que haviam caído sobre o rosto. Ele a observou descer a escada para a estrada de cascalho e chegar até seu carro.
— Sabe, Mikoto sempre gostou do festival — disse Sasuke, casualmente — Eu não quero que ela precise perder o evento este ano, então estou pensando em ir com ela.
— Parece uma ótima ideia — concordou Hinata.
— Bem, no caso de você aparecer, é lá que eu vou estar.
Hinata sorriu, abrindo a porta do carro. E quando ela ligou o motor e deixou a entrada de cascalho, o mesmo sorriso ainda relutava em deixar seu rosto. Sasuke deu a volta e entrou em casa outra vez. No entanto, não havia se passado sequer um par de minutos quando o som da campainha voltou a ressoar nas paredes.
— Eu vou — avisou Sasuke prontamente a Mikoto.
Ele pensou que fosse Hinata, talvez voltando para pegar alguma coisa que deixou para trás. Talvez ela tivesse esquecido as chaves ou o celular, afinal quando eram crianças e passavam o dia inteiro brincando juntos, ela tinha o costume de levar brinquedos e depois esquece-los em sua casa. Com esse pensamento em mente, Sasuke alcançou rapidamente a porta de entrada, mas não era Hinata que o esperava do outro lado da batente.
— Sakura?
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