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13 Parte 13 - Foolish
Ano de 2010. Yate, Inglaterra.
Já havia mais de um mês que Summer não falava com nenhum dos dois homens de sua vida. Mais de um mês, ela estava contando. Era sábado, e ela estava em sua cidade natal. Precisava ver os amigos, e estava cansada de ficar sozinha em Londres. Passaria o final de semana com Clarence e Felicia, e eventualmente Alice. Ela passaria o máximo de tempo possível com pessoas conhecidas e com quem pudesse se distrair, falar de assuntos diferentes; falar de trabalho, se fosse preciso. Falar de qualquer coisa que não representasse Mcfly ou Harry ou Dougie.
Eles estavam em um restaurante popular, comendo tortillas e falando sobre como estava difícil fazer alguma coisa criativa no mundo da propaganda. Soprava uma brisa fria ainda, indicando que o inverno Europeu não daria trégua tão cedo.
— Então, alguém vai ter que falar nisso, né? — Felicia, a menos discreta, decidiu iniciar um assunto constrangedor. — Summer, o que afinal aconteceu com você e Harry Judd?
— Eu não acredito que você perguntou isso. — Clarence jogou um pedacinho de pão sobre a amiga. — Pensei que isso fosse assunto proibido nesse final de semana.
— Bem, ela tem que enfrentar isso. E contar aos amigos deve ser a melhor forma de enfrentar. Vamos, Summy. O que houve? Por que de repente você o odeia?
— Eu não o odeio. — Summer respirou fundo, e mordiscou outra tortilla. — Eu estou apenas muito irritada, ainda.
— Por que, o que houve? — Clarence mostrou curiosidade, então. Summer contou, resumidamente, o que tinha acontecido semanas atrás. Contou sobre sua descoberta – estar apaixonada por Dougie; contou sobre a visita reveladora de Harry, contou sobre a mentira, e sobre ter decidido manter-se afastada deles. E do quanto aquilo estava sendo doloroso.
— E, afinal, quem você ama? — Felicia tinha que saber.
— Dougie. — Ela confessou. — Eu não tenho dúvidas que eu o ame, eu nunca tive, na verdade. Mas eu não posso fazer nada, ele me usou e eu estou chateada.
— Vocês já conversaram depois disso?
— Não. Ele me liga todo dia, deixa mensagens, envia e-mails. Mas eu não quero falar com ele, ainda não.
Summer sentiu um gosto metálico em sua boca, e fez uma careta. Aquela sensação a estava irritando, já. Fazia uma semana que tudo que ela comia tinha gosto estranho. E as tortillas estavam ótimas, não podia ser a comida. Ela precisava pesquisar a sua gastrite novamente; se não se tratasse, teria uma úlcera. Ela descartou a comida e bebeu um pouco de água, tentando lavar a boca.
— O que foi, Summy? — Clarence perguntou, notando o desconforto da amiga. Alice voltou do bar, trazendo drinques.
— Eu estou enjoada. Essa gastrite ainda vai me matar.
— Enjoada, é? — Alice tomou instintivamente a margarita que tinha acabado de colocar na frente da amiga. — Defina enjoada.
— Atacada da gastrite. — Summer considerou. — Estômago dolorido, gosto metálico, ânsia de vômito... essas coisas que eu sempre senti; provavelmente porque estou uma pilha de nervos.
— Ainda bem que é gastrite. — Felicia riu, aceitando o drinque que Alice lhe entregava. — Porque sei lá, com a sua recente atividade sexual...
— Mas Summer não é burra, ela só faz sexo seguro. — Clarence franziu a sobrancelha. — Certo, Summy? Camisinha sempre.
— Claro. — Summer deu uma risada, mas subitamente sua face se fechou em uma tempestade. Seu semblante ficou pálido, sem cor, como se o sangue tivesse parado de correr por seu corpo. Ela parou no ar a mão, esticada para pegar de volta a margarita, e ficou alguns segundos completamente paralisada.
— Você fez sexo sem camisinha? — Felícia olhou para ela, assustada. Summer não conseguia se mover, seus neurônios estavam trabalhando rápido demais. Alice, que estava ao seu lado, puxou a mão que estava no ar e fez com que a amiga olhasse para ela.
— Quando foi isso? Diga, Summer, quando?
