Onde quer que eu vá
1 Capítulo 1
Notas iniciais
— Eu quero o divórcio. — Hermione pode jurar para si mesma que essas quatro palavras juntas foram as mais difíceis que já tinha dito em toda sua vida. Principalmente porque ela não queria dizer aquilo.
E ela ficou em dúvida se o homem na sua frente tinha escutado o que disse, mas ele ouviu, e ela percebeu isso após ele ter tirado, apenas por alguns segundos os olhos da TV para a olhar de canto de olho, sem mover a cabeça.
Permaneceu em silêncio por alguns minutos o encarando, mas ele continuou com sua atenção voltava para a TV. Irritada, ela vai para a frente do aparelho que roubava a atenção dele com um jogo de beisebol qualquer e o encarou.
— Ei, querida, é um lance importante. — Ele se deita no sofá tentando ver qualquer espaço da TV que ela não estivesse tampando.
— Draco, pode prestar atenção em mim? — Ela pede e bate o pé para que ele a encare. Sem sucesso.
— Só esse lance, já vai acabar. — Ele pede e a olha novamente, por segundos, para voltar os olhos a TV.
— Mas, você não escutou o que eu disse? — Ainda o percebe focado na TV que agora falava mais alto do que ela, por ele ter a aumentado.
Hermione, sem acreditar, semicerra os olhos na direção dele e vai até o mesmo, tentando roubar o controle. A guerra entre os dois dura um tempo onde ela, irritada, sobe em um Draco se acabando em risadas. Depois que perceber que aquilo era ridículo ela se levanta, ajeita a sua roupa, e vai até a tomada arrancando o fio do aparelho.
— Hermione! — Ele protesta e se levanta. Ela não o deixa chegar perto do fio, o arremessa com força no chão e caminha até ele.
— Eu quero o divórcio. — Falar aquilo, olhando nos olhos dele, era ainda mais difícil. Ela tinha dúvidas que, mesmo se preparasse mil anos, fosse fácil.
Ainda sorrido, ele segura o braço dela de um jeito carinhoso.
— Meu amor é só um controle, vem vamos tomar banho juntos. — Segura a mão dela a puxando até o banheiro, mas ela consegue se soltar antes de concretizarem o percurso. Ele bufa sem abandonar o sorriso. — Olha, você não quer tomar um banho, tudo bem, você quem vai perder a massagem incrível que eu poderia te fazer. — A dúvida passa traiçoeira em sua cabeça, se ela deveria continuar com aquilo enquanto o observa tirar a camisa, deixando mostra o corpo malhado, mas ela o afasta.
— Draco, pode, por favor, me levar a sério? — O nome dele em sua boca não sai tão firme quanto ela queria. Ela cruza os braços em forma de proteção.
— Hermione, eu não assisto beisebol mais, tá legal? — Sua voz está seria, agora. — Pronto, agora podemos esquecer isso?
— Isso não tem nada a ver com o beisebol. Só desliguei a droga da TV porque você não estava prestando atenção em mim. — Rolando os olhos ele tira a calça e entra no banheiro, ela o segue.
— A televisão estava mais interessante que você neste momento. — Ele ia entrar no boxe, mas ela entra em sua frente. — Quero tomar banho, Hermione.
— E eu quero o divórcio Draco. — Ela respira fundo e espera. Depois de um tempo em silêncio, ele a surpreende a abraçando.
Com a cabeça dele em seu pescoço, novamente ela se pergunta se deveria fazer aquilo, mas não via outra opção que fosse melhor que essa. Não leva nem meio segundo e ela o afasta, mantendo uma distância segura entre eles, e aí ela vê a ficha dele parecer começar a cair.
Ele dá alguns passos para trás antes de dar as costas a ela e vai até o roupão colocando a mão nele.
— O que foi Hermione? Foi aquela nossa briga de ontem? — Ele veste o roupão tão lento ao soltar suas palavras, parecendo as escolher – Pensei que já estávamos bem. Ok, vai, eu deixo você escolher as últimas peças da coleção.
— Não, não é nada disso. — Ela afasta esse pensamento dele. Ele a encara, a confusão está estampada em seu rosto.
— Não compreendo. É Parkinson, outra vez? Já disse, ela não é nada, apenas minha..
— Secretaria. — Ela completa com voz de nojo. Embora sentisse asco pela secretaria dele, não era ela.
— Sim, percebo que não engole ela. — O semblante dele se suaviza um pouco depois de parecer entender o motivo dela, merda, ela não deveria ter deixado sua máscara cair. Tenta voltar a sua postura, quando ele tenta se aproximar novamente com um sorriso de lado, e os braços abertos.
