Only Ones Who Know
1 Prólogo
Notas iniciais
Ela estava com sua mãe no jardim. Não tinha certeza quantos anos tinha naquela lembrança. Seis? Sete talvez. Ela se lembrava apenas de alguns poucos detalhes. Lembrava que era primavera e, assim como nas demais primaveras, acompanhava a mãe na tarefa de podar as flores.
— Veja, Hina! – A mãe chamou docilmente a filha pelo apelido. –Estas são flores do campo. São muito bonitas, não acha?
— Sim! – Ela respondeu ao se aproximar da mãe com típicos olhinhos atentos e curiosos.
— Esta é minha flor preferida. – Explicou enquanto mostrava a menina uma Azaleia.
Ela se lembrava da flor. Lembrava-se de estar usando seu chapéu de laço lilás. Lembrava-se de estar com seu vestido favorito de veraneio: era branco, com estampas de rosas azuis que lhe caiam até os joelhos. Ela conseguia relembrar detalhes como aqueles e culpava-se por não conseguir se lembrar mais detalhadamente do rosto da mãe.
Nas recordações que ainda lhe restavam, o rosto da mãe não lhe era nítido. Era como se uma luz cobrisse suas feições, impossibilitando-a de enxergar com clareza o que estava bem a sua frente. A única coisa da qual se lembrava bem era de seu sorriso. Para Hinata, era a característica mais marcante do rosto, ainda jovial, da mãe. Era um sorriso terno e amigável.
Mesmo que o tempo a houvesse feito, gradativamente, não ser mais capaz de recordar-se da mãe, o amor que sentia por ela era um sentimento que sabia que jamais iria se apagar. Da mesma forma, pensava que jamais seria capaz de esquecer a dor e tristeza que sentiu quando a viu adoecer, não muito tempo depois daquela lembrança na primavera. Aquela havia sido a última primavera que sua mãe passara com ela.
***
A jovem de 26 anos abriu lentamente os olhos claros para encarar o teto branco. Ficou mais alguns minutos naquela mesma posição até se levantar. Eram oito e quatro. Hinata vivia consideravelmente distante do centro da cidade, e o horário no relógio significava que ela teria que apressar-se para chegar a tempo no trabalho.
Hinata Hyuuga havia se formado em administração há quatro anos e no ano seguinte ao de sua graduação ela abriu seu próprio negócio: uma simpática e bem elaborada floricultura. Os negócios iam bem e a freguesia aumentava ao passar de cada ano.
Sua cidade natal, Konoha, não era uma cidade grande. Pelo contrário, era uma cidade pacata, porém charmosa. Seus habitantes viviam bem, a maioria levava uma vida tranquila e mantinha uma boa condição econômica. Em suma, não havia muito do que reclamar. Claro, nem sempre havia sido dessa forma. As coisas começaram a mudar para melhor na cidade quando a família Uzumaki assumiu a gestão política administrativa da região. Agora, quem assumia o cargo como prefeito da cidade era o jovem, filho do ex-prefeito, Naruto Uzumaki.
—Naruto... – O nome saiu dos lábios rosados da jovem em um fio de voz. Foi um sussurro baixinho, quase imperceptível que se seguiu de um olhar triste e vago.
Decidida que não podia mais se deixar levar tão facilmente por seus pensamentos, Hinata fechou os olhos e sacudiu a cabeça. Quando abriu os olhos novamente, fitou a janela e viu o Sol brilhante em um céu azul quase sem nuvens. Em seguida, ela focou sua atenção em cumprir a rotina: tomou banho, vestiu-se com uma blusa delicada, uma saia com estampas florais claras e calçou sandálias de salto baixo. Penteou o cabelo, pegou uma maça na cozinha e por fim saiu de casa para entrar no Fiat500 e seguir seu caminho até o trabalho.
