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5 Parte 05 - The Heart Never Lies


Ano de 2008. Yate, Inglaterra.

A virada do ano não foi divertida para Summer. Ela vira Harry no
Ano Novo, e aquilo teve o efeito devastador que ela esperava. Na verdade, ela esperava um efeito bem menos devastador. A presença dele foi marcante demais, ela começou a sentir uma falta física que antes não existia. Harry não era real, não existia fora das telas do computador. Ele pertencia ao computador, pertencia ao telefone, e não ao seu mundo. E eles não se falaram depois do Ano Novo, não se falaram até iniciar fevereiro. Summer achou que pudesse morrer sem ele, mas segurou firme. Ela estava crescendo profissionalmente, e já era publicitária chefe de um setor de Marketing. Já estava graduada, e pensando naquele MBA que impulsionaria a sua carreira como se fosse jato de foguete. Seu chefe havia convidado Summer para realizar uma tarefa muito importante, e ela estava considerando se faria ou não. Era algo complicado, e ela precisava ponderar as variantes.

Mal sabia ela que também causara o mesmo impacto fulminante em Dougie. E que ele não era, nem de longe, quem ela pensava. Mesmo assim, contou radiante a Alice e Felicia a respeito de Harry, e do quão verdade era seu “relacionamento”. Ela sabia que não havia relacionamento, e que eles mal podiam se considerar amigos, mas ela tinha certeza que havia alguma coisa entre eles. Eram como partes, que se completavam.

Chegou em casa depois de conseguir a conta de uma importante empresa do ramo de enlatados e foi direto para o quarto. Não falou com os pais, nem quis saber se estavam em casa. Havia decidido por si mesma que se mudaria. Já estava cansada do irmão problemático a lhe perturbar, do casamento fracassado e fingido dos pais, das futilidades da irmã que insistia em aparecer sempre. Cansara daquela vida da alta sociedade. Preferia morar em um lugar mais simples, mas viver sua vida. E já havia começado a procurar por casas; vira algumas muito boas. Pensava até mesmo em transferir-se para Londres, mas ainda não tinha certeza. Depois da reunião naquele dia... ela estava confusa.

Ouviu o bip de seu pager e resolveu conferir quem lhe incomodava antes do banho de sais. Dougie estava lhe aguardando no computador. Ela sorriu, largamente. Conectou-se apressada, e desistiu do banho. Poderia fazê-lo mais tarde.

poison: Harry... que surpresa!

hawk: Estava com saudades...

poison: Eu também, mas achei melhor deixar você entrar em contato. Afinal, cada dia eu vejo você na televisão em lugares diferentes... vocês vão lançar mais um álbum?

hawk: Na verdade, estamos mesmo viajando muito. Vamos lançar um álbum de sucessos, mas não é para agora.

Fez-se uma pausa. Summer travou os dentes, ela tinha algo a falar.

poison: Mudando de assunto, sabia que eu devo me mudar?

hawk: Quanta mudança... de assunto, de lugar... vai se mudar para onde?

poison: Sabe que ainda não sei? Já pensei em me mudar para um bairro tranquilo de Yate, mas na verdade é provável que eu precise me mudar para outro lugar.

hawk: Que lugar? Eu conheço vários, pode apostar!

poison: Meu chefe quer me transferir para Londres.

Dougie segurou um sorriso.

hawk: Londres?

poison: Ainda não aceitei. Ficaria perto de você, não é? Mas eu já estou tão perto. É estranho.

hawk: Quer se mudar para cá?

poison: Não sei. Talvez seja torturante para mim saber que estaria mais perto de você e ao mesmo tempo tão distante. E eu não quero te assustar.

hawk: Summer... não sei o que dizer. Venha para Londres, eu te ajudo a ver uma casa.

poison: Você nunca faria isso. É ocupado demais.

hawk: Faria qualquer coisa por você. Sabe, andei pensando. Eu não me arrisco, nunca quebro regras. Acha que está na hora?

poison: Depende. Como pretende se arriscar?

hawk: Caindo de cabeça em alguma coisa que eu acredito. Mas primeiro preciso saber uma coisa: o que você teria feito se soubesse que eu não era eu? Quero dizer, se soubesse que menti para você?

poison: Que pergunta doida, Harry! Eu não sei... seria uma decepção imensa... eu detesto mentiras e hipocrisia. Mas você não mentiu, e era mesmo tudo que eu pensei que era.

hawk: Então você gostou de mim?

poison: Harry, é claro que eu gostei de você! Mas isso não era sobre mim... quem ia cair de cabeça era você.

hawk: E vou. Eu... bem, preciso te dizer uma coisa muito importante. E depois que eu disse não terá volta. Preciso aproveitar que estamos longe um do outro para minha timidez não atrapalhar. Eu... compus uma música para a mulher por quem estou apaixonado.

