One for you
4 IV. Progressão
Notas iniciais
— Tem algo de errado, doutor?
Midoriya passara enfim no médico após semanas vendo as feridas aparecerem pelo corpo e não se curarem. Mas, para isso, tomou algumas precauções, como pegar um trem até uma cidade distante do local em que morava quanto da U.A e, claro, usar um sobrenome falso. Algo em seu interior, nos sonhos que vinha tendo, nas vozes distantes que gritavam em seu cabeça o haviam deixado alerta. As notícias a seguir certamente não seriam boas, tinha plena certeza disso ao ver a expressão do médico, a mesma que lhe perseguia quando criança, no dia que descobrira não possuir nenhuma individualidade.
— Isso pode ser cruel, mas... em suas condições, Izuku, creio que você não tenha muito tempo...
O silêncio preencheu o ambiente e o médico esperou pacientemente as palavras serem absorvidas. Os olhos verdes continuavam a fitar o vazio, opacos e desfocados, grudados em uma cena muito distante dali. "Você pode se tornar um herói." Agora essa não era mais uma verdade, pois como se tornaria um herói estando morto? A ausência dos seus costumeiros murmúrios indicava que nem mesmo a mente acelerada conseguia bolar um plano ou mesmo teorias para escapar daquela situação. Vendo o silêncio se prolongar, o médico resolveu intervir.
— Izuku? Tem alguém que queira avisar? Um parente ou mesmo um professor?
Os olhos subiram para o seu rosto ainda desfocados. Ele piscou e, de repente, parecia outra pessoa.
— Não, não. Está tudo bem. – Colocou um sorriso forçado na face. O médico franziu as sobrancelhas.
— Obviamente não está tudo bem. Eu acabei de te dar a notícia que você não tem muito tempo de vida, qualquer pessoa estaria surtando a essa altura.
— Bom, uma hora todo mundo há de morrer mesmo.
Humor negro. Os sentidos do médico apitaram, não era um bom sinal.
— De verdade, doutor, eu estou bem.
— Não, não está. – A mão se fechou ao redor do pulso magro em uma tentativa de contê-lo. — Precisa de tempo para assimilar a notícia, mas precisa da família também. Espere aqui, ligarei para sua mãe e esperaremos ela chegar para então conversarmos mais um pouco. Midoriya se deixou sentar e seguiu com os olhos os movimentos do médico até que este saísse da sala e o deixasse sozinho. Não ficaria ali para ver a reação do doutor quando descobrisse que todos os nomes e telefones para contato eram falsos e inexistentes.
Ativou o One for All e saltou pela janela, pulando pelos parapeitos dos andares inferiores até o chão de onde correu com tudo o que tinha. Não podia suportar ver o olhar da mãe, os olhos marejados e as lágrimas que ela não conseguiria conter. Podia imaginar as noites passadas em claro com ela chorando por sua condição. E a escola. Teria de abandonar U.A., abandonar All Migth que fizera tanto por si. Abandonar seu sonho que há tempos pensara ser impossível, mas que se realizara contra todas as chances. Não queria ver o olhar mortificado nos rostos dos colegas, a pena em seus olhos e a decepção na face de Shinsou quando contasse que precisaria quebrar sua promessa. Não queria ver. Não queria passar por isso. Não queria que tudo caísse por terra exatamente como estava acontecendo.
Sentiu as lágrimas caírem pelo rosto enquanto corria. A visão embaçada o impedia de enxergar com clareza, mas havia apenas um lugar para onde poderia ir em uma hora dessas. A praia. E, para isso, não precisava enxergar, podia sentir o caminho atraindo cada molécula do seu corpo. Aquele era o seu santuário, onde se sentia mais calmo e visitava para relembrar sua origem, os incontáveis dias passados ali, se esforçando para arrastar todo o lixo e, assim, ser capaz de receber o poder que lhe havia sido oferecido. Tudo isso em vão agora.
Sentado na areia abraçado aos joelhos, com o sol de fim da tarde a esquentar sua pele, Izuku pensou em tudo que deixaria para trás e no que deveria fazer. Não queria que as coisas mudassem, logo se manteria calado. Não contaria nada a ninguém e inventaria alguma desculpa para o seu sumiço naquele dia. Permaneceria ao lado das pessoas que lhe eram importantes até o último suspiro que tivesse para dar. E quanto a ser o próximo símbolo da paz, bom, All Migth precisaria encontrar um novo substituto. Talvez um até melhor do que ele, com uma boa individualidade, ou mesmo poderia passar o One for All a Mirio que havia perdido a sua. O rapaz certamente merecia.
