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14 Parte 14 - Shine a Light


Ano de 2010. Londres, Inglaterra

O Royal Hospital de Bolton estava uma confusão terrível, com a chegada do Mcfly em peso, depois que Summer foi transferida. Ela recebeu os primeiros cuidados na ambulância, mas ela tinha uma hemorragia que solicitava intervenção mais elaborada. Eles a levaram com urgência para o centro cirúrgico, e Dougie foi impedido de entrar junto por Tom. Harry ainda estava muito atordoado com o que ele viu, e vagava em círculos pela recepção do hospital, enquanto Danny tentava responder às informações que a atendente pedia.

— Tom, pelamor, traz esse menino aqui! — Ele disse, falando um pouco alto demais para um hospital. — Eu não vou dar conta dessa ficha que tem que preencher...

Tom respirou fundo e arrastou Dougie até Danny, que lhe entregou um formulário cheio de perguntas. Nem ele, o namorado, aquele que vivia com ela, sabia tudo de sua vida. Mas o básico era possível. Ele estava com sua bolsa, e foi fácil obter números de documentos e do seguro. Mas enquanto ele preenchia o papel, as lágrimas começaram a verter de seus olhos e não foi possível prosseguir. Danny tomou o papel de suas mãos, já molhado demais, e continuou de onde ele parou. Tom o levou até um sofá, que estava praticamente vazio, e o colocou sentado.

— Vamos ter que lidar com a imprensa. — David Spearing, que acompanhava os rapazes naquele final de semana, chegou já bastante agitado. Ele tinha sido alertado do problema por Danny. — Tem um monte de gente na porta, inclusive fãs.

— Eu falo com eles. — Tom se ofereceu.

— Não, acho melhor ninguém falar nada. — David olhou em volta e viu que não havia tanta gente assim, dentro do hospital. — Eles não vão entrar, porque a segurança do hospital não vai deixar. E enquanto não tivermos notícias... como ela está?

— Ela acabou de ser levada para o centro cirúrgico. — Harry disse, surpreendendo a todos. Pensavam que ele não tinha mais voz, mas ele estava prestando atenção. — Havia tanto sangue; eu acho que foi alguma coisa com o bebê.

— Então, é melhor mesmo esperarmos. — David determinou.

Harry permitiu que seu corpo relaxasse, e sentou-se ao lado de Dougie. Segurou a mão dele entre a sua, e puxou-o para si, abraçando-o. Ele sabia que o amigo precisava de conforto, e sabia também que só ele poderia fazer aquilo, naquele momento. O grupo permaneceu em silêncio, ouvindo o movimento do lado de fora, ouvindo o burburinho das pessoas do lado de dentro, e esperando. Esperando boas notícias, esperando qualquer coisa que pudessem usar.

Uma pessoa, vestindo verde e usando uma touca, aproximou-se do grupo. Ele segurava uma prancheta nas mãos, e tinha a expressão rígida.

— Vocês estão com a Srta. Handerssen?

— Sim. — Dougie pulou na frente de todo mundo. Ele já pretendia chamá-la de Sra. Dougie Poynter, mas casamento era um tanto precipitado, no final das contas. — Eu sou... o noivo dela.

— Ah, claro, Sr. Poynter. — O médico pareceu conferir alguma coisa na prancheta, e elevou o olhar. — Bem, ela saiu da cirurgia, e está fora de perigo. — Suspiros de alívio foram ouvidos pela sala, porque todos os presentes adoraram a notícia. — Mas o bebê...

Harry pulou de onde estava. Aquele era seu filho; o médico falaria do seu filho. E, apesar do que Dougie queria e do que Dougie achava, não era o momento certo para disputar a atenção de Summer.

— O que tem ele?

— Ele foi retirado, porque a hemorragia o estava sufocando. A placenta descolou completamente, e a mãe estava com contrações. Mas, considerando as 36 semanas de gestação, suas condições são precárias. Ele está na UTI neonatal, mas as expectativas de sobrevivência são pequenas. Eu sinto muito, Sr. Poynter.

