Onde o Sol e a Sombra se Encontram

1 Capítulo 1: O Peso da Capa


A luz do luar atravessava as janelas circulares do escritório do Hokage, desenhando sombras longas sobre as pilhas de relatórios que pareciam nunca diminuir. Naruto Uzumaki, herói da Quarta Guerra e Sétimo Hokage, soltou um suspiro que carregava o peso de toda a vila. Ele olhou para a aliança de ouro em sua mão esquerda. O metal brilhava sob a lâmpada da mesa, símbolo de uma promessa que tentava honrar todos os dias, mas que, no fundo do peito, parecia uma corrente. Ele amava Hinata — um amor feito de gratidão, respeito e carinho — mas não era o tipo de amor que incendiava a alma. O afeto que sentia por sua família era real, mas a vida que levava parecia um roteiro escrito por outra pessoa.

Ele se levantou e caminhou até a janela. Konoha estava silenciosa. Para o mundo, Naruto tinha tudo. Mas, no escuro do escritório, ele era apenas um homem sentindo falta de uma metade que ele mesmo ajudou a exilar.

— Onde você está, Sasuke? — sussurrou para o vidro frio.

A mil milhas dali, em uma floresta onde o frio cortava a pele, Sasuke Uchiha estava encostado em uma árvore secular. Sua respiração era curta; um ferimento superficial no ombro latejava, mas ele não usava o chakra para curá-lo. A dor física era um distrativo necessário para a dor que sentia sempre que fechava os olhos.

Sasuke vivia em missões intermináveis por um motivo que nunca admitiria em voz alta: ele não conseguia voltar para casa e fingir. Não conseguia olhar para Sakura e ver o futuro que todos esperavam dele. Cada vez que ela o tocava, sentia que estava roubando algo dela — a chance de ser amada por alguém que estivesse inteiro ali.

Ele abriu o pergaminho de invocação, mas hesitou. Seus dedos roçaram o papel. Queria enviar uma mensagem oficial, mas seu chakra, teimoso e indisciplinado quando se tratava dele, fluiu de uma forma diferente. Sasuke fechou os olhos e se permitiu, por apenas um segundo, admitir a verdade que guardava em seu Sharingan: o ódio que jurou sentir por Naruto no passado era a única forma que sua mente de doze anos encontrou para não se afogar na intensidade do que sentia. Ele não odiava Naruto. Ele odiava o fato de que Naruto era o único que poderia destruí-lo com um sorriso.

Com um movimento rápido, ele mordeu o dedo e invocou um pequeno falcão.

— Para o Naruto — ordenou, a voz rouca pelo desuso. — Apenas para ele.

Não era um relatório de missão. Era um pedido de socorro que não usava palavras.

Pouco tempo depois, o falcão pousou na moldura da janela com um som seco, as garras prendendo-se à madeira com urgência. Naruto congelou. Reconheceria aquela ave em qualquer lugar; era o mensageiro privado de Sasuke, usado apenas para comunicações que não passavam pelos olhos dos conselheiros ou da ANBU.

Com as mãos levemente trêmulas, Naruto desamarrou o pequeno canudo de couro. Esperava um relatório sobre vestígios de Kaguya ou movimentações suspeitas. Mas, ao desenrolar o papel, não encontrou letras. Havia apenas um borrão de sangue seco — um sinal de que Sasuke fora ferido e não tivera tempo ou paciência para escrever — e um traço feito com o chakra do Uchiha.

Ao tocar o papel, Naruto sentiu uma descarga elétrica percorrer seus dedos. Era um Sinal de Chamada: uma técnica antiga que criaram quando crianças, uma promessa silenciosa de que, se um estivesse caindo, o outro seguraria.

— Você está perto... — Naruto murmurou, o coração martelando contra as costelas de um jeito que Hinata nunca conseguira provocar.

O chakra de Sasuke no papel não estava frio; estava desesperado. Transmitia uma exaustão que ia além do cansaço físico. Era o grito de alguém que não aguentava mais sustentar o próprio disfarce.

Naruto olhou para a porta do escritório. Do outro lado, seus assistentes esperavam, sua vila dormia sob sua proteção, e sua esposa provavelmente mantinha uma lâmpada acesa na sala de estar, esperando pelo marido que nunca chegava cedo. Se saísse agora, estaria quebrando a fachada do "Hokage Perfeito".

Ele pegou a capa branca e vermelha, o símbolo de seu maior sonho, e a jogou sobre a cadeira. Pela primeira vez em anos, ele não era o Sétimo.

— Shikamaru vai me matar por isso — disse para o vazio, um sorriso triste e genuíno surgindo em seus lábios enquanto abria a janela.

Em um piscar de olhos, Naruto saltou para os telhados de Konoha, deixando para trás o Hokage e levando consigo apenas o homem que, por tempo demais, tentou convencer o mundo de que o seu vínculo com Sasuke era "apenas amizade".