One for you
6 Epílogo
Shinsou parou em frente à casa, aguardando. Seus olhos percorreram da pintura branca ao pequeno jardim na frente, imaginando um Izuku ainda criança brincando naquele local com um de seus bonecos do All Might. Sorriu inconscientemente com a visão e voltou a si ao ver a porta se abrindo e duas pessoas se abraçando, ambas aparentando ter os olhos cheios de lágrimas. Acenou de onde estava para a Sra. Midoriya que lhe dirigiu um largo sorriso, ela ainda insistia em lhe agradecer por salvar o seu Izuku, embora sozinho não pudesse tê-lo feito, e aguardou Midoriya lhe alcançar após fechar o portão.
— Devia ter entrado, sabe que a minha mãe adora quando vem visitar. – Ele disse ao se enfiar embaixo do guarda-chuva que o Hitoshi segurava.
— Eu sei, mas não queria incomodar, afinal, agora que ela permitiu que você voltasse para o dormitório. – respondeu sem muita atenção, os olhos ocupados em seguir a aparência do outro, constatando com grande alegria que todas as feridas haviam desaparecido, deixando para trás nada mais do que leves manchinhas esbranquiçadas que apenas acrescentavam a mistura que era a pele de Midoriya.
— Foi um longo mês para todos. – Foi tudo o que disse. Shinsou sabia que a reabilitação fora dolorosa, Midoriya precisar se acostumar do zero com a sua individualidade até que pudesse usá-la de modo seguro novamente; também sabia que a mãe implorara para que ele não voltasse a estudar. Ele entendia o lado dela, quase o perdera uma vez e de certo não desejava passar por aquilo de novo. Por outro lado, sabia o quando aquilo era importante para Izuku e que ele também quase perdera tudo o que tinha sonhado. Os olhos verdes escureceram ao encarar o caminho que eles percorriam e ele podia notar que havia algo o incomodando.
— O que houve? – Ele hesitou, o velho hábito de esconder seu desconforto quase o impediu de responder. Sentiu a mão de Shinsou na sua, uma garantia de que ele estaria ali para o que precisasse, e respirou fundo antes de responder.
— Eu sinto como se já houvesse falhado. Tenho medo do que possa vir a acontecer, medo de que não possa me tornar o herói que desejo. E se eu não puder ser o Símbolo da Paz, se não conseguir me tornar um para todos?
— Você não precisa ser um para todos, Midoriya. Basta ser um para uma única pessoa. A partir do momento em que você toca aquela pessoa, passa a ser parte dela. E essa pessoa irá tocar outra que encontrará outra e mais outra e assim por diante. Não podemos ser um para todos, e sim todos devem se tornar um. Desse modo, só precisaremos ser um para ele. – Tomou a mão dele entre as suas, forçando-o a encará-los. O rubor nas bochechas era adorável e o brilho nos olhos verdes o fazia sentir em paz. As sardas se destacavam na pele como estrelas no firmamento, Shinsou queria muito beijá-las uma por uma, conta-las até que soubesse a exata posição de todas. Percebeu que o encarava muito fixamente e pigarreou para concluir o que dizia. — Foi isso que eu aprendi depois de tudo.
O Hitoshi desviou o olhar e fitou o céu, as últimas gotas de chuva caíam e as nuvens afastavam-se, abrindo espaço para um céu límpido e claro de fim de tarde enfeitado por um arco-íris cintilante. A vida exibia suas cores, refletindo no lago ao lado de onde eles caminhavam e banhando os prédios e casas com sua luz. Era grato àquilo, por poder sentir o sol na pele e apreciar a beleza do céu, porém, era ainda mais grato por ter Midoriya mais uma vez ao seu lado. Percebeu tardiamente que ele lhe falara algo e agora esperava uma resposta, o olhou confuso e recebeu um sorriso divertido.
— Desculpe, disse alguma coisa?
— Eu perguntei se havia alguém para quem você gostaria de ser um.
Naquele momento não era possível desviar os olhos, o verde parecia sugá-lo em uma espiral e tudo que sua cabeça conseguia pensar era no toque das mãos dele acariciando as laterais do seu rosto. O guarda-chuva caiu no chão e as mãos do Hitoshi foram parar no cabelo do Izuku, puxando-o até as testas estarem conectadas e as respirações se misturando em uma. O mundo poderia ter parado e nenhum dos dois o teria notado. Havia apenas o calor dos corpos, a umidade do ar e a comunicação silenciosa que os olhos travavam. Midoriya sorriu e Shinsou o puxou mais para si, lábios quase se tocando, antes de responder:
— Existe uma pessoa, teimosa e cabeça dura, que não tem medo de pular na frente se alguém estiver precisando de ajuda. Essa pessoa, apesar das dificuldades, continua tentando crescer e melhorar. Foi a responsável para que eu não desistisse de tentar. É a pessoa mais forte que eu conheço. – As bocas se tocaram, um leve roçar, e, com os lábios colados, Shinsou completou. — Eu gostaria de me tornar um para você.
Midoriya o puxou, as bocas se encontrando por completo, o gosto cálido e morno que se infiltrava por sua língua era como um bálsamo. Sentiu os dedos dele acariciarem as marcas remanescentes nos braços, no pescoço, no rosto, e sentiu o coração derreter com a delicadeza imprimida. Beijou-o com mais força, tentando colocar nas ações as palavras que carregava no peito, o significado que tivera para si ao ir salvá-lo quando ele próprio já havia desistido. Devia a Shinsou aquela chance e agora iria usá-la como devia.
Afastaram-se, a respiração descompassada e os rostos corados. O coração voando no peito no mesmo ritmo, uma sinfonia que indicava o seu futuro. Havia uma longa estrada a percorrer ainda, mas o desconhecido era uma aventura, o topo, a meta, e eles almejavam chegar lá, realizar os seus sonhos. Não mais sozinhos, mas juntos de agora em diante. As mãos se entrelaçaram e Midoriya disse em voz alta as palavras que vinha guardando no peito:
— Você já é, Shinsou Hitoshi. É o meu herói.
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