One for you
5 V. Responda-me
Notas iniciais
Shinsou correu, o ar frio da noite cortava seus pulmões, os músculos das pernas queimavam e a respiração saía em baforadas irregulares. O coração batia loucamente no peito, o ritmo acelerado provinha tanto do esforço quanto dos resquícios do sonho. Ainda podia ouvir a voz dele como um sussurro distante, torne-se o herói que eu sempre soube que seria... queria estar lá para ver... o sorriso triste e o beijo na testa como uma benção, o toque dos lábios tão macios e de forma singela, tudo girava em sua mente, um looping interminável, acumulando-se e o impulsionando a prosseguir como se estas funcionassem como a carga de uma bateria que ameaçava se esgotar. Corra, corra, corra!
E ele correu.
Adentrou as portas duplas do hospital de fachada branca e azul antes mesmo que o sensor automático as houvesse aberto por completo. Empurrou as pessoas sem nem mesmo se preocupar em pedir desculpas, parando apenas ao sentir o braço ser segurado com força por uma das enfermeiras que trabalhavam na recepção. Não tinha tempo para isso agora! A dor em seu peito atingia um novo nível e um ruído parecia tomar conta de seus ouvidos, anestesiando-o. Precisava se apressar! Reagiu, antes mesmo que ela tivesse a chance de abrir a boca.
— Precisa me soltar, agora! – disse, a individualidade ativada, desejando agora, mais do que nunca, uma resposta.
— Não pode entrar correndo assim... – a fala dela morreu e seus olhos se tornaram opacos, o rosto uma máscara sem expressão.
— Solte-me. – Ordenou e ela o fez. Voltou a correr pelos corredores, o mesmo caminho que havia feito anteriormente, mas que agora parecia mil vezes maior. Não houve tempo para refletir o que havia feito, como usara sua habilidade de forma ilegal contra as pessoas e como isso influenciaria para que elas o temessem. Não podia evitar, a situação era mais séria do que o seu medo de rejeição. Era uma questão de vida ou morte. Eles certamente poderiam entender isso.
No corredor, uma confusão de médicos em seus jalecos brancos tumultuava a entrada do quarto. Eles corriam apressados, buscando equipamentos e berrando ordens, uma voz ecoava nos alto falantes “Código azul! Código azul! ” Repetindo e repetindo sem parar. Um choro angustiado e implorativo parecia vir do quarto, e ele se sentiu grudado no chão ao processar o que todas aquelas informações queriam lhe dizer. Três palavras pulsaram pelo seu corpo: era tarde demais.
— Não! – Seu grito não foi ouvido pelos profissionais, ocupados demais, curvando-se ao redor do pequeno corpo na cama. Shinsou correu, vencendo a paralisia que ameaçava o tomar e se lançou no meio dos corpos, empurrando e puxando o braço quando era agarrado em uma tentativa de impedi-lo passar. Ele os ignorou, saltou sobre os fios e se jogou ao lado da cama agarrando a mão de Midoriya com firmeza, os olhos percorrendo a figura debilitada, o rosto pálido, as manchas arroxeadas sob os olhos. — Isso não é você. Por favor, Midoriya, não faça isso! Não ouse desistir!
Vozes ainda discutiam ao seu redor, palavras soltas e frases desconexas chegavam aos seus ouvidos: “Já se passou muito tempo...” “Ele não vai resistir a mais uma ampola...” “adrenalina...” “declarar o óbito...” “hora da morte...” NÃO!
Agarrou os ombros, mais magros do que a lembrança de ser envolvido neles em um apertado abraço lhe diziam ser, e fitou o rosto que decorara tão bem com os dias passados juntos. O sorriso sincero e animado, a imagem de ser puxado, arrastado pelas ruas ao som de uma risada, o toque de ambos se misturando ao acariciarem os pelos macios de um gato; as imagens relampejavam por sua mente e o Hitoshi se agarrou a elas, apertando com mais firmeza os dedos que segurava, como se este pequeno contado os conectassem e por meio dele pudesse fazê-lo ver o que via, sentir o que sentia e responder ao seu chamado.
“Shinsou...?”
A voz hesitante falou em sua cabeça. O garoto a ergueu de súbito, o havia escutado, tão claro como se estivesse ao seu lado. Mas como? Como era possível? Mãos o agarraram, mais fortes e insistentes, e ele se permitiu ir, mas, ao se afastar, a imagem de Midoriya que mantinha em sua mente pareceu lhe dar as costas e começar a caminhar para longe. Uma ideia, um fiapo de esperança começou a se formar dentro de si contra a sua vontade, mas era como Aizawa sempre lhe dizia: “Às vezes não basta apenas força e habilidade, é preciso ter inteligência, criatividade e a coragem para executar quaisquer ideias que tiver. ” E aquela certamente era um pensamento desesperado, uma alucinação de alguém que se recusava a aceitar um fato, mas ele devia isso. Devia ao menos tentar.
