Only Ones Who Know

2 The moment I saw you


Notas iniciais
Este capítulo será um flash back. Desejo a todos* uma boa leitura! *Qualquer alma futura que por ventura venha a encontrar esta fanfic.

Sasuke nasceu em uma família extremamente prestigiada de Konoha. Há décadas a corporação de sua família, a Uchiha’s Co., era uma das empresas mais bem-sucedidas da região por seu importante centro de inovações em pesquisas e tecnologias avançadas. O pequeno Uchiha, de oito anos, amava sua família e apreciava todos os raros dias de folga que seu pai, Fugaku Uchiha, tirava para poder passar o dia com ele, a mãe Mikoto e o irmão mais velho, Itachi.

Itachi era sete anos mais velho em relação a Sasuke que, por sua vez, queria ser exatamente como o irmão um dia. O primogênito se saia bem nos esportes, era extremamente inteligente e ainda era reconhecido com mérito na escola de elite em que estudavam. Além disso, em casa, estava sempre disposto a participar das brincadeiras do irmão mais novo — mesmo que isso significasse ter que ficar correndo atrás dele por horas ou precisar explicar repetidamente como montar o Lego da maneira correta. Apesar de ser chamado de “prodígio” por muitos, Itachi nunca demonstrou sequer chegar perto de ser uma pessoa mesquinha.

Aonde quer que Itachi fosse, Sasuke procurava uma maneira de ir atrás. Quase nunca, um era visto sem a companhia do outro. Era indubitável que Sasuke admirava o irmão. Na escola, o Uchiha mais novo também se empenhava para manter um bom rendimento. Ao final de cada período escolar, ele mal conseguia esconder a ansiedade para comparar suas notas com as de Itachi que, mesmo estando no ensino médio, ainda ultrapassava as notas do caçula por alguns pontos.

O propósito de Sasuke nunca fora tornar-se o centro das atenções por aquilo. Para ele, a pequena competição que criara com irmão era quase como um jogo, cujo objetivo era poder alcançar os mesmos feitos de Itachi e, assim, poder ganhar o reconhecimento do mesmo. No entanto, o caçula dos Uchiha era mais bonito em comparação a outros meninos de sua idade, e seu rendimento escolar também fazia com que se destacasse em relação aos demais. Mesmo novo, Sasuke era o que se pode chamar de “popular”. As meninas do colégio viviam suspirando e dando risadinhas estridentes quando o viam e os garotos queriam que ele fosse seu amigo.

Durante o terceiro ano do ensino fundamental, a escola em que Sasuke estudava havia prolongado as férias devido ao frio causado pelo inverno que tempos depois seria considerado um dos invernos mais rigorosos da história de Konoha. Foi durante um desses dias de inverno que Fugaku pediu que os filhos o acompanhassem até o trabalho. Sasuke não visitava a Uchiha’s Co. com muita frequência quando era mais novo, mas esse dia em especial acabou tornando-se muito memorável para ele. Um dia que ele voltaria a relembrar diversas vezes.

Fugaku tinha explicado aos filhos que teria apenas uma reunião naquele dia e que depois havia alguém que ele queria que Itachi e Sasuke conhecessem. A reunião que havia sido marcada naquele dia era com o chefe da H.C. Softwares: Hiashi Hyuuga. A H.C. Softwares era uma empresa tão renomada quanto a corporação Uchiha e ambas trabalhavam em parceria há longa data. Infelizmente, aquele inverno aparentou trazer consigo não somente o rigoroso frio, como também uma dolorosa perda para o patriarca da família Hyuuga. Sua esposa havia falecido após dar à luz a segunda filha do casal.

No dia do funeral, Fugaku e Mikoto foram prestar suas condolências a Hiashi e não hesitaram em oferecer qualquer tipo de apoio que ele pudesse vir a precisar. Afinal, Hiashi não havia apenas acabado de perder sua esposa, como também tinha duas filhas pequenas que estavam sendo cuidadas por babás em tempo integral para que o pai pudesse continuar gerenciando os negócios da família.