“Isso mesmo, você não é forte o suficiente. ” As vozes sussurraram e sua mente, envoltas em sombras e tentáculos sufocantes de negação, enrolando-se a sua volta e o puxando para o fundo de um poço que, se caísse, não haveria mais volta. Mas Izuku já havia aprendido a não lhes dar atenção. Prometera a si mesmo que nunca mais ninguém o chamaria de fraco ou de inútil. Era Deku, e iria conseguir.
Levantou-se, decidido. Por aqueles que amava suportaria o que viesse e ficaria o máximo que pudesse ao lado deles, não ia ser uma coisa boba como uma doença que iria vencê-lo. Fechou o punho e o ergueu no ar, em direção aos últimos raios de sol que indicavam a chegada da noite.
— Eu juro que vencerei!
Mal sabia ele o quanto a luta seria difícil.
◊◊◊
Midoriya caiu contra o vaso, a boca do estômago se contorcendo, a ânsia pulsando por todo o caminho até a boca, fazendo-o se curvar. Queimava. Queimava. Todo o seu interior queimava. A torta que Uraraka lhe levara não sustentara uma hora em seu corpo, precisando correr para o banheiro antes mesmo que a amiga saísse após a sessão de estudo. Tossiu, a saliva escorrendo pelos cantos da boca e a respiração rascante a cortar o peito.
O ar faltava. Já podia ver os pontos pretos piscando em sua visão, mas não podia desmaiar agora. Uraraka o esperava do outro lado da porta. Levou as mãos à garganta, descendo-as pelo peito em uma massagem, forçando o ar a percorrer o caminho até os pulmões, acalmando-se aos poucos embora a dor não o deixasse. Tossiu uma última vez e as gotas de sangue acompanharam o gesto.
— Deku, Deku, está tudo bem? – Uraraka batia a porta, tentando ouvir o que se passava do lado de dentro.
— Sim, só um momento. – Midoriya respondeu, a voz rouca arranhando a garganta. Limpou o sangue, conferido que este não havia manchado suas roupas e ergueu-se do chão indo em direção a pia, lavando o rosto, os vestígios da crise e o suor frio que cobria a pele.
Saiu de lá com os cabelos úmidos e manchas molhadas na camisa para o olhar surpreso da amiga.
— Mas o que aconteceu?
— Acho que a torneira quebrou, olha o banho que ela me deu! – Forçou a risada enquanto ouvia os comentários certeiros dela. Se dependesse dele, seus amigos não saberiam e assim não ficariam preocupados.
◊◊◊
A noite estava silenciosa, nem mesmo era possível se ouvir o cricrilar dos grilos ou o pio ocasional de uma coruja em sua caça noturna, nem mesmo os cães que latiam nos prédios ao redor erguiam a voz naquela noite. Era uma noite silenciosa, todos diziam, então por que havia tanto barulho em sua cabeça? Por que não podia fechar os olhos sem ouvir aquele som agudo e penetrante, tão afiado quanto uma broca a lhe perfurar o cérebro?
Puxou o travesseiro e cobriu o rosto com ele. Não adiantou. O zunido continuava a soar em seus ouvidos, tirando-lhe o sono noite após noite. Ecoava em sua cabeça e se repetia, repetia e repetia a ponto de Midoriya já não saber mais separá-lo de seus pensamentos. Gemeu e se virou na cama, os olhos lacrimejando no escuro. Doía. Tudo doía. Seu corpo ardia e em seguida congelava, coberto de suores e calafrios que faziam seus dentes baterem.
Apertou mais o travesseiro contra as laterais da cabeça, pedindo, implorando para que passasse logo, sentia falta dos longos períodos silenciosos, entrecortados as vezes pelos roncos dos colegas, nos quais sua mente vagava de bom grado por tudo que havia visto no dia, pelas individualidades que analisara na rua e que logo se encontravam escritas em seu caderno e por fim chegavam a All Might e o sonho que agora fazia seu coração doer tanto quanto sua cabeça.
Lágrimas despontaram nos olhos e ele mordeu os lábios com força para contê-las. Já não era mais aquele garoto chorão que caíra de joelhos naquela ponte quando fora salvo e não seria agora que voltaria a sê-lo. Uma exclamação de dor escapou de sua boca, um lamento abafado pelos travesseiros nos quais se enfiava agora, coberto dos pés à cabeça, os tremores se espalhando pelo corpo e o crânio vibrando como se estivesse prestes a rachar.
