One And Only
2 Único Para O Mundo
E se na segunda vez em que se falarem um dos dois disser algo idiota e igualmente fingirem entender... Você está apaixonado! – e deixo-lhes um aviso que estar apaixonado não é amar. Significa que você pensa não gostar da pessoa, e logo não entende porque procura tanto por sua presença.
Capítulo Dois – Único Para O Mundo
– Devia se envergonhar americana. – Dimitri caçoou – Pensei que todos vocês viessem treinados para comer em Fast Foods.
Rose continuou tomando seu suco de laranja, sem se preocupar com suas provocações. O suco realmente estava bom, não tanto quanto um copo de Coca-Cola bem gelada, mas Alberta a havia proibido de comer qualquer comida ou bebida de 'origem duvidosa' que pudesse levar o paciente a comer algo que não deveria. Nesse caso, Dimitri.
Aquele era um dia excepcionalmente bom. Ele estava de pé, apoiado contra a janela, sem precisar de Rose estar a apenas alguns passos dele para ajudá-lo. Não havia sentido ânsias de vomito, tonturas ou dores na cabeça. Os outros médicos disseram a ela que aquilo era comum. Geralmente, ele se sentia bem para logo depois ter uma recaída no quadro médico.
– Não vai nem ao menos pedir que lhe tragam uma coca-cola? – tentou novamente. Sabia que a outra enfermeira que devia ter rendido Rose havia adoecido então estava se divertindo passando todas as 24 horas tentando tirá-la do sério.
– Devia tomar suas vitaminas. – Rose falou colocando seu copo de suco sobre uma mesinha no canto e pegando um copo com água e outro com os comprimidos para Dimitri.
Este olhou para as mãos sem luvas de Rose e franziu o cenho antes de pegar os comprimidos e o copo que ela lhe oferecia. Seu cabelo parecia excepecionalmente bonito naquela manhã, e não mais bagunçado, como ela se lembrava de ter visto outras vezes.
– Alberta ainda não lhe falou das regras? — perguntou com desinteresse — Sem mãos ou cabelos a mostra, Rose.
– Que incrível! Sabe o meu nome. –disse, fingindo um tom admirado.
– Posso te chamar de americana se preferir, mas ainda não me respondeu. Sabe que pode levar uma advertência por isso?
– Não é como se você tivesse algo contagioso, Dimitri. – respondeu — Só não sabem o que é ainda. — Voltou para o pequeno sofá que havia ali e se sentou.
– Como puderam te mandar para cá? – Dimitri perguntou olhando pela janela. Conteve o suspiro em seu íntimo. Havia tanto que não via mais o sol longe de seu quarto... O tratavam como se tivesse a pior doença do mundo, e não como se apenas não soubessem o que ele realmente tinha.
– Eu sou uma enfermeira, não viu no crachá? – Rose respondeu mantendo os olhos em suas unhas – Além do mais, o estágio será bom para quando eu cursar medicina.
– Medicina? – aquilo atraiu a curiosidade de Dimitri – E já escolheu o que quer fazer? Estudar casos curiosos como o meu, talvez. – falou olhando na direção de Rose que continuou em seu lugar sem esboçar nenhuma reação.
– Não, você não é tão importante como pensa, Dimitri. – ela olhou para ele e sorriu – E eu nunca vi ninguém como você.
– Mas é claro que não, se tivesse visto eles já saberiam o que eu tenho. – falou seco e Rose riu novamente, se levantado da cadeira e ficando atrás dele.
– Não isso. – falou e ele olhou para ela por sobre o ombro – Você age como se não estivesse nem aí se vai morrer ou não e trata a todos como se eles fossem os culpados por isso. Mas ainda sim, sempre que você abre os olhos eu sei que o que mais quer é viver. E eu acho que nunca vi tanta determinação em alguém antes. — Ela falou o que pensava desde o momento em que o havia visto.
Era evidente que ele queria viver, senão, por qual outro motivo Dimitri ainda permanecia ali e deixava que todos aqueles testes e exames fossem feitos como se ele fosse um experimento? Por mais que mostrasse o contrário, todos os dias, ao acordar, ele olhava para o teto pintado de branco em seu quarto e pedia a Deus que o deixasse viver por mais um dia, e que talvez, naquele dia, eles encontrassem a cura para o que ele tinha. Amava estar vivo, amava ainda mais a liberdade que tinha perdido desde que os sintomas começaram.
Dimitri sorriu para ela. Rose nunca o havia visto sorrir daquela forma, na verdade, ele nunca havia sorrido para ninguém desde que o conhecera. Aquele belo sorriso que foi capaz de fazer com que Rose se sentisse bem-vinda ali se contorceu em uma careta em seu rosto e ele se dobrou sobre seu próprio corpo, ofegando como se buscasse por ar. Seu cabelo escuro caiu para frente, tampando parcialmente seu rosto quando um gemido dolorido saiu de seus lábios.
– Dimitri! – Rose falou imediatamente colocando um braço ao redor de seu corpo como se pudesse segurar todo o seu peso, o que ela certamente não podia – O que está acontecendo?
