Come on and give me a chance, To prove I am the one who can walk that mile, Until the end starts.

One and Only – Adele



– E foi tudo tão simples como me diz? – Alberta pressionou. Era a quinta vez somente naquele dia. Encarava Dimitri com olhos astutos e desconfiados.

Rosemarie permanecia encostada ao vidro. Queria ter podido entrar lá e saber o que eles tanto conversavam e o que fazia Dimitri ter uma expressão tão centrada. Sabia que se ousasse passar pela porta, como a própria Petrova lhe alertou, nunca mais conseguiria trabalhar em lugar algum.

As unhas da mão esquerda já estavam todas sendo roídas na ansiedade. Um dos pés batia fervorosamente no chão.

– E por algum acaso está colocando em prova minha palavra? – Dimitri perguntou. Encarava Alberta indiferente. Aquilo servia como uma máscara. Dentro de si ansiava pelo momento em que a mulher a sua frente suspirasse, desistisse das perguntas e acreditasse em suas palavras. Isso aconteceu segundos depois de outra longa análise.

– Está bem. – ela murmurou entre um suspiro. Colocou as mãos no estetoscópio que estava preso ao pescoço e o arrumou no lugar. – Está sentindo alguma coisa que queria nos contar, além da febre alta, eu digo? Um sintoma novo ou-

– A mesma maldita dor de sempre. Mais alguma coisa? – não se importou em esconder o quanto queria se ver longe de Alberta. Sabia que estava sendo observado naquele momento por Rose, mesmo que não pudesse vê-la, era como se sentisse sua presença. Por um pequeno delírio e fantasia de sua mente já um pouco debilitada pelos calmantes pensou que se fechasse os olhos seria capaz de vê-la ali, do seu lado. Tão linda quanto a vira da última vez. Não quando estavam em seu apartamento, mas quando ele sonhara com ela. Parecia um anjo. Lágrimas cristalinas desciam por seu rosto. No sonho, estas, eram capazes de curar ele. Quase como em um milagre. Milagres não eram algo que ele já sabia lidar, embora esperasse dia e noite por um.

– Não, mas se quiser falar sobre mais alguma coisa é só pedir que me chamem. – caminhou a passos lentos até a porta como se esperasse que o homem a chamasse e denunciasse a enfermeira novata. Isso não aconteceu.

Quando fechou a porta atrás de si, deu de cara com Rose que olhava fixamente para o vidro.

– Ele parece defender você com unhas e dentes. – falou de repente, fazendo a morena pular de susto e colocar as duas mãos sobre o peito, como se o gesto fosse capaz de fazer o coração desacelerar – Vamos lá senhorita Hathaway, não minta para mim dizendo que por acaso encontrou o senhor Belikov na rua e o levou para casa para que pudesse ligar para o hospital.

A boca de Rose começou a se abrir em espanto enquanto ela lançava um olhar de canto para Dimitri, que agora havia virado para o outro lado, impossibilitando que ela visse seu rosto.

– Mas, como infelizmente não posso provar, saiba que passou bem perto de ter seu estágio aqui revogado. Não admito esse tipo de atitude e relacionamento em meu hospital! Espero que esteja ciente de tudo o que irá acontecer caso isso vá adiante. – Alberta não era nenhuma novata ali. Ela sabia do que estava falando e Rose a entendeu.

Balançou a cabeça em afirmação.

– Sim senhora, eu compreendo.

Alberta aquiesceu com a cabeça e saiu dali. Assim que viu a diretora longe entrou no quarto de Dimitri.

– Como você está?

Ela sabia que ele estava com uma febre alta. O suficiente que o faria ser internado, mas ele nem ao menos parecia estar abalado com aquilo. 'Ele não se abala com frio e muito menos com o calor', Darnel havia lhe dito quando checou sua temperatura. Ele nem ao menos suava mais ou delirava.

– Bem. – ele respondeu enquanto ela dava uma volta na cama para que pudesse ver seu rosto. Estava com os olhos fechados – Eu quase não sinto minhas pernas ou meus braços, mas meu tórax dói como o inferno. Acho que isso é um bom sinal. – e como se ele visse a confusão de Rose completou – A dor. Quando se vai morrer a pessoa não sente nada, não é mesmo?