Debateu-se, esforçando-se para se livrar das mãos que o prendiam, fazendo força para voltar para o lado dele. Uma chance, podiam ainda ter uma chance! Mas para isso eles precisavam o soltar, tinha de agir agora enquanto anda havia tempo.
— Me soltem, me soltem! Ele não está morto ainda! – gritou e as vozes dos médicos retornaram para contradizê-lo. Não deu ouvidos a nenhuma, eles não sabiam, não entendiam. — Não ligo para o que vocês acham! – O relógio que cronometrava o pouco tempo que tinha tocava o tic tac final em sua cabeça. — Se não me deixarem tentar, ele vai morrer. Ele vai morrer! Eu não posso permitir isso, por favor... – a voz perdeu o tom e passou a ser um mero sussurro, lágrimas ameaçavam cair, mas ele as conteve, mantendo o olhar firme focado no rosto barbado a sua frente. — Eu sei que posso fazer isso, por favor...
— Jovem Hitoshi... – a voz vinda do canto o assustou, ele não havia reparado que All Might e a mãe de Midoriya estavam presentes.
— Você pode salvá-lo? – os olhos verdes, tão parecidos com os dele o atingiram em cheio, e ele sentiu as pernas fraquejarem.
— Eu preciso tentar. Por favor... – algo em seu rosto a fez piscar para afastar as lágrimas, as feições moldando-se em uma expressão determinada como a que tanto admirava em seu filho.
— Soltem-no e o deixem tentar. Se houver uma chance, por mais mísera que for, eu preciso saber se funcionaria. Não posso perdê-lo ainda... – a voz se quebrou, mas os médicos se afastaram, abrindo caminho para Shinsou que se prostrou novamente ao lado da cama, ativando sua individualidade.
— Acorde! Levante-se! – disse com o máximo de certeza, com toda a vontade que tinha de retribuir todos aqueles abraços. — Midoriya, responda-me, acorde! – Fechou as mãos ao redor das dele e proferiu, reunindo toda força e esperança que ainda lhe restavam. — ACORDE!
“Shinsou!?”
E, por um segundo o tempo parecia haver parado e todos os presentes seguraram a respiração ao assistirem o corpo fraco se erguer de súbito da cama e abrir os olhos vidrados. Por um instante, o Hitoshi se viu refletido no negro das pupilas, cercado pelo verde de sua íris; e no seguinte, viu-se caindo por um longo túnel negro cujas sombras ao seu redor pareciam sussurrar em seus ouvidos e o vento cortar sua pele. A queda não parecia ter fim e quando pensou que estava chegando a algum lugar, flashes brilharam pela escuridão.
Assistiu as imagens passarem por si, cada vez mais rápido como um filme acelerado enquanto a queda não abrandava nem um segundo: uma criança encolhida e se balançando, lágrimas escorrendo pelo seu rosto enquanto os lábios repetiam febrilmente: “Sem individualidade. Sem individualidade.”; viu a mesma criança ser perseguida e as risadas zombeteiras dos colegas o lembrando daquilo que já sabia enquanto tudo que podia fazer era ouvir com os olhos marejados.
Inútil.
Incapaz.
Deku.
Vozes doces sussurraram advindas da própria escuridão. O tom envolvente parecia penetrar em seu próprio coração, relembrando-o dos próprios medos e incertezas, da rejeição sofrida quando sua individualidade, enfim, havia se manifestado. Abafou os sons, cobrindo os ouvidos, já havia superado aquilo. Decidira que provaria a todos que estavam errados.
— Midoriya! Responda! Onde você está? – gritou.
Mais imagens relampejaram: um garoto ajoelhado embaixo de uma ponte, fitando alguém como se o sol nascesse nessa pessoa; uma mão estendida e uma fala que alimentara todas as suas esperanças: “Então torne-se um herói.”; os dias de treinamento e a firme resolução de que iria conseguir, custasse o que custasse; então a dor, o medo, a dúvida de não ser capaz ao ter os ossos quebrados, vez após outra; e quando tudo parecera se acertar, o descontrole, a doença, o próprio corpo o traindo, negando-lhe a chance do seu sonho quando estava às portas de o realizar; assistiu a um pôr do sol e a decisão final, resistir o tempo que pudesse. E agora, o tempo parecia haver se esgotado.