Ela tentou segurá-lo enquanto ele caia, mas foi impossível, então tentou ao menos amenizar a queda enquanto gritava por ajuda. Seus olhos foram se arregalando e sua boca se abriu como se ele quisesse desesperadamente dizer algo enquanto se contorcia no chão. Ele abria a boca como um peixe que está fora d'água. Ar. Ele precisava de ar.
Não foi preciso que chamasse por socorro outra vez. Aquela platéia que nunca parecia sair da sala ao lado observando todo e qualquer movimento de Dimitri irrompeu no quarto. Alberta e Beth estavam entre eles.
– Parada cardiorrespiratória! – alguém gritou e ela viu mãos abrirem em um solavanco a camiseta azul que Dimitri usava. August e Darnel o colocaram com certa dificuldade sobre a cama. Tudo acontecia tão rápido que estava se tornando difícil para Rose acompanhar. Ela estava em choque sem conseguir se mexer para lugar algum.
– Ajuste o desfibrilador, seu coração está parando!
Parada cardíaca. O som do bip ininterrupto fez a respiração de Rose ficar ainda mais acelerada e ela resolveu agir. Rose pegou o aparelho, o ajustando para 250 J e entregando para Alberta.
– Se afastem!
Os olhos dela estavam fixos no monitor, esperando qualquer reação do coração de Dimitri. Ela veio. Um curto e rápido batimento. Uma nova tentativa de Alberta e o som se repetiu, mais lento e estável desta vez. Algumas descargas elétricas depois e seu coração se estabilizou, fazendo os outros ali respirarem aliviados, principalmente Rose, que não havia percebido que segurava sua própria respiração até aquele momento.
– Está tudo bem agora, Rose. – alguém disse e ela sentiu dedos frios em sua nuca.
Ela olhou para Beth que a fitava atentamente.
– Eu quase o perdi. – sussurrou as lágrimas ameaçando cair de seus olhos.
– Está tudo bem, isso vive acontecendo. Na verdade, a última vez foi há uma semana.
– Os intervalos estão ficando cada vez menores – Alberta falou, pegando uma prancheta e escrevendo algo nela – Teremos que aumentar as doses de calmante e morfina.
– Para que morfina? – Rose perguntou, ainda parecendo abalada com o que tinha visto, mas não abalada o suficiente para não se lembrar que a morfina não deveria ser utilizada quando um paciente havia acabado de sofrer uma parada.
Nunca durante sua vida havia chegado tão perto de ver alguém morrer. Santo Deus, o coração do homem havia parado de bater por alguns segundos! Embora todos ali agissem naturalmente, Rose não conseguiu o mesmo feito. Ela viu o olhar desesperado em seu rosto quando sua respiração começou a falhar. Os olhos imploravam pela vida.
– Ele vai sentir dores quando acordar, sempre sente. – August explicou – Não se incomode se ouvir alguns gritos durante seu plantão. Aplique um pouco de morfina e tudo ficará bem.
– Não sabemos o porquê das dores, Rose — Beth falou – Dimitri é um caso único para o mundo...
Após isso eles saíram deixando Rose ali, passando recomendações para que se acalmasse. Ela olhou para Dimitri durante o resto do dia, esperando que ele enfim acordasse para que ela pudesse realmente saber que tudo estava bem.
Arrastou uma poltrona cinza que estava no canto do quarto para perto da cama e sentou ali, enrolando seu corpo para que pudesse se esquentar.
Não era permitido que ela levasse cobertores para lá já que Alberta disse que alguma bactéria ou vírus poderia afetar ainda mais a Dimitri. Ela olhou para a parede onde sabia que estariam todos observando a Dimitri. Realmente, ela percebeu, o tratavam como um rato de laboratório.
– Acho que nunca vi você parecer irritada. – sua voz soou baixa, chamando a atenção da morena. Ele permanecia de olhos fechados, e embora seu tom fosse minimamente divertido, seus lábios estavam puxados em uma careta.
– Está sentindo dores? Eu vou pegar a morf-
– Não. – falou segurando o pulso de Rose quando ela o ergueu para alcançar a porta – Eu não quero dormir mais. A dor está sendo suportável até agora. – falou e finalmente abriu os olhos encontrando os de Rose. – Eu morri por quanto tempo?
Ela demorou a entender a pergunta, e não gostou nada quando o fez. Não era possível que após ele lutar para viver perguntasse algo como aquilo!
– Alguns segundos. Te trouxeram de volta antes que se encontrasse com Deus, lamento. Provavelmente não teve tempo nem de pedir para São Pedro te deixar entrar.
Ele sorriu pela segunda vez naquele dia, e novamente para ela.
– Acredita em Deus, americana?
– Bem, pessoas como você devem ir para algum lugar, russo. – ela brincou, embora o olhasse atentamente a procura de qualquer sinal de que algo estivesse muito errado.
– Não se preocupe, eu não vou ter uma parada cardíaca na sua frente. – falou a ela, sentindo-se incomodado com seu olhar sobre ele.
Rose colocou uma mecha de seu cabelo marrom atrás da orelha e cruzou os braços sobre o peito, voltando a se sentar na poltrona.
