One And Only
6 Anjos Talvez Façam Milagres
Autoconfiança: o pior defeito de um apaixonado é este. Broncos são aqueles que nunca amaram e têm a infeliz ideia de dizer que esta é uma qualidade. Mais tolo ainda é quem acredita nessa ideia absurda. Quando se confia em algo — principalmente se está relacionado a tudo ficar bem — é um momento de vulnerabilidade. O que deixa um amante mais abalado do que a decepção? Nunca confie demasiadamente em algo; é aí que você descobre ser o mais azarado dos seres humanos.
Capítulo 6 – Anjos Talvez Façam Milagres
Dimitri passou seus braços ao redor do corpo de Rose. Ela sorriu sem parar de cortar os tomates para a salada. Viu o sorriso refletido no vidro da janela a sua frente. As mãos do homem saíram de sua cintura e foram para os braços, onde ele seguiu caminho para suas mãos.
— Se você continuar, não vou poder terminar . – Rose falou sorrindo para ele.
— Estou querendo apenas ajudar, Roza.
O nome saindo de seus lábios ainda era — e provavelmente para sempre seria — a coisa mais suave e ao mesmo tempo poderosa para ela ao ponto de fazer Rose se esquecer dos seus atuais e futuros problemas.
— Eu acho que você pode parar de esmagar os tomates agora. – ele falou rindo bem próximo ao seu ouvido pouco antes de mordiscar o local.
— A culpa disso é sua, se quer saber. – falou olhando os pedaços vermelhos amassados em sua mão. Ela virou a cabeça para Dimitri, tentando lhe dar um olhar reprovador, mas este se transformou em terno quando ela notou como ele parecia exclusivamente bem naquela manhã.
Como num déjà vu se lembrou das palavras de Alberta "Ele melhora para logo em seguida piorar". Balançou a cabeça como se com esse gesto pudesse se esquecer sobre esse fato que tanto a atormentava agora. Fechou os olhos, imaginando por um momento Dimitri sendo tão saudável quanto disseram a ela que ele havia sido um dia. Sentiu uma mão pousar em seu queixo e abriu os olhos.
— Não pense nisso. – Dimitri encostou sua testa na dela e tomou uma profunda respiração antes de terminar em um sussurro. – Não agora.
Ela realmente queria esquecer. Estava tudo indo bem, não estava? Dimitri pressionou seus lábios nos dela com uma rapidez admirável. Mas ele sabia o que estava fazendo. Queria que ela se esquecesse de tudo pelos dois, já que o mesmo não conseguia passar um minuto sequer sem pensar que quanto mais tempo passava, mais próximo ficava do seu fim, talvez. Enquanto estava ali, segurando sua ponte de salvação e a beijando, ele se recordou do que os médicos haviam lhe proposto dias antes. Poderia haver uma saída...
Rose interrompeu o beijo e ficou o observando por um tempo antes de se livrar de seus braços e voltar a tentar fazer o almoço.
— Você é péssima em tentar me ignorar. – disse ele se encostando ao seu lado na pia – Quase tanto como em mentir.
Rose mal havia ouvido o que ele tinha dito. Estava mergulhada em pensamentos sobre o que faria dali em diante. O pensamento sobre perder seu estágio e ficar com uma mancha em seu currículo não era nenhum pouco preocupante. Pensava, acima de tudo, em Dimitri e em seu estado. Ele poderia ainda estar sorrindo e parecendo tão bem quanto alguém da sua idade deveria estar, mas ela sabia como seu estado de saúde poderia variar em muito pouco tempo.
— Acho que podemos voltar para o hospital após o almoço. – ela falou sem perceber a careta e o mal-estar que Dimitri pareceu sentir.
— Você realmente vai fazer isso, não é? – ele perguntou incrédulo e engolindo o caroço que se formara em sua garganta – Vai me forçar a voltar mesmo sabendo o quão mal eu me sinto lá.