Summer sentiu uma faca lhe atingir o peito. Lentamente, a lâmina girou até arrombar seu coração e derramar todo o sangue sobre ela.

poison: E quem é essa sortuda?

hawk: Você.

poison: Eu?

Ela quis escrever alguma coisa, mas não consegui. Achou melhor deixar que ele visse sua indecisão.

hawk: Desculpe fazer isso assim, dizer dessa forma. Mas vou mentir para que? Eu estou sim apaixonado por você, acho que desde a primeira vez em que acessei esse computador maldito. Você é mais do que eu pensei que fosse, estou fascinado. Eu espero que possamos ser amigos apesar disso, eu não vou te importunar.

poison: E o que te faz pensar que podemos ser amigos depois de você confessar que está apaixonado por mim?

hawk: Bem, eu tentei. Se você não consegue separar as coisas, eu entendo. Seria difícil para mim também, eu entendo. Eu quero entender, pelo menos. Segurar a barra de ter alguém apaixonado ao seu lado, quando o sentimento não é recíproco.

Dougie estava mais falante do que de costume.

poison: E o que te faz pensar que o sentimento não é recíproco?

hawk: Eu pensei que você tinha dito.

poison: Eu disse que não seria possível sermos amigos, pois eu desconheço dois amigos apaixonados um pelo outro.

hawk: Quer dizer que você também sente alguma coisa por mim?

poison: Já sentia antes. Quando te conheci, tive certeza. Você me faz falta. Sinto seu cheiro por aonde vou. Por isso pensei em aceitar me mudar para Londres só ficar fictamente mais perto de você.

hawk: Então venha. Eu vou com você escolher uma casa. Aproveitamos para nos encontrar. Agora tenho que ir... estão me chamando e não vão me deixar em paz. Eu... eu te amo.

hawk lefts the chat:

Summer ficou boquiaberta, olhando para a tela inerte do computador. Já fazia muito tempo que ela conhecia Harry, e ao mesmo tempo eles só se viram uma única vez. E sabiam tudo um do outro. Ele era famoso, e ficava mais importante a cada dia. Ela era uma intrometida, mas a culpa era dele. Harry apoderou-se de seu coração sem dó nem piedade.

Ano de 2008. Londres, Inglaterra.

— Harry... você não vai acreditar no que acabou de acontecer. – Dougie cercou o amigo enquanto desciam para o jantar. Fazia algum tempo que estavam em Londres, apesar da agenda cheia. Gravavam videoclipes.

— O que? – Harry não parecia empolgado. – Você vai assumir que é gay? Porque podemos nos casar em algum país da Oceania.

— Não! Summer vai se mudar para Londres.

— Para fazer o que? – Harry comia alguma coisa que o amigo não identificou.

— Sei lá, ela só me disse isso.

— Oh, loucura. – Harry debochou. – Tá bem, e eu estou sabendo isso porque...

— Eu confessei a ela que estou apaixonado.

Harry coçou a cabeça. Dougie vivia se metendo em confusão!

— E confessou a ela também que você não sou eu e vice-versa?

— Claro que não. Vou precisar da sua ajuda de novo, algumas vezes. Se eu contar, ela vai ficar muito irritada. Ela gostou de mim, de você. Preciso fazer com que goste de mim também. Prometi que você ia ajudá-la a comprar uma casa em Londres, mas sou eu quem vai.

— Você está com os parafusos frouxos, Poynter. Eu já disse mesmo que isso vai dar muito errado, né? E ainda por cima ela vai pensar que sou canalha.

— Você vai só agir como um ausente. Não um canalha.

— Ela vai achar que eu sou um idiota... você vai ter que se explicar.

— Não vai. Quando ela gostar de mim também, eu conto tudo.

— Que ideia horrível. Você pode quebrar a cara, ainda é muito novo para se amarrar desse jeito! E eu já disse, isso está errado!!!

— Tenho 20 anos! E ela... ela é lindamente perfeita. Quero me amarrar a alguém assim pela vida inteira.

— Você vai fazer 20 daqui a muito tempo, garotinho. Mas não vou discutir, se quer fazer essa loucura, então faça.

Harry balançou a cabeça, negativamente. Dougie realmente só fazia besteiras, e ele teria que consertá-las depois. E ainda tinha que guardar os segredos do amigo.

