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8 Parte 08 - Unsaid Things


Ano de 2008 – Londres, Inglaterra.

Era verão. O dia quente fazia com que Summer se sentisse sonolenta e muito cansada. Ela estava no trabalho, a cabeça pendia por sobre a pilha de papeis que ela tinha que analisar até o fim da jornada diária. Ela sentiu uma súbita falta dos amigos, desejando que Clarence batesse à sua porta e a convidasse para um café; ou que Alice aparecesse com um cappuccino italiano roubado de outra repartição. O tédio e a monotonia a fizeram abrir o chat room e conectar-se, quase que automaticamente. Ela não fazia aquilo no trabalho, mas resolveu pensar onde Harry estaria naquele momento, se ele estaria ensaiando, ou estaria dormindo. Pelo que ela acompanhava, o Mcfly estava na Espanha, divertindo o país basco com suas músicas.

Mas não havia nenhum hawk online, nem no chat, nem no Yahoo! Messenger. Não havia nenhum e-mail dele. Frustrada, ela desligou o computador e recomeçou a retirar papeis da pilha, decidida a trabalhar. O barulho na porta, aquele rangido de dobradiça mal lubrificada, chamou a atenção de Summer. Ela enrolou o cabelo em um coque alto e esticou-se na cadeira para ver quem era, imaginando se a secretária entraria em seguida para anunciar algum cliente apressado.

Seus olhos a enganaram quando a figura sorridente de Dougie Poynter entrou porta adentro, carregando dois copos de isopor nas mãos. Ele vestia jeans claros, surrados, tênis Converse e uma camisa xadrez que ficaria ridícula em qualquer um, menos nele. Summer olhou para ele perplexa, tentando entender o momento em que o universo resolveu sacanear com ela.

— Antes que você pergunte, eu estava em Londres de bobeira e resolvi convidá-la para um café. Como você estaria atolada em papeis e provavelmente morrendo de sono, eu decidi trazer o café até você. Cappuccino italiano, sem açúcar, com canela.

Ele colocou o copo de isopor e o aroma do líquido fumegante penetrou nas narinas de Summer. Ela ainda o encarava, boquiaberta, completamente assombrada.

— Ok, isso foi... como você sabia?

— Eu não sabia. – Dougie mentiu. – Eu estou chutando. Acertei?

Summer pegou o cappuccino e bebeu um gole. Estava perfeito; nem ela própria conseguiria fazer-lhe um cappuccino daquele.

— Assustadoramente. – Ela sorriu. A luz do sol, que se punha no horizonte, refletiu nos olhos dele. – Sente-se, conte-me as novidades. O que afinal você está fazendo em Londres, o Mcfly não está em Madri?

— Eu tive que retornar, mas volto hoje ainda. Espero que minha ausência nem seja notada.

— Então, você tem tempo para um jantar? – Ela olhou no relógio, já havia passado bastante do seu horário. – Eu nunca me senti tão sozinha nessa cidade; meus amigos todos moram em Yate.

— Claro que sim. – Ele sorriu, e por dentro estava tremendo. Dougie prometeu, para si mesmo, que não se colocaria mais no caminho de Summer, não da forma como ele tinha feito. Ele não podia contar para ela que ele tinha mentido, ele não podia tirar as chances dela de ser feliz com alguém. E ele sabia o quanto ela estava apaixonada.

-- FLASHBACK –

Dougie entrou no quarto de Harry naquela noite. O grupo já tinha viajado para a Bélgica, e ficariam por lá por alguns dias. Estavam todos em quartos bem definidos, e era madrugada. Ele entrou silenciosamente, não querendo ser notado por ninguém mais. Sentou-se ao lado da cama do amigo, respirando lentamente. Passou o dedo pela cicatriz na cabeça dele, olhou para Harry dormindo. Ele não odiava o amigo, nem estava zangado com ele. Harry o havia alertado, aquilo daria errado, definitivamente.