Fraco. Você é fraco demais.
Não poderá salvar ninguém.
Essa não é uma individualidade de herói.
As vozes voltaram, como mãos geladas se arrastando pelo seu corpo, puxando-o para a escuridão, desejando o seu desespero. E pensar que Midoriya aguentara aquilo em silêncio por tanto tempo. O Hitoshi já se sentia sufocado, tentado a obedecê-las. Seu rosto apareceu nas imagens, um pedido de desculpas o seguindo. “Eu apenas gostaria de estar lá para ver.” E aquilo foi demais. Seu grito rompeu o coro de vozes que ainda tentavam o arrastar com elas. A voz, uma nota perdida naquela escuridão, um brado desesperado de alguém que já perdia suas esperanças.
E então, veio do fundo, o mesmo timbre que ele nunca esqueceria, uma resposta abafada pelas sombras que o envolviam, mas que era o suficiente para que seu coração se contraísse no peito.
— Shinsou!
Ele ainda estava ali!
Sacudiu os tentáculos para longe, impaciente, ansioso, e mergulhou mais fundo, a mão estendida, tateando o ar, buscando a forma que sabia se encontrar ali. O toque veio incerto, os dedos se entrelaçando aos seus como se duvidassem que aquilo que estava sentindo fosse real. As mãos se fecharam por completo uma na outra e todo o ar ao redor deles explodiu. As sombras se dispersaram como fiapos jogados ao vento e o ar permaneceu silencioso. No centro de tudo os dois garotos se encaravam, as lágrimas nos olhos de Midoriya pareciam brilhar e o sorriso dirigido a si era ainda mais belo do que se lembrava.
— Eu disse para não vir. – Izuku sussurrou.
— E desde quando eu te obedeço? – o Hitoshi devolveu. Felicidade se espalhava pelo seu corpo como uma onda de tsunami. Ele estava ali, estava bem, estava vivo! E a onda explodiu, as lágrimas desceram pelo rosto, toda a preocupação daqueles dias escorrendo com elas. Midoriya as limpou, gentilmente, as mãos permanecendo em suas bochechas mesmo quando o choro já havia passado.
— Eu sabia que você seria um grande herói. – Shinsou o segurou mais forte, puxando-o para si de modo que as testas se tocassem e os olhares não vissem mais nada além de um ao outro.
— Graças a você. – Tocou as sardas, agora destacadas no rosto corado, o cabelo vivo e macio sob seus dedos e, por fim, os lábios. Um encostar singelo com os seus, de meros segundos, mas que dizia muito. Eram palavras que em voz alta não teriam o mesmo significado, um sentimento de saudade, um pedido pela volta e por nunca mais partir novamente. Eram as batidas rápidas dos corações que em sintonia, se completavam.
Então, o ar pareceu vibrar e os dois, de braços jogados um ao redor do outro, ergueram a cabeça de forma simultânea e assistiram as sombras rodopiarem e se reunirem em uma enorme figura difusa. Não havia rosto ou membros reconhecíveis, apenas um turbilhão de raiva e ódio, de tormento e desespero, uma parte de sua mente que se condensara naquela forma, que aterrorizava seus pesadelos e corroía o seu corpo.
— Vá embora! – O Hitoshi gritou, mas a voz se perdeu nos murmúrios que enchiam o ar. O olhar recaiu em Izuku, a salvo em seus braços e uma lágrima caiu naquelas sardas adoráveis. Ele não tinha força o suficiente, não sabia se era possível controlar aquela coisa. — Então é assim que tudo acaba? Sem que mais nada possa ser feito? – Para sua surpresa, ele sorriu.
— Vou te contar um segredo, Shinsou Hitoshi, as coisas só acabam quando nós permitimos que acabem. Você provou isso vindo até aqui, provou isso ao me resgatar quando eu mesmo pensava que tudo já havia chegado ao fim. E tenho certeza que consegue fazer isso novamente.
— Eu não tenho mais força suficiente. – Era verdade. Shinsou se sentia esgotado, sua energia drenada pela escuridão que se amontoava, preenchendo os arredores, pressionando seus corpos a se entregar.
— Use a minha. Você não está sozinho nessa, estamos juntos aqui e agora. – Os braços ao seu redor eram como uma âncora, prendendo o Hitoshi as boas lembranças e a esperança de voltarem. — Vamos acabar com isso, juntos. – Shinsou sorriu ao ver em seu rosto aquela mesma determinação que o fazia querer se esforçar mais.