Contudo, Fugaku sabia que a educação de Hiashi não lhe permitiria sair aceitando livremente as ofertas de ajuda que vinha recebendo desde o funeral. Ele conhecia Hiashi há tempo suficiente para saber que era preciso mais do que palavras de empatia para fazer com que o amigo aceitasse definitivamente a ajuda de alguém. Frases como: “Lamentamos muito por sua perda” ou “Caso precise de algo, basta nos procurar” não significavam absolutamente nada para ele naquele momento. Quantas daquelas pessoas podiam afirmar que realmente sabiam pelo que ele estava passando?

Fugaku reconhecia que o amigo precisava mais do que palavras naquele momento. Seria preciso também demonstrar por meio de ações que Hiashi poderia contar com seu apoio e com o de sua família. Com isso em mente, ele sugeriu que Hiashi trouxesse consigo sua filha mais velha, Hinata Hyuuga, para a próxima reunião que teriam. Assim, talvez, se Hinata e seus filhos se conhecessem, eles poderiam passar mais tempo juntos. Isso lhe soava consideravelmente melhor do que deixar uma criança apenas sob os cuidados da babá. Sobretudo depois de ter sofrido tamanha perda, ainda tão cedo. Hiashi não tardou a perceber o que o amigo estava tentando fazer por ele e, eventualmente, acabou concordando com a ideia.

***

Era um entardecer breve, e o vento que cortava a copa das árvores vinha carregando o frio da estação. Na noite que fora marcada a reunião dentre as duas corporativas, porém, os dois homens de negócios não tardaram a encerrar a pauta de discussões burocráticas. Mais cedo naquele mesmo dia, o Hyuuga pedira a babá que o acompanhasse junto com a filha mais velha ao prédio da Uchiha’s Co., em que ele e Fugaku costumeiramente sediavam as reuniões de negócios. Consultando o relógio de pulso, imaginou se a filha já o aguardava ao lado de fora da sala.

Quando os demais assessores partiram, Fugaku e Hiashi se dirigiram ao hall da empresa. Em uma sala reservada, os irmãos Uchiha conversavam e esperavam educadamente pelo pai, como assim lhes fora instruído. Havia-se passado pouco mais de uma hora desde que Fugaku saíra para comparecer à reunião e, agora, voltava para reencontrar-se com os filhos, desta vez acompanhado pela figura blasé de Hiashi Hyuuga.

— Itachi. Sasuke. Quero lhes apresentar o Sr. Hiashi Hyuuga, chefe da H.C. Softwares.

O olhar sagaz de Hiashi recaiu sob os dois irmãos enquanto um sorriso sutil se formava em seu rosto.

— É um prazer finalmente conhecê-los, meninos. O pai de vocês fala muito bem dos dois, com certeza tem muito orgulho de ambos.

— Obrigado, senhor. – Os irmãos responderam quase simultaneamente.

— Bem, e onde está a minha convidada? – Questionou o patriarca do clã Uchiha enquanto desviava o olhar dos filhos para o amigo de negócios.

— Peço desculpas, Fugaku. Quando estávamos entrando no prédio, ela insistiu que a babá a acompanhasse até o...

Fugaku interrompeu-o colocando a mão sob o obro do amigo.

— Eu imagino o quão difícil isto deve estar sendo.

Os olhos claros do Hyuuga pareceram distantes por um momento, como se instantaneamente seus pensamentos o tivessem levado para longe. Mas aquele estado momentâneo de transe não durou muito e prontamente ele limpou a garganta.

—Ela deve estar no parque agora, vou pedir para que a babá a traga.

— Não se preocupe com isso, não será necessário.

Hiashi juntou as sobrancelhas como se não tivesse entendido o que Fugaku tinha acabado de dizer, fazendo com que ele se explicasse.

— Por que não vamos até ela?

***

Ao se agasalharem, os três Uchiha e o Hyuuga saíram do prédio da Uchiha’s Co. e foram caminhando até o vasto e bonito parque que se localizava a poucos metros da empresa. O parque não era muito visitado naquela época do ano. Por ser inverno, as pessoas preferiam passar o tempo bem aquecidas e, de preferência, em lugares fechados. A iluminação do parque se dava por postes antigos que se encarregavam de deixar o lugar mais aconchegante. O lago estava completamente congelado e a neve fina caía lentamente pelo local, cobrindo vagarosamente as árvores, folhas e arbustos.