— Nós fizemos um acordo, Dimitri. – Rose afirmou, escondendo o próprio desejo que sentia em ter Dimitri ali, com ela, e não no hospital onde era tratado como se fosse um rato de laboratório. Mas aquilo era o melhor para ele e ela sabia disso – O que você espera que eu faça?
— Que pensasse em mim também! – ele se desencostou da pia e segurou Rose pelos ombros, virando-a para ele. A olhava quase com desespero. – Eu gosto de ficar com você e da forma como eu me sinto quando me trata como alguém normal.
— Você vai me ver sempre no hospital.
— Não vai ser a mesma coisa.
— É clar-
— Não minta. – uma de suas mãos percorreu seu rosto acariciando levemente e arrepios percorreram o corpo de Rose. – As coisas vão mudar e você sabe disso.
Ela abriu a boca para responder com alguma frase que fizesse ela mesma acreditar que não seria diferente. Diria que assim que ele melhorasse não haveria problema para que ficassem juntos e bem longe do hospital, mas a realidade a aterrorizou com um pensamento de que talvez ele passasse o resto da vida internado. Ou então, que talvez realmente não gostasse dele como estava pensando naquele momento. Talvez fosse apenas mais um sentimento de solidariedade. Esqueceu-se desses pensamentos quando se perdeu nos seus olhos. Ela sabia que não estava enganada.
Para o alívio de sua confusão mental ouviu a campainha tocar e desvencilhou seu rosto da mão de Dimitri. Todos os seus poros protestaram. Queria aquele calor confortável e toda a sensação de paz que seu toque trazia de volta.
— Desculpe, eu tenho que atender. – ela olhou mais uma vez para ele antes de caminhar rumo à porta. Olhou pelo olho mágico e viu Lissa parada do outro lado. Ela abriu a porta e a fechou parcialmente atrás de si.
— Hey, e eu pensando que você e o senhor-misterioso haviam morrido ai dentro. – falou tentando olhar para o interior do apartamento e Rose fechou um pouco mais a porta.
— Fale baixo, Liss.
— O que? Não vai me dizer que ele ainda está aí. – Quando Rose revirou os olhos ela teve sua resposta – Finalmente isso está acontecendo, hein?
Rose soltou uma risadinha para abafar o desconforto que sentiu com a afirmação de sua amiga. Realmente demorara em levar alguém em seu apartamento, mas quando um cara finalmente entrou lá não foi com seu consentimento e havia virado toda a sua vida do avesso.
— Bem, de qualquer forma, eu só passei aqui para entregar isso. – falou estendo uma travessa de vidro que segurava para Rose – É pavê de chocolate e era para comermos juntas, mas acho que já tem companhia melhor. — ela sussurrou sobre querer os detalhes depois e sem esperar pela resposta da morena colocou a travessa em suas mãos e entrou em seu apartamento.
Rose sorriu pela fala da amiga. Realmente Dimitri era excelente companhia, mas não sabia por mais quanto tempo ele seria já que haviam acabado de tocar no assunto sobre seu retorno ao hospital.
Equilibrando o refratário em uma mão ela abriu a porta do seu apartamento e entrou a fechando em seguida.
— Bem, eu acho que agora já temos uma sobremesa. – falou indo até a cozinha, mas ele já não estava ali. – Dimitri! – chamou indo vasculhar os outros cômodos. – Você não acha que está grande demais para essa brincadeira idiota? – perguntou, mas não obteve resposta.
Foi até seu quarto e ao perceber que o mesmo se encontrava vazio ia sair dali. Foi então que ouviu um barulho que vinha do banheiro. Algo como um gemido de dor. Ela o seguiu e abriu a porta. Encontrou Dimitri. O alívio foi suprimido pela angustia quando ela notou que ele estava deitado no chão e encolhido. Seu corpo tremia fortemente.
No mesmo instante, ela se ajoelhou ao seu lado e tocou seu corpo.
— O que está havendo? – perguntou tentando controlar o pânico.