— Juntos. – repetiu, os olhos se voltando para a massa disforme que agora lançava seus tentáculos negros sobre eles. Aguardou, pois sabia que em breve aconteceria, sentindo a força de Midoriya o percorrer, os corpos encostados formando uma ligação entre eles.
“Não podem escapar. Vocês são fracos, pequenos e errados, desprezados pelo mundo e jamais se tornaram heróis. Jamais...”
Olhou uma última vez para o Izuku que lhe deu um aceno de incentivo, e projetou a voz que pareceu se amplificar e preencher todo o ar.
— Se nós somos fracos, o que você é se não passa de uma sombra da nossa consciência?
“Excluídos, errantes, sem valor...” as vozes tremeram e silenciaram. Shinsou engoliu em seco, surpreso por haver funcionado.
— Provaremos a todos que não somos fracos, seremos heróis. E para isso não precisamos de você. Suma daqui! VÁ EMBORA!
E, como um ruído que lembrava um sibilado, as sombras rodopiaram em torno de si mesmas, diminuindo, encolhendo em um ponto cada vez menor até que haviam desparecido por completo. Midoriya se pôs de pé, os olhos fechados, apreciando o silêncio e a sensação de paz que se abatia sobre o seu corpo. Se sentia muito mais leve, mais forte e mais centrado. Não havia peso em seu peito ou ruídos agudos para lhe incomodar, não haviam vozes, não havia mais escuridão. O negro voltava a ser tomado pela brancura infindável e pacífica. Era como se, enfim, a peça certa houvesse sido encaixada no quebra cabeça. Abriu os olhos e os fixou em Shinsou, que permanecia de joelhos, na mesma posição, como se o aguardasse. Seu olhar exprimia tudo que sentia, a gratidão por ele haver vindo salvá-lo.
— Venha, vamos voltar. – A mão estendida em sua direção era como uma corda lançada ao mar. — Aposto que todos devem estar nos esperando.
— Sim. – Segurou-a com força e jurou que nunca mais o soltaria. — Vamos para casa.
◊◊◊
Todos os ocupantes do quarto prenderam a respiração, os olhares focados nos dois garotos que se encaravam silenciosamente na cama. O monitor cardíaco apitava freneticamente, mas os médicos não moveram um dedo sequer, hipnotizados pelo milagre que era aquele ruído, certo como estavam que Midoriya estava, de fato, morto. E agora os dois se olhavam, absortos, olhos vidrados e lábios imóveis.
Por isso, vidrados como estavam, assistir à queda dos garotos foi uma surpresa. Os dois caíram ao mesmo instante e o monitor que antes disparava como uma sirene, alto e contínuo, silenciou-se em um único ruído linear. Todos acorreram e a mãe de Midoriya deslizou silenciosamente para o chão. “É minha culpa. Tudo minha culpa. Agora aquele garoto estava sofrendo também, tal qual o meu Izuku... Se eu não tivesse pedido... se eu não tivesse implorado... Minha culpa” as palavras se repetiam em sua mente, uma ladainha de dor e desespero, de alguém cuja última chance havia sido tirada e, ainda por cima, provocara algo pior. All Might caiu ao seu lado como se soubesse exatamente o que se passava em sua cabeça, refletida em sua própria. Um professor cujos ensinamentos não haviam servido de nada, não haviam sido úteis para nada. Nem ao menos pudera ajudar, e, ainda por cima, permitira ao jovem Shinsou se arriscar daquele modo. “Minha culpa...”
O círculo de jalecos brancos voltou a rodear a cama, gritando ordens e exigindo espaço. Tentaram separar as mãos unidas, mas estas pareciam grudadas e não davam sinais de que iriam se soltar tão cedo. O suor recobria a pele de ambos, a cor se esvaindo, sugada por uma causa que nenhum dos médicos presentes sabia definir.
A brisa adentrou o quarto vinda da janela entreaberta. O cheiro morno e suave de flores e luz do sol parecia zombar da tristeza que decaía sobre o ambiente. A visão dos dois garotos pálidos e deitados na cama não podia ser mais contrária ao dia que nascia, resplendoroso e imponente, uma visão de esperança, os raios de sol tingindo de amarelo e dourado os prédios e casas da cidade, afastando a escuridão e as sombras densas que vinham com a noite. A luz entrou pela janela, agora totalmente aberta, a brisa balançando a cortina translúcida, os raios atingindo a face dos dois, sombras e luz dançando nas pálpebras e nos cabelos, belo e mortal, início e fim.