Não. Foi o que Harry quis gritar, porque não era Dougie quem perdia nada, naquele instante. Por mais que ele amasse Summer, e quisesse ser o pai do filho dela, ele não era. Harry não queria pensar no amigo, nem pensar em proteger um segredo que eles vinham mantendo. Naquele instante, seu filho lutava contra a morte e ele não seria colocado de lado.

— Eu posso vê-lo? — Harry aproximou-se, surpreendendo novamente os presentes. — É menino ou menina?

— Sinto muito mas... — o médico pareceu confuso. — eu só posso deixar a família ver o bebê.

— Eu sou o pai. — Harry disse aquilo olhando para Dougie, esperando uma explosão. Mas ela não veio. Dougie e seus olhos azuis miraram o médico, sem qualquer pretensão de desmenti-lo. — Sou eu o pai do bebê, apesar de não ser o noivo dela.

— E você é o senhor...

— Harry Judd.

— Senhor Judd, é um menino. Ele está muito fraco, mas eu posso levá-lo à UTI. Você só não pode entrar, eu lamento.

— Tudo bem, eu entendo.

Harry olhou para Dougie mais uma vez, daquela vez era um pedido de desculpas. Ele nunca quis tomar o lugar do baixista, mas ele não podia deixar de ver seu filho. O médico foi claro, o menino podia morrer. Ele precisava vê-lo, dar a ele um nome, registrá-lo, tomar todas as providências que cabiam a um pai – e permitir que nada faltasse caso seu filho morresse, naquele dia. Dougie moveu os ombros como que assentindo, certo de que ele concordava que as coisas tinham que ser daquela forma. No final de tudo, ele sabia que o menino não era seu de verdade, e que não seria possível impedir Harry de assumi-lo. Afinal, era o que Summer queria.

O ruído dos tubos era inconveniente. Fazia um barulho de ar comprimido, ar que ia e vinha, e que já estava irritando Summer. Ela estava acordada, presa em uma cama de hospital, e as memórias do que lhe tinha acontecido eram claras, então. Ela demorou a concluir o por que estaria internada, e por que estava sentindo tanta dor, mas a lembrança de que tinha sido atropelada não podia ser esquecida.

E ela estava ansiosa, porque ela não podia colocar as mãos em sua barriga e sentir seu filho. Ela não o sentia mexer, e ele mexia bastante. Summer ainda não conseguia mover seus braços, e, por mais que ela tentasse, ela não conseguia tocar nenhuma parte de seu corpo. Ela já estava ficando aflita quando a porta do quarto se abriu e alguém entrou. Ela moveu lentamente o pescoço, e aquilo funcionou. A pessoa segurou seus dedos, e ela sentiu um alívio imediato quando Dougie sentou-se ao seu lado e beijou sua testa. Ela sentiu uma lágrima molhar sua face, e aquela lágrima não pertencia a ela.

— O que houve? — Ela perguntou, mais ansiosa. O monitor cardíaco estava agitado, e uma enfermeira entrou no quarto para ver o que estava acontecendo. Enquanto ela checava os sinais vitais de Summer, ela olhava nervosa, para Dougie.

— Você está bem, o médico disse que não corre perigo. — Ele sorriu, mas era um sorriso falso.

— Eu estou. O que houve com o meu filho? Onde está meu filho, Dougie?

O silêncio dele a fez ficar mais nervosa ainda. O monitor cardíaco disparou, e a enfermeira decidiu interferir.

— Ela não pode ficar tão agitada, ou terá um sangramento. Vou ter que aplicar um sedativo.

— Eu não quero sedativos. — Summer protestou, movendo-se na cama. Dougie levantou-se e tentou mantê-la imóvel, sem sucesso. — Onde está meu filho?

— Ele está na UTI. — Dougie disse, beijando-a nos lábios bem devagar, enquanto a enfermeira aplicava, contra a vontade de Summer, o sedativo. — Harry está lá, e eu vim ver você. Ele está vivo, é um menino. Descanse, meu amor.

O mundo ficou escuro e Summer viu-se forçada a adormecer. Dougie não saiu do lado dela, nem enquanto ela dormia. Ele não queria sair dali e não sabia se queria ver o menino. Ele não estava zangado, nem chateado, mas ele entendia que aquele era o filho de Harry, e aquilo ficou mais claro quando o menino nasceu. Mesmo ele sabendo que seria impossível não se apaixonar por aquela criança e não criá-la como se fosse sua, principalmente porque ele pretendia casar-se com a mãe dela, ele não podia interferir naquele momento.