Rose engoliu a seco e se sentou na poltrona ali do lado. Não era uma completa verdade aquela afirmação, mas ela não quis corrigi-lo.

– E a cabeça?

– Ah, deram alguns pontos, mas nada demais. August disse que não vai ficar cicatriz nem nada, o que será uma pena. Não vou nem ao menos mostrar para os meus filhos como o pai deles foi derrotado por um tapete.

Rose não deveria ter rido, mas ainda sim o fez. O som alegre fez Dimitri abrir os olhos e sorrir. Um tubo estava ligado ao seu braço e outro em sua mão. Rose tentou tocar o local, mas ele não deixou, lançando a ela um olhar severo.

– Não é sua culpa.

– É claro que é. Eu deveria ter te dado algo que suprisse suas vitaminas, comida de verdade.

– Não se preocupe com isso. Comer algo que tem um gosto real foi realmente bom. — Ele pegou a mão que estava próxima a dele e a segurou, fazendo leves e curtos círculos em sua palma. – O que disseram?

– Nada demais. – mentiu. Não queria falar sobre a clara ameaça de Alberta.

Dimitri iria perguntar algo mais quando a porta se abriu e August entrou. Ele lançou um sorriso para Rose.

– Bem, sinto em atrapalhar, mas está na hora de fazermos alguns exames clínicos, Rose.

– Uh, claro. – falou, apertando levemente a mão de Dimitri. Talvez assim conseguisse sentir o seu toque mesmo estando longe. – Bem, qualquer coisa é só me chamar.

Rose desvencilhou sua mão da de Dimitri e começou a caminhar para fora do quarto, mas voltou quando este a chamou.

– O que foi? – perguntou confusa.

– Eu quero te falar algo muito importante. – ele disse em um tom baixo como se fosse um segredo.

Rose se aproximou um pouco mais e abaixou-se na altura em que Dimitri estava.

– Abaixe mais um pouco. – e assim ela o fez.

Quando ela estava em uma altura que não precisaria de muitos esforços, Dimitri a beijou rapidamente, selando seus lábios por um instante de forma doce. As bochechas de Rose ficaram em um vermelho vivo enquanto seus olhos levemente se arregalavam.

– Não me deixe agora. – ele falou erguendo um pouco a mão livre de qualquer empecilho e acariciando-lhe as maças do rosto.

– Nunca. – a promessa escapara de seus lábios antes que pudesse fazer algo a respeito. Mas isso não faria muita diferença. Ela estaria ali.

August não aparentava surpresa com o que viu, mas mesmo assim Rose passou por ele sem encará-lo nos olhos. Saiu do quarto e foi rumo à ala pediátrica. Lá tinha uma enfermeira, Alice. Rose e ela sempre ficavam por um bom tempo conversando e distraindo as crianças internadas quando era obrigada a sair do quarto para que pudessem realizar os exames de praxe. No caminho encontrou Darnel que parecia bastante feliz com algo, como uma criança parece ser quando ganha um novo brinquedo.

– Hey, me diz, não é a coisa mais linda que você já viu? – Alice perguntou baixinho quando a viu, olhava fixamente para uma menina com as bochechas rosadas e grandes olhos azuis, aparentava não ter mais do que seis anos. Estava sentada sobre uma bola de pilates e outra enfermeira ajudava a menina a tentar fazer alguns movimentos, mas com muito cuidado para não se machucar.

Rose sorriu levemente.

– Eu sei – falou. – Mas eu também sei que não devemos manter laços com as crianças. Você sabe que um dia elas vão embora.

– Bem, não sou eu quem deveria me importar com manter laços aqui. – olhou para Rose com malícia.

As conversas cessaram quando a chefe daquela área chamou a atenção de Alice para que voltasse ao trabalho. Rose ainda pensava no que havia escutado. Sabia que Dimitri não seria um paciente comum desde que o vira pela primeira vez. Descobria que ele não era tão frágil como parecia ser. Ficou ali por quase todo o resto do dia, foi quando se deu conta de que os exames naquele dia estavam demorando mais do que o normal.