E então, banhados pelos primeiros raios do dia, aconteceu. O corpo do Hitoshi pulou da cama, a coluna se erguendo e arqueando como se houvessem utilizado o desfibrilador e o corpo saltasse em protesto, a boca se abriu em um grito mudo e tudo o mais se silenciou. Os batimentos dispararam, subindo e descendo em picos agudos e afiados, agitados como se competissem com algo e tencionassem vencer. Rápido como um estalo, as linhas diminuíram, sua agudez se tornando menos pronunciada e mais suave, estabilizando-se em ondas que fluíam do mesmo tamanho.
Os presentes só podiam assistir, surpresos, o desenrolar dos acontecimentos: a tranquilidade que aquele ritmar contínuo trazia ao quarto e o seu significado aos poucos sendo absorvido, a cor voltava ao rosto, o rosado colorindo as bochechas antes apagadas, as sardas retomando o destaque no rosto. Até mesmo as bolsas escuras e pesadas abaixo dos olhos pareciam diminuir e se tornarem menos pronunciadas. Não havia ruído além do bip regular dos aparelhos, nem mesmo o som da respiração. Todos aguardavam, os olhos arregalados, as mãos de Inko trêmulas, esperando, o coração pulsando nos ouvidos, gritando não aguentar mais um suspense, mais uma ilusão que, por fim, falharia.
Shinsou se moveu, primeiro as mãos se fechando em si mesmas, então as pálpebras tremendo para enfim se abrirem. Observou confuso a roda de pessoas ao seu redor e recebeu sem entender o abraço que All Might lhe puxava. A mente se arrastava para processar os acontecimentos, entorpecida, uma parte duvidando, se perguntando se o que havia visto de fato havia acontecido. O que havia acontecido....
— Izuku! – gritou, afastando-se do abraço reconfortante e se voltando para o corpo ao seu lado, vendo com pesar que ele ainda permanecia de olhos fechados, imóvel. — Não! Você disse que ia voltar, prometeu que não ia desistir. Por favor, abra os olhos! Volte! – implorou, o rosto decaindo contra o peito do Midoriya, as mãos apertando, torcendo a roupa hospitalar entre os dedos, como se somente apertando-as pudesse se sustentar, pudesse puxá-lo para si e o acordar. Os olhos queimaram com as lágrimas. Depois de tudo, havia falhado. Fechou os olhos, não queria ver, não queria sentir mais nada. Desejava agora apenas afundar naquela escuridão e desaparecer por completo. Uma mão tocou sua cabeça, leve e quente.
— Está tudo bem, Shinsou, eu estou aqui. – Os dedos se fecharam mais forte, o corpo paralisado pela voz que pensava nunca mais poder ouvir novamente. A cabeça se ergueu, incrédula, absorvendo cada detalhe da cena que ficariam marcados para sempre em sua memória, para então se fixar nos olhos verdes que se abriam vagarosos e no sorriso como o sol que nascia aberto no rosto corado.
— Midoriya! – as mãos largaram as roupas e rodearam o corpo pequeno, afoitas. Era real, era quente, ele estava mesmo ali.
— Ai, ai, não tão forte... – Izuku pediu, mas sua voz foi abafada por um choro vindo do canto e logo sua mãe se jogava sobre si, apertando-o com força nos braços, jurando não soltar nunca mais o seu menininho.
— Izuku, Izuku, Izuku... – ela repetia como uma ladainha seu nome, apenas seu nome.
— Mãe... – antes que pudesse completar a frase, mais um par de braços o rodeou e os quatro se encontravam agora em um abraço em conjunto, entre lágrimas e agradecimentos, entre pedidos de perdão e de nunca mais os assustar assim.
— Não nos assuste assim, Jovem Midoriya.
— All Might... Eu sinto muito... Sinto tanto... – Midoriya sentiu o carinho e o conforto daquele abraço se alastrar por cada poro do seu corpo, as lágrimas e as palavras que reprimira por tanto tempo deixaram seus lábios, os braços enfaixados agarraram-se aquele momento, jurando para si que nunca mais aquilo voltaria a acontecer. — Eu não queria... nada disso... Me desculpem...
— Tudo bem, está tudo bem agora. – Shinsou lhe disse ao pé do ouvido, beijando de leve sua bochecha e a linha de lágrimas que escorria por ali. — Seja bem-vindo de volta.
Os olhos se fecharam por um segundo, absorvendo aquelas palavras e o significado delas, o amor e o calor daqueles que o amavam e que haviam sentido sua falta, apertou-os mais forte junto a si antes de voltar a abri-los e um sorriso lhe tomar a face.
— Estou em casa.
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