— Quase três meses, eu estou contando.
— E você tem sentido o que, além do enjoo?
— Nada. — Ela não mentiu. — Eu estou bem! — Summer puxou a mão e ajeitou-se na cadeira. — Eu estou bem, eu não estou grávida.
Os amigos não falaram mais nada, olhando para o centro da mesa. O ruído do silêncio era mais assustador do que qualquer coisa que eles poderiam falar, naquele instante. Ninguém nem mesmo se mexeu, por minutos, até que Felicia decidiu acabar com aquilo.
— Com quem, Summer? Com quem você fez a besteira de não usar camisinha?
— Eu não estou grávida. — Ela insistiu, mas a negação não parecia tão afirmativa.
— Com quem?
— Harry. — Ela confessou, o mundo imediatamente desabando por sobre si, em uma avalanche. Suas costas ficaram pesadas, e seu organismo não funcionava bem. O enjoo voltou mais forte, e ela sabia que era por causa daquela conversa. Baixou o olhar, depois ergueu-o novamente. Os amigos esperavam um sinal dela, para saber o que fazer. — Mas foi uma vez.
— Meia vez é suficiente. — Alice bateu na testa com a palma da mão. — Ele nem precisava terminar, Summer, você sabe disso! Parece que está no ensino fundamental; todo mundo sabe disso!
— Eu sei! — Summer ergueu-se, mas tudo ficou preto e ela sentiu o mundo girar ao seu redor, puxando-a para baixo. — Eu sei, mas nós não estávamos... nós fomos irresponsáveis. Não era para ter acontecido nada.
— Vamos sair daqui. — Alice chamou o garçom. — Vamos pedir a conta e passar em uma farmácia, para comprar um teste e confirmar isso.
A noite foi uma tortura particular para Summer. Alice a levou para a sua casa, e as duas fariam o teste na manhã seguinte. Elas precisavam esperar a manhã, porque queriam certeza absoluta do resultado, fosse ele qual fosse. Mas a garota mal conseguiu dormir, pensando o tempo todo no que faria se os amigos estivessem certos. Seu telefone vibrou várias vezes, enquanto ela tentava, inutilmente, fechar os olhos e pensar em nada.
Estar grávida não seria uma tragédia. Ela era responsável para assumir aquilo. Mas estar grávida de Harry; aquilo não parecia certo. Ela não o amava, apesar de ter passado tanto tempo enganada. Se aquilo pudesse ser mais um banho gelado no relacionamento totalmente perturbado entre ela e Dougie, então provavelmente ela estaria grávida. E provavelmente as coisas não seriam fáceis.
“Eu sinto a sua falta.”
Ela tomou coragem e respondeu à centésima mensagem de Dougie. A irritação que ela sentia tinha diminuído a níveis aceitáveis, depois da conversa com os amigos, e deu lugar à preocupação. Ela quis alguém para abraçá-la aquela noite, e dizer que tudo ia ficar bem. O relógio marcava vinte e duas horas, mas Alice já estava apagada na cama. E Summer, encolhida no sofá.
“Onde você está? Diga, eu vou até você.”
Ela sorriu ao ler a mensagem de resposta.
“Estou em Yate, um pouco longe.”
“Já saí de casa. Estou indo praí.”
Summer sentou-se no sofá, ansiosa. Seu coração disparou. Dougie levaria pouco mais de uma hora para chegar até ela, e ele nem sabia onde ela estava.
“Dougie, não. Eu não quero você na estrada, está tarde.”
Não houve resposta, daquela vez. Ela levantou-se completamente, nervosa. Correu até o quarto, entrou sem preocupação com o barulho, cutucou Alice até acordá-la. A amiga assustou-se, confusa, esfregando os olhos e tentando imaginar onde era o fogo.
— O que houve? Aconteceu alguma coisa?
— Dougie. Ele está vindo para cá.
Alice sentou-se. Ajeitou o cabelo e encarou Summer.
— Vou precisar me vestir? Me arrumar? Como assim ele está vindo?
— Sei lá, eu acho que ele está doido.
— Você precisa de alguma coisa?
— Não... eu ainda não sei o que vou fazer; não posso ir para minha casa com ele nem...