Enquanto passava por entre as árvores, os olhos do menor dos Uchiha avistaram o que, inicialmente, pensou ser uma fada. Sua mãe, uma vez, tinha lido para ele a história de uma fada que era a encarregada de cuidar de um bosque encantado. Sasuke lembrou-se da imagem que ilustrava o livro: era uma criatura muito pequenina, mas também muito bonita. Ele achou a menina que estava à sua frente – distraída, observando o lago congelado — tão bonita quanto uma fada.

A fada deixou de olhar para o lago e se virou ao encontro dos olhos do menino que a observava boquiaberto. Estava frio. Os olhos ônix se encontraram com um par de olhos perolados. Eram redondos e se destacavam, mas suas bordas estavam vermelhas. Por um momento, Sasuke tinha se esquecido dos demais que vinham o acompanhando logo atrás e só depois reparou na babá que acompanhava a menina.

Fugaku se aproximou de Sasuke e depois se abaixou ao seu lado, ficando de sua altura.

— Sasuke, quero que conheça Hinata. Ela é filha do Sr. Hyuuga.

O menino quis se aproximar dela. Seus cabelos curtos e escuros como a noite emolduravam o rosto infantil e iam até seus pequeninos ombros. Mesmo estando vestida com um sobretudo, ainda era possível notar sua estrutura pequenina. Sasuke esticou a mão enluvada com menção de cumprimentá-la, mas ela apenas corou e rapidamente correu até o pai para esconder-se atrás dele. Sasuke a achou ainda mais parecida com uma fada.

Notando a timidez da menina, Fugaku procurou uma forma de fazer com que ela se comunicasse.

— Hinata, o que acha de nos visitar amanhã? Você pode passar a tarde brincando com Sasuke. Vocês têm a mesma idade. Tenho certeza que Mikoto vai ficar feliz em recebê-la também.

Ela olhou para a figura paterna que assentiu em aprovação. Sem esperar a repentina empolgação de Itachi, Hinata se sobressaltou um pouco ao escutar o garoto se pronunciar pela primeira vez desde que chegaram ao parque.

— Legal, Hina! Que tal aparecer por lá amanhã de manhã?

A menina arregalou levemente os olhos e em seguida se desvencilhou um pouco do pai. Hinata mostrou um pequeno e tímido sorriso na direção do primogênito dos Uchiha, mesmo sem conseguir olhá-lo diretamente nos olhos. Sasuke sentiu uma sensação estranha no peito. Como se de repente não tivesse espaço para mais nada ali. Foi algo sutil, quase imperceptível, mas ele notou, porque fora a primeira vez que sentiu aquela sensação estranha em toda sua curta existência. E ele não soube definir o que era.

***

Na manhã seguinte, Sasuke acordou mais entusiasmado do que o normal. Passara a noite anterior pensando na fada que viria brincar com ele. Ele se vestiu e foi correndo até a cozinha, sabia que a mãe e o irmão mais velho já tomavam o café da manhã.

— Bom dia, querido. – A mãe o cumprimentou com um sorriso, colocando duas torradas no prato de Sasuke.

— Bom dia, Sasuke. – Disse Itachi.

— Bom dia. – Respondeu evidentemente alegre.

Mikoto, conhecendo muito bem o filho, logo presumiu que a alegria do menino se devia à visita que deveria chegar dali a poucos instantes.

— Sasuke, você gostou de conhecer sua nova amiga ontem?

— Sim! Ela se parece muito com a fada da história, mãe. – Falou se juntando a mesa.

Itachi e Mikoto trocaram olhares e não conseguiram conter as risadas diante da sinceridade do menino.

— Uma fada, é? – Instigou Itachi, procurando entender o sentido por trás da afirmação do irmão mais novo.

— Você a viu. Ela é pequena e...

— E?

