One Fics

1 Carta de Suicídio


A dor estava estampada no rosto de cada um ali presente. Todos trajavam preto, com exceção da convidada de honra. Sempre achei que esse tipo de cerimonia era feita da forma errada. Ela passara a vida toda fazendo de tudo para ver as pessoas sorrirem, forçando os próprios sorrisos, com a intenção de não preocupar a ninguém.

No fundo, todos sabíamos como ela se sentira nos últimos meses. Uma desventura após a outra, apenas tragédias a estavam cercando ultimamente. De qualquer forma, todos ali possuíam o semblante claramente afetado. Ou pelo menos fingiam bem. A verdade é que todos iriam para suas casas mais tarde, ligariam a TV e assistiriam a novela, seguindo normalmente com suas vidas tediosas, enquanto a dela acabara tão cedo.

Sim, era um velório, caso esteja se perguntando. Todos ali choravam deprimentemente, enquanto, em minha humilde opinião, deveriam estar rindo. Era o mínimo que poderia ser feito por ela. Ela ficaria brava se nos visse assim. Ela faria bico e depois de alguns segundos começaria a fazer palhaçadas, contar piadas bobas ou apenas fazer caretas mesmo. Tudo com o único e pleno objetivo de nos arrancar sorrisos e gargalhadas.

Por que, afinal, as pessoas ficam tristes em velórios? Já não deveriam estar prontas para isso? Afinal, é a única certeza que todos possuímos. A morte. Como, quando e onde são incógnitas até acontecer, mas sabemos que vai acontecer. Eu sabia que aconteceria, mas nunca teria imagina que seria tão cedo.

Os balões, serpentinas, velhinhas e CD's da sua festa surpresa de 16 anos, que seria na próxima semana, estavam guardados na minha garagem, de onde provavelmente não sairiam tão cedo.

Ela estava tão bela quanto o dia em que a conheci. Os cachos negros que iam até a cintura estavam jogados ao redor do seu rosto pálido, e pouco maquiado para ocasião. Outra lágrima escorreu quando pensei que nunca mais veria seus brilhantes olhos castanhos. Me recordei de quantas vezes os vi vermelhos de tanto chorar, enquanto acariciava seus cabelos e a consolava.

Tantas lágrimas derramadas para acabar dentro de um caixão, e, futuramente abaixo da terra... Ainda me lembro da noite em que ela me ligou, desesperada, porque o pai acabara de pedir o divorcio. E de como ela me pediu um abraço, depois que a melhor amiga pegara o menino que ela gostava. Do dia em que descobriu que repetira o ano, por faltas, já que tinha que ficar cuidando do irmão por que a mãe saia excessivamente.

Ela chorava tanto, e tinha apenas eu para ouvi-la. Pelo menos agora pararia de se lamentar. Afinal, cadáveres não choram, não é mesmo?

Eu assisti enquanto selavam sua nova cama, e atiravam tulipas sobre ela. Deveriam ser rosas brancas, mas todos concordaram que sua flor favorita seria mais apropriada. Estava acabado. Todos caminhavam na direção de seus carros, incluindo a família dela.

Eu me sentei na grama verde como esmeralda e fiquei apenas encarando a lápide:

Sophia Elizabeth Carter Selick .

1994 — 2010.

Depois de algum tempo, me levantei e segui para casa, a pé. Quando cheguei, subi para o meu quarto e fiquei encarando o céu pela janela. Ela era tão parecida com a lua. Tão cheia de fases, tão bela, sempre ali, embora as vezes não marcasse muita presença, embora é claro, não precisasse refletir a luz de ninguém, tinha brilho próprio.

Me pendurei na escada que meu pai deixara ali quando consertou o telhado, e subi até o mesmo. Eu podia ver a casa dela dali. Nós costumávamos conversar pelo telefone nesse mesmo horário.

A essa hora, você deve estar se perguntando quem sou, certo? Meu nome é Michael Tuohy. Fui a pessoa que sem dúvida alguma, mais amou aquela garota. Faz cerca de cinco meses que me declarei para ela e estávamos juntos desde então.

O que eu mais amava nela? Não era o sorriso, nunca aceitei ser tão clichê. Eu amava os olhos. Aqueles enormes e maravilhosos olhos castanhos, sempre receptivos, brilhantes, cheios de decepção, mas igualmente cobertos pela esperança. Eu adorava a forma como ela ria de tudo, não importava o quão ruins as coisas estivessem.

E o perfume dela era tão bom... Ela era completamente desastrada, derrubava ou quebrava tudo aquilo que tocava. Menos as pessoas. Cuidava de cada um, cada familiar, cada amigo, cada conhecido de um jeito único e diferente. Ela era única e diferente.

Já ouvi, diversas vezes que não passamos a amar quando encontramos alguém perfeito, mas sim quando aprendemos a suportar os defeitos de alguém. Ela tinha, sem duvidas um defeito. Apenas um. Tinha o terrível e incorrigível habito de pensar mais nos outros do que nela própria.

Está frio aqui fora, e começam a cair pequenas gotas de chuva. Elas molham esta pequena folha de papel, que em breve será guardada no meu bolso, e lavam as lagrimas do meu rosto, enquanto eu continuo a pensar nela. Em tudo o que passamos, em tudo que viveríamos.

Iríamos ter a nossa própria casa, azul, com janelas brancas, como ela sempre quis. Pintaríamos nós mesmos as paredes do nosso quarto, e nosso lar seria repleto de flores. Nunca conheci ninguém que gostasse mais de flores do que ela. Todo dia, eu chegaria do trabalho, e me depararia com seu lindo rosto, a levantaria no colo, jogaria-a no sofá e assistiríamos algum filme, enquanto comeríamos porcarias.

Acamparíamos em um ou outro final de semana, faríamos piqueniques alguns sábados, almoçaríamos com os meus pais em alguns domingos. Teríamos a nossa vidinha, do jeitinho que tinha que ser. Aconchegante, calma e feliz, mas acima de tudo, nossa.

Mas nada disso jamais acontecerá. Maldito foi o momento em que liguei para ela ontem.

Eu queria apenas vê-la, apenas isso. Maldito foi o caminhão, que fechou a bicicleta dela em uma curva. Morávamos tão perto, como poderia imaginar que isso aconteceria? Maldito foi o socorro que demorou tanto para chegar. Malditos foram os minutos que eu passei naquela sala de espera no hospital. Maldito foi o médico que me deu a noticia. Não. Maldito fui eu, que a convidei para ir em casa, comer o brigadeiro de panela que ela tanto gostava.

A culpa é minha e apenas minha. Eu jurei que estaria sempre com ela, e que sempre a protegeria. Como se não bastasse eu não estar lá para ajuda-lá, eu praticamente a empurrei para a morte. Nem pude me despedir. Eu não estou suportando essa dor. Essa sensação de culpa, a vontade de sumir. A saudade.

O telhado nunca me pareceu tão confortável, assim como as estrelas nunca foram tão convidativas. Será que realmente existe vida após a morte? Será que ela está lá em cima, olhando pra mim?

Para você, que leu até aqui, saiba que não há nada mais importante do que quem você ama. Se você ama alguém, diga a ela. Repita todos os dias, sempre que puder. Se não o fizer, um dia irá se arrepender. A vida humana é frágil.

E, com esta frase, termino minha carta de suicídio.

P. S.: Que fique claro a meus pais, que muito os amei, mas o que eu sentia por ela, não se pode comparar.

P. S. S.: Por favor, enterrem-me ao lado dela.

Fim

Notas finais
Leu e gostou?? Me manda um "oi", só para eu saber que voce leu...