— Fique aqui. — Alice sorriu. — Seja lá o que for que vocês vão fazer, você precisa conversar com ele. Aproveite enquanto ainda não sabe que tipo de tragédia será sua vida, e faça as pazes com ele. Eu vou... eu vou para a casa de Felicia.
— Não, eu não quero que você saia de casa por mim. Nós ficamos no quarto de hóspedes e...
— Vocês vão ficar no quarto de hóspedes. — Alice deu uma risada. — Mas eu prefiro não estar em casa para não ter que ouvir nada. E vocês precisam ficar sozinhos, a gente pode se preocupar com aquele teste outro dia; ou você vai a um médico ver isso.
Alice disse, e começou a vestir alguma coisa. Pegou o telefone e ligou para Felicia, contando seus planos. A amiga concordou que o melhor a fazer era deixar Summer sozinha com o namorado, porque muita coisa ainda tinha para acontecer entre eles. Alice pegou sua bolsa, as chaves do carro e disse para Summer resolver a questão. Ela tinha uma noite para discutir com Dougie, para odiá-lo e perdoá-lo, porque não havia motivo para duas pessoas de amarem e não ficarem juntas. Nem mesmo uma delas estar esperando um filho de outro. Se aquilo fosse mesmo verdade.
Summer ficou sozinha na casa da amiga, confusa e sem saber o que fazer. Ela girava em círculos, com o telefone na mão, esperando o momento em que Dougie avisaria que estava em Yate. Ela queria estar com raiva dele, e pensar em palavras hediondas para lhe dizer. Mas ela não conseguia, porque ela não estava mais zangada.
“Onde eu te acho? Diga-me o endereço, o GPS encontra.”
O telefone vibrando a distraiu momentaneamente. Ela quase não conseguiu digitar o endereço de Alice; precisou fazer aquilo bem devagar. Enviou a mensagem e esperou alguma resposta, mas nada. Foi até a cozinha, pegou água, bebeu um pouco, deixou o copo por sobre a pia, voltou até a sala, sentiu sua garganta seca novamente. E o telefone vibrou, depois de minutos intermináveis, com a mensagem que ela esperava.
“Estou na porta.”
Summer correu até a entrada da casa e girou a maçaneta prateada, abrindo totalmente a porta para ver Dougie, parado no portão da casa, o carro ainda aberto. Ele usava um gorro cinza, camiseta branca e jeans, e não parecia ter descansado do dia de trabalho, ainda. Ela finalmente respirou, permitindo o ar penetrar em seus pulmões. Ele fechou a porta do carro e entrou, entendendo que o silêncio dela era uma autorização.
— Você ficou doido, vir dirigindo até aqui. — Ela disse, afastando-se da porta para ele entrar. A proximidade de sua pele já a fazia sentir calafrios. Ele enfiou a chave do carro no bolso traseiro.
— Você responde minha primeira mensagem em um mês. Eu iria até o inferno para ver você. — Ele estava ansioso, esfregando as mãos. — Summer, eu tenho tanta coisa para dizer mas eu...
“Shhhh.” Ela fechou os lábios dele com os dedos. O choque do toque pele com pele foi inevitável. Eles ficaram próximos por vários minutos, até que Summer decidiu fechar a porta e levá-lo para dentro, propriamente.
— Eu não queria fazer você vir até aqui. Mas eu devo confessar que preciso de alguém, e tinha que ser você. — Ela disse, olhando para o chão, de costas para ele. Dougie respirou fundo e aproximou-se dela, com cuidado.
— Eu quis vir até aqui. — Ele disse, tocando-a devagar. Seus dedos tocaram os ombros, depois seguraram seus braços com firmeza. Ele levou a face até seus ouvidos, e sussurrou. — Eu não aguentava mais ficar sem você.
Summer virou-se para ele, os olhos confusos, e o abraçou. Ela mergulhou em seus braços, enfiando o nariz em seu peito. Ela pode sentir que ele ainda estava suado do dia, mas não se importou. Ela só queria abraçá-lo, porque depois de tanto tempo, ela também estava sofrendo sem ele.
— Tudo que eu queria era te odiar. — Ela disse, sentindo a voz embargada. — Mas eu não consigo.