Sem perceber, Sasuke tinha parado de passar manteiga em sua torrada, a mão ainda ligeiramente levantada no ar. Por um momento ele pensou na palavra que tivera quase escapulido: “linda”. Pela primeira vez desde que conhecera Hinata, Sasuke Uchiha percebeu que era infinitamente mais constrangedor dizer essa palavra em voz alta do que só tê-la em pensamento.

— E, bem, é isso que fadas são, não é? Pequenas.

***

A campainha tocou alguns minutos depois da família Uchiha terminar de tomar o café da manhã. Sasuke, que estava no andar de cima escovando os dentes, desceu a escada correndo para abrir a porta. Itachi seguiu o irmão até a porta, mas este demonstrava estar evidentemente menos ansioso. A porta se abriu revelando a menina dos olhos perolados. Um sorriso imediato formou-se no rosto infantil de Sasuke. Mikoto apareceu logo em seguida para cumprimentar a menina que vinha acompanhada pelo pai.

— Bom dia, Mikoto. Fugaku disse que podia trazer Hinata neste horário. Espero não estar incomodando. – Disse Hiashi.

— Não é nenhum incômodo. As crianças podem brincar o quanto quiserem enquanto preparo o almoço. – Mikoto respondeu sincera.

Hiashi então soltou a mão da filha e virou-se em sua direção para se despedir.

— Hinata, comporte-se e não cause problemas. No final do dia volto para te buscar, tudo bem?

— Sim, papai. – Respondeu.

Mikoto segurou a pequena mão de Hinata e em seguida acenou em despedida para Hiashi. Ela guiou a menina para a sala e fechou a porta atrás de si. Depois, olhou para Hinata esboçando um sorriso terno.

— Oi, Hinata. Me chamo Mikoto, sou a mãe do Itachi e do Sasuke. O que vocês três acham de irem brincar na neve enquanto eu preparo um chocolate quente para vocês beberem?

Hinata ainda não tinha dito nada, mas ainda continuava a segurar a mão de Mikoto. Foi então que seus olhos claros se voltaram para Itachi e, por fim, para Sasuke.

Itachi deu um passo à frente, esticando a mão para Hinata.

— Quer brincar lá fora, Hina?

Hinata segurou a mão do Uchiha mais velho e assentiu de leve um “sim” com a cabeça. Com a outra mão livre, Itachi fez um sinal para que o irmão mais novo o seguisse e os três foram até o quintal.

***

— Itachi, podemos brincar de pique-esconde? – Perguntou Sasuke.

Itachi sabia que aquela era a brincadeira favorita do irmão.

— Certo. Então eu conto e vocês se escondem.

As duas crianças mais novas logo correram procurando por esconderijos quando o mais velho cobriu os olhos e começou a contar. Hinata não conhecia o local, então preferiu ficar atrás do primeiro arbusto que encontrou. Mesmo sendo inverno, o arbusto ainda relutava em manter algumas pequenas flores em seus ramos e, ao observá-las, uma imagem da mãe apareceu instantaneamente na mente de Hinata. Sem conseguir evitar, algumas lágrimas se formaram no canto de seus olhos.

— Você está triste?

A menina se virou surpresa na direção daquela voz, pois não tinha percebido o momento em que Sasuke tinha se aproximado.

— Você não precisa ficar triste, Hina. Tá tudo bem. E você não tá sozinha, eu estou aqui... somos amigos, não somos?

Hinata não sabia dizer o momento em que havia parado de chorar, mas escutou cada palavra que o menino tinha acabado de dizer e que surpreendentemente tinham feito com que ela se acalmasse.

— Somos a...amigos, Sa...Sasuke?

Sasuke observou Hinata pronunciar seu nome pela primeira vez com as bochechas rosadas.

— É. Somos.

Os dois continuaram ali, escondidos, atrás do pequeno arbusto e das flores que resistiam ao frio congelante do inverno. Não demorou muito, no entanto, para o Uchiha mais velho os encontrasse. Os três continuaram brincando, aproveitando o melhor que a estação podia oferecer para construir fortes na neve, arremessar bolas, fazer anjos e até mesmo montaram um pequeno boneco que Itachi carinhosamente apelidou de Bob.