A porta do quarto abriu-se mais uma vez, e Tom entrou. Ele tinha Harry consigo, e o amigo baterista parecia muito abatido. Havia lágrimas ressecadas em suas bochechas, e ele movia-se por instinto. Ou porque Tom o estava movendo.

— Como ela está? — Tom perguntou.

— Sedada. Ela estava muito nervosa. Como está o bebê?

— Lutando. — Harry disse. Ele se sentou no sofá que estava no quarto, e recostou a cabeça para trás. — O pediatra disse que ele é forte, mas ele é tão pequeno que...

Harry não conseguiu terminar. Havia lágrimas em seus olhos e sua voz travou. Enquanto eles conversavam, Summer acordou. Ela abriu os olhos e Dougie sentiu uma pressão em seus dedos. Quando ele se virou para ela, sorrindo, havia uma confusão dolorosa naqueles olhos de verão. Ela percebeu a movimentação no quarto e procurou, movendo a cabeça, por quem estava ali. Harry levantou-se, aproximando-se pelo outro lado da cama.

— Nosso filho. — Ela disse, a voz lenta. — Você o viu?

— Sim. — Ele disse, passando os dedos pelos cabelos dela. — Ele está lutando, Summer.

— Como ele é?

— Tão pequeno que cabe aqui. — Harry fez um gesto, as duas mãos unidas, em forma de concha. — Eu não pude segurá-lo, ele ainda é muito fraco.

— É um menino, não é?

— Sim, mas você já sabia... — Ele sorriu.

— Tom estava certo. Mas não conte para ele.

— Tarde demais. — Tom disse, do outro lado do quarto. — Eu já sei, e não pense que não vou cobrar isso.

— Você vai dar o nome dele ao menino? — Summer disse, a garganta seca.

— Ele se chama Daniel Thomas Judd. — Harry sorriu. — Já está registrado, inclusive. Eles disputaram, e Danny ganhou. Não foi uma disputa honesta, mas isso é problema deles.

— Harry. — Summer disse, os olhos presos aos dele. O quarto ficou novamente em silêncio. — Ele vai sobreviver?

— Eu não sei. — Harry beijou os dedos de Summer, que ele então segurava. — Ninguém sabe ao certo, mas nós acreditamos que sim. Dougie, — Harry virou-se para o amigo, que estava ainda em silêncio. — você quer vê-lo?

Dougie sorriu. Olhou para Summer, e capturou a ansiedade absurda em sua face.

— Sim, mas pode ser depois? Eu não posso deixá-la agora.

— Eu fico com ela. — Tom levantou-se e empurrou Dougie de onde ele estava. — Vamos, Poynter, vocês dois precisam de um tempo sozinhos.

Summer deu uma risada, e sentiu dor. Ela estava dolorida, e provavelmente tinha sofrido uma cirurgia complicada. Ela se lembrava da hemorragia, e por causa dela o bebê teve que nascer. O que mais tinha sido danificado, ela não sabia. E talvez nem quisesse saber; tudo que importava naquele instante era que seu pequeno Daniel sobrevivesse àquela provação.

Harry e Dougie caminharam pelos corredores, lado a lado. Em um dia, muita coisa aconteceu para quebrar a harmonia instável que havia se estabelecido entre os dois. Eles se amavam, eram grandes amigos, mas a mulher e a criança entre eles eram um assunto delicado. Quando Daniel nasceu daquela forma precipitada e trágica, Harry não aguentou manter nenhuma aparência; ele precisava se colocar como pai. Ele sabia que aquela história ia vazar, e que muita coisa teria que ser explicada, mas eles podiam fazer aquilo juntos. Desde que Dougie entendesse, de uma vez por todas, que eles eram uma família de três adultos e um bebê.

— Você precisa vê-lo. — Harry disse, passando o braço ao redor de Dougie. — Ele deve estar mais forte, agora, que se passaram as primeiras vinte e quatro horas. Ele é a criança mais linda que existe.

— Eu tenho certeza que é, se ele se parece com a mãe.