Despedindo-se de Alice caminhou de volta para o quarto de Dimitri. Não encontrou Alberta e muito menos nenhum outro médico que estava acostumada a ver sempre que fazia aquele caminho.

Quando chegou ao quarto, deparou-se com ele completamente vazio. As prateleiras e cama tão bem arrumadas que era como se Dimitri nunca tivesse estado lá. O coração deu um salto no peito. O que estava acontecendo? O que estava acontecendo?

A resposta chegou com a entrada de Beth. Em passos largos Rose caminhou até ela e segurou seus ombros.

– Onde está? – a voz soando desesperada.

– Na sala de cirurgia. – ela sorriu, embora não parecesse satisfeita – Ele finalmente aceitou tentar algo. Pediu que chamasse Darnel hoje mais cedo e então o levaram para o andar de cima. Alberta convocou os melhores médicos para isso. Eles parecem ter uma boa chance com-

– Em qual sala ele está? – perguntou a interrompendo.

– Na 305, mas eu não acho que-

Antes que Beth terminasse sua frase Rose correu porta a fora. Não quis esperar pelo elevador e subiu as escadas em um ritmo que faria sua mãe parabenizá-la pela rapidez. Enquanto ela procurava desesperadamente pela sala em que Dimitri estava, Beth gritava atrás dela pedindo que a mesma parasse. Ela não parou até que viu os números na porta. 305.

No entanto, antes mesmo que sua mão tocasse a maçaneta outra a deteve. Alberta a olhava com olhos afiados e segurava seu pulso com força.

– Não faça isso, senhorita Hathaway. Ou a situação dele ficará ainda pior.

– O que pensam que estão fazendo? – perguntou com raiva. O medo tomava conta de cada poro seu. – Ele não quer-

– Ele mudou de opinião. Ele quer tentar a única chance que ele tem e você não vai tirar isso dele! – as palavras de Alberta eram ríspidas, porém, ela mesma se perguntava se havia tomado uma atitude certa em autorizar aquilo. Afinal, qual seriam as chances dele agora?

– Não! – Rose balançou a cabeça. Sabia que enquanto conversava com Alberta já poderiam ter iniciado a cirurgia. Na verdade, eles poderiam até mesmo já tê-la acabado. Ele poderia estar morto... – Vocês só querem fazer dele um rato de laboratório para suas experiências estúpidas!

– Rose. Não. – Beth falou tocando seu ombro – Ele realmente aceitou isso. Ninguém aqui o coagiu a nada. Dimitri sabe o que faz.

– Mas ele... Ele – as lágrimas começaram a cair. Alberta soltou seu pulso e a morena levou as duas mãos ao rosto.

– Vai dar tudo certo, Rose. Você vai ver. – Beth disse afagando seu ombro.

Ela não queria controlar o choro ou os soluços, mas sabia que tinha que fazer exatamente aquilo. Chorar não resolveria nada. Brigar não resolveria nada, não naquele momento.

– Se quiser assistir a cirurgia, Beth irá te levar até lá. – Alberta colocou ambas as mãos dentro dos bolsos do jaleco e se afastou dali.

Ela fez um esforço quase sobre-humano para controlar as lágrimas. Elas não cessaram, mas diferente de antes agora eram silenciosas. Com o tempo, se acalmou o suficiente para falar sem ser interrompida por outra crise de choros.

Pediu que Beth a levasse até onde pudesse ver tudo e a mesma a guiou, para sua surpresa, ainda reto, sem entrarem na sala 305, onde tudo acontecia. Somente quando subiram alguns degraus e pararam de frente a uma porta, que Beth abriu, ela entendeu o porquê do caminho.

Assim como no quarto onde Dimitri ficava, ali também tinha um espelho que separava de outra sala. Era uma pequena câmara cheia de aparelhos de tecnologia de ponta e assim que se aproximou do vidro pode ver, um pouco abaixo, tudo o que acontecia.

Viu Dimitri deitado de bruços na maca e uma equipe de médicos a sua volta. Reconheceu Darnel e uma onda de raiva se apossou dela. Aquilo era culpa dele! Ele quem o havia convencido. Todavia, uma pergunta pairou em sua mente: como? Não havia nada que eles pudessem usar para fazê-lo aceitar aquilo. Não antes, então, porque agora? — era a pergunta que rondava sua mente.