Dougie a segurou forte nos braços, e beijou seus cabelos. Depois livrou uma das mãos, ergueu sua face e levou seus lábios aos dela, envolvendo-os levemente. Ela fechou os olhos, e permitiu-se ser beijada. Sentiu tanta falta dos lábios dele, da língua dele na sua, do sabor que ele tinha. Ela não sabia que o queria tanto, até aquele momento. Até desejar que ele a fizesse esquecer qualquer coisa, inclusive o que ele havia feito com ela.
Beijaram-se bastante, por muito tempo, como se quisessem descontar o tempo que ficaram separados. Ele sorria, quando soltou seus lábios pela primeira vez.
— Estamos sozinhos. — Ela disse. — Vamos para a cama.
— Pensei que teria que dirigir de volta para Londres. — Ele implicou.
— Só se for para me levar junto. — Ela sorriu. — Mas hoje não.
Os dois se trancaram no quarto de hóspedes de Alice, e Summer ficou feliz porque a cama era de casal. Não que ela se importasse em amontoar-se com Dougie em qualquer lugar, mas ela preferia conforto. Havia ainda alguma tensão entre eles; apesar de um final de semana de sexo intenso, aquela foi a única vez que eles estiveram realmente juntos. Naquele momento, o simples toque de Dougie em sua pele quente fazia com que ela realmente esquecesse, principalmente os problemas mais absurdos.
Era pura sorte – ela queria acreditar – que ele sempre tivesse proteção consigo. Coisas de rapazes, ela pensou. Homens andavam com preservativos, mulheres os faziam usar de qualquer forma. Depois de vários minutos entre os lençóis, muitos beijos e quase nenhuma roupa envolvida, os dois já estavam excitados demais. E Summer pensou o quanto idiota ela estava sendo, ao pegar o pacotinho de preservativo que ele tinha colocado por sobre o travesseiro, e abri-lo. A besteira que ela tinha que ter feito ela já tinha feito. Mas, se ela não estivesse grávida, ela não deveria cometer o mesmo ato de burrice duas vezes. Precisando ignorar aqueles pensamentos, ela concentrou-se em auxiliá-lo a colocar a camisinha e nas sensações que ele lhe proporcionava.
— Bom dia. — Ele disse, beijando-a na ponta do nariz. Ela sorriu, espreguiçando-se. Ele estava apoiado nos cotovelos, ao seu lado, observando-a dormir. — Como você está se sentindo hoje?
Enjoada. Summer sentou-se na cama e sentiu imediatamente o estômago embrulhado. A ânsia de vômito que deixava o gosto metálico na boca, e ela foi obrigada a levantar e correr para o banheiro. Dougie ficou apreensivo, sem entender o que estava acontecendo.
— Summer? — Ele disse, levantando-se. — Você está bem?
— Não. — Ela gritou, de dentro do banheiro. — Mas vou ficar, só um pequeno mal estar.
— Você precisa de alguma coisa?
— Se você puder pegar um copo de água para mim, eu agradeço.
Dougie esticou os lábios e moveu os ombros, ainda sem entender nada. Caminhou até a cozinha, sem preocupar-se que estava na casa de um estranho. Qualquer pessoa que o visse, naquele momento, não seria a primeira a vê-lo de cuecas. Ele não era conhecido por estar sempre vestido, mesmo. Voltou para o quarto com a água fresca, para encontrar Summer sentada na cama, com a expressão confusa e perdida.
— Demorei a encontrar um copo. — Ele riu, e entregou a água a ela. Summer olhou para o copo, bebeu um gole, e descartou-o na mesa de cabeceira.
— Dougie, sente-se. — Ela disse, dando um tapinha na cama. — Tem algo que preciso te dizer.
— Ai, aquelas conversas de novo? — Ele pulou na cama, aflito. — Não diga que temos que resolver sobre nosso relacionamento, Summer. Eu te amo, eu posso escrever isso em um outdoor se você quiser; se isso fizer você acreditar que eu errei, mas foi porque...
— Dougie. — Ela o fez calar-se. — Não é isso. Eu sei que você me ama, e eu te amo. Os céus são testemunha do quanto eu tentei não te amar assim, mas eu não consegui. Falhei miseravelmente... mas o problema é outro. Você sabe que eu e Harry... que nós...
— Sim, eu sei. — Dougie fez uma careta. — Eu sei e eu prefiro não lembrar disso.