Com a ponta dos dedos, Hinata acabava de adicionar um singelo sorriso no rosto redondo e frio o de Bob, quando a voz de Mikoto ecoou pelo quintal.

— Crianças, o chocolate está pronto.

Itachi, Sasuke e Hinata adentraram a casa novamente, mas, desta vez, quem segurava a mão de Hinata era Sasuke.

***

Mais tarde naquele dia, depois de já terem terminado de tomar seu chocolate quente, Sasuke perguntou a Hinata se ela queria assistir um dos filmes que tinham. Hinata, que adorava filmes no geral, prontamente, escolheu O Rei Leão para assistirem. Itachi preferiu ficar escutando música então subiu para seu quarto após colocar a animação da Disney na televisão para as duas crianças assistirem.

Ao se passarem trinta minutos de estranha tranquilidade pairando na casa, a sra. Uchiha foi até a sala em que Sasuke e Hinata estavam para averiguar o motivo por trás do repentino silêncio. Ela abriu ligeiramente a porta e viu os dois dormindo no sofá ainda de mãos dadas. Mikoto parou por um instante, observando feliz o resultado de uma tarde bem aproveitada ao ar livre. Ela se aproximou, os cobriu com a coberta que haviam deixado cair no chão, desligou a televisão e depois saiu, fechando a porta atrás de si e deixando as duas crianças aproveitarem o melhor que a imaginação dos sonhos pode oferecer.

***

A frente fria fora de época permaneceu constante, assim como a amizade de Sasuke e Hinata. Entrando em uma rotina, eles passaram quase todas as tardes daquele inverno brincando juntos. Hiashi continuou a levar Hinata para a casa dos Uchiha e a buscá-la depois do trabalho. Mikoto fazia questão que Hinata almoçasse e jantasse com eles. Ela realmente tinha se afeiçoado à menina como a filha que nunca tivera e passava parte daquelas tardes ensinando-a simples receitas de sobremesas ou fazendo penteados femininos com laços e tranças.

Sasuke não parecia se importar pela atenção que a mãe dava a amiga, pelo contrário, parecia cada vez mais feliz com a companhia diária de Hinata e ansiava por tudo que faziam juntos. Itachi também pareceu gostar de finalmente ver seu irmãozinho brincando e se divertindo com alguém da mesma idade. Além de um certo menino loiro com uma voz que conseguia ser surpreendentemente alta, Itachi não se lembrava de mais nenhum amigo que Sasuke já tivesse levado para brincar em sua casa.

Quando a noite se aproximava e a energia de ambos estava quase esgotada depois de horas correndo no quintal, era comum encontrar Sasuke e Hinata em algum cômodo da casa assistindo desenhos ou apenas jogando jogos de tabuleiro. Naquela noite, Hinata estava sentada no carpete do quarto de Sasuke enquanto jogavam “Cara a Cara”, um dos jogos favoritos dela. Não faltava muito para que aquela rodada acabasse, Hinata achava que com mais duas ou três perguntas conseguiria ganhar o jogo. Estava prestes a perguntar se o personagem que Sasuke escolhera usava óculos quando, repentinamente, ele se levantou de um pulo.

— Ei Hina, olhe! – Sasuke exclamou com um timbre de empolgação na voz enquanto apontava para a janela atrás dela.

Ela semicerrou os olhos, estreitando a visão, procurando encontrar o que quer que fosse que o amigo apontava, mas não viu nada.

— O quê?

— A neve parou de cair.

Por um segundo Hinata ficou feliz. O inverno nem de longe era sua estação predileta. Ela preferia poder nadar em águas refrescantes, e sentar na varanda enquanto comia fatias de melancia e sentir o Sol tocar a sua pele. Antes que pudesse comentar sobre qualquer uma dessas coisas, porém, ela sentiu a mão de Sasuke segurar a sua e guia-la até a janela.