— Eu não disse que ele se parece com a mãe! — Harry deu uma risada, e Dougie o acompanhou.

Os dois pararam em frente ao vidro da UTI neonatal. Havia um outro casal ali, uma mãe usando uma camisola e um pai bastante ansioso. Eles olhavam o filho pelo vidro, talvez com medo de entrar, ou sem autorização para fazê-lo. Uma enfermeira saiu para falar com os rapazes, quando os viu chegar.

— Boa noite, vieram ver o Daniel? — Ela sorriu para Harry. Dougie ficou surpreso pelo fato de ela saber exatamente quem era o bebê, mas depois imaginou que fosse porque eles eram famosos. Ela era uma garota, jovem; e eles eram o Mcfly. Todo mundo na Inglaterra os conhecia; eles não tinham a chance de ser incógnitos, nem mesmo em um hospital.

— Sim, ele está bem?

— Ele evoluiu muito em vinte e quatro horas. Já está se alimentando, inclusive. Pela sua formação, ele não tem 36 semanas apenas; um pouco mais, talvez. Nós apostamos em umas 38 semanas, o que ajuda bastante.

— Ele mama? — Harry franziu a sobrancelha.

— Não, é pela sonda. Vamos, eu ajudo você a se vestir para vê-lo. — A enfermeira sorriu.

— Quem vai vê-lo agora é ele. — Harry apontou Dougie. — Ele é o noivo da mãe de Daniel.

A enfermeira mordeu o lábio inferior, mas não falou nada. Ela levou Dougie para uma sala especial, onde ele foi obrigado a lavar as mãos com um sabão antisséptico e vestir um avental azul, luvas de borracha e uma touca. Ele também precisou usar uma máscara. Depois de parecer uma personagem de seriados de televisão, Dougie foi conduzido até onde estavam os berços, com as criancinhas muito pequenas, todas nascidas nas mesmas condições do filho de Summer. Do filho que ele já sentia como se fosse dele, apesar de ele não ter seus genes.

A imagem do bebê, virado de bruços, com os olhos fechados com dois curativos de gaze, usando uma fralda muito maior do que ele, o fez sentir aquele embargo na garganta, característico das pessoas que querem chorar mas não podem. Ele queria tocar a coisinha que respirava aceleradamente naquela incubadora, mas não podia. Nem lhe era direito; aquele era o filho de Harry e ele nem podia sentir-se daquele jeito.

Mas não dava para evitar. O bebê, Daniel, era filho de Summer. Ele cuidou deles durante os quase sete meses que se passaram; não era possível dizer que não estava apaixonado pela criança.

— Ele é lindo. — Dougie disse, já fora da UTI, para Harry. O pai de Daniel tinha os olhos úmidos, porque ele ainda sofria ao pensar no filho lutando para sobreviver, tão sozinho naquele berçário. — Agora eu devo voltar e ficar com Summer.

Harry abraçou-o novamente e os dois caminharam para o quarto da garota. Eles ainda precisavam lidar com a imprensa, e por mais que David e Danny estivessem segurando a turba, não dava mais para conter a mentira. Era simplesmente mais fácil chegar e contar logo, o que eles decidiram fazer no dia seguinte. Já era noite e eles precisavam dormir um pouco, mesmo que ali, no hospital.

— Homem preguiça, acorde porque você precisa enfrentar os cães. — Danny cutucou Dougie, que dormia de mal jeito ao lado de Summer. Ele estava sentado na cadeira ao lado dela, porque ela teve um pesadelo à noite.

— A imprensa já está aí? — Ele disse, limpando a baba que havia escorrido pelo canto de sua boca.

— Eles nunca nem saíram. — Danny sorriu. — Vamos, eu te ajudo a ajeitar essa cara. Harry já está lá fora.

— Precisamos fazer isso? — Dougie afastou-se da cama, enquanto Summer ainda dormia, e foi para o banheiro lavar o rosto e escovar os dentes. Ele se sentia moído, e tudo que ele precisava era de um pouco de descanso real.

— Claro que sim; vocês dois precisam enfrentar isso e acabar logo com essa besteira de uma vez. Ninguém liga que você vai ficar com ela, Dougie, mas a criança é filha do Harry e todo mundo vai descobrir mesmo.

