One And Only
3 Quatro Letras
Eis aqui o segundo fato sobre o amor — certamente o mais verdadeiro e imutável sobre ele: a palavra tem quatro letras.
Quantas coisas existentes no mundo você pode dizer que ama incondicionalmente e também tem quatro letras?
Capítulo 3 — Quatro Letras
–... Dezesseis elefantes incomodam muito gente. – Rose continuou entoando a canção que começava até mesmo a irritá-la — Dezessete elefantes incomodam, incomodam, incomodam-
– Eu já entendi! – Dimitri faltou exasperado se sentando na cama – Eu vou comer, está bem?
– Bom garoto. – ela falou animada e pegando a colher – Faz "AH' – Rose abriu a boca como queria que Dimitri fizesse. Ela parou com a colher no ar enquanto o via erguer a sobrancelha para ela – Vamos Dimitri, abra a boca. – falou em um tom impaciente.
– Eu não... — ele parou de falar quando a colher entrou em sua boca e foi obrigado a engolir a sopa fria.
– Isso mesmo! – Rose falou se controlando para não rir da cara que ele fez – Agora, termine de comer sozinho.
Ele tomou a colher de sua mão e começou a comer a refeição que ele pensou ter gosto de papel. Era fria e tinha alguma coisa meio arroxeada no meio que ele não conseguiu saber o que era porque nem ao menos parecia ter gosto.
Minutos depois ele já havia terminado e entregou o bandeja para Beth que observava a cena toda rindo. Ela era como uma espécie de psicóloga para Dimitri, mas Rose permaneceu na sala quando ele disse que ela podia. Notou que Dimitri nunca falava muito com Beth, apenas sobre o que fazia o dia todo, mas ainda sim ela parecia ser a que melhor lidava com ele. Também notou que Beth não tinha muita experiência naquela área e se perguntou quem havia tomado a iniciativa para ela começar a agir como sua psicóloga.
Quando Beth saiu Rose esperou que ele se levantasse, pronto para ir tomar um banho, mas ele continuou sentando na ponta da cama. Seus pés tocavam o chão. Os ombros estavam curvados em um sinal de fragilidade. Rose não perdeu seu tempo comparando mais uma vez os traços fortes de Dimitri com a fragilidade que ele aparentava ter agora em um triste contraste. Ela já havia feito isso outras vezes, a maioria delas quando lhe dava banhos e deslizava as mãos com luvas pelo corpo de Dimitri e observava alguns músculos que ainda tinham a mesma rigidez como se ele treinasse ou algo do tipo.
– Eu realmente acho que você não deveria esperar que eles chegassem. – falou se sentando ao seu lado na cama enquanto suas pernas balançavam a alguns centímetros do chão. Mesmo com os ombros curvados, a diferença entre altura e peso de ambos ficava evidente. Era até mesmo engraçado ver os dois lado a lado, um o oposto do outro. A pele de Rose era bronzeada, já a de Dimitri era de um branco pálido, mas não muito. Não era como se ele precisasse passar mais tempo recebendo raios solares, embora ele certamente sentisse a falta deles. Mas era um branco natural, que combinava perfeitamente com seus olhos escuros quase negros. Eles formavam uma bela dupla. Fora a personalidade que eram completamente opostas.
– Eu já disse que não quero receber ninguém hoje e não comece! – avisou olhando um ponto fixo a frente.
A morena revirou os olhos e ficou em silêncio. Será que Dimitri era tão sério antes mesmo da doença? – se perguntou mentalmente e o olhou pelo canto do olho percebendo que muito provavelmente sim. A sua postura estava sempre desafiando alguém mesmo quando parecia frágil. Era um perfeito paradoxo para Rose.
– Não me avalie. – ele falou fechado os olhos e massageando as têmporas com as pontas dos dedos.
Ela também olhou para frente e cruzou as mãos sobre o colo.
– Não estou fazendo isso. – mentiu.