— Talvez você precise. Eu não sei como dizer isso da forma fácil, então vai a forma rápida. Eu não tinha certeza até agora, mas... — Summer mostrou para ele um pequeno bastão branco. — eu estou grávida.
Dougie arregalou os olhos e escorregou dos lençóis, caindo da cama. Summer achou graça e quis rir, mas não era engraçado. Ela não tinha direito de dar risadas naquele momento. Esperou que ele se recompusesse para continuar sua explicação. Ele tinha o olhar mais assustado que ela já tinha visto em toda a sua vida, e ela considerou se também estava assim.
— Eu vou ser pai?
— Não. Eu estou grávida, mas não pode ser seu.
Se ela achasse que a queda da cama foi a reação mais assustadora que ele poderia ter, era porque ela ainda não tinha visto seus olhos como naquele instante. A constatação atingiu Dougie como uma bala; como se ele tivesse tomado um tiro no peito e ainda estivesse processando a dor que sentia. Sua face perdeu a cor, seus olhos perderam o brilho. A luz que ele normalmente irradiava tinha sumido.
— Isso é como um sonho ruim. — Ele finalmente disse alguma coisa, os olhos vidrados no bastão nas mãos de Summer. — Eu sempre tive o pesadelo do dia em que uma garota diria que esperava um filho meu. E agora que ela diz... não é meu. E dói ainda mais.
— Eu sei. — Ela baixou o olhar.
— Por que não pode ser meu? Quero dizer...
— Eu e você nunca fizemos sexo sem proteção.
— E você fez, com Harry? — A expressão em sua face era de absoluta traição. Fazer sexo era ruim. Sem proteção era traição. Como se com Harry ela tivesse compartilhado algo íntimo demais para ser processado por ele.
— Uma vez.
— E uma vez basta? Por que não pode ser meu?
— Nós nunca fizemos. Uma vez basta, nenhuma vez...
— Nós... você não poderia estar grávida por causa daquele episódio no chuveiro?
— Você não foi até o fim, foi? — Ela o encarou, confusa. — Aconteceu algo naquela vez que meu corpo não tenha processado?
Dougie torceu os lábios, e olhou para Summer com apreensão. Havia uma luz escondida no fundo de seus olhos.
— Eu não sei se sou tão controlado assim. — Ele respirava com dificuldade.
— Você quer acreditar nisso porque não quer que eu esteja grávida dele, Dougie. — Summer passou os dedos pela face ansiosa do rapaz. — Mas é tão pouco provável que não seja. Faz bastante sentido; eu e Harry tivemos tantas vezes juntos...
— Eu quero acreditar, você está certa. Mas há essa possibilidade, não há?
— Bem, pelo visto, há. — Ela torceu os lábios. — Você me enganou, e agora pode estar se enganando também. E eu não faço a menor ideia de quem é pai dessa criança, é assim que vai ser?
— Harry não precisa saber. — Ele disse, os olhos nervosos. — Harry não precisa saber, você não precisa contar a ele. Certo? Você pode anunciar que espera um filho meu, e...
— E se não for seu?
— É meu. — Ele segurou sua face entre os dedos, e beijou seus lábios.
Alice entrou em casa com cuidado, tentando fazer o máximo de barulho possível. Era ainda cedo, e ela não sabia se Summer estava dormindo. Ela tinha que estar em casa, porque o carro de Dougie – ela suspeitava que o carro fosse dele – estava estacionado na rua, em frente ao portão. Caminhando devagar, Alice foi até a sala. Encontrou Dougie Poynter sentado em seu sofá, vestindo boxers e uma camiseta, com Summer deitada em seu colo. Ela não parecia estar se sentindo muito bem.
— Bom dia. — Ele disse, tentando ser gentil. — Você deve ser Alice.
— Sim. O que houve com ela? — Alice aproximou-se.
— Ela está um pouco enjoada. Eu não sei o que fazer para passar. — Dougie correu os dedos pelos cabelos de Summer.
— Um pouco é eufemismo. — Ela disse, reclamando baixinho. — Eu estou um lixo.
— Deixe-me levar você ao hospital. — Ele sussurrou em seus ouvidos.
— Bem... Summer você já fez aquilo que iríamos fazer hoje cedo? — Alice sentou-se em uma cadeira, ao lado do casal.
