Only Dreamers
4 Muttations – Cato
Notas iniciais
Dois dias andando não adiantaram para nada. Agora que o grand finale está próximo, eles vão querer nos agrupar para a luta. Isso acontece todos os anos, e na maioria das vezes é na Cornucópia. Mas parece que nessa edição não vai ser. Estou passando por uma área da floresta desconhecida, com árvores mais escuras e com sombras mais alongadas. O chão tem pouca grama, e está tudo um lodo, resultado da chuva de ontem. Minha aliança Carreirista não achou ninguém por aqui, então as coisas estavam muito mais fáceis na Cornucópia, onde era só praticamente esperar os tributos para matar. Está frio e eu só tenho um casaco e uma armadura que estava na mochila. Ela é dourada e parece a que usei no desfile. Ou seja, patética.
Inclusive eu matei Thresh, vingança era o meu principal objetivo. E eu consegui, é claro que consegui. Por ela. Matei ele com uma pedra, exatamente como ele fez com a Clove. Nós poderíamos ter vencido juntos. Não estaria sozinho. Mas isso é o que acontece na arena, e ela foi estúpida por ter se voluntariado justo nesse ano e mais ainda por me convencer a deixa-la ir no ágape.
O tempo parece passar mais rápido, os Idealizadores dos Jogos estão controlando tudo, a noite chega em um minuto. Não teria como não perceber que estamos perto. Katniss e Peeta devem se encontrar longe de Cornucópia, provavelmente de mãozinhas dadas. Começo a correr, com a esperança de eles me ouvirem. Um pássaro passa perto do meu rosto e eu fico temporariamente desconcentrado. E então um rosnado é ouvido, o bicho está longe, mas eu continuo correndo. Mais bestantes não é o que eu preciso. Avanço em zigue-zague, esperando que eles me percam, mas como são controlados mentalmente pelos Idealizadores isso é inútil. Um grupo de cinco bestantes aparece à minha esquerda, me fazendo dar um giro. Eles querem me levar para a Cornucópia. E é para lá que eu vou.
Em algum tempo estou lá. Os bestantes – que agora eu sei que são lobos – se aproximam cada vez mais, porém não me alcançam. Eu subo na Cornucópia. Katniss e Peeta chegam da floresta em pouco tempo. Pego a minha espada e dou um golpe no Peeta, quando ele ainda está subindo. Até que é fácil. Ele não está totalmente curado da perna. Jogo-o na superfície fria da Cornucópia e vou para Katniss. Coloco a sua cabeça perto dos bestantes que tentam arrancá-la, ela é fraca e não consegue se esquivar. Um deles consegue pegar alguns fios de cabelo dela, mas não mais que isso, o Peeta acha um jeito de chegar até mim e me empurrar. Péssima ideia. Eu o prendo com um movimento de braço que aprendi no Centro de Treinamento quando tinha oito anos. Katniss pega o arco que ficou no chão. Aponta a flecha para mim. Eu? Morto? É a primeira vez que penso nisso.
– Vá em frente, atire – digo com desgosto. – Nós dois morremos e você vence – o braço de Katniss treme. – Estou morto de qualquer maneira! Eu sempre estive, não é?
Franzo o rosto. Há muito sangue escorrendo no meu queixo, a maioria já está coagulado, e isso se tornou um incômodo. Mexo a cabeça, meio que engolindo em seco. Não quero dizer isso ao vivo para toda a Panem.
– E eu só percebi agora – olho para os lados, tentando encontrar uma câmera – Não é isso o que vocês querem, hein? – Katniss aponta a flecha para a minha cabeça, agora ela parece estar convicta. – Hãã! Não! Eu ainda posso fazer isso. Só mais uma morte – sorrio. – É a única coisa que eu sei fazer. Trazer orgulho ao meu distrito. Não que isso importe.
Olho para o Peeta. Vai morrer de asfixia, então eu preciso fazer alguma coisa para a morte ser mais dolorosa. Mas no momento seguinte a flecha voa para a minha mão e eu o solto. Ele me chuta bem no meu pior hematoma repleto de sangue e eu caio. Dou um berro, o que só piora as coisas, as pessoas vão achar que eu sou fraco como Katniss. Me choco no chão, no mesmo lugar onde a Clove morreu. Pelo menos isso, nós vamos ficar juntos agora. Será? Os bestantes olham para mim e correm para me despedaçar. Não tenho muito como me proteger. Nas primeiras três mordidas, a armadura me protege. Mas depois um cai sobre mim e arranca o meu braço.
Fui treinado durante mais de dez anos para ignorar a dor, mas parece que isso não adiantou nada. O meu osso se parte e se separa do resto do meu corpo e eu nem tenho muito tempo para gritar novamente antes que o outro bicho morda o meu ombro, os dentes penetrando a carne profundamente. Mais outras sessões de horrores se seguem, e eu finalmente consigo gritar, mas não é um grito de dor.
– Por favor! – o quê?
Katniss pega a última flecha da sua aljava. Eu desvio o olhar. Um bestante me pisoteia, trazendo muito mais dor. Sinto a flecha. E então não vejo mais nada.
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