– Está sim. Está me olhando como se eu fosse uma criatura curiosa.
– Bem, — Rose deu de ombros sorrindo – Eu acho o ser humano uma criatura magnífica, você não?
Dimitri sorriu ainda permanecendo de olhos fechados. Estava se acostumando a ter Rose sempre falando com ele e sempre dizendo coisas que por mais forçadas, mentirosas e estúpidas que fossem sempre o faziam sorrir.
– Vamos lá, russo mal-humorado, tenho que te deixar lindo para que sua mãe não corra quando ver como está o filho.
Embora ele ainda estivesse se negando a fazer aquilo deixou que Rose segurasse sua mão e o levasse até o banheiro que havia no quarto. Ele se despiu e entrou debaixo da água quando Rose voltou ao quarto indo até um armário que ficava no canto e pegando novas roupas para Dimitri. Mas, claro todas elas sempre eram azuis e feitas de um material leve e macio.
Quando Rose voltou ao banheiro encontrou Dimitri com uma mão apoiada contra o piso da parede e a cabeça baixa. A água do chuveiro escorria por seu corpo e ele continuava lá, parado, de olhos fechados. A presença de Rose já não o incomodava mais.
Quando percebeu que encarava em excesso o homem a sua frente ela desviou o olhar e sentiu o rosto esquentar.
– Tem um kit de barbear dentro do armário embutido do outro lado do box – Rose falou colocando as roupas em cima da pia decidida a dar um pouco de privacidade a ele quando notou que parecia bem o suficiente – Se precisar de mim estarei lá fora.
– Não vai me ajudar com o banho? – ele perguntou a olhando assim que ela terminou de falar. A mente de Rose interpretou aquilo de outro modo e ele pareceu pensar o mesmo – Quer dizer, caso eu passe...
– Não vai acontecer. – Rose piscou para ele e saiu do banheiro com o pensamento de que talvez ele se sentisse mais confiante tendo o espaço do banheiro completamente para si.
Ela estava pensando que talvez, se Dimitri se sentisse capaz de fazer tudo sem ter alguém por perto, sem ter um medo constante de morrer a qualquer momento, talvez isso o ajudasse a se sentir menos deprimido, como ele parecia quase sempre estar.
Quase meia hora depois Dimitri saiu do banheiro usando uma toalha para secar os cabelos.
– Tudo bem com você? – ela perguntou quando o viu. O rosto, agora completamente liso e limpo de qualquer resquício da curta barba que estivera ali antes, estava um pouco afogueado. Os olhos de Dimitri estavam com um brilho diferente. Ele parecia levemente constrangido. – Está sentindo alguma coisa?
– Eu estou bem. – ele falou rápido e passou uma mão nos cabelos levemente molhados enquanto continuava a secá-los. Ele não mentira. Realmente estava bem. Ele só não se sentia confortável em olhar para Rose depois de como havia pensando nela enquanto tomava banho... Ainda não estava entendendo como havia ela havia dominado seus pensamentos de uma hora para outra.
– Ok. – falou ainda incerta sobre ele estar escondendo algo dela.
Dimitri terminou de secar os cabelos com a toalha e pouco tempo depois Beth abriu a porta.
– Sua família está vindo, Dimitri. – falou sorrindo e entrando.
Essa era a deixa de Rose para sair. Sem esperar qualquer palavra dele, ela saiu do quarto, passando pela sala adjacente. Beth tinha ficado em seu lugar. Alberta disse que seria melhor assim já que Rose ainda era nova ali provavelmente a família dele não se sentiria bem sabendo que uma novata era quem cuidava dele.
Rose colocou as mãos nos bolsos do jaleco enquanto seguia para o restaurante do hospital. Ela se sentou em uma das cadeiras após pegar um copo de suco e ficou esperando que o tempo passasse para que finalmente tivesse algo o que fazer. Cuidar de Dimitri, checar se ele estava bem, ajudar ele no que fosse preciso, havia virado sua única atividade. Ela passava todo o tempo ao seu lado, às vezes sem fazer exatamente nada já que ele quase sempre negava a ajuda de Rose dizendo que não era um inválido.