— Poynter? – Harry virou-se na cama, encarando o amigo. – Você quer sexo outra vez?

— Eu preciso conversar com você. – Ele disse. Era a primeira vez que Dougie agiria como um homem, e não como um garoto. Ele tinha dezenove anos, ele não deveria agir como adulto. Mas ele não podia continuar com aquilo. – Sobre Summer.

Harry sentou-se na cama, sonolento, e encarou o amigo.

— Dougie, eu acho que...

— Não, apenas escute. – Ele respirou fundo. – Eu amo Summer. Eu sei que isso pode parecer ridículo, porque eu não deveria amar uma garota que mal conheço, mas eu a conheço bem demais. Nós estamos juntos há mais de um ano, nós estamos juntos. Mas ela não me quer, na verdade ela quer você. Ela quis você, ela tem essa necessidade de te tocar, de... eu vi vocês no jardim, na hora do almoço.

— Eu sou um canalha. – Harry olhou para baixo. – Eu sinto muito, Dougie. Você viu, e ouviu?

— Sim. E eu não estou zangado, apesar de você ser um canalha. Eu deveria te odiar, Harry Judd, mas eu não posso porque a culpa disso é minha. Bem, eu decidi que não vou contar a verdade a ela, não agora. Eu quero entrar na vida dela, como eu mesmo. Você pode continuar saindo com ela, se quiser. Você pode vê-la nos concertos, se ela aparecer. Você pode... não, eu não quero pensar nessas coisas. Mas eu estou liberando você para ser você mesmo, e não eu. Se ela quiser ficar com você, assim mesmo, então ela vai ficar com você.

— Dougie, você acha que eu vou querer ficar com ela, estando você assim tão apaixonado? – Harry segurou a mão do amigo. – Eu não poderia, seria mais errado do que tudo.

— Se eu a amo, devo respeitar o que ela quer.

— Ela quer você. – Harry disse, com firmeza. – Mas ela não sabe que você é você! Acabe logo com isso, conte a verdade.

— Vamos ver o que acontece. – Dougie sorriu, e beijou a face de Harry. Depois deixou o quarto, liberando finalmente as lágrimas que estavam agarradas em sua garganta. Ele queria trancar-se no quarto e chorar novamente, tanto quanto chorou mais cedo. Talvez ele conseguisse colocar tudo para fora e sentir-se melhor.

-- FLASHBACK END –

Os dois estavam no Criterion, na Piccadilly. A mesa havia sido reservada por Dougie, utilizando seus contatos – já que haviam decidido muito em cima da hora para onde iriam. Já tinham tomado meia garrafa de prosecco, e destruído a entrada. Summer estava com fome, e ela sempre comia bastante. Não tinha problema com seu corpo, e suas curvas não lhe incomodavam em nada. Ao contrário, ela achava que era mais bonita, vestindo tamanho 40, do que as amigas, que vestiam 36.

A conversa com Dougie fluía facilmente. Ele era espirituoso, e muito jovem. Ela estava surpresa com o fato de que ele tinha apenas dezenove anos, mas divertiu-se com o fato de ele ser sagitariano também. Talvez por aquele motivo ela se sentisse tão conectada a ele, e talvez por aquele motivo ele e Harry se pareciam tanto.

— Então, Mr. Poynter. – Ela disse, enquanto ele a servia mais prosecco. – Você toca baixo! Eu tenho uma queda por guitarristas, mas acho que isso se estende a instrumentos de quatro cordas.

— Certamente que sim. – Ele sorriu. – E eu sou mais ágil tocando do que aqueles dois.

— Tom e Danny. – Ela confirmou. – Ah, é muito divertido ouvir Mcfly, sabia? Como eu não conhecia vocês, como eu não me interessei por vocês antes? Eu estou acompanhando tudo pelo website, mas eu não tenho nenhum álbum! Sugira-me uma música, algo que me faça... – ela iria falar algo que a fizesse pensar em Harry. Mas ela não quis, não achou justo. – ouvir você tocando.

