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1 Parte 01 - Met This Girl
Ano de 2005. Yate, Inglaterra.
Ela chegou em casa cansada de tudo, com os pés doendo e como se todo o mundo estivesse caindo sobre sua cabeça. Ela costumava se sentir assim sempre que seus pais brigavam, mas daquela vez eles nem ao menos estavam em casa. Ela estava sozinha com Angus, o cachorro, mas a mesma coisa que ela costumava sentir quando estava triste estava sentindo de novo, sem razão. O dia no trabalho tinha sido legal; o chefe não gritou com ela nem com a parceira Alice, melhor, disse que tinham feito um bom trabalho. Ela sabia disso, mas o chefe nunca tinha dito.
Com os olhos quase fechando, ela ligou o computador e conectou-se à internet. Ela amava a internet, mas o pai reclamava por causa da conta de telefone, sempre cara demais, e ela estava tentando não usar a internet o tempo todo. Mas o pai não estava em casa! Ele estava em um cruzeiro com a mãe, tentando salvar um casamento já morto, como se alguns momentos sozinhos pudessem mudar anos e anos totalmente errados. Já on-line, ela entrou em um chat room, com seu apelido favorito, poison. Ela adorava ser chamada de poison... talvez porque as pessoas costumavam pensar que ela era uma garota perversa, ou coisa parecida. Ela não gostava de ser a boazinha, mas sempre era.
Abriu o Windows Media Player, selecionou seu diretório de mp3.
"I don't wanna talk...
If it makes you feel sad
And I understand
You come to shake my hands..."
Abba. Ela decididamente não estava bem humorada o suficiente para ouvir Abba. Lembrar-se dos amores fracassados não era o que mais queria, nem do que precisava. Desligou a música, entediada.
O chat room estava chato como sua vida estava sendo aquelas últimas semanas. Ninguém estava falando nada, apenas algumas garotas procurando rapazes, e outros ridículos fingindo que eram homens. Então, ela notou um apelido novo que havia aparecido escrito em vermelho em seu monitor. O vermelho era a cor que identificava quem estava aberto para a conversa. Ela nunca tinha visto aquele hawk antes. A primeira coisa que ela pensou foi, um falcão! Talvez um homem poderoso, mas não, talvez um homem como ela. Tímido, fraco, tentando mostrar para todo mundo que era mais forte do que realmente era. A curiosidade de conhecer aquele cara tornou-se grande, e ela decidiu abrir uma janela para conversar com ele.
poison: Oi... podemos conversar?
Ninguém respondeu nada. Ela pensou que ele poderia estar em lag... e tentou de novo.
poison: Oi... tem alguém aí?
Nenhuma resposta novamente, e ela ficou zangada. Por que raios as pessoas faziam aquilo? Entravam em um chat room para não conversar? Seu péssimo humor colaborou para ter vontade de trucidar o desconhecido.
poison: Perfeito... por que você está em vermelho se não quer conversar?
hawk: O que?
Uma resposta. Ela sentiu-se menos irritada.
poison: Isso que você leu! Se você não quer conversar, por favor, mude de cor.
hawk: Que cor??? Sou novato aqui, e eu não entendo direito essas coisas.
Ela riu, mas lembrou quando ela era novata também, e levou um tempo bastante grande aprendendo como conversar, as gírias das pessoas, aquela coisa das cores.
poison: Bem... deixe-me explicar, então. Quando você entra no chat room, você está sempre vermelho, isso indica que você está aberto para conversar. Se você não está a fim, você tem que escolher outra cor... amarelo para away, preto para zangado, e outras. Você vai encontrar essas opções no lado direito da sua barra de tarefas.
hawk: Ah, agora eu entendo porque três janelas privadas abriram na minha frente. Obrigado, tchau.