Ela tocou sua testa. Quente como o inferno. Nunca havia visto ninguém ficar tão quente em um espaço de tempo tão curto.
Ele balbuciou algo incompreensível e colocou sua mão sobre a de Rose. Ela estava suada exatamente como sua camiseta que parecia estar empapada também de suor.
— Vem, eu tenho que te dar um banho. – ela tentou fazer com que ele se levantasse, mas assim que tocou o lado de sua cabeça sentiu algo pegajoso encostar-se a sua mão e a puxou de volta. O vermelho vivo do sangue foi o suficiente para que ela tirasse o celular do bolso.
A conversa foi rápida. Pediu uma ambulância e disse que toda a equipe do hospital deveria ficar apostos. Alberta ligou no segundo seguinte. Perguntou qual o estado de Dimitri e ela não soube responder. Realmente não sabia. Sem movê-lo muito ela tentou ver o que acontecia em sua cabeça. Um pequeno corte estava ao lado de sua cabeça. O tamanho era desproporcional a quantidade de sangue que saía. Ele poderia ter caído, talvez. Batido a cabeça contra o chão. Notou os olhos escuros se fecharem lentamente. Ela o sacudiu um pouco, sem força, apenas para mantê-lo acordado. As lágrimas começaram a cair quando o simples pensamento de que ele poderia morrer ali passou pela sua cabeça.
— Não durma Dimitri, fique acordado, por favor. Não durma. – as lágrimas lhe escapavam. Fazia um esforço sobre-humano para contê-las, mas não conseguia. Culpava-se por tê-lo deixado ficar e não seguido ordens como deveria.
Ele abriu levemente os olhos.
— Você se parece com um anjo. – sua voz não mais que um sussurro, tentou ergueu a mão para tocar seu rosto com a ponta de seus dedos. Não conseguiu e a mão caiu sobre seu peito – Um anjo que veio me salvar.
As lágrimas caíram por seu rosto e ela limpou o sangue de sua mão nas roupas.
— Eu vou salvar você. Eu juro que vou. – retirou a blusa branca que vestia e a enrolou colocando em seguida ao lado da cabeça de Dimitri para parar o sangramento, mas tomando o cuidado para que isso não complicasse ainda mais sua situação. Ficou difícil enxergar com a visão turva pelas lágrimas. Sua culpa. Sua culpa. Era o que sua mente gritava. Estranhamente, ela se parecia com a voz de Paul. Nunca se perdoaria se algo acontecesse com ele. Sentiria a culpa pelo resto dos seus dias.
Segurou sua mão com força, como que para dizer que nunca o deixaria sozinho, e selou seus lábios nos dele, não se importando com o leve gosto de ferrugem e sal que sentiu entrar em sua boca. Viu Dimitri sorrir levemente quando se separou dele, mas ainda segurava sua mão.
Não queria ter que deixá-lo, mas se tornou necessário quando ouviu as batidas insistentes e rápidas em sua porta junto com toques na campainha. Ela foi até ela quase correndo e a abriu, deixando que a equipe médica entrasse. Alberta estava entre eles. Quando passou por Rose, não cobrou informações, todavia, não deixou que ela entrasse na ambulância com Dimitri quando voltaram ao hospital em toda a velocidade
Rezava para que nada de ruim acontecesse ao homem que estava aprendendo a conviver. Não, conviver não seria a palavra correta. Não queria perder o homem que lhe havia ensinado qual era a sensação de se sentir completa.
Não alimente esperanças. Não espere por um milagre. Não queira que as pessoas sejam compreensivas com você só porque está apaixonado. Não queria receber uma boa ação. Quer saber a força do amor que sente por uma pessoa? Quer saber o que faria por ela? Simples, continue por perto mesmo sabendo que o fim dela se aproxima. Talvez assim, com essa única escolha, você seja capaz de fazer seu próprio milagre e não como em Romeu e Julieta que esperaram por um. Faça você mesmo ele. Mas atenção! Quando tudo terminar, pode ser que não seja como você queria que acabasse.
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