— Eu toco em toda música, se você conseguir distinguir o baixo. – Ele riu. – E então, o que você quer comer?

— Acho que uma salada. Uma bem grande, porque estou com fome. E o camarão aqui é fantástico.

— Vamos pedir lagosta. – Ele definiu.

— Música, Dougie. Recomende-me, qualquer coisa. Você não tem nada para eu ouvir?

Dougie mordeu o lábio inferior, e puxou alguma coisa do bolso traseiro: Seu iPod, bastante usado. Colocou os fones, testou alguma coisa e moveu-se para o lado, em sua cadeira. Com um tapinha no assento, ele indicou que Summer deveria sentar-se ali, ao seu lado, para compartilhar os fones com ele. Ela franziu a sobrancelha, mas não resistiu e pulou para a cadeira dele. Não havia tanto espaço assim, e ela quase sentou-se por sobre seu colo. Dougie sentiu um arrepio, mas ele já deveria estar acostumado com aquilo. Sempre que Summer olhava para ele, era a mesma sensação. Ele entregou o fone a ela, e apertou play.

“... Some people hide their every desire

But we are the lovers

If you don’t believe me

Then just look into my eyes

‘Cause the heart never lies …”

Ela não sabia quem estava cantando. Ela conseguia ouvir o baixo, perfeitamente. Dougie era um bom baixista, e a música era muito boa. Fechou os olhos e pendeu a cabeça para trás, deixando-se seduzir pela melodia. E então aconteceu. O fone foi retirado de seu ouvido, tão lentamente que ela quase nem percebeu, e a voz de Dougie tomou o lugar da música. Ele completou a letra, cantando bem próximo a ela, que permaneceu com olhos fechados. A voz dele, o timbre da voz dele, fez acender uma luz vermelha nela. Summer abriu os olhos assombrada, e virou-se para Dougie com espanto. Os olhos dele estavam mais azuis do que deveriam ser, mas estava errado. Aqueles não eram os olhos que deveriam encará-la. Ela piscou novamente, e a voz dele ainda ecoava em seus ouvidos.

— O que houve? – Ele perguntou, realmente sem entender.

— Nada. – Ela mentiu. – É que você vive me passando essa sensação estranha, de que eu já conheço você há muito tempo.

— É só impressão. – Ele também mentiu.

A comida chegou, e eles comeram em silêncio. Summer estava com uma trava engasgada em sua garganta desde que ouvira Dougie cantando a música, mas ela estava errada. Era só impressão, como ele disse. Ela desistiu de pensar naquilo e tentou apenas curtir a companhia, que era muito agradável.

Já era mais de onze horas da noite quando Dougie deixou Summer na entrada de seu prédio. Ele sabia que não deveria ter ido até ela, e sabia que tinha decidido não fazer mais aquele jogo. Mas a ideia era ele se mostrar, e não fazer com que ela pensasse que ele ainda era Harry Judd. E parecia estar dando certo, mas ele não queria se animar muito.

— A noite foi ótima. – Ela disse, sorrindo. Ele estava no táxi, tinha que ir ao aeroporto pois precisava voltar à Espanha ainda naquela madrugada. – Obrigada, Dougie.

— Sempre às ordens. Alguma mensagem para Harry? – Ele provocou.

— Não exatamente. Diga para ele entrar no chat, eu estou com saudades.

Ela dobrou o corpo para dentro do táxi e beijou Dougie na bochecha. Ele fechou os olhos, sentindo a eletricidade fluir por seu corpo. Ele poderia beijá-la ali, naquele instante; ele poderia simplesmente puxá-la pelo pescoço e beijá-la. Ele poderia contar a ela, chutar o balde, sair daquele táxi e dizer o quanto a amava. Ele poderia, mas ele não fez. Ele simplesmente aceitou o que ela lhe oferecia e, com o corpo latejando, foi para Heathrow com um enorme sorriso no rosto.