Tchau? Ela não entendia realmente os homens, ela nunca entenderia. Eles eram tão complicados... ela tentou ser agradável e ele disse tchau!
poison: Você não quer conversar?
hawk: Eu não sei, entrei aqui porque estava chateado.
poison: Que coincidência, eu também. Minha casa está um tédio, você está em casa?
hawk: Não, estou trabalhando.
poison: Huh! Você está entediado no trabalho? Seu trabalho deve ser realmente devagar.
hawk: Na realidade não... é porque estou de folga agora, mas eu viajo demais. Estou em uma cidade estranha, uma língua estranha, pessoas esquisitas, cama diferente... se você pode me entender.
poison: Talvez. Eu não gosto de mudanças também. Eu prefiro minha casa, por mais chata que ela seja. =)
hawk: O que foi isso?
poison: Isso o que?
hawk: Isso... =) O que isso significa?
poison: Hehehehehe... você realmente é novo nessa coisa. Esse sinal significa uma carinha feliz, tente enxergar olhando de lado para o monitor.
hawk: Wow... legal! Eu não sabia disso.
poison: Bem, agora que você não vai fugir de mim, podemos nos apresentar? Quero dizer, você me diz seu nome, eu te digo o meu.
hawk: Eu não sei...
poison: Você está com medo? Pode ter certeza que não há exatamente nada que eu possa fazer com o seu nome... não sou uma feiticeira! =) Mas se eu perguntar sobre seu cartão de crédito... hehehehe.
hawk: Hahaha... ok, ok, você ganhou. Meu nome é... Harry.
poison: Ih, reticências! Seu nome é tão britânico!
hawk: É, eu sei! Diga-me o seu nome.
poison: Eu digo, mas prometa que você não vai rir.
hawk: Rir? Por quê? Você não vai me dizer seu nome?
poison: Eu vou. Mas meu nome é ridículo.
hawk: Eu não vou rir.
poison: Ok. Meu nome é Summer.
hawk: Summer! Que nome mais interessante... quero dizer... não é ridículo, é ótimo.
poison: Obrigada, você mente bem quando está online. As pessoas costumam não gostar do meu nome, acham estranho.
hawk: Sério? Talvez o nome combine com você. Talvez você brilhe tanto quanto o sol de verão.
Ela fechou os olhos. Nunca ninguém disse nada tão legal quando o assunto era seu nome. Summer nunca entendeu por que os pais tinham lhe dado aquele nome. Era horrível! E ela nunca teve sorte com relacionamentos. Ela teve alguns namorados, mas sempre os homens errados. Eles queriam seu dinheiro, sua Mercedes, seu status. E ela queria ser amada. Somente ser amada. Mas aquele estranho; ele disse tudo. Ela parou subitamente de se importar com o nome Summer.
poison: Desse jeito você me deixa sem graça.
hawk: Não fique assim, há milhas entre nós, e nem mesmo eu estou sem graça.
poison: Você é tímido?
hawk: Não exatamente.
poison: Então, me diga quantos anos você tem, Harry.
hawk: Minha idade?
poison: A não ser que você seja uma mulher, não vai ligar em dizer quantas velhinhas apagou por último. :o)
hawk: Ei! Esse é diferente... :o)
poison: Porque esse tem nariz. Vamos... idade!
hawk: Ok. Tenho 20 anos.
poison: Eu tenho 21, antes que você não pergunte.
hawk: Aha, essa foi boa. Bem, gostei de conversar com você...
poison: Isso já quer dizer adeus?
hawk: Eu não posso demorar demais por aqui.
poison: Por quê??? Se você está no trabalho, você tem que usar a internet o máximo que pode!
hawk: Eu não me importo com a internet. É o tempo; meus amigos estão me chamando, nós temos que terminar o trabalho.
poison: Ok... então, tchau. Foi legal te conhecer...
hawk: Podemos conversar outra vez, Summer?
poison: Outra vez? Quero dizer, quando?
hawk: Amanhã, no mesmo horário.
poison: Eu não sei.
hawk: Ok, estou forçando a barra. Eu não quero ser chato.
poison: Não, você não está forçando; para mim está tudo bem. Amanhã, no mesmo horário, nesse mesmo chat room. Por favor, use o mesmo apelido! Hehehe.
hawk: Ok. Tchau, então. Vejo você depois.
hawk deixou o chat room:
Ela leu a mensagem desapontada. Claro que ela adorou aquela conversa, tinha um bom tempo que ela não tinha uma boa conversa. Os amigos, todos que ela tinha eram do trabalho. E ela não tinha muitos amigos; Alice, Clarence e Felicia. As pessoas que ela gostava de conversar, sair, beber alguma coisa juntos. A família era uma tragédia. Ela tinha uma irmã e dois irmãos. O mais velho, Gregory, trabalhava em outro país e ela nunca o via. Ele costumava ser seu melhor amigo, mas a distância os separou. Então, o próximo filho era sua irmã Madeline, tão fútil! Mas ela era casada com um milionário; só gastava o dinheiro do marido em compras e viagens enquanto ele trabalhava duro. E o irmão mais novo era um adolescente retardado, cheio de problemas, conflitos, complicações. Ele fazia cursinho, mas vivia em casa arrumando confusão.