– Petrova chamou os melhores para cá. – ouviu uma voz ao seu lado e viu August. Este sorria compreensivo. Lembrou-se que o mesmo também era contra aquilo. – Nós sabemos como Darnel sempre consegue o que quer. – falou desgostoso.

Ele fixou seus olhos no vidro por um momento e então olhou em seu relógio.

– Estranho. – disse para si mesmo.

O coração dela falhou. Pânico estava em suas feições.

– O quê? O que houve? – perguntou em um tom de puro desespero. Seu coração estava apertado como no dia em que Dimitri havia dado uma parada bem à sua frente. – O que está havendo?

August a olhou antes de novamente olhar para seu relógio.

– Eu não sei. Eles já deveriam ter acabado. – comentou pensativo. Como médico, soube manter o tom preocupado longe da sua voz. Mas infelizmente Rose estava treinando para o mesmo que ele.

Ela teria o segurado pelo colarinho e o obrigado a dizer o que ele sabia. Ou ao menos, quais eram suas suspeitas. Mas foi nesse momento em que os olhos dele voltaram para o vidro. Eles brilharam ligeiramente. Aquilo fez Rose voltar seu olhar para o mesmo ponto que ele.

Darnel acenava para eles com um sinal de positivo com a mão. Mesmo com a máscara cirúrgica que usava, eles podiam claramente ver a felicidade que o homem estava sentido com tudo aquilo.

– Bem, acho que agora está tudo certo. – Beth falou, não escondendo o tom incerto em suas palavras, fazendo August olhá-la.

Rose assentiu.

– Vai ficar. – falou em um tom admirável de confiança.

– Eu não sei. – Beth disse, não notando o quanto Rose estava lutando para pensar que tudo ficaria bem. – Isso vai nos dizer o que acontece com seu corpo que causa tantos distúrbios, mas não significa que vamos encontrar a cura. Talvez sirva para casos futuros, eu não sei ,daqui alguns anos.

– Não vai haver outros. – Rose falou com convicção. Uma lágrima rolou por sua bochecha – Dimitri é único para o mundo. Ele vai sobreviver.

Beth e August trocaram um olhar. Quantas e quantas vezes já haviam ouvido aquelas mesmas palavras? Mães desesperadas, esposas inconsoláveis, filhos infelizes. Sempre diziam aquilo. Sempre tiravam fé de algo e se agarravam a mais remota das esperanças.

– Bem, hora de sairmos, Rose. – Beth falou puxando-a pelos ombros. Ela gostaria de ter ficado, mas conhecia os procedimentos. Nada poderia fazer para ajudar naquele momento.

O problema foi que ela não pode vê-lo no dia seguinte. E nem no outro e no outro. E assim por três dias seguidos.

Disseram que ele havia se mudado de quarto para eliminarem os riscos de infecção, mas Rose não podia nem ao menos cuidar dele. Uma pequena parte de seus pensamentos, que milagrosamente não estava focado apenas em Dimitri, sabia que Alberta provavelmente ainda estava tentando mantê-la afastada. Ocupava seu tempo ajudando os demais pacientes, embora sempre que ouvia qualquer menção a Dimitri largava tudo o que estava fazendo para tentar saber de noticias, contudo sabia o quanto o caso estava sendo guardado.

Ela estava ajudando um menino a fazer sua fisioterapia quando seu bip tocou. Era Alberta a chamando. Tinha o número de um quarto e dizia para ir com urgência. Ela suspirou. Provavelmente mais uma tentativa de me manter afastada... — pensou. Chamou outra enfermeira que estava ali e pediu para que a mesma cuidasse do menino enquanto ia até o quarto.

Ela deu uma leve batida na porta, antes de abri-la. Congelou quando seus olhos se fixaram no homem sentado perfeitamente ereto em uma cama razoavelmente grande, uma em que Dimitri não parecia espremido. As covinhas estavam em seu rosto enquanto ele sorria genuinamente para Rose. Nem ao menos se importou com Darnel e Alberta que estavam ali. Sorria como se houvesse ganhado o melhor presente da sua vida. E realmente tinha.

