Onde o Sol e a Sombra se Encontram

2 Capítulo 2: A Linguagem dos Punhos


Sasuke estava de pé, mas seu equilíbrio era precário. Quando sentiu o deslocamento de ar que anunciava a chegada de Naruto, sua primeira reação não foi um abraço ou um alívio. Foi sacar a Kusanagi.

— Eu disse para vir, Naruto... não disse para me seguir como um cão farejador — a voz de Sasuke era um estalo de gelo no silêncio da floresta.

— Você enviou um sinal de socorro, Sasuke! — Naruto gritou, parando a poucos metros, o peito subindo e descendo com força. — Você está sangrando, o seu chakra está um caos... O que você esperava que eu fizesse? Que ficasse sentado assinando papéis enquanto você morre sozinho aqui fora?

— Eu não preciso da sua piedade! — Sasuke avançou.

Não foi um ataque para matar, mas foi um ataque para afastar. O metal da espada colidiu com a kunai que Naruto sacou no último segundo. Faíscas saltaram, iluminando o rosto de Sasuke; os olhos dele estavam injetados, o Sharingan girando freneticamente, tentando processar uma dor que não vinha da ferida no ombro.

— Saia daqui! — Sasuke desferiu um chute que Naruto bloqueou com o antebraço. — Volte para sua vila, para sua esposa, para sua vida perfeita!

— Vida perfeita? — Naruto rugiu, devolvendo um golpe que forçou Sasuke a recuar. — Você acha que eu sou feliz vivendo uma mentira todos os dias? Você foge para o meio do nada porque é covarde demais para me olhar nos olhos, e eu fico lá, fingindo que o buraco no meu peito não tem o seu nome!

A palavra covarde atingiu Sasuke pior do que qualquer Rasengan. Ele soltou a espada e avançou com os punhos. Foi uma luta bruta, sem jutsus grandiosos, apenas o som de ossos contra carne. Era a forma como eles sempre se comunicaram quando as palavras falhavam.

Naruto segurou os pulsos de Sasuke contra o tronco de uma árvore, prendendo-o com o peso do próprio corpo. Eles estavam tão perto que o calor da respiração de um batia na pele do outro.

— Me solta... — Sasuke sibilou, mas sua força estava esvaindo. O ódio em seus olhos começou a vacilar, dando lugar a uma vulnerabilidade aterrorizante. — Me solta antes que eu acabe com tudo, Naruto.

— Acabe com o quê? Com esse teatro? Com os casamentos que a gente usa de escudo? — Naruto não recuou. — Eu não vou a lugar. nenhum. Você pode me bater, pode me odiar, mas eu sei que esse seu ódio é a única coisa que você usa para não ter que admitir que me ama.

O silêncio que seguiu foi mais pesado que a própria luta. A mão de Sasuke, que estava fechada em um punho contra o peito de Naruto, relaxou lentamente, os dedos agarrando o tecido da camisa do Hokage.

— Se eu admitir... — a voz de Sasuke quebrou, tornando-se um sussurro quebrado — ...eu não vou ter mais nada que me proteja de você.

O brilho do Sharingan vacilou até se apagar, deixando as íris negras inundadas por uma compreensão que ele tentou evitar por décadas. O aperto em sua túnica relaxou e, com um suspiro que parecia carregar o peso do mundo, Sasuke desabou.

O corpo de Sasuke pesou contra o de Naruto. O choque da adrenalina passou, deixando apenas a exaustão de anos de fuga. Naruto o segurou com firmeza, sentindo o calor febril que emanava da pele do Uchiha.

— Sasuke? Ei, Sasuke! — Naruto chamou, a voz tingida de um pânico que ele raramente sentia em batalha.

Não houve resposta. Apenas uma respiração irregular e o aperto fraco de Sasuke em sua capa, que logo cedeu. Sem pensar duas vezes, Naruto o ergueu nos braços. Ele conhecia um antigo posto avançado de vigia, desativado desde a guerra, escondido entre as rochas a poucos quilômetros dali. Era um lugar seguro, longe de olhos curiosos e, principalmente, longe de Konoha.

Ao chegarem à pequena cabana de pedra, o ambiente era frio e cheirava a poeira e madeira velha. Naruto deitou Sasuke em um futon improvisado e, com movimentos rápidos e práticos de quem já viveu em campos de batalha, começou a tratar o ferimento.

Ele teve que remover a parte superior da túnica de Sasuke. Sob a luz vacilante de uma pequena chama de