Decidida a promover uma mudança radical em sua vida, Summer chegou em Londres naquele dia de sol. Ainda fazia um clima agradável, o verão tinha ido embora e o outono chegava. A temperatura era fria, no entanto. Ela já estava acostumada com Londres, e com toda aquela beleza. Ela decidiu aquilo de qualquer jeito; foi para Londres porque sabia que Harry estaria lá. E queria encontrar-se com ele, a qualquer custo. Principalmente porque eles estavam apaixonados, e ela precisava extravasar a paixão de alguma forma. Precisava tê-lo em seus braços uma vez que fosse.

Segurava um papel com várias informações anotadas e pegou um táxi para o hotel mais caro de Seul. Não que ela queria ficar em um lugar luxuoso, mas fontes seguras lhe informaram que o Mcfly estava hospedado naquele hotel, quando em concentração. Seus olhos acompanharam toda a cidade enquanto o táxi fazia seu percurso. Porém todos os seus pensamentos estavam voltados para a possibilidade de rever Harry. Ela não sabia que queria ver Dougie ao invés de Harry; Summer associava a pessoa certa à imagem errada. E naquele engano desculpado, ela entrou saltitante no magnífico Ritz e aproximou-se da recepção.

— Gostaria de um quarto. E de uma informação. – Ela sorria. A mulher que chegou para atendê-la não parecia muito simpática, mas Summer tinha no sangue a animação da terra em que nasceu.

— Estamos lotados, só temos suítes presidenciais.

Summer sentiu no tom da recepcionista que ela não parecia rica. Ficou até feliz porque não gostava de ostentar riqueza ou poder, mas em algumas vezes fazia falta parecer chique. Resolveu tentar de novo. Ela sabia que as suítes presidenciais eram caras, mas eram apenas poucos dias. Talvez um dia. Só queria encontrar Harry.

— Bem, então me dê uma suíte presidencial.

— Preciso de nome, documentos de identidade e forma de pagamento. Só aceitamos dinheiro e cartão de crédito.

Summer retirou seus documentos da bolsa, e também um cartão de crédito apenas para usos especiais. Tinha um alto limite e uma ostensiva cor dourada com letras pretas.

— Agora, gostaria de saber se...

— Quarto 1512. – A mulher jogou a chave sobre o balcão, e continuou a digitar alguma coisa. Summer sentiu-se mal ao ser interrompida.

— Eu gostaria de saber se Harry Judd está hospedado neste hotel.

— Não damos informações sobre hóspedes.

— Só quero saber se ele está aqui, não há nenhum problema nisso.

A recepcionista olhou desdenhosamente para Summer, e não falou mais nada. Ela desistiu de esperar a resposta que não viria e, desapontada, dirigiu-se ao elevador. Enquanto esperava foi abordada por um rapazinho que usava um chapéu engraçado.

— Não ligue para ela, está sempre azeda. Parece que chupou limão, mas é boa pessoa.

Summer sorriu.

— Imagino se não fosse.

— É que a informação que você quer não pode ser revelada, entende? Harry Judd é famoso, sei que você sabe isso. Mas, como está hospedada neste hotel mesmo, e vai acabar descobrindo sozinha, ele está no quarto 2030. O andar quase todo foi tomado pelo grupo... eles ficam aqui mesmo morando em Londres, é uma espécie de tradição.

Summer aproximou-se do ouvido do rapaz e o agradeceu, em voz bastante baixa. Naquele instante, o elevador chegou e ela dirigiu-se imediatamente ao vigésimo andar. Suas malas já tinham subido desde que começou a preencher a ficha, e ela não tinha levado tanta coisa. Uma valise com maquiagem, perfumes e outros acessórios fundamentais e uma pequena mala de roupas. Ela ficou confusa sobre o que vestir, afinal queria sempre parecer bonita para o homem que nunca via. Tremia nervosa quando o elevador sinalizou o andar no qual desceria. Não havia mais ninguém dentro e também ninguém na porta. O corredor imenso parecia totalmente vazio, e ela pensou estar em um lugar mal assombrado.

Caminhou hesitante até o quarto 2030, que ficava exatamente no final do corredor, e, concentrada, deu duas batidas na porta. Ouviu uma voz masculina.

— Deve ser o café.

O homem vestindo um robe atoalhado cor azul abriu a porta com dinheiro na mão. Arregalou os olhos assustado quando viu Summer sorridente à sua frente. Harry praticamente perdeu a cor.

— Você...

— Bom dia... incomodo?

Harry engoliu seco e pensou. Era a namorada de Dougie, ele pensou. O amigo tinha dito que ela iria a Londres, e que ele a ajudaria a ver umas casas. Claro, mas Dougie não avisou quando ela chegaria. Talvez ela tivesse se adiantado. Mas ele não queria entregar o amigo.

— Não, entre! Você me surpreendeu.

— Desculpe vir sem avisar, mas eu estava ansiosa demais.