Ele estava bem! Ele estava bem! Era somente essa frase que estava os pensamentos de Rose enquanto ia rapidamente até ele. Porém, antes que jogasse seus braços ao redor do homem se deteve. Não sabia o quanto podia tocá-lo. Dimitri não pensou o mesmo que ela e segurou uma das mãos dela, levando-a até mais perto do calor do seu corpo.

– Como se sente? – perguntou, com o coração batendo forte no peito. Controlava-se para não abraçá-lo, apertá-lo, beijá-lo...

Ele sorriu timidamente para ela. Ergueu uma mão e tocou gentilmente sua bochecha, acariciando a face. Rose ergueu a mão livre e colocou sobre a sua, mas recuou quando ouviu um gemido de dor. Olhou para a mão de Dimitri, vendo alguns ferimentos no local. Quando analisou mais de perto, viu que algumas feridas vermelhas estavam em seus pulsos. Nas costas das mãos uma coloração arroxeada.

– O q-

– Quando médicos lhe dizem para não coçar algo, você deve obedecer eles. – Alberta disse. Rose a olhou rapidamente por cima do ombro. Suas palavras tinham um tom tão simplório que a surpreenderam.

Dimitri puxou levemente a mão de Rose, fazendo a atenção dela voltar para ele. Ela o olhou por um todo, observando cada detalhe. Cada mínima diferença nele. Havia um curativo em sua cabeça que o protegia dos pontos que havia levado. O cabelo havia sido raspado naquele ponto, mas aquilo não diminuiu sua beleza. Também observou que ele tinha um tubo ligado ao nariz, e fios ligados ao seu peito. Seu rosto levemente pálido.

Ele sorria travesso com o que Alberta disse, quase como uma criança quando sabe que fez algo de errado. Mas tinha algo no seu rosto. E esse algo era o mesmo sentimento que Rose já vira na face de tantas crianças. Dimitri estava hesitando. Com medo.

– Você vai ficar bem. – ela disse, erguendo um pouco a mão e tocando delicadamente o lado de sua cabeça. Uma lágrima desceu pelo rosto de Dimitri e Rose a secou com os dedos, quando na verdade queria beijar todo o seu rosto enquanto fazia promessas de que iria cuidar dele dali em diante.

O coração ainda estava apertado. Como se algo o estivesse espremendo ao ponto de causar uma agonia sem fim a ela. Por que se sentia sufocada? Por que sentia as lágrimas entaladas na garganta?

– Eu acho que quero ficar a sós com ela agora. – Dimitri disse sem desviar os olhares. Alberta e Darnel, que havia permanecido durante todo o tempo, calados, saíram dali, fechando a porta silenciosamente.

– Deite-se um pouco aqui, Roza. – ele disse, se arrastando com um pouco de dificuldade pela cama. Afastou as cobertas deixando um espaço razoável onde Rose poderia caber perfeitamente. Ela o olhou, confusa. O quê estava havendo afinal? – Venha, é só se deitar. – ele sorriu para ela e apontou com o queixo em direção ao seu lado vago.

Ainda hesitante, ela tirou as sapatilhas e se encostou a cama.

– Isso não é deitar. – ele apontou em um tom divertido, mas Rose sentiu a necessidade em suas palavras.

Ela sorriu e então, se inclinou um pouco mais, até que estivesse parcialmente deitada, com uma das pernas para fora do leito. Com a mão que estava razoavelmente boa, Dimitri tocou outra vez o rosto dela, com a ponta dos dedos. Queria poder eternizar em sua alma cada traço dela. Rose fechou os olhos ,sentindo o toque a aquecer.