Ao se aproximar ela o afasta, fazendo força para empurrar seu peitoral, firme e exposto. A cor de seus olhos contrasta com o roupão, preto, e com a cor pálida da própria pele dela, que para ela se encaixa muito bem. Mas ele é mais forte, segura seu rosto com carinho.
Hermione achava irônico pensar que ele tinha o cheiro peculiarmente bom, de cacau misturado a menta. Um dos motivos que fez ela se apaixonar por ele. Os lábios dele estão em sua bochecha, enquanto suas mãos quentes seguram seu rosto de forma delicada. Sua vontade de abraçá-lo vem tão grande, mas se vai tão rápido quanto qualquer outro pensamento que pudesse fazê-la desistir.
— Meu problema não é a insignificante da sua secretaria. — Ela fala firme. Afastando as mãos dele de seu rosto, embora preferisse deixar aquele calor conhecido a aquecer. — Eu já estava pensando nisso há um tempo, mas não sabia qual era o momento certo de falar.
Draco parece paralisado em sua frente, coloca as mãos no bolso do roupão a encarando de forma que parece tentar decifrá-la.
— Esse assunto já está indo longe demais Hermione, não gosto deste tipo de brincadeira. — Dá as costas a ela e vai até a pia. Ela o vê pegar a pasta e a escova, sem entender. Talvez ele quisesse se distrair, ela nunca saberia. Seu coração estava muito acelerado e ela já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha secado a palma da mão na roupa para, em seguida, constar que elas não estavam suando.
— Me conhece o suficiente para saber que não brincaria com uma coisa dessas. — Ele vê sua própria imagem no espelho, ainda com a pasta de dente na mão. Depois a encara.
— Ontem fomos dormir bem.
— Ontem você foi dormir bem, eu não durmo bem a dias. — E de fato, tinha dias que a insônia vinha como uma inimiga e seus pensamentos ficavam a mil. Ela respira fundo e cruza os braços novamente, para não ter que limpar a mão.
Depois de alguns segundos, paralisados e se encarando, Draco larga a escova e pasta na pia passando por ela, como um furacão. Ela suspira engolindo em seco, e o segue o achando no quarto. Ele está sentando na cama. Ela para o observando a distância.
— Mas não tem cabimento seu pedido. — Ele protesta. — O que está acontecendo? — Pergunta, a voz tem suplica. — Podemos conversar e resolver. Foi algo que eu fiz? — Coitado, mal sabia ele que tinha sido ótimo até ali.
Ela queria dar risadas de puro desespero das palavras dele, até rolar no tapete do quarto, escolhido a dedo pelos dois, mas não, ela se manteria firme. Primeiro porque tinha que parecer indiferente e segundo porque aquele tapete felpudo e confortável, já foi abrigo de noites quentes entre os dois, e agora ele parecia espetar seus pês descalços. Quase conseguia o ouvir a chamando de traidora.
— Não. — Responde rápido. — Eu quem me cansei, não quero mais isso.
— Não quer mais isso? Isso o que? — Ele pergunta abrindo os braços parecendo desnorteado. Sua voz levantou algumas oitavas.
— Nós. — Hermione aponta dela para ele mantendo seu tom baixo e firme. — Juntos. Não quero mais, acho que já deu nosso tempo.
— E você descobriu isso da noite para o dia? — Pergunta com um tom de deboche que ela odeia. Seu sorriso é irônico e depois de alguns segundo ele morre, e os braços dele caem derrotados na lateral do corpo. Ela não sabia se a pergunta dele era retórica ou se queria uma resposta. — Fala Hermione, porque não disse isso antes?! — Outro tom, desta vez irritado.
— Não achei que fosse o momento certo. — Não, ela não disse isso antes porque não era isso que ela queria. Até agora não é, nunca pensou que fosse preciso chegar a esse ponto, mas ela não via outra saída.
— E porque você achou que esse seria o momento certo? Não acha que você deveria ter o mínimo de consideração por mim, e ter conversado comigo? — Tudo bem, as coisas estavam indo para o caminho que ela pretendia. Mas ela estava odiando aquele tom de voz dele com ela. Ele falava alto, e com raiva.
— Não achei que tivesse algo para conversar, já que a minha decisão está tomada.
— Isso foi cruel de se dizer Hermione. — A decepção está estampada nos olhos dele, e permanece. — A sua decisão foi tomada, mas você precisou pensar nela antes disso acontecer. Sempre dialogamos, nesse momento isso era mais do que o necessário.
