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7 Parte 07 - Point Of View
O Mcfly teria mais uma última gravação no dia seguinte, e partiria em turnê pela Europa. Summer tinha que trabalhar, o que significava a separação inevitável de Harry. E, ainda, ela acreditava que ele não queria expor o relacionamento dos dois; ainda não. Quando acordou, Summer estava sozinha na cama de Harry. Ela abriu os olhos, com dificuldade, mas estava sorrindo. Ela passou a mão pela cama e não sentiu ninguém ao seu lado, mas o sorriso aumentou quando ela achou um bilhetinho e uma flor, com o cabo ainda úmido, por sobre o travesseiro.
“Estou em gravação. Nos vemos no almoço?
Eu te amo. Harry.”
Ela não conseguia parar de sorrir, quando levantou da cama, pegou sua roupa, que não era adequada para perambular pelo hotel, e recompôs-se para voltar para seu quarto. Ela tinha que tomar um banho e se preparar para o almoço. Ela sentiu falta de Harry desde o momento em que abriu seus olhos, mas tinha que entender que ainda sentiria muito mais – a falta física era impossível de se evitar, principalmente depois do que eles compartilharam na noite anterior.
No estúdio, Dougie foi o único que chegou sorridente, inteiro, sóbrio. O resto do grupo havia saído, bebido bastante e dormido muito pouco. Principalmente Harry – ele não tinha dormido quase nada. Talvez umas duas horas. Dougie levara Summer de volta ao hotel às 23h, então não tivera problemas com o sono. Estava radiante e emanava um brilho que causou espanto nos amigos.
— Poynter, que alegria toda é essa? – Danny resmungou.
— Estou com uma dor de cabeça infernal. – Harry procurava um analgésico em todo lugar. – E então, como foi o dia?
— Muito bom! – Dougie serviu-se de um chá. – Vocês estão péssimos, e ainda temos que gravar... Harry, vou precisar de sua ajuda de novo.
— Ah não, Dougie, não vou ter que ciceronear sua namorada de novo, vou?
Harry estava apreensivo. Ele não podia deixar Dougie perceber o que tinha acontecido, então tinha que agir naturalmente. Mas ele não sabia o que fazer.
— Namorada? – Danny não entendeu.
— Namorada de quem? – Tom chegava, e já estava curioso.
— Do Dougie!
— Desde quando Dougie tem namorada? – Danny estava confuso. – Vocês estão falando da senhorita da internet? A que ele...
— Sim, é ela mesmo. – Tom deu uma risada. – Nosso Dougie está apaixonado pela menina, mas eu não entendi por que ela apareceu no quarto do Harry ontem.
— Ele tem uma namorada de internet. – Danny franziu a sobrancelha – Que pensa que ele é Harry. Isso não vai dar nada certo, você ainda não contou a ela, Poynter?
— Eu não tive coragem. Mas o Harry vai me ajudar mais hoje, não vai? Nós vamos almoçar juntos, você precisa me fazer mais isso. Depois saímos em turnê, e eu ganho tempo.
— E o que vai acontecer quando ela beijar o Harry? – Tom perguntou. Todos ficaram em silêncio, olhando para ele como se ele tivesse falado algum absurdo. – O que foi, ela não vai querer beijar o Harry? Ela não está apaixonada, isso não é natural? E se ela for beijá-lo, e ele evitá-la? Ou se ele corresponder?
— Eu não tinha pensado nisso. – Dougie estava branco como cera de vela. – Eu não tinha...
— Eu disse que isso ia dar merda. – Harry agitou-se. – O que eu posso fazer, se ela se jogou nos meus braços?
— Ela fez o que? – Danny engasgou. O clima estava pesado, e o clima nunca era pesado no Mcfly. – Então quer dizer que já aconteceu?
Dougie olhou horrorizado para o amigo, que tinha o semblante assustado. Harry também estava branco como se tivesse visto um fantasma.
— Harry, o que você está escondendo? – Tom aproximou-se, falando em tom de voz baixo.
— Ela me beijou, ontem. – Ele torceu os lábios, baixando o olhar. Era o máximo que ele poderia contar, mas já era o suficiente para sentir vergonha por tudo. – Ela me interceptou na cozinha, antes de Dougie retornar para meu quarto, de manhã. Eu não sabia o que fazer, Poynter, isso é tudo culpa sua!! Ela deveria ser a sua garota, e não me beijar seminu no meio do meu quarto!
Os rapazes não conseguiram falar nada. Havia um silêncio pesado no ar, algo que não podia ser quebrado. Dougie baixou o olhar, tonto, desorientado, e afastou-se. Ele cambaleou até o banheiro, as duas mãos na cabeça, despenteando seus cachos loiros. Danny indicou com o olhar que iria atrás dele, e que Tom deveria cuidar de Harry. O mais responsável do Mcfly arrastou o baterista para uma sala reservada, acústica, onde ninguém poderia ouvi-los conversar, e decidiu fazê-lo contar o que estava engasgado em sua garganta.