— Sim, e ele já sabe. — Ela virou-se no sofá, abraçando o joelho de Dougie. — E não preciso de hospital, o que eu quero é ficar deitada até o mundo parar de girar.
— Eu queria poder fazer alguma coisa. — Dougie acariciou sua face pálida. — Mas acho que a melhor coisa é mantê-la em casa, certo?
— Vai passar. — Alice sorriu. — Só é ruim assim de manhã, ela vai se sentir melhor.
Ano de 2010 – Londres, Inglaterra
Ia passar. Todos sabiam que aquilo passaria, mais cedo ou mais tarde, e que tudo ficaria bem. Mas Summer não podia basear sua vida e seu novo relacionamento em uma mentira. Descobrir Dougie e descobrir seu amor por ele foi renovador – ele era a mesma pessoa, mas em uma embalagem completamente diferente. Embalagem que ela adorava. De qualquer forma, ela tinha que recomeçar a sua história com ele; e ela tinha que lidar com o fato de ser publicamente a namorada de um Mcguy, mesmo sabendo que ela já era, extraoficialmente.
Tudo seria perfeito, porque ela jamais ligaria para a publicidade, se não fosse o fato de que ela não podia, mesmo, mentir. De volta a Londres, certa de que estava grávida, depois de uma reveladora consulta médica e alguns outros exames, ela precisava lidar com a dúvida sobre a paternidade de seu filho. Ela não tinha dúvidas; desde que a realização da gravidez lhe desabou sobre a cabeça, Summer soube que era Harry o pai. Mas ela não podia insistir naquilo com Dougie, porque ele teimava que poderia ser dele; que havia essa possibilidade.
Era um fim de tarde, meio de semana, e o Mcfly trabalhava na elaboração de um novo álbum. Em estúdio, eles brincavam e conversavam como sempre, sem nenhum tipo de sentimento negativo. E foi naquele contexto que Summer apareceu, na intenção de fazer alguns esclarecimentos.
— Eu preciso falar com ele. — Ela disse, apontando para Harry, depois que Dougie a interpelou e a impediu de entrar no estúdio onde os rapazes ensaiavam.
— Não precisa. — Dougie segurou suas mãos e olhou em seus olhos.
— Poynter... — ela baixou o olhar, torcendo os lábios. — Você sabe que eu não vou deixar você assumir essa criança dessa forma. Mesmo que eu te ame e que você seja o pai perfeito para ela, Harry tem o direito de saber.
Dougie respirou fundo e afastou-se da porta, deixando espaço para Summer passar. Ela parou em sua frente e colocou as duas mãos em seu peito, beijando seus lábios bem devagar. O toque molhado dos lábios de Dougie era como narcoléptico, sempre a tirava do rumo. Ela manteve uma distância segura e forçou seu corpo para o mais longe dele possível, a fim de não se perder do que ela precisava fazer.
O Mcfly parou de tocar quando viu Summer chegar, porque ela parecia apreensiva. Ela parou na frente de Harry e o encarou.
— Precisamos conversar. — Foi a frase que causou ainda mais tensão. Harry olhou para Dougie, que moveu os ombros querendo dizer que não se opunha a nada. Ele então seguiu a garota até o lado de fora do estúdio, uma pequena varanda que dava vista para o lado de fora do prédio. — Eu tenho algo para dizer, e é a segunda vez que faço sem saber como fazer.
Summer deixou seus olhos se perderem no vazio. Harry parou ao lado dela, os braços encostados. Olhavam para o mesmo.
— Talvez seja melhor dizer, simplesmente.
— Eu sei.
— É alguma coisa relacionada a Dougie?
— É alguma coisa relacionada a nós. Eu estou grávida.
Harry não se moveu. Ela sentiu a tensão em seus músculos, que estavam encostados nos dela, e sentiu a sua respiração agitada.
— E eu devo supor que seja meu. — Ele finalmente disse.
— Sim, você deve. Eu tenho certeza, apesar do que Dougie acha.
— Ele já sabe.
— Sim. — Summer mantinha o tom de voz sereno. — Ele sabe desde um mês atrás. Ele quer assumir a paternidade do bebê, mas eu não posso deixá-lo fazer isso, porque seria injusto com você. Você deve ter ao menos o direito de escolher.