Summer entrou na suíte de Harry e encontrou outro rapaz com ele.

— Esse é Tom, meu amigo.

Os dois se cumprimentaram. Uma sensação esquisita ficou no ar, Harry não sabia como avisava Dougie que aquela mulher estava ali. Ela era indescritivelmente linda, e ele percebeu que Tom ficou confuso ao vê-la. Ele lembrava que Tom já havia visto a garota no computador, e achava que era a namorada de Harry, inicialmente. Ele deve ter ficado confuso com aquela reviravolta. Mas Harry não tinha tempo de explicar, ele tinha que avisar Dougie.

— Summer, espere um segundo que vou ver por que o café ainda não chegou, e pedir para incluírem mais uma pessoa. Ou duas.

Harry beijou Summer na face, como imaginou que Dougie faria, e correu para o telefone. Discou atabalhoadamente os números do quarto dele e esperou o amigo preguiçoso atender. Teve certeza que Tom distraia Summer antes de começar a falar.

— Poynter, você precisa vir correndo pra cá.

— Harry? – Dougie ainda estava sonolento. – O que deu em você? São... nossa, nove horas. É, já está na hora de acordar.

— Poynter, presta atenção! Sua mulher está aqui! Vem rápido, eu não sei o que fazer.

— Quem está aí?

— Summer, Dougie! Acorda, droga! Ela está aqui no meu quarto... eu fingi que ia pedir o café da manhã e te liguei. Vem logo!

Harry desligou o telefone ao perceber que Summer se aproximava. O serviço de quarto chegara enquanto ele estava no telefone. Sorrindo amarelo, Harry elogiou o atendimento do Ritz, dizendo que eles nem o esperaram desligar para enviar a comida. Antes mesmo de ele chegar à sala novamente, novas batidas na porta. Era Dougie que chegava esbaforido, descabelado, tentando parecer natural.

— O que veio fazer aqui, Dougie? – Tom protestou ao ver o outro amigo entrando.

— Filar o café. – Harry disfarçou. – Acho que já conhece Summer, não, Dougie?

— Sim, nos conhecemos no Ano Novo.

— Ah, claro! – Summer cumprimentou Dougie. – Era o amigo que estava com Harry.

Tom não entendeu nada. Dougie sorriu para Summer e respirou, aliviado. A sua simples presença o deixava mais calmo e centrado. Ela era mais esperta do que ele previa, além de ter chegado de surpresa ainda fora diretamente procurar por ele... por Harry. Dougie se remoeu por dentro porque Summer via em Harry a pessoa que deveria ver nele, mas era sua culpa por ter mentido e ainda insistir na mentira.

Os quatro comeram o farto desjejum. Havia muito mais do que eles poderiam dar conta, e no cardápio dizia ser um café para duas pessoas. Summer divertiu-se por alguns breves instantes com as brincadeiras que faziam os rapazes, porque eles eram hilários. Tom se despediu logo depois de terminarem de comer, dizendo que ia encontrar Danny no estúdio mais cedo. Harry achou melhor descobrir com Dougie o que fazer com aquela mulher que havia surgido sem avisar. Cochichou alguma coisa no ouvido de Summer, que a deixou dando risadinhas, e depois arrastou o amigo para seu quarto.

— O que disse a ela? – Dougie ficou intrigado.

— Que eu ia conversar rapidamente com você sobre trabalho e depois ia te dispensar, para ficarmos sozinhos.

— Disse isso?

— Claro, Dougie!! Esquece que ela pensa que sou você? Para ela, isso faz sentido que eu diga. Quer o que? Diz à mulher que a ama e depois não quer ficar nem um minuto sozinho com ela? Ela tem que acreditar que eu sou você até você resolver desfazer essa besteira.

— Não posso agora! – Dougie rodava de um lado para outro. – Ela vai me odiar.

— Não vai. Mas é você quem sabe... eu não tenho ideia do que fazer com ela, e se isso me irritar muito vou acabar contando tudo.

— Por favor, Harry! – Dougie o agarrou pelo roupão. – Não conte nada... deixe que eu faço isso quando chegar a hora. Façamos o seguinte, distraia ela um pouco, eu vou para meu quarto, troco de roupa e volto dizendo que Tom está chamando para gravar o clipe. Enquanto você se arruma, eu converso com ela e descubro quais são seus planos. Depois te conto e vocês marcam a visita às casas.

— Belo plano. Só não sei se vai dar certo.

— Por favor.

— Tá bem! Sou mesmo um molenga, faço tudo que vocês querem! Agora vai, desaparece!

Dougie agradeceu o amigo e saiu da suíte sem nem falar com Summer direito. Quanto mais rápido ele fosse, mais rápido voltaria.