– Você realmente não é uma médica. – uma voz conhecida disse atrás dela e Rose permaneceu olhando para frente. Paul rodeou a mesa e parou atrás de uma cadeira que estava na frente de Rose. Ele apoiou suas mãos na mesa. – Médicos deveriam trabalhar e não ficarem sentados sem fazer nada.
– Claro. Eles também não podem respirar. – sorriu para ele, que tinha um olhar brincalhão. – Como vai Paul?
– Bem. E você? Espero que não ande dormindo muito.
Ela sorriu quase dizendo a verdade. Dormir era o que menos havia feito graças ao medo que sentia em Dimitri sofrer algum problema durante a madrugada.
– Estou bem. – ela tomou um pouco de seu suco. – O que veio fazer aqui?
– Vim visitar meu tio. – falou dando ligeiramente de ombros e então tirou uma bala de chocolate do bolso da jaqueta.
Os olhos de Rose quase cintilam ao ver aquilo. Não havia nada com tanto açúcar quanto uma bala de chocolate ali. A causa era os diabéticos, os pacientes que mais tinham problemas com açúcar e os maiores frequentadores do hospital, segundo August.
– Quer uma? – ele pergunta oferecendo a Rose. Ela não relutou e nem tentou parecer indiferente como havia feito com Dimitri. Rose guardou a bala no bolso, um consolo para mais tarde.
– Quer vir comigo visitar meu tio? Ele vai gostar de você. – perguntou.
Rose olhou para seu celular antes de responder, conferindo que tinha algum tempo até voltar a ver Dimitri.
– Claro, mas não diga a ele que sou médica. – ela avisou e Paul riu para ela quando se levantou. Eles caminharam juntos pelo corredor enquanto Paul perguntava a Rose o que ela fazia no hospital exatamente, mas só recebeu respostas evasivas. Ela estava categoricamente proibida de falar sobre aquele assunto com alguém.
Rose percebeu estar pegando o mesmo caminho que havia feito minutos antes de ir para a cantina. O que levava ao quarto em que Dimitri estava ficando. Quando Paul abriu a porta que mostrava o vidro, Rose parou.
– Paul eu-
– Ele vai gostar de você. Vem, Rose.
Ela finalmente notou a semelhança entre Dimitri e Paul. Edite. Ela notou os mesmos olhos escuros e intensos. Mas Paul não era como Dimitri. Ele não a intimidava com apenas um olhar como o russo mal-humorado. Será que era algo que os russos só aprendiam quando ficavam maiores de idade?
Quando abriu a outra porta Rose viu Dimitri abraçado a uma mulher mais baixa que ele. Eles falavam em russo, enquanto a mulher alisava seus cabelos.
Como se sentisse sua presença, Dimitri soltou a mulher e olhou para Rose. Ele sorriu para ela, não de maneira singela ou cortês. Ele não parecia mais se sentir culpado por ter tido pensamentos obscenos com ela no banho. Rose era alguém que mesmo conhecendo há tão pouco tempo já fazia uma enorme falta a ele. Tinha se tornado totalmente dependente dela. Dimitri interpretou isso como uma forma de saudade que sentia pelas suas frases espirituosas. Ele estava completo e estupidamente errado. Em sua mente o nome surgiu com alegria quando a viu: Roza.
Exatamente quatro letras.
E então você se torna egoísta. Tão idiotamente egoísta que não percebe que não se deve pensar apenas nela, a outra pessoa. Você é egoísta o suficiente para fechar os olhos e imaginar que está tudo bem. É nesse momento que você se torna vulnerável ao amor, tão vulnerável, ao ponto de realmente não saber o quanto você gosta de uma pessoa, até que você percebe que é dependente dela.
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