— Eu não queria dialogar, conversar, barganhar. Eu não quero mais Draco. É simples. — Não, não era simples. Ele estava certo, tinha que ter um motivo, mas ela não podia falar porque ele não aceitaria.
O silêncio dura entre eles. Hermione o vê procurar nela alguma pista de que está blefando, mas ela não deu a ele expressão alguma. Nenhum resquício de blefe.
— Não, não é possível, não acabou assim. — Ele constata se levantando da cama.
— É possível. Acabou assim. Não estou mais apaixonada. — Ela não sabia que poderia mentir aquele ponto para ele, mas fez. Ele dá um passo para trás, a respiração dele tão entrecortada quanto a dela.
Nesse momento ela se pergunta quanto tempo mais demoraria para ele aceitar. Era a coisa mais torturante não poder o confortar, ter que mentir e a mais difícil ver as lágrimas vindo aos olhos dele.
— Hermione, eu quero acreditar, mas não consigo. — A voz dele está embargada. Ela respira fundo, olha para o teto, não choraria, droga, ela não podia chorar.
— Não consegue acreditar em qual parte? A que não quero ficar com você? — Ela pergunta tentando ofendê-lo, afetá-lo. E quando o olha outra vez uma lágrima teimosa cai de seu próprio olho, e ela a limpa com raiva.
— Justamente essa parte. — Ele também limpa as próprias lágrimas. — Eu preciso de uma explicação plausível, além da que eu decidi e pronto. — Sua voz novamente sobe algumas oitavas e ele parece tentar a manter firme – Acho que preciso te explicar o que anos de casado significam. Portanto, esses anos merecem uma explicação melhor do que essa.
Nesse momento Hermione começa a entender que foi idiota ao pensar que seria só fazer o pedido e ele o aceitaria, fácil e sem pestanejar. Não imaginou que fosse precisar de um motivo certo, e foi ai que percebeu que seu plano tinha falhas demais, mas como já tinha começado ela não desistiria, mesmo com vontade de chorar, as pernas bambas e as unhas afundadas na palma da mão, para ter um controle que ela tinha retomado, mas que perderia a qualquer momento outra vez.
— Eu sei que sete anos de casado significam mais do que sete dias. Sei mais do que gostaria. — Ela se descontrola, como não queria.
— Está vendo, eu sei que tem algo aí. — Ele aponta para ela acusativo. — Vamos Hermione. — Ele grita. — Diga o que quer dizer. — Ela engole o resto de sua fala passando a língua nos lábios secos. Coloca as mãos na cintura, e respira fundo.
— Draco, eu quero o divórcio. Não quero mais ter que fazer isso, tentar ser um casal me desgasta mais do que eu imaginei. — Fala baixo com um autocontrole irreconhecível.
Ele se senta outra vez, apoia os cotovelos no joelho e cobre o rosto com as mãos. O silêncio volta outra vez e ela ouve seu coração gritado para ela. Será que Draco poderia o ouvir? Sim, ele certamente estava o ouvindo, pode ser que o prédio todo estivesse.
— Isso não foi um problema para você por sete anos. — A voz dele abafada pelas mãos, tem um tom cansado.
— Pois é, não quero ter que chegar a oito, para constatar minha infelicidade.
— Pare com isso Hermione. — Então ele a encara. Está chorando, chorando de verdade. Ele até segura um soluço, ela se assusta. — Pare, por favor. — Suplica. — Eu amo você, e isso está me machucado. — Merda, merda, merda. Ela o amava demais, amava tanto que estava fazendo aquilo por ele, mas ele jamais entenderia. Ela não consegue segurar e chora também. — Eu queria que abandonasse por um segundo esse seu tom rude e conversasse direito, me explicasse, me desse alguma luz. Não tem como me dizer que foi por sete anos infeliz, porque eu sei que é mentira.
— Eu não disse que foram sete anos de infelicidade. — Ela tenta se corrigir e segura um soluço. Ele tinha conseguido desarmá-la. Merda, outra vez. — Só disse que até aqui já foi o suficiente para mim, deu! — Eles permanecem em silêncio. Ela tenta fazer sua cabeça trabalhar enquanto o vê secar o rosto, seu coração traiçoeiro grita mais alto, e seus pés começam a trair quando começa a ir até ele, mas percebendo o que está fazendo ela para. Será melhor assim, diz para si mesma, tentando desesperadamente acalmar seu coração dilacerado. — Draco, eu vou me mudar. Já visitei alguns apartamentos. — Não acredita que aquilo tenha saído de sua boca, pois tudo estava irreal demais, mas era verdade, as duas coisas. Ela tinha dito aquilo e ela tinha realmente visitado apartamentos, em seu tempo livre na empresa, mas até escolher um apartamento não era tão divertido quanto ao lado dele, que sempre fazia graça por tudo.