Ela se sentia tão diferente, afinal. Trabalhava em uma empresa de propaganda; primeiro ela pensava que precisava colocar à prova sua criatividade. Ela estava tão errada; mas ela gostava, enquanto trabalhava ela estava fora de casa. E estando fora daquela casa de doidos era quase uma benção. E então, depois de um dia simpático e umas sensações muito estranhas, ela encontrou alguém legal para conversar. Um homem simpático, talvez ele fosse bonito. Ela pensou naquilo a noite toda, idealizando como ele poderia ser. Ele não disse como era, mas ela podia idealizar, assim mesmo.
Somente quando acordou de manhã ela percebeu que era sábado, e ela não tinha que ir trabalhar. Ela precisaria gastar o dia em casa, com Miles e seus amigos malucos, ouvindo o tipo de música que eles costumavam ouvir, explicando para a arrumadeira o que fazer e coisas do gênero. Era realmente o que ela adorava fazer, serviço de casa. Ela sentia-se como uma dona de casa às vezes, principalmente quando a mãe estava fora de casa por muito tempo, e a mãe fazia isso sempre.
Mas ela não estava tão chateada como ela pensou que estaria. O dia passava devagar minuto por minuto, mas ela tinha um objetivo para o final do dia, finalmente. Ela tinha uma... conversa?!? Nem ela mesma entendia por que estava tão animada com aquilo, mas ela estava. Não se lembrava de por que se sentia mal na noite anterior, tinha dormido como uma pedra. Estava bem... passou o tempo esperando por aquilo, e nada poderia faze-la zangada como sempre. Quase noite, quando o sol não estava mais brilhando no horizonte, o telefone tocou. Ela já estava em frente ao computador, mas off-line, e seus nervos estavam em frangalhos. Ela estava em frangalhos. O telefone tocou de novo e ela quase não conseguiu pegá-lo, de tão nervosa que estava. E, estranhamente, ela nem sabia por que estava nervosa.
— Alô? – Ela atendeu, sem emoção.
— Summy? Sou eu, Alice. Como foi seu dia, garota?
Ela não queria falar com Alice, mas ela sentia um desejo terrível em contar para alguém aquela experiência que tinha vivido.
— Hei, Alice; eu estou bem. E você?
— Eu liguei para convidar você para ir ao cinema. A sessão especial de Gladiador!
— Oh, obrigada, mas eu não posso.
— Você não pode? – Alice não entendeu. Se tinha uma coisa da qual ela estava certa era que a amiga nunca dizia “não” para ver um bom filme. E Summer estava realmente excitada esperando por aquele.
— Sim, eu tenho outro compromisso.
— Eu estou ouvindo mal? Eu já comprei os ingressos, nós não precisamos esperar na fila! É o Gladiador Summer!
— Eu sei, Alice, mas... eu tenho um encontro.
Alice coçou a cabeça, sentou em frente ao espelho, procurando por alguma coisa imperfeita em sua face, com o telefone sem fio na orelha. Ela era mais que vaidosa, era a vaidade em pessoa.
— Você quer dizer que vai encontrar um homem?
— Sim... eu acho.
— E você poderia me explicar isso? Porque até agora não deu para entender o que você está falando.
— Eu tive uma conversa ontem à noite, um homem que conheci na internet.
— Deus, Summer! – Alice gritou no telefone. Ela realmente odiava quando a amiga agia como uma pirada. E Summer costumava agir muito daquela forma. – Eu estou te convidando para assistir a sessão mais esperada do ano, e você ama filmes, e você está dizendo “não” para mim porque você vai conversar com um cara estranho que você conheceu na internet? Eu realmente não posso acreditar que você é tão... é tão... nerd!
— Eu não sou! – Summer ficou envergonhada e chateada com Alice. Ela não entendia porque as pessoas pensavam que a internet era uma coisa estúpida e que ninguém poderia encontrar um amigo real lá. – Eu não sou nerd, apenas gostei de conversar com ele. Ele foi simpático, e gostaria de conversar comigo outra vez. Eu posso assistir ao Gladiador outro dia.