Por favor que a manhã chegue logo... Por favor que a manhã chegue logo... repetiu diversas vezes para si mesmo. Com a manhã viria o fim daquele ruído ensurdecedor e mais um dia que precisaria manter a postura animada, mesmo que o corpo reclamasse e parecesse rasgar a cada passo. As manchas escuras haviam piorado, espalhadas agora por todo o seu busto e parte dos ombros. Envolvi-as com ataduras e evitava trocar de roupas perto dos demais colegas, embora pudesse sentir olhares questionadores em sua direção vindo principalmente de Shinsou e de Todoroki, enquanto Kaachan apenas lhe mandava deixar de ser “bunda-mole”.
Um leve erguer de lábios lhe fugiu do controle ao lembrar do amigo, mas logo foi abafado por uma onda de náusea que o fez se arrastar pesadamente até o banheiro e se debruçar sobre o vaso, expelindo o conteúdo que não havia em seu estômago. Engoliu o ar, necessitado e tossiu, engasgado com a própria saliva. Ergueu a cabeça e fitou a luz da lua que adentrava pela janela aberta e alcançava a porta que não tivera tempo de fechar. Limpou o canto da boca, cuspindo uma nódoa de sangue e pediu mais uma vez, enquanto o ruído voltava a lhe importunar e as mãos ao redor da cabeça não eram suficientes para impedi-lo.
— Por favor, que a manhã chegue logo...
◊◊◊
— O que deu em você para sair mais cedo da aula e me arrastar assim? – Shinsou perguntou desconfiado. Os dois saíram correndo ao ouvir o toque da sineta que anunciava a última hora do dia e agora Izuku saltitava a sua frente, balançando os braços murmurando para si. Era adorável de se observar a inocência presente nas ações, ele simplesmente não conseguia desviar os olhos. O calor os forçara a retirar as gravatas e o casaco pesado do uniforme e uma brisa refrescante correu, amenizando o suor que escorria pela pele. Ele brincou com a pergunta antes de enfim respondê-la.
— Eu apenas tive vontade. – Midoriya sorriu, disfarçando o gosto ruim que lhe subia a boca. — Ouvi a Yaoyorozu falar dessa nova sorveteria com bastante gosto e fiquei com vontade de provar um pouco. Não gosta de sorvete?
— Que espécie de pergunta é essa? Quem no mundo não gosta de sorvete?
— Talvez uma individualidade que não permita o usuário comer, ou que seja uma fraqueza de alguma forma.... Já imaginou se comida fosse algo como veneno para essa pessoa, ou talvez ela não pudesse ingeri-la em forma sólida, apenas como líquido. Sabe como é horrível não sentir mais o gosto dos onigiris enviados por sua mãe ou poder acompanhar os colegas na cantina sem desejar expelir tudo o que comeu? E ainda... – o murmúrio se tornou mais intenso e o Hitoshi tapou sua boca, preocupado.
— Você parece saber bastante sobre o assunto. Está mesmo tudo bem, Midoriya? – desviou o olhar, constrangido por deixar suas frustrações escaparem daquela forma quando havia prometido a si mesmo não mencionar nada para o amigos.
— Sim, eu apenas pesquisei bastante sobre isso. – apontou em direção ao prédio no formato de uma casquinha de sorvete e arrastou o Hitoshi consigo. — É aquele ali, vamos! Mal posso esperar!
Shinsou riu da animação dele que quase saltitava na ponta dos pés de ansiedade enquanto aguardavam as casquinhas ficarem prontas. Quando recebeu a sua de morango, puxou a colherzinha e colocou-a na boca com gosto. O Hitoshi riu do gesto e assistiu os olhos dele se arregalarem.
— E então, como está o gosto?
— Muito bom! – ensaiou um sorriso de volta, estava ficando cada vez melhor nisso, mas por dentro sua mente repetia sem parar. Não. Não. Não. Não pode ser. Por que eu não sinto o gosto? Por que? Fez um esforço tremendo para que os olhos não se enchessem de lágrimas que certamente só aumentariam a desconfiança que Shinsou tinha e levou outra colher a boca. Nada, mais uma vez nada. Era como se nem mesmo estivesse comendo algo, embora pudesse sentir o gelado na língua, mas o gosto era de longe inexistente. Apertou a colher entre os lábios e acompanhou o Hitoshi de volta à escola, num silencio que a ele pareceu agourento.
