Only Dreamers
9 Double Suicide? – Foxface
Notas iniciais
Quando eu comi aquelas amoras pensei que seria uma válvula de escape. Mas isso só trouxe coisas ruins para mim. Penso em ir novamente para a sala de estar para dar uma olhada naquele computador gigante. Eu posso extrair informações de lá e descobrir por que estamos aqui, e o que fazer. Quando olho pela janela, percebo que o tempo passa realmente muito mais rápido que o normal aqui. Em menos de três horas, um dia já se passou, e agora posso ver as estrelas.
Abro a minha mochila e estou a pegar o notebook que trouxe de casa quando ouço uma sequência de gritos. Parecem desesperados, e então me levanto, empurrando o notebook de lado.
Os gritos vão aumentando tanto na altura quanto na intensidade. Algo deve estar acontecendo de muito horrível lá. Mas não abro a porta, apenas encosto a cabeça na madeira para ver se consigo ouvir direito o que estão gritando. Na verdade, eu ainda estou tentando captar tudo, porém a porta se abre em um estrondo, machucando a minha cabeça. Rue, a garota do 11, entra e bate a porta.
– Estão nos atacando! – ela grita, e eu me abaixo para ouvi-la melhor. – Eles estão lá na sala, é como se fossem clonagens de nós. Mas eles tem tatuagens sinistras e...
– Espera, eu não consigo entender. Se acalma.
– Tudo bem. A questão é que houve uma invasão! São vinte e duas pessoas que entraram na nossa casa, só que elas são iguais a nós!
– Não tenta inventar uma coisa que não existe, Rue – digo, sentando-a na cama. – E não se preocupa, nós não podemos morrer aqui. Eles vão acabar com eles muito rápido!
– Você não entendeu, eles estão atacando os tributos que os mataram. Por exemplo, a minha clonagem está atacando o Marvel.
– E a minha?
– Finch, quem te matou?
– As amoras! Eu me suicidei!
– O QUÊ? – Rue grita com uma expressão até engraçada. Ela sai correndo e tranca a porta do quarto, com a chave que já estava encaixada na fechadura. Mas antes de ela ter tempo de voltar para a cama, eu ouço um barulho horrível de arrombamento e a porta cai para a frente como se fosse uma folha de papel. Há uma garota na fronteira entre o corredor e o quarto, ela está a poucos metros de mim. Tem feições e uma fisionomia que me lembram vagamente uma raposa. Sou eu.
E ela tem uma tatuagem com uma espécie de pássaro ao lado do olho esquerdo, entre o olho e a ponta superior da orelha. Está toda suja, e com a boca manchada de roxo, que é o roxo que a minha boca ficou quando eu morri, quando comi as amoras.
– Você me matou! – ela grita, com a mesma voz que eu tenho, e uma lágrima desce por uma das suas bochechas. Então ela avança correndo e me dá um soco. Ao contrário do que eu pensava que ia acontecer, o soco doeu – e muito –, me deixando temporariamente desorientada. Tento imobilizar a “Finch 2”, que está com os olhos inchados de raiva, exatamente como eu fiquei quando soube que não tinha mais chance e que tinha que me matar.
– Não! – grita Rue, quando “Finch 2” saca a lâmina de faca que me protegeu na arena.
Pense, Finch!, ordeno à mim mesma em pensamento. Você sabe o que fazer.
Mas não há muito o que fazer. Eu não posso vencer eu mesma. Então meus olhos se voltam para Rue. Ela pode.
– Hey – jogo para Rue um pedaço pequeno da porta que estava no chão. – Acerte-a.
Desvio de um golpe com a lâmina da “Finch 2”. Corro para longe, e fico bem perto da porta. Depois salto para cima da minha cômoda, quase caindo. Por último, passo por cima da “Finch 2” e aterrisso no chão perfeitamente bem.
– Vamos, Rue!
Rolo para o lado quando a lâmina abaixa na minha direção, mas acho que não vou durar tanto tempo se Rue não matar a “Finch 2”. Nem sei o que vai acontecer se eu morrer uma segunda vez, talvez os mortos podem ter um poder de regeneração.
– Eu não consigo – afirma Rue.
– Ah, dá isso para mim – peço, praticamente arrancando o objeto da mão dela. Jogo a madeira na cabeça da “Finch 2”, mas ela desvia. Deslizo abaixada e passo por ela, recuperando a madeira e golpeando a perna dela com o máximo de força que consigo. Ela grita por um tempo, mas logo de recupera e me chuta perto das costelas, me tirando todo o ar que tinha. Vou um pouco para trás, tentando aspirar mais oxigênio, mas “Finch 2” decide me cortar com a lâmina exatamente nesse momento. Ela atinge a canela, e eu não consigo roubar a lâmina dela.
Rue assiste a tudo horrorizada, e ela está parada, sem fazer nada.
Já que eu não tenho força, tenho que usar a inteligência. Mas todos esses gritos vindos da sala de estar estão me desconcentrando. Olho para os lados, buscando alguma forma de escapar ou de matar a “Finch 2”, mas a maior parte das ideias são inúteis. Finalmente encaro a janela, que está totalmente branca. A única coisa que posso ver através da janela é o céu, que está mais ou menos na altura do chão da casa, a algumas poucas estrelas. Se eu jogar "Finch 2" ali, acho que ela não vai retornar.
Corro para perto da janela, quase tropeçando no pé da cama, e me posiciono de costas para a parede. “Finch 2” parece estar completamente louca agora, e muito furiosa.
Não se irrite, eu queria dizer para ela. Você está apenas em um momento pós-morte, então a fúria já vai passar, mas sei que seria excepcionalmente ridículo e estúpido da minha parte. A morte não é assim tão fácil, não se pode consolar com apenas algumas palavras.
“Finch 2” corre na minha direção, e eu agarro o braço dela com força, dobrando-o e puxando-o para a direção da janela. Inverto as posições, colocando “Finch 2” de costas para a abertura totalmente branca, e a chuto para fora. Ela consegue segurar a borda da janela e se prender pelo cotovelo, mas a janela é um pouco grande, facilitando o meu trabalho de chutar novamente o braço dela. Ela dá um berro alto e estridente enquanto cai e desaparece nas nuvens.
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