Dougie moveu os ombros, e terminou de se organizar. Ele não queria parecer tão arrasado, mas queria parecer como um homem que está sofrendo porque a sua garota está internada em um hospital. Ele seguiu Danny até a recepção dos apartamentos vip, um lugar separado, para visitantes especiais, que colocavam os pacientes nos quartos mais caros. Havia um pequeno grupo de pessoas, todas com credenciais de imprensa. David Spearing estava organizando os repórteres, que eram de duas revistas britânicas, e só eles poderiam fazer a entrevista.

Harry já estava lá, e ele parecia ansioso. Esfregava os dedos enquanto Tom falava alguma coisa em seus ouvidos. Dougie aproximou-se e sentou ao lado do amigo, segurando suas mãos entre as dele. Um sorriso confiante fez com que ele compreendesse que ficaria tudo bem, eles só precisavam falar a verdade para todos.

— Então. — David iniciou. — Vocês têm perguntas, os rapazes estão aqui. Todos eles.

— Podemos perguntar para Dougie? — Um dos jornalistas questionou. — Nós queremos saber o que houve, porque parece que ele chegou com a noiva e ela estava muito doente.

— Ela sofreu um acidente. — Ele disse, os lábios torcidos. Contou brevemente a história do atropelamento, sentindo-se seguro ao lado de Harry.

— Mas ela estava grávida, como vai seu filho? — O outro jornalista interrogou. Dougie olhou para Harry, que decidiu assumir aquela.

— Ele está lutando para sobreviver. Nasceu de 38 semanas, mas é muito forte. O nome é Daniel Thomas Judd.

Todos os presentes se entreolharam. Danny fez um sinal de vitória direcionado a Tom, que lhe mostrou a língua. Ele queria mostrar o dedo, mas como havia câmeras, ele achou melhor ser menos indecente. Havia uma pergunta que precisava ser feita, mas que ninguém teve coragem de fazer. Dougie fez um gesto, incentivando Harry a prosseguir.

— O bebê é meu filho. — Ele disse, bem devagar. — E não do Dougie. Acho que somos uma família interessante, agora.

— Isso é inusitado. Dougie anunciou que seria pai, e...

— Eu serei. Daniel é biologicamente filho de Harry, eu sei, mas eu vou amá-lo como se fosse meu, como eu amo a mãe dele.

— Então a criança tem dois pais. — O jornalista riu, constrangido.

— Basicamente isso.

O Mcfly ainda respondeu algumas perguntas, até que um médico aproximou-se para interromper a entrevista. Ele precisava falar com Dougie, e não tinha boas notícias. Summer estava sangrando novamente, com outra hemorragia, e precisava retornar para a cirurgia. Os repórteres foram dispensados, por Tom e David, enquanto Danny acompanhava um desesperado Dougie até o décimo andar, onde era o quarto que ela estava. Ou não estava, porque quando chegaram, ela já tinha sido levada às pressas para o centro cirúrgico.

Não adiantou, daquela vez, ninguém dizer que tudo ficaria bem. Dougie estava tão desolado que nada serviria para alentá-lo. Não havia nenhuma palavra que pudesse ser dita, nem nenhum abraço que ele quisesse. Ele se viu perdendo Summer de todas as formas possíveis, e justo quando eles tinham acabado de se descobrir. Ele a amava desde que ele começou a ter noção do que fosse amor, e ele queria tê-la desde então. Quando ele finalmente pode ficar ao lado dela, ele teve que suportar o fato de que ela tinha sido de Harry tanto quanto dele, e que ela estava grávida. E então, mesmo aceitando tudo que nenhum outro aceitaria, ele estava fadado a ficar sem ela. Era só naquilo que ele conseguia pensar.

Danny conseguiu fazê-lo sair do meio do corredor e alojar-se dentro do quarto. Colocou uma coberta sobre ele, que se encolheu imediatamente no sofá, e apagou a luz. Ele sabia que era melhor deixar Dougie quieto enquanto nenhuma notícia de Summer surgia. O que durou algumas horas, apenas. Não demorou muito para o mesmo médico que informou sobre a nova hemorragia aparecer no quarto e encerrar o breve descanso do jovem baixista.