— Fala, Judd. Conta tudo, agora. Ela te beijou ontem, a garota por quem Dougie está apaixonadinho?
— Ela me beijou. – Ele confessou. – Tom, a situação está muito pior do que parece. Eu... acho que deveria contar uma coisa. Você consegue fechar essa boca e guardar um segredo?
— Guardar segredo de quem, Harry? De Dougie? Do mundo? Da minha mãe?
— Eu passei a noite com ela, ontem.
Tom arregalou os olhos e colocou a mão na frente da boca de Harry, como se aquilo que ele disse não pudesse ser dito em voz alta em nenhuma hipótese.
— Você fez sexo com a garota do Dougie? – Ele sussurrou, tão baixo que o amigo quase não ouviu. E ele tinha os lábios quase nos ouvidos de Harry. Tom soltou a boca dele, para que ele pudesse responder.
— Era madrugada, eu estava bêbado, ela invadiu meu quarto. Para ela, sou eu que ela ama. Para ela, sou eu que ela quer. Eu disse a ele que isso ia dar merda, eu disse que eu ia acabar ferrando tudo, e pronto! Eu fiz. Quando eu vi, já tinha rolado. Agora, eu vou estar com ela no almoço. Isso está tão errado, Tom! Mas...
— Tem um “mas”?
— Eu gostei.
— Judd, nem abra a boca para dizer uma coisa dessas! – Tom colocou a mão para calá-lo, novamente. – Você tem ideia do quanto Dougie vai sofrer se souber isso? Eu sei que ele é culpado, que foi ele que criou essa situação, mas Harry!! Ela é a garota dele, mesmo que ela não saiba que é ele!
— E você afastaria Summer, se ela se oferecesse para você? Ela acha que me ama, Fletcher!
— Bem. Não precisamos lidar com isso agora, precisamos? Podemos sair em turnê em paz, você consegue apagar isso? Consegue, Judd?
— Sim! Claro que sim.
— Então, deixe Dougie na ignorância. Enrole a garota mais um pouco hoje, sei lá, mas não deixe ele perceber. Teremos tempo para pensar no que fazer enquanto passamos meses viajando por aí.
— Teremos? O problema é social, agora?
— O problema é nosso. Dougie é nosso bichinho, não podemos deixar que ele se perca. Muito menos que isso aconteça entre vocês.
Harry moveu os ombros, em uma concordância forçada. Ele não tinha nada a dizer para Tom, fazia muito sentido. Era melhor deixar que a ignorância permanecesse em Dougie; que ele achasse que tinha sido um beijinho à toa, um beijo roubado. Algo que Harry nunca havia pensando em corresponder.
Almoço no hotel, o Mcfly já não deveria se empolgar mais com aquelas coisas. Mas eles tentavam sempre se empolgar com qualquer coisa. Era divertido estar junto; eles tentavam manter aquele clima. Mas, daquela vez, havia uma mulher entre eles. Harry e Dougie estavam tensos, e praticamente não se falaram durante as gravações. E não se falaram no trajeto até o hotel. Tom e Danny tentavam contemporizar, melhorar o humor no grupo, mas não estava fácil. Eles brincaram todas as brincadeiras que sabiam, mas sempre um dos outros dois não participava.
E o almoço foi ainda mais complicado. Dougie, sem dizer nada, com os lábios retorcidos, indicou que subiria para chamar Summer. Harry não interferiria, ele já se sentia péssimo pelo ocorrido. O jovem loiro, com os olhos azuis apagados, foi até o quarto da mulher que ele considerava amar, e bateu à porta, ansioso e confuso.
— Dougie. – Ela disse, o tom de voz lívido. Vê-lo em sua porta não era mais frustrante. – Já chegaram? Ou vai me dizer que Harry ficou preso de novo?
— Não, não ficou. Estamos todos reunidos no restaurante, mas como eu vim pegar algo em meu quarto, ele pediu que te chamasse. Vamos?
Ela sorriu para ele, e o seguiu. Dougie era um rapaz jovem e fofo, ela sabia. Algo nele a fazia lembrar alguém, mas ela não estava certa de quem. Foi estranho, porque Summer desceu até o restaurante pensando em o quanto ele a fazia ter lembranças de algo que parecia pertencer a outra vida, a outra pessoa. Era como se Dougie fosse a reencarnação de alguém; como se fosse alguém que ela conhecesse bem, mas no corpo daquele menino de cabelos loiros.
O Mcfly estava na mesa do almoço, conversando e brincando como sempre. A presença de Summer deixou todos um pouco desconfortáveis, apesar de eles tentarem disfarçar. Ela sentou-se ao lado de Harry, e Dougie sentou-se na ponta, ao seu lado. Os outros dois rapazes sorriam e a cumprimentaram, e Summer não reparou que havia uma enorme tensão entre eles. Seus olhos perderam-se na figura de Harry no instante em que ela o viu, e ela não conseguiu mais prestar atenção em outra coisa. E ela estava certa, ele pretendia manter segredo sobre o que houve. Ele não queria contar a ninguém, porque ele não agiu como um namorado, como alguém que tinha acabado de passar a noite com ela.