Alice resmungou alguma coisa e desligou o telefone. Ela estava zangada; Summer sabia disso. Mas ela esperou o dia todo para conversar com aquele estranho de novo, ela não sabia porque ela acreditava que ele iria aparecer, e ela não sabia por que estava atraída por ele, mas aquelas coisas eram reais para ela. Ela não deixaria nada daquilo por causa de um filme que ela já tinha até mesmo sabido a historia. Claro que Alice estava certa, ela costumava deixar qualquer coisa por causa de um filme, mas ela estava decidida a ficar em casa aquela noite.
Miles bateu na porta e disse que iria dormir na casa de um amigo. Como sempre... mas daquela vez ele decidiu contar para alguém onde estaria. Summer não estava nem um pouco interessada no irmão, ele era um problema, mas problema dos seus pais. Ela bem que o queria longe da casa mesmo, só assim ela teria paz. E ela precisava de paz, tanto quanto ela pudesse ter paz.
Ela ficou on-line e entrou no mesmo chat room do dia anterior, ligando o rádio quase no volume máximo. Estava tocando uma música muito mais ou menos.
"Tell me who do you love...
Who do you love…"
Summer sentiu um calafrio. Que música conveniente... ela digitou hawk e fez uma busca pelo chat room, mas não constava ninguém com aquele apelido por ali. Ela pediu informação e também não conseguiu nada; ele tinha estado on-line pela última vez na hora em que conversaram. Ficou apreensiva e pensativa; Harry era um nome lindo, mas para ela ele era apenas o hawk. Summer achava estranho como na internet as pessoas deixavam de ser elas mesmas e se tornavam a essência do apelido que usavam. Por isso ela considerava de grande importância saber escolher o apelido.
A música acabou, outra começou, depois o programa inteiro acabou e nada de alguém com apelido hawk entrar no chat room. Summer sentiu-se desapontada, triste, até mesmo desiludida. Claro que os homens não eram legais, e não havia exceção! Eram todos uns vermes, e gostavam de brincar com os sentimentos dos outros. Apenas como amigo serviam, se servissem, e para nada mais. Ela sentiu-se uma perdedora, nada do que acreditava costumava valer à pena, tudo parecia tão vazio. Summer costumava achar que era de outro planeta, ou pelo menos que havia nascido na era errada. Antes ela pensava que nascera no ano errado, mas depois de tantas diferenças entre as pessoas com quem convivia, teve certeza que era de uma outra era mesmo. Mas aquele não era o pensamento que a consumia naquela noite sem graça em que ela havia deixado um programa com sua amiga para esperar uma coisa que não aconteceria.
Depois de mais de uma hora online, esperando e navegando pela web para passar o tempo mais depressa, ouvindo um locutor chatíssimo na rádio local e desejando que tudo fosse um pesadelo, ela decidiu desligar. Como tinha sido tola, claro que ela tinha tido apenas um bom momento. Por que pensar que aquilo se tornaria alguma coisa diferente de um bom momento? Por que acreditar que algo mais tinha acontecido naquela conversa de minutos? Ela não poderia ser tão ingênua. Summer deixou o chat room e já se preparava para desligar o computador quando uma janela privada pulou em sua tela, fazendo o barulhinho insuportável do Windows para avisar que alguma coisa havia acontecido. Ela precisava se lembrar de desligar aqueles sons, e nem queria conversar com ninguém. Mas já que a pessoa havia se dado ao trabalho de achá-la conectada... Ela leu o apelido em negrito na parte superior da caixa de diálogo, e quase não acreditou quando viu o que viu. Escrito em letras diferenciadas e sublinhado de vermelho, estava hawk dizendo boa noite.
hawk: Boa noite... pensei que já teria ido.
Summer leu a mensagem cheia de raiva, querendo pegar aquele hawk e cobri-lo de pancadas até virar uma panqueca. Mas ela deveria responder; alguma coisa nela queria responder.
poison: Eu realmente já deveria ter ido... e era o que estava fazendo.
hawk: Desculpe, eu não pude me conectar antes, tive uns problemas para resolver. Ia entrar e deixar uma mensagem me desculpando e querendo marcar outra conversa.
poison: Você não queria realmente conversar comigo.
hawk: Então por que achei você?