— Sr. Poynter. — Ele chamou por Dougie, que imediatamente se sentou para ouvir o que seria dito. — Ela está bem, agora.

Dougie respirou aliviado. Mas alguma coisa na voz do médico o fez considerar que a notícia não tinha sido dada na íntegra.

— Mas?

— Ela estava com uma hemorragia severa. Ela teve órgãos danificados pelo acidente, e na tentativa de salvar o bebê... nós tentamos antes, mas não foi possível. Tivemos que retirar seu útero.

O rapaz demorou alguns instantes para processar a notícia. Tom, que tinha chegado acompanhando o médico, colocou a mão na boca, assustado com a informação. Quando Dougie finalmente realizou o que tinha acontecido, ele sentiu o mundo dar uma sacudida, forte, mas manteve-se de pé.

— Ela está a salvo? — Ele insistiu.

— Sim, agora está.

— Só isso que importa.

Ano de 2010. Londres, Inglaterra.

Tom jogou o jornal sobre a mesa do café. Era noite, depois de uma tarde de ensaios, e estavam todos em sua casa, recuperando as energias com um saboroso lanche. Muita comida, cafeína suficiente. O The Sun estampava uma foto de Harry, vestindo moletom e camisa de malha, carregando um pequeno pacote em uma das mãos e uma bolsa na outra.

— Fotogênico, você. — Tom implicou, pegando um pãozinho da cesta.

— Meu filho é. — Ele fez um bico, olhando a foto. — E esses paparazzi não dão folga; enquanto eles não tirarem uma foto do menino, eles não sossegam.

— O que tem o pequeno Daniel? — Danny sentou-se ao lado de Harry, puxando o jornal. — Hm, onde vocês foram?

— Comprar alguma coisa, nem lembro. — Harry moveu os braços.

— Bem, eu vou para casa. — Dougie surgiu, pulando do sofá. — Estou cansado, e enquanto vocês babam sobre o Daniel, eu vou ficar com ele e a mãe dele.

— Você. — Harry fez uma careta. — Posso aparecer lá mais tarde? Para vê-lo?

— Bem mais tarde, talvez. — Dougie deu uma risada. — Mas considerando o tempo que eu tenho passado longe de Summer, talvez seja melhor você passar no próximo milênio.

Harry jogou o jornal por sobre Dougie, que saiu correndo da cozinha. Ele precisava, mesmo, ir para casa e ver sua noiva e seu filho. O filho que ele compartilhava com Harry, mas que não se importava nem um pouco. O bebê já tinha cinco meses, e estava tão bem e tão saudável que nem parecia ter passado por tantos problemas logo que nasceu. E o acordo deles era perfeito; os dois pais de Daniel eram extremamente presentes na vida do menino.

SUMMER'S POV

Dougie não parava mais em casa. Ele passava mais tempo em ensaios e programas de televisão que, para vê-lo, era mais fácil ligar a TV. Não era uma reclamação, porque eu não tinha o direito de reclamar. Afinal, eu passei mais tempo longe dele do que tudo. E eu nem tinha tempo de ficar sentindo falta dele, Daniel tomava bastante do meu tempo livre. Eu continuava trabalhando, já fazia um mês que tinha voltado ao trabalho e estava tudo muito tumultuado. Mesmo com ele querendo que eu ficasse em casa com o bebê, eu o tinha convencido que trabalhar era necessário. Eu não queria ser uma inútil.

Além do que, tanto mama Judd quanto mama Poynter adoravam se revezar com Daniel. As duas se sentiam igualmente avós, e só serviam para mimá-lo.

— Boa noite. — Ele chegou em casa agitado, me beijando nos lábios, quente. Ele estava quente, ainda suado do ensaio que provavelmente tinha sido exaustivo. — E o bebê?

— Dormindo. — Eu disse, rendida a seu beijo. Fazia tempo que não nos beijávamos propriamente; vida corrida, tudo corrido demais. Segurei-o pela camiseta branca com uma das mãos, retirei seu gorro com outra. Eu adorava seu cabelo emaranhado, embaraçado, despenteado. Eu o adorava de qualquer jeito.