— Então, você já contou a Summer que vamos sair em turnê? – Tom puxou a conversa que precisava acontecer.
— Não. Ainda não. – Harry baixou o olhar, deixando os talheres repousarem por sobre o prato. – Eu pretendia ter essa conversa em particular. Se você não se importa. – Ele sorriu para Dougie, tentando provocar o romance fraterno que havia entre eles.
— Assim eu fico com ciúmes. – Dougie tentou entrar na brincadeira. – Mas sim, você pode ter uma conversa particular com ela, contanto que o resto do dia seja meu.
— Do que vocês estão falando? – Summer não entendeu.
— Nada demais. É que nós somos um casal. – Harry riu, e todos na mesa o seguiram. Aquele era o Mcfly de sempre, que Summer ainda não conhecia, mas que divertia as fãs e que os mantinha unidos.
— Ele está brincando, claro. – Dougie não conseguia parar de rir. – Bem, eu acho que vou arrumar minhas malas. Eu vejo vocês depois?
— Vamos subir também, Harry precisa conversar em particular. – Danny levantou-se, puxando Tom pela camisa. – E nós temos mais o que fazer.
O casal ficou sozinho, mas aquele restaurante cheio de gente não parecia um lugar adequado para uma conversa. Mesmo que Harry não pretendesse ficar sozinho com ela novamente, ele tinha que fingir bem o suficiente para ela não achar que ele a estava dispensando, principalmente depois da noite anterior. Ele se lembrou da área de lazer do hotel, e do jardim interno que havia lá, e da facilidade que eles teriam em ficar sozinhos mas, ao mesmo tempo, sem a proteção de quatro paredes.
E ele a convenceu a ir até lá, o que não foi difícil. Summer tinha ficado apreensiva desde que Tom indicou que o Mcfly viajaria, e ela precisava saber detalhes daquela história. O jardim de inverno ficava no terceiro andar, um acima do restaurante. Foram pela escada, em silêncio. Harry segurou a sua mão, indicando que estava tudo bem. A luz natural penetrava por uma parede de vidro, e o jardim estava bastante iluminado. Era primavera, e as cores e aromas eram impressionantes. Ele parou de frente para ela, empurrando-a de encontro a uma mureta.
— Então, vocês vão viajar.
— Sim, em turnê. Já estava tudo marcado, eu provavelmente esqueci de te contar porque não queria...
— Eu sabia. – Ela disse, constrangida. – Você me disse, mas não disse quando. E eu li no website de vocês. Não é que eu seja uma fã do Mcfly, mas eu...
— Ficaremos meses em turnê. Não sei se será possível nos encontrarmos novamente. Não assim, com essa facilidade. Você entende?
— Claro, Harry. Não se preocupe com isso. Eu sou grandinha, eu nunca esperei mais de você do que você já me deu. Eu quero dizer... eu precisava ver você uma vez, tocar você uma vez, beijar você uma vez. E eu tive isso. Eu não vou me impor a você.
— Você pode ir a algum concerto. – Ele sorriu. Aquilo estava fora do script, mas ele não resistiu. – A gente pode sempre se ver escondido, fugir eventualmente.
— Talvez eu faça isso. – Ela aproximou-se, colocando o braço ao redor do seu pescoço. – Seus amigos vão achar que eu estou pervertendo você.
— Eu também sou grandinho.
— Eu te amo. – Ela disse, puxando-o para si e beijando-o nos lábios. Ela mentiu, ela esperava mais e precisava de mais. Ela queria estar com ele vinte e quatro horas por dia, mas sabia que não podia. Qualquer coisa que ela tivesse era suficiente, e melhor do que nada. Harry envolveu-a com seus braços também, correspondendo ao beijo. Ele tinha gostado, não mentiu para Tom. Mais do que ele devia, mais do que seria ético. Ele estava brincando com os sentimentos de Dougie, e aquilo era inadmissível. Mas ele não se importou.
Enquanto eles se beijavam, em uma despedida lenta e molhada, o rapaz torceu os lábios e bateu a cabeça na parede, fechando os olhos. Ele não queria mais ver aquilo, ele não podia ver aquilo. Ele sabia que era culpa dele, totalmente dele, e ele não podia responsabilizar ninguém mais pelo que estava acontecendo. Ele arriscava perdê-la se contasse que mentiu, e ele a perderia de qualquer forma se não contasse. Mas ele não queria ver. Seu coração estava em pedaços, estilhaçado, e ele nem sentia raiva de ninguém. Só uma imensa vontade de chorar, aquela vontade de desabar por sobre os joelhos e chorar até que os olhos se afogassem em lágrimas.
“... I never wanted anything to end this way
You can take a blue sky and turn into grey …
I don’t know how the hell I fell in love with you
I’d never wish for anyone to feel the way I do …”
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