Ela sabia que ele tinha razão, mas ainda estava magoada.
poison: Sei lá.
Fez-se uma pausa. Segundos sem ninguém escrever nada, segundos que pareceram horas.
hawk: Desculpe, mas se você não acredita que entrei para conversar com você, tudo bem. Vou indo, não sou mesmo muito amigo deste computador.
poison: Espera!!! Quer dizer, desculpe também, estou sendo tola. É que estava ansiosa, e quando achei que não viria fiquei magoada.
hawk: Ansiosa?
poison: É. Eu sei, tolice minha.
hawk: Não, é que é engraçado você ficar ansiosa por causa da nossa conversa.
poison: Estava fazendo o que?
Pergunta invasiva. Summer adorava invadir a intimidade dos outros, sua curiosidade não tinha limites. Mas ela não se importava se respondiam ou não. Importava somente em perguntar.
hawk: Terminando uma música. Uma gravação.
Novamente houve uma pausa.
poison: Não entendi.
hawk: Nem eu entendi por que falei =)
poison: Ah! Já aprendeu a fazer a carinha feliz! Mas não mude de assunto.
hawk: Eu trabalho com música.
poison: Que legal! Tipo... poxa, eu adoro música!
hawk: Que bom. Gosta de que estilo?
poison: Pop romântico, essas coisas.
hawk: Ah.
poison: Ih, que "ah" sem graça... Vamos, diga onde você está e de onde você é.
hawk: Quanta curiosidade!
poison: Estou esperando. Ainda tem medo de mim? Ainda acha que sou uma bruxa e vou fazer feitiços com as informações que me der?
hawk: Hahahaha! Não, eu estou na Alemanha agora. Mas na verdade sou Britânico...
poison: Mais reticências...
Summer ajeitou-se na cadeira, empolgada. Então ele deveria morar exatamente do lado da sua casa, e estava em outro país. Aquilo a deixou confusa, porque ela jamais imaginaria que ele estivesse tão perto dela quanto ele deveria estar – morando no mesmo país que ela, apesar de estar na Alemanha.
poison: Ahm... eu sou Brasileira. Na verdade, minha família toda é Inglesa, mas eu nasci no Brasil. Moro em Yate.
hawk: Sério? Na Inglaterra?
poison: Dã! Claro! Conhece outra Yate?
hawk: Não... só queria confirmar que somos do mesmo país.
poison: Claro que somos. Deixei-me perguntar, Harry. Você tem alguma foto?
Naquele momento, o computador travou. Summer tinha o péssimo hábito de fazer várias coisas ao mesmo tempo conectada, e seus downloads travaram o sistema. Precisaria reiniciar a máquina, reconectar. E rezar para que Harry não tivesse ido embora. Talvez ele tivesse pensado que ela tinha fugido. Sentiu novamente um calafrio; seu coração batia rapidamente.
Computador novamente funcionando normalmente, Summer entrou no chat room com seu segundo apelido, freak. O anterior tinha ficado preso; ela simplesmente detestava ficar presa. Para o bem de sua saúde física e mental, hawk ainda estava lá.
freak: Harry? Sou eu, Summer. Poison... minha conexão caiu e meu nickname ficou preso.
hawk: Ah, sim. Por isso não respondia minhas mensagens... hehe.
freak: Então, respondo agora. Você já me disse se tem foto?
hawk: Não... esse computador não é meu. Por quê?
freak: É comum trocar foto quando se conversa online.
hawk: Jura? Quanta novidade. Então você tem foto!
freak: Sim, estou enviando. Quando uma janela cinza aparecer, clique em "OK".
Ela fuxicou todos os seus arquivos mais preciosos procurando uma fotografia sua que pudesse considerar decente. Summer também detestava tirar fotos, nunca tinha feito um ensaio e pensava que era muito mais agradável pessoalmente que pelo papel. Mas... talvez ela agradasse Harry. E talvez ele se interessasse em mandar uma foto também. Ela não ligava muito para aparência física, mas era bom saber a cara de quem se estava conversando.
Alguns minutos se passaram, e Summer cada vez mais nervosa. Olhava em volta, cantarolava músicas desafinadas para passar o tempo. Pensou e todas as músicas que poderia cantar, em tudo que pudesse combinar com aquele momento.