***
Sasuke Uchiha se inclinou para frente apoiando os cotovelos na barra da varanda enquanto observava a grande cidade a sua frente. Ainda era cedo, mas já começava a ver uma quantidade significativa de pessoas na rua. Era como se aquela cidade nunca dormisse e havia algo naquilo que ele detestava. Deu as costas para a paisagem matinal da cidade de Tóquio e entrou novamente em seu apartamento. O lugar era muito mais espaçoso em comparação a outros apartamentos da cidade e apesar de não ser muito decorado, ainda passava a impressão de sofisticação.
Enquanto caminhava até a porta, Sasuke pensava na ligação que recebera na noite anterior. “Precisa voltar o mais rápido possível. Ela precisa de você. ” A frase não tinha deixado seus pensamentos desde que desligou o telefone. Parou por um instante, no centro da sala de estar. Passou a mão pelos fios do cabelo cor de ébano. Os olhos ônix observavam seu reflexo no longo espelho da sala. Ele vestia o que sempre usava de mais casual em Tóquio: sarja e camisa social.
Aquela seria a primeira vez que o Uchiha voltaria para a cidade natal desde que decidiu mudar-se para a capital. Ele tinha feito uma escolha na qual pretendia deixar tudo para trás. No entanto, Sasuke era jovem e mesmo que na maior parte do tempo suas escolhas fossem puramente racionais, aquela decisão era uma das poucas que tinha tomado impulsivamente. Por causa disso, pensara, talvez fosse essa razão de ter passado muitas noites repensando a escolha que fizera.
Nas primeiras noites depois da mudança, ele não conseguia deixar de pensar nas coisas que poderiam ter acontecido se ele tivesse decidido continuar em Konoha. Nas coisas que, na verdade, ele queria que tivessem acontecido se ele tivesse optado por ficar. A rotina, porém, se encarregou de mantê-lo suficientemente ocupado com o trabalho e o tempo fez o que faz de melhor, passou rapidamente. Pouco a pouco ele começou a pensar cada vez menos no passado.
Sasuke voltou a caminhar em direção a porta, tentando pensar o mínimo possível no que poderia estar aguardando por ele em Konoha depois de tanto tempo longe e, sobretudo, no que podia significar aquele telefonema. Os raios de luz se estreitavam por entre os arranha céus lá fora. Ainda era cedo. A viagem demoraria em torno de seis horas e ele pretendia chegar em Konoha até o meio da tarde. Pegou seus óculos escuros, as chaves do carro, a mala e saiu do apartamento.
***
Milagrosamente, Hinata havia conseguido chegar pontualmente para abrir a loja. Ela notou que a freguesia do dia estivera um pouco mais agitada do que o habitual durante o período da manhã, mas o ritmo começara a desacelerar a medida que o horário de almoço se aproximava. Já se aproximava das 15:00 horas quando terminou de anotar o endereço para entrega de um buquê de rosas. Depois, Hinata separou alguns vasos e levou-os para a vitrine. Distraída enquanto cuidava das flores, ela nem sequer notou a chegada do homem que se aproximava e vinha chamando muita atenção consigo.
Ele, por sua vez, prestava muito atenção na Hyuuga. O cabelo dela era escuro, longo e azulado e caia deliberadamente por suas costas. Sua franja bem cortada lhe cobria a testa e parava onde os cílios volumosos começavam. Ela parecia...bem...ainda mais bonita do que se lembrava.
— Hinata Hyuuga, se não me falha a memória. – ele disse, com certo tom irônico na voz rouca, mas sem conseguir conter um sorriso.
Os olhos claros e redondos de Hinata, outrora distraída, se arregalaram ao ver a imagem do homem de ar imponente a sua frente. Ele parecia mais alto em comparação com a última vez que o vira, e não conseguiu deixar de notar que parecia mais forte também. Vê-lo ali a fez sentir algo que não soube bem explicar o que era, mas que não era algo... ruim. Imaginou que devia ser a euforia de sua aparição repentina.
— Sasuke! – Ela abriu um largo sorriso após pronunciar o nome dele. Seu típico sorriso gentil.
Ele se lembrava daquele sorriso.
— Eu... eu não imaginei que te veria novamente em Konoha. – Continuou ela, buscando palavras que fizessem sentido em meio a sua surpresa.