Harry virou-se, olhando daquela vez para Summer. Ela ainda estava rígida, na mesma posição. Ele a segurou pelos ombros e a fez prestar atenção nele. Suas mãos escorregaram pelos braços dela, repousando em sua cintura. Os dedos tocaram a barriga, com cuidado.
— Qual escolha eu tenho?
— É seu filho. Se você tiver dúvidas, podemos confirmar. Você pode escolher estar presente na vida dele, ou que essa conversa não saia dessa varanda. Dougie quer assumir a criança, ele não vai contar nada a ninguém.
Ele puxou Summer para perto e abraçou-a. Ela relaxou os braços e repousou os dedos no cós da calça jeans que ele usava. Harry era um abraço conhecido, confortável, que ela usufruiu por anos. Ele beijou seus cabelos e apoiou o queixo em sua cabeça.
— Por mais que eu esteja em débito com o Poynter, eu não posso deixar que ele faça isso. Eu confesso que a notícia me deixou perturbado por alguns trinta segundos, mas não há nada com que eu deva me assustar. Eu vou ter um filho, isso é algo para celebrar, não acha?
Ela ergueu o olhar, desvencilhando-se parcialmente dele, e sorriu. Harry puxou seu queixo e beijou levemente sua boca, tão suave que parecia apenas um roçar de lábios. Depois abraçou-a novamente, tentando não fazer aquilo com força demais. Tom abriu a porta que dava acesso à varanda, com uma expressão irritadiça.
— Vejam bem. O Poynter está uma pilha aqui dentro. Alguém vai explicar o que está acontecendo?
Danny surgiu por trás de Tom, bebendo uma garrafa de água mineral.
— Sim, eu explico. — Harry afrouxou seus braços ao redor de Summer. — Ela está grávida, e o filho é meu.
A água que estava na boca de Danny foi parar nas costas de Tom. Ele engasgou com o líquido, mas o amigo nem notou que levou um banho. O choque da revelação foi tanto que o deixou anestesiado.
— Ela não pode ter certeza. — Dougie apareceu, passando pelos amigos para tomar Summer dos braços de Harry. — O que foi que você disse a ele?
— A verdade; você sabia que eu diria a verdade. — Ela o encarou.
— Mas você sabe que...
— Dougie. — Summer segurou a face do rapaz entre as duas mãos. — Você sabe que, mesmo que eu te ame muito, e queira fazer qualquer coisa por você, eu não posso voltar no tempo. E eu sei, sim, eu sei. Você também sabe, é mais fácil aceitarmos isso e lidarmos com essa situação.
Ele baixou o olhar novamente. Sim, Dougie sabia que Summer jamais manteria aquela mentira; mas ele também imaginava que pudesse, de alguma forma, acordar em um dia e ser simplesmente o namorado dela, e o pai do filho que ela esperava. O ensaio acabou, e o Mcfly passou a ter que lidar com a ideia de que Harry seria pai, e Dougie também.
Ano de 2010. Bolton, Inglaterra.
Estava tudo muito quieto, e aquilo era bom. O Mcfly estava finalizando as gravações do próximo álbum, e eles voltariam à ativa com tantas novidades que tinham certeza que enlouqueceriam as fãs. E teriam muito pouco tempo para a vida normal, quando as apresentações começassem.
A gravidez de Summer não era mais um segredo. Ela já tinha uma barriga redonda, chamativa demais para ser escondida. E ninguém queria, mesmo, esconder nada. Harry contou para a família que a namorada de Dougie esperava um filho dele – o que foi um choque inicial. Mas eles acabaram compreendendo o que aconteceu, e o fato de ninguém estar mais abalado com aquele fato era um ponto positivo. Dougie desfilava com ela, mãos dadas, por Londres, e tão logo a gravidez começou a ficar evidente, a imprensa não deu folga ao casal.
A primeira entrevista que o Mcfly fez depois de uma foto paparazzi estampar Summer, com uma bata, comprando roupas em uma loja de bebês, foi um caos.
“Sim, eu vou ser pai”, Dougie confessou para a entrevistadora, que o interrogava sobre quem era a garota que andava com ele. “Summer é minha namorada, estamos planejando morar juntos na casa nova que comprei”.