– Vou me lembrar de você sempre assim. – ele disse, enrolando uma mecha dos cabelos castanhos em seu dedo. Abaixou a cabeça um pouco, sentindo o cheiro de morangos que vinha deles. – De como você tem o mesmo cheiro — Ela abriu os olhos, e o fitou. Ele devolveu seu olhar e soltou a mecha do seu cabelo. Voltou para seu rosto e contornou seus lábios com a ponta do indicador – De como seus lábios são macios e gentis, mas ao mesmo tempo a rapidez com que as palavras grosseiras podem sair deles. – ela riu levemente e como se não resistisse, Dimitri se inclinou levemente. O resto da distancia foi quebrada por Rose que ergueu a cabeça, juntando seus lábios nos dele. Era um leve roçar de lábios. Não havia malícia ou luxúria ali, muito menos um desejo para ser saciado. Era apenas um beijo que envolvia as três palavras que ambos nunca pensariam que diriam:

– Eu te amo. – falaram ambos, quando se separaram. Não foi surpresa alguma aquilo. Bastavam se olhar nos olhos para se entenderem. E foi por isso que Rose o entendeu.

– Eles disseram que você viveria. – sussurrou – Eles disseram isso – Ela não queria chorar. Queria apertá-lo contra si e nunca deixá-lo ir. Queria dizer a todos que estavam errados. Ele iria viver! Queria dizer a ele "continue respirando, por mim." Mas não tinha aquela audácia. Enquanto os minutos se arrastavam, ela sentia que estava o perdendo. Não sabia mais quantas vezes seu coração bateria até que ela nunca mais visse seus olhos castanhos chocolate que pareciam tão certos e perfeitos para ela.

– E quem disse que eu não vou viver? – sorriu – Não chora Roza, não chora. – beijou gentilmente a face da morena, sentindo a textura de sua pele. Aqueles olhos que pareciam desvendá-lo com tanta facilidade estavam sendo capaz de fazê-lo chorar. – No final, você sabia que isso aconteceria. Nós dois sabíamos. A cirurgia foi apenas algo que eu tentei. Seria hipocrisia não admitir que eu me agarrei a estúpida ideia de que aquilo iria me salvar. De que eu ficaria com você até nossos cabelos ficarem brancos.

As lágrimas já não eram seguradas por nenhum dos dois. Eles sabiam que estavam perto do fim. Rose não era estúpida. Não havia nenhum desfibrilador no quarto. Não havia ninguém que pudesse ajudar. Só havia ela.

– Não faça isso – ele disse, lendo seus pensamentos pelo olhar – Me deixe ir, Rose. Eu não quero passar o resto da minha vida ligado a aparelhos.

– Então passe comigo. – implorou – Fica comigo Dimitri. Podemos tentar outra coisa. Tem os exames e-

– Esqueça isso. Não invente esperanças que você não tem, Roza. – ele fechou os olhos por um momento e as lágrimas pingaram no peito de Rose. Ele pegou sua mão e gentilmente a colocou em cima do próprio coração – Está sentindo? – perguntou – Vê como ele está cada vez mais lento? Parou duas vezes hoje e eu disse que não queria que você fosse avisada. Mas agora... – deu alguns toques em sua mão como se estivesse seguindo os ritmos em que seu coração batia – Agora eu quero que as últimas batidas do meu coração sejam suas, Roza. Somente suas.

Um soluço escapou de seus lábios e ele a abraçou, sem força. Apenas um sentindo o coração do outro, a respiração do outro, o calor do outro. Rose sentia a respiração cada vez mais lenta contra seu pescoço. Sentiu um último beijo ser depositado ali, tão suave como o bater de asas de uma borboleta. Os lábios já não pareciam mais tão quentes. Rose então se deu conta. Não sentia mais a respiração dele. O coração já não batia. As lágrimas silenciosas ainda rolavam por seu rosto enquanto apertava o corpo inerte em seus braços. Ela queria gritar para que ele voltasse. Implorar a Deus que o trouxesse de volta para ela, mas permaneceu quieta e calada, apenas o abraçando. Sentindo o último calor de seu corpo. O que sobraram foram lembranças. As melhores lembranças dos melhores momentos da sua vida. Todos eles se passavam após ter conhecido Dimitri. Ele sempre seria um e único. Sempre.


Quando a escuridão vier até você, e o sono já não encontrar sua cama, lembre-se de todas as palavras que eu disse e fique quieta. Se o medo cair sob sua cama, e o sono já não vier, lembre-se de todas as palavras que eu disse

Fique quieta, e saiba que eu estou com você.

Be Still — The Fray