— Temos tempo, então? — Ele tirou o celular do bolso, desligou-o e jogou o aparelho sobre o sofá. Ele geralmente parecia ter várias mãos, porque nunca poderia imaginar alguém mais habilidoso do que Dougie para me abraçar e me jogar onde quisesse.

— Se você parar de falar, sim. — Impliquei, desabotoando seus jeans com as duas mãos.

— Nem posso tomar banho?

— Não. — Fui enfática, terminando minha árdua tarefa e retirando os jeans com os pés. Ele já estava sobre mim, estávamos na cama, eu o mantinha o mais perto possível segurando-o pela região da cintura, ele levantava minha blusa com as mãos, e beijava meu pescoço, meu colo; me beijava inteira. Ele era delicioso e eu nunca me controlava com ele por perto. Mas naquele instante não precisava de controle, não precisava nem de pensar. Eu o queria, ele me queria, e fazia algum tempo que não tínhamos tempo um para o outro. Era como se continuássemos sem tempo; tínhamos pressa.

Não precisaria de uma eternidade, mas os deuses conspiravam contra nós. Dougie terminou de livrar-me da última peça de roupa, jogando-a o mais longe possível; e não parava de me beijar um instante. A melhor sensação do mundo era sentir seus lábios em minha pele. Ele não perdia o contato; suas mãos comprimiam a pele de forma que parecia que ele me machucaria, se não fosse tão prazeroso. Mas como disse, os deuses não estavam mesmo a nosso favor. Eu tinha o corpo envergado para trás e já praticamente não conseguia controlar a respiração quando ouvimos o choro lamurioso de Daniel.

— Imagine se estivéssemos fazendo barulho! — Dougie estava ofegante, como se aquela fosse a décima milésima vez que éramos interrompidos naquela mesma situação.

— Deixe-o. — Eu disse, segurando-o com as duas pernas, impedindo que se levantasse. — Lembre-se do pediatra... ele precisa chorar um pouco antes de atendermos.

— Vai deixar meu filho chorando, mesmo? — Ele fez um bico enorme. Eu o beijei, impedindo-o então de parar os movimentos.

— Ele logo pára, você é que ainda não se acostumou.

Não sei se convenci Dougie, mas ele acabou entendendo que terminar o que começou seria a melhor opção. Como eu tinha dito, Daniel logo parou de chorar, mas ainda podíamos ouvi-lo resmungar. Nada que me fizesse parar de amar o pai adotivo dele, naquele instante. Eu também precisava de Dougie; eu sentia sua falta mesmo estando tão perto. Estávamos tão próximos e totalmente afastados. E eu sabia que ele me queria também, ele só ainda não tinha se acostumado a fazer aquilo com uma criança no quarto ao lado.

— Posso ir vê-lo, agora? — Dougie disse, beijando-me suavemente, alguma meia hora depois.

— Pode, papai. — Eu impliquei. Ele se levantou, vestiu as boxers, saiu do quarto e logo voltou, com o bebê em seus braços, conversando com ele. — Ah, mas que ótimo... acabe mesmo com a rotina da criança! — Eu protestei. Dougie ignorou-me, deitando-se novamente ao meu lado e colocando meu filho entre nós, na cama.

— Não seja chata, afinal não é sempre que podemos estar assim... nós dois e ele. Geralmente o outro pai dele está no meio.

Dougie tinha razão. Como negar? Era minha família, o filho que eu amei desde o instante em que soube que ele existia, o homem que sempre amei, desde o instante em que inventei de entrar naquele chat room; uma vida que eu nunca imaginei para mim. Era minha família, e pareceu pela primeira vez que o conceito de família fez sentido.

— Amanhã vamos poder ir ao concerto? — Eu disse, animada. Não costumava ir aos concertos do Mcfly, mesmo sendo a noiva de Dougie.

— Ora, claro! — Ele me beijou. — Mas vocês ficam no backstage, não ficam?

— Nem matando eu me misturo no meio das fãs loucas que não param de gritar! — Ri, implicante.

Ele me beijou novamente, quase ignorando o bebê no meio da gente, na cama. Eu esperava que Daniel resolvesse dormir, porque eu ainda precisava amar Dougie por mais pelo menos a noite toda.