— E eu não imaginei que te encontraria numa floricultura, Hyuuga.
Hinata corou um pouco. Ela sempre corava quando estava tímida ou incomodada com alguma situação. Seus lábios bem desenhados formaram um pequeno sorriso enquanto seus olhos encararam o chão.
— Bem, algumas coisas mudaram desde que você se foi, Sasuke.
Ele não entendeu ao certo o que ela quis dizer com isso, mas foi o suficiente para deixa-lo intrigado. “Coisas? ” Que coisas? Pensou.
— O que te fez voltar? Já faz oito anos. – Ela disse, desta vez, levantando o olhar.
“Oito anos.” Sasuke repetiu em pensamentos. Lá estava ele parado no meio fio a poucos centímetros de Hinata e ele podia jurar que naquele exato momento não parecia que todo aquele tempo já havia passado e que há oito anos ele havia se mudado para Tóquio. Era como se ela o tivesse feito voltar no tempo e aquela sensação o estava fazendo pensar naquele lance de segunda chance que você ouve falar em alguns filmes. A segunda chance alegórica que a vida oferece, depois de ter feito as escolhas erradas e que, se você estiver realmente disposto, tem a chance de mudar. De fazer a coisa funcionar. De fazer dar certo.
Sasuke fechou os olhos por um breve segundo e um sorriso de lado quase imperceptível se formou em seu rosto viril, sem conseguir evitar se achar um idiota por causa dos próprios pensamentos. Hinata ainda o encarava, confusa, sem entender o motivo por trás daquele sorriso familiarmente misterioso.
Antes que o Uchiha respondesse sua pergunta, porém, as feições em seus rosto mudaram por completo. O sorriso desapareceu e seus olhos escuros passavam uma impressão de seriedade e, ao mesmo tempo, pareciam conter também certa aflição.
— Mikoto. – Disse em um fio de voz, de forma que apenas ela compreendesse.
— Mikoto? – Ela se viu ainda mais confusa. – A... aconteceu algo?
— Recebi uma ligação ontem do meu pai e sei que não ligaria se não fosse grave. Pedi que me dissesse o que estava acontecendo, mas a única coisa que ele fez foi me dizer para vir o mais rápido possível.
Hinata levou instantaneamente uma das mãos até a boca. Sasuke a examinou por um breve instante e sentiu que devia lhe contar a respeito do que sabia, mesmo que não fosse muito. Ela se importava com Mikoto tanto quanto ele.
— Ela está internada no Hospital Central de Konoha. Na verdade, estava a caminho do hospital quando vi a loja de flores e pensei em levar um buquê para visitá-la.
— Sasuke, se não se importar... posso ir com você até o hospital visita-la também?
Ela o encarava como se dissesse “por favor."
— Claro. – Ele assentiu quase automaticamente.
Para a surpresa de Sasuke, Hinata virou-se rapidamente, tirando o avental que usava e adentrando a loja. Ele a observou enquanto ela pegava um dos arranjos de orquídeas que a loja dispunha. Depois, a viu dirigir-se até o balcão e pegar uma placa de avisos e escrever algo nela. Ao terminar de escrever na placa, Hinata se aproximou de Sasuke e lhe entregou as orquídeas. Em seguida, voltou até a porta do estabelecimento para pendurar a placa que dizia: Por motivos pessoais a loja fechará mais cedo hoje. Peço desculpas pelo transtorno. Tenham um bom dia
Sasuke se inclinou e devolveu-lhe as flores.
— Então, podemos ir?
Hinata acentiu.
— Uhum.
A mão de Sasuke foi ao encontro das costas de Hinata, guiando-a em direção ao seu carro que estava estacionado do outro lado da calçada. Quando atravessaram a rua e chegaram até a BMW esportiva preta, Sasuke abriu a porta do lado do passageiro para Hinata passar. Em seguida, deu a volta no carro e sentou-se ao volante. Com o som quase imperceptível do motor, Sasuke deu partida e os dois seguiram pela avenida principal de Konoha em direção ao hospital.
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