"The winner takes it all..."
Angus invadiu o quarto com seu osso de borracha e começou um ruído frenético de mastigação. Ela nem se importava mais com o barulho do cachorro; era seu cachorro, ela o adorava. E Angus não sabia mais viver sem Summer. O velho Labrador caramelo estava deitado no tapete felpudo perto da cama. Assustou-se com o ruído do Windows avisando que um arquivo estava chegando.
Summer assustou-se. "Me.jpg" chegava para ela.
freak: Você me disse que não tinha foto.
hawk: Achei uma perdida. Seria indelicado se você me enviasse uma foto e eu não retribuísse.
freak: O que achou da minha?
Ela não tinha certeza se realmente queria a resposta daquela pergunta. Qualquer que fosse, poderia ter consequências trágicas. A foto de Harry chegou, ela clicou nervosa no browser de imagens. Sempre que estava nervosa, tudo dava errado. O Windows quase travou novamente, e ela ficou apreensiva. Um lindo homem, olhos estupidamente azuis, lábios fartos, sorriso iluminado, surgiu em sua frente. Aquele sorriso! Seu sorriso poderia deixa-la tonta facilmente. Summer precisou de tempo para processar a imagem que permanecia aberta em frente a seus olhos.
freak: Meu Deus do céu...
Ela escreveu, sem se dar conta. Harry ainda não tinha tido tempo de responder à sua pergunta.
hawk: O que houve?
freak: Diz que esse na foto não é você.
hawk: Algum problema?
freak: Sim! Quero dizer, não! Claro que não. Agora você me deixou torta.
hawk: Torta?
Ele parecia não entender as gírias de Summer. Um calouro bastante atrasado.
freak: É... uau... estou sem palavras. Não sei o que dizer mais. Passei a noite imaginando, tentando assimilar como você seria. Mas nunca poderia imaginar tudo isso. Estou até envergonhada.
hawk: Por quê?
freak: Oras, minha foto ficou rebaixada depois dessa que recebi.
hawk: Não acho. Só procurei a foto para enviar porque... bem, achei você muito bonita.
freak: Quem tirou essa foto?
hawk: Um fotógrafo.
freak: E ele ainda tem senso de humor!
hawk: Estou falando sério. Mas preciso ir. Acho que vou ficar um tempo desaparecido.
freak: Mas por quê? Minha foto assustou tanto assim?
hawk: Não, é que viajo amanhã cedo, não sei quando vou ter uma folguinha de novo. E eu não me adaptei bem a esses computadores, ainda.
freak: Ah, então acho que você vai ter que ligar para mim. Ahahaha, desculpe, mas fiquei de bom humor repentinamente.
hawk: Ligar para você? Bem...
freak: Não me leve a sério, Harry, eu só falo besteira. Estou brincando, lógico.
hawk: Não seria mal, mas seria complicado também.
freak: Complicado por quê? Você tem aversão a telefones também?
hawk: Não, eu não sou; mas se eu te der meu telefone, quem mais vai ficar sabendo?
freak: Como assim?
hawk: Summer, as pessoas não devem saber quem eu sou. Menos ainda onde estou ou estarei.
freak: Não entendi, mas não vou discutir. Claro que será segredo, acha que gostaria que alguém soubesse que vou fazer uma chamada internacional para falar com um cara que conheço há dois dias pela internet?
hawk: Ok... Vou te enviar um e-mail com meu telefone. Talvez possamos nos ligar.
Como o próprio nickname dizia, Summer estava enlouquecida. Em dois dias, conhecera um completo estranho pela internet e já estava falando em ligar para ele. E pior, depois de ele dizer que ninguém poderia saber dele. E se fosse um criminoso internacional?
Fazia pouco tempo que Summer voltara para a Inglaterra, e sua vida estava muito mais chata do que de costume. Desde que os pais resolveram tentar manter o casamento, e retornaram para o país de origem, ela precisou se ambientar na Europa. Tudo tão diferente do clima ‘caliente’ da América... mas ela conseguiria se adaptar, se não fosse tanta torcida contrária. Tanta gente para atrapalhar! De qualquer forma, Summer não pensou duas vezes e digitou seu e-mail para hawk. Fosse quem ele fosse, ela não deveria correr riscos. Faria tudo o mais publicamente possível.
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