Os olhos dele a fulminam.
— Você é ridícula! Está sendo ridícula e estúpida. — Ela não imaginava ser possível seu coração se partir, mas ele tinha. Contudo ela não o faria retirar o que dizia, talvez ele estivesse certo. — Eu estava aqui Hermione, estava aqui o tempo todo. Você sabia que podia contar comigo. — Ele ainda não parecia satisfeito, ela percebe. — Mas preferiu esconder tudo de mim. Está me fazendo de bobo por tanto tempo. Não, o estúpido foi eu, de não perceber. — Abriu a boca para falar, ele não deixou. — Mas você não demonstrava. Parabéns pela sua atuação. — Ele bate palmas. Seu sorriso, congelado com deboche. — Isso tudo foi real para você Hermione? Começo a me perguntar se vivemos o mesmo relacionamento.
— Não seja ridículo. — Ele ri gostosamente.
— Ridículo? Eu? — Coloca a mão no peito parecendo ofendido. — Você está terminando comigo sem motivo e eu que sou ridículo? — Passa a mão pelos lábios, irritado, como se quisesse o machucar. — Que foi, conheceu alguém? É isso? Tem alguém? — E aí veio o silêncio, um silêncio longo e cheio de entendimentos nenhum pouco verdadeiros, mas que permaneceriam se dependesse dela. Era ali, ela percebeu, que a falha de seu plano seria preenchida com louvor. O choque no rosto dele congela a cena. Ele se levanta e aproxima dela como um furacão, segurando seu braço. — Você tem outra pessoa?! — Sua pergunta é afirmativa, e o aperto em seu braço é firme.
— Está me machucando Draco. — Ela fala, ele continua a segurando.
— Tem quanto tempo? — ela permanece em silêncio. — A quanto tempo isso está acontecendo? — Ele pergunta e a sacode levemente.
— Me larga. — Ela manda olhando dele para o braço, e assim ele o faz a empurrando no processo. Ela dá alguns tropeços para trás, mas consegue se manter firme para não cair.
— Quem é a pessoa? Quem? Você o trouxe aqui? Usou a nossa cama? — Ele pergunta colocando as palavras na boca dela, ela não protestou ou desmentiu e apenas permanece em silêncio, se abraçando e observando sete anos de casamento serem arremessados pela janela. — Quem é você que eu não conheço? Por quanto tempo venho dormindo com uma estranha? — Ela permanece em silêncio. — Não vai mesmo dizer nada? — Ela não fala. — É por isso que tinha tanto ciúmes da minha secretaria? Você sabia que eu jamais faria uma coisa dessas, mas quem trai sente que o outro pode fazer o mesmo, não é? — Aquela palavra, traição, machucava ela ainda mais do que a palavra divórcio. Machucava porque ela jamais faria aquilo com ele, mesmo que por vingança. Ela nunca o colocaria naquela posição. Mas hoje, hoje ela estava fazendo, mesmo sem realmente ter feito, e começava acreditar que a palavra nunca era algo que sempre estaria presente em seu vocabulário. Nunca achou que essas coisas aconteceriam, no entanto, estavam. — Eu te amei Hermione! Amei de verdade! Quer dizer, ainda amo, e é assim que você me retribui? Fazendo isso comigo? — Ele chora. — Sabe como me sinto? Surpreso. Meu coração está dilacerado. Nunca imaginei que você pudesse me machucar desse jeito. Nunca imaginei que pudesse me sentir tão fora de mim por sua causa.
— Está aí então, algo em comum entre nós, a palavra nunca. Achamos que não fossemos usá-la. — Seu coração pulsava em sua cabeça tão forte que achou que fosse passar mal, pois não conseguia mais manter o ritmo certo de sua respiração.
Se encararam por um tempo, tempo esse que pareceu maior do que os sente anos estiveram juntos, e quando ele abriu a boca e a fechou desistindo, ela entendeu. Ele não iria mais argumentar. E mesmo querendo aquilo, seu coração protestava infeliz.
— Não, não temos nada em comum. E isso é culpa sua. — Deu as costas a ela, e entrou no banheiro fechando a porta com um baque surdo.
Encarando a madeira, ela sentiu as lágrimas vindo forte e não quis mais as segurar. Soltou o que a sufocava, deixando que esse fosse o seu consolo.
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