O amigo abriu a janela e, no momento seguinte, ele já estava do outro lado, sentado diligentemente sob o telhado perto do parapeito da janela. Ele virou e olhou para Hinata com um sorriso, esticando a mão para ajudá-la a sentar-se ao seu lado. O primeiro instinto dela foi querer recusar e dizer para que ele entrasse novamente em casa antes que Mikoto o visse, mas de algum modo, Sasuke já parecia acostumado com aquilo.

De fato, desde muito cedo, o Uchiha mais novo demonstrou ter um interesse acurado a tudo que se relacionava ao espaço. Antes mesmo que fosse capaz de perceber, olhar para as estrelas tinha se tornado uma espécie de hobby para ele. Em noites como aquela, Sasuke sentia que poderia passar horas sentado apenas observando o céu noturno. E foi exatamente isso que fizeram: Hinata se juntou a ele — ainda perto da janela do quarto de Sasuke — e os dois observavam o céu estrelado.

Até aquele momento, ela não tinha percebido como o céu das noites de inverno era incrivelmente mais brilhante. As estrelas cintilavam e a claridade refletia em seus olhos claros.

— Você consegue ver aquele ponto vermelho e aquele azul? Bem ali.

Hinata olhou para o espaço que o amigo sinalava e balançou a cabeça concordando, encantada com os dois pontos extremamente brilhosos que contrastavam a imensidão escura.

— Elas fazem parte constelação de Orion.

— Orion? – Ela repetiu devagar. Era a primeira vez que ouvira essa palavra.

— É. A vermelha é a Betelgeuse. E aquela mais azulada é a Rígel. São supergigantes, por isso são mais brilhantes. Então é mais fácil achar a constelação de Orion se você conhecer essas estrelas.

Os dois continuaram ali, parados, quase imóveis, sob a imensidão de feixes prateados que cintilavam. Hinata estava surpresa e ao mesmo tempo encantada. Mesmo se tentasse explicar, ela não conseguiria definir com palavras aquela estranha junção de sentimentos que lhe ocorria. Talvez fosse a forma como Sasuke lhe contava coisas que nunca tinha ouvido falar antes, ou talvez fosse somente a maneira como o amigo parecia verdadeiramente animado ao falar sobre aquele assunto.

Ela ainda não sabia, mas voltaria a se lembrar dessa noite, e das estrelas, e das diversas outras constelações que até então não conhecia, quase todas as vezes que voltasse a olhar para o céu noturno. De uma coisa, porém, Hinata estava certa. Sasuke a deixava feliz da maneira mais simples e nos momentos menos esperados.

***

— Desculpe o atraso. Acabei ficando na empresa mais tempo do que pretendia.

Hiashi parecia um pouco desajeitado enquanto tentava segurar uma mochila lilás em um dos braços e a filha no outro. Hinata ainda não estava dormido completamente, mas de fato estava mais cansada do que o normal, então preferiu continuar com os olhos fechados enquanto o pai a segurava.

— Eu entendo perfeitamente – comentou Fugaku em meio a uma risada abafada — De qualquer maneira, é bom ver que ela e o Sasuke estão se tornando bons amigos.

Hiashi assentiu. Ele estava grato a Fugaku e a tudo que sua família tinha feito por ele, mas o mais importante para Hiashi foi poder ver Hinata ser capaz de sorrir de novo. Era o mesmo sorriso da mãe.

— Bem, obrigado mais uma vez por deixa-la passar o dia aqui.

— Não se preocupe com isso – disse enquanto via Hiashi se afastar em direção ao carro e ajeitar cuidadosamente a filha no banco de trás — Nos vemos na terça então, temos a reunião com a empresa de Dubai.

— Claro. Não me esqueci disso.

Hiashi entrou no carro e em seguida se despediu do amigo com um breve aceno. A medida que o carro ganhava velocidade, a casa dos Uchiha ficava cada vez menor no reflexo do espelho retrovisor. A neve começava a derreter. À medida que os dias se passavam e se transformavam em semanas, as férias prolongadas chegavam ao fim. Em breve, tudo voltaria à mesma rotina de antes e Hinata precisaria voltar para o seu terceiro ano do fundamental na escola em que estudava. Um internato só para meninas em uma das partes mais afastadas da cidade.