Havia condescendência do Mcfly com a situação do baixista. Harry não clamou para si a paternidade, em momento algum. Ele estava próximo a Summer, porque ele queria acompanhar os estágios da gravidez. Mas ninguém desconfiava que ele poderia ser o pai, ao invés de Dougie. Ele ajudava a comprar roupas, móveis e outras coisas para o quarto do bebê, mas como se fosse o melhor amigo de Dougie, somente.
Summer mudou-se, definitivamente, para a casa de Dougie. Não o loft que ele tinha em Londres, mas a linda casa que ele comprou, e mobiliou para os dois. Ela não quis, inicialmente, aceitar nada daquilo. Mas mulheres grávidas nunca tinham a razão como melhor companhia; logo Summer estava planejando tudo que era possível para a sua nova vida. Ela continuava trabalhando, e continuava sendo ela mesma, só morando com o homem que ela amava por tanto tempo.
Mas a quietude não precisava significar paz. Sempre houve um motivo pelo qual Summer não conseguia mentir; ela não tinha sorte com mentiras. Sempre que escondia alguma coisa, sempre que ocultava o que era importante, aquilo retornava para ela, e era sempre muito doloroso. Summer não tinha boas recordações das mentiras que contou; ou das vezes que omitiu fatos. Mesmo que tenha sido com boas intenções; ela não tinha sorte. Era primavera em Bolton, e eles passavam um final de semana agradável na cidade natal de Jones. A diversão era, além de discutir as novidades do trabalho, escolher o nome do bebê de Summer.
— Obviamente, o menino deve chamar-se Thomas. — Tom disse, voltando da cozinha com alguns drinques.
— Não sabemos se é um menino. — Dougie deu uma risada. — Ela não quis saber, então, não podemos pensar que seja menino.
— É um menino. — Tom insistiu.
— E se for uma menina? — Harry fez um bico.
— Poderia se chamar Danielle. — Tom deu uma gargalhada, enquanto Danny o encarava com os olhos semicerrados. — O que foi, Jones? Seria uma homenagem digna!
Summer, sem conseguir parar de rir, foi até a cozinha buscar algo para ela beber, mas não havia nada na geladeira. Ela gritou para o grupo de rapazes que iria atravessar a rua e comprar refrigerantes, pegou sua bolsa e saiu pela porta. Mas ela nunca chegou ao outro lado da rua; uma distração momentânea e tola a fez não prestar atenção no carro que vinha, em sua direção. O veículo estava devagar, e freou quando a viu atravessando. Mas a pancada foi inevitável, e ela acabou no chão, de lado, o conteúdo de sua bolsa espalhado pelo chão.
O barulho da freada atraiu a atenção dos rapazes, dentro da casa. E as pessoas que falavam em alta voz do lado de fora, também. Quando os quatro integrantes do Mcfly descobriram do que se tratava toda a comoção, o choque foi imediato. Transeuntes já estavam ao lado de Summer, que permanecia imóvel no meio do asfalto, enquanto alguns falavam ao telefone com a polícia e os paramédicos. O motorista do carro parecia desesperado, também ao telefone, sendo amparado por outras pessoas. Ele não tinha culpa direta, mas ver uma mulher grávida jogada ao chão era demais para qualquer um.
Dougie correu para o meio da rua, sem preocupar-se se todo mundo o reconheceria, e colocou-se ao lado de Summer.
— Meu amor, o que houve? — Ele segurou sua mão. Ela parecia bem, mas não se movia.
— Desculpe, Dougie. — Ela disse, e seus olhos vagaram em busca de mais alguém, que deveria estar ali. O baterista colocou-se em seu campo de visão, e ela torceu os lábios. — Desculpe, Harry. Eu fui tão desatenta!
— Vai ficar tudo bem. — Dougie esfregava seus dedos, que estavam ficando gelados. O soar das sirenes foi ouvido por todos, mas a comoção não diminuiu. — Fique comigo, Summer, continue acordada. Tente ficar acordada.
Mas a voz dele não foi suficiente para mantê-la consciente. Sangue escorria pelo asfalto quando os paramédicos ergueram Summer e a colocaram na ambulância, levando-a para o hospital. Dougie atirou-se na ambulância com ela, enquanto Harry, em choque, era levado pelos outros dois amigos.
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