— O que houve? Não está tão bom assim?
— O quê? Não! Está ótimo! Tão bom que até fiquei sem palavras. – o amigo franziu as sobrancelhas, ainda em dúvida, aquela risada lhe parecera tão fraca, tão irreal, era como se Midoriya estivesse fingindo. Mas, antes que pudesse insistir mais no assunto, ele continuou. — Relaxa Shinsou e trate de comer logo o seu ou eu irei fazer isso por você! – e como se para provar seu argumento, ele enfiou a colher no seu sorvete de flocos e roubou uma grande parte antes de sair correndo.
— Midoriya! – Reclamou. — Ora seu! Volte aqui!
◊◊◊
— Pode deixar, eu pego!
Aconteceu num segundo. Em um instante estava correndo em meio ao campo de treinamento, vendo Kaachan seguindo em sua cola pelo canto do olho; no outro tropeçava pelo escuro, sem ideia de onde estava ou de qual direção seguir. Sua cabeça pareceu se partir. “Agora não. Por favor, agora não! ” Implorou, correndo às cegas pela escuridão em busca de uma saída. Não. Não. Não! Não agora, por favor! Não na frente deles!
Acelerou os passos, mas o negrume engolia todos os sentidos. A respiração se tornou ofegante, mais, mais, alguma hora hei de encontrar a borda, alga hora há de ter um fim! E então o choque. Colidiu com força contra a parede da área de treinamento e o corpo voltou-se para trás com o impacto, parando no chão, a cabeça girando, atordoado e com um fio de sangue escorrendo a partir de um ponto da testa. Ao que parecia sua individualidade havia se descontrolado e investido com mais força do que pretendia inicialmente.
— Para onde você pensa que está indo, seu nerd!
— Jovem Midoriya, você está bem? – All Migth correu ao seu socorro com uma expressão preocupada.
— Sim, sim, eu estou bem! – levantou-se rapidamente desejando evitar mais perguntas. — Só me distraí por um instante e quando percebi a parede já estava em cima. Sinto muito, Kaachan!
— Deku, seu idiota! – O Katsuki gritou. — Se fosse para perder o alvo, eu mesmo teria feito todo o trabalho!
— Sinto muito mesmo! Eu me distraí! – Repetiu, coçando os cabelos e sorrindo envergonhado.
— Tsc. – o olhar irritado o deixou aliviado. Bakugou era muito inteligente e Midoriya sabia que se desse alguma chance ou deixasse transparecer mais do que devia, ele logo suspeitaria e acabaria por descobrir o que estava acontecendo. E aí seria o fim. Só mais um pouco, eu preciso aguentar.
Mas então todo esforço que vinha fazendo ruiu, exatamente como o prédio em que pulara para salvar aquela garotinha.
Porém, ele não se arrependia de nada.
Faria tudo novamente se fosse necessário.
◊◊◊
Midoriya flutuou naquele lugar claro e agradável, agradecendo por ali não haver dor, não haver zunido ou lapsos de cegueira que o machucavam. Ali havia apenas o nada. Ou era isso o que pensava ao ver as cores se espalharem pela brancura anestesiante, quadros pintados que lhe pareciam estranhamente familiares.
As mãos se fecharam em punhos, não queria vê-los, não queria sentir a pontada de culpa e nostalgia que o atingia todas as vezes que o viam. Rostos conhecidos, um sorriso adorável, a lembrança de um gato, o calor de um abraço, o tom de preocupação em várias vozes.
Não significam nada, uma voz em sua cabeça disse suavemente.
Isso mesmo, nada, outra concordou
Apenas deixe passar, elas vão desaparecer, uma terceira voz mais doce se juntou as outras.
Isso mesmo.
Deixe-se afundar.
As vozes aumentaram e se juntaram ao coro, implorativas, convincentes, tons amenos que o faziam apertar as pálpebras e o músculos do corpo relaxarem. O coração batia de forma cada vez mais lenta e a respiração saia em pequenos arquejos tranquilos.
Sonolento. Ele estava tão sonolento.
Isso mesmo.
Durma.
Não precisa resistir, as vozes prosseguiram.
— Eu só preciso dormir... – murmurou, dormente, as pálpebras fechando, deixando de ver aquela brancura agradável.
Caindo lentamente, as cores sendo sugadas, o branco se tornando negro. Fundo e mais fundo.
Até que não havia mais para onde cair.
Até que todo o som cessou.
Até que não havia mais a si.
Até que não havia nada.
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