– Não sei se o senhor se recorda bem, mas foi o que aconteceu pouco tempo atrás. – ela falou engolindo seco. Nunca seria capaz de esquecer aquilo, embora em seu consciente soubesse que deveria se acostumar. Queria ou não queria ajudar as pessoas? Sabia ou não sabia que nem sempre conseguiria salvar a todos por mais que tentasse?
– Ah, aquilo?! Vive acontecendo – respondeu com casualidade e dando de ombros – Como uma enfermeira pode nunca ter visto alguém sofrer uma parada?
– Eu já disse que não sou... – ela se interrompeu, notando que pela primeira vez ele a havia chamado de enfermeira e não médica. Sorriu para ele que a olhava curioso, — Não sou formada há muito tempo. É tecnicamente meu primeiro paciente.
– Isso é bom. – ele falou desviando seu olhar do dela — Espero que não seja nada fácil e você decida por outra profissão – respondeu e virou para o outro lado, ficando completamente de costas para Rose. Quando sua respiração pareceu ter normalizado ela saiu dali. Assim que fechou a porta atrás de si respirou profundamente.
– Ele parece gostar de você. – ouviu uma voz rouca e olhou para o fundo da sala. Encontrou Darnel com um copo de café fumegante em suas mãos. – Ele nunca falou tanto com alguém e ainda parece se importar com o que você pensa. — ele mirava Rose como se a mesma fosse um experimento. – Eu seria capaz de apostar que você poderia convencê-lo a tentar um procedimento cirúrgico.
– Ele não quer. – Rose falou pegando um copo de plástico e indo até a cafeteira, enchendo um copo deste. Não gostava do café. A sensação de bem estar que lhe dava era agradável, mas logo após o efeito daquilo passar, sentia mais sono do que tivera antes de tomá-lo. Mas naquele caso, em que teria que passar a noite de olho em Dimitri, não havia mais nada que Rose pudesse fazer. – E vocês deviam desistir disso. August e os outros já disseram que é muito perigoso.
– Ele viver também é. – Darnel rebateu e se levantou do sofá, jogando em seguida seu copo de café no lixo perto da porta.
Rose assistiu seu jaleco branco balançar enquanto ele andava a passos duros para fora daquela sala. Ela olhou para o vidro e se perguntou se Dimitri sabia da existência dele.
Provavelmente sim, pensou se lembrando de como ele sempre parecia querer ficar escondido dele. Ela nunca conseguiria ficar em um lugar como aquele...
Lá, naquela mesma sala, mas do outro lado do vidro, estava Dimitri, mais uma vez com sonos perturbadores. Quando despertou, sabendo que não conseguiria dormir, começou a pensar em sua família. Eles viriam vê-lo em dois dias, quando era permitido. Suspirou pensando que não queria vê-los daquela vez. Sua mãe sempre parecia tão confiante e suas irmãs sempre se esforçavam para mostrar o mesmo, mas sempre falhavam.
Dimitri se encolheu um pouco na cama, tentando conter os espasmos que seu corpo sofria conforme a dor em sua cabeça aumentava. Nunca se acostumaria com ela. Suas tentativas foram inúteis, percebeu, quando ouviu a porta se abrir novamente e passos soarem no piso branco que sempre parecia ser tão frio.
– Que perfume você usa?– perguntou tentando manter a dor longe de sua mente, fechando os olhos com força e tentando se concentrar na fragrância feminina que havia tomado o quarto desde a primeira vez que ela havia chegado ali.
Um velho sábio asiático havia lhe dito uma vez que a dor vinha de seu consciente e você realmente não sentia ela. Se o encontrasse, amaldiçoaria até a sétima geração daquele homem por ter dito algo tão incoerente. Era verdade que ele sentia como se mil agulhas entrassem em sua cabeça simultaneamente, o mais fundo que podiam, não era apenas devaneio dele.
– Amor, Amor – respondeu cogitando a ideia se deveria esperar que ele pedisse a morfina ou se ela mesma deveria fazer já que ele estava claramente sentindo dores.
– É bom. Combina com você. Já leu Romeu e Julieta? – Dimitri perguntou, fazendo um esforço sobre-humano para abrir os olhos. Percebeu que Rose estava ao seu lado o fitando atentamente. Ela realmente aparentava preocupação.
Suspirou quando notou sua teimosia, mas ainda sim respondeu, sabendo que talvez aquilo aliviasse a dor de Dimitri, embora não confiasse naquele método não-medicinal.
– Já assisti a peça. – falou sentando-se na poltrona, onde poderia socorrer Dimitri se algo de pior acontecesse — Mas porque fui obrigada por uma amiga. Nunca pagaria para asssistir algo que vai terminar em tragédia.
Você sabe que gostar dessa pessoa talvez não seja a mais agradável das escolhas. Você já se decepcionou uma vez, mas continua lá. Não porque é um maldito masoquista, mas porque tem esperanças de que talvez algo diferente aconteça. É nesse momento que você fica iludido e cego a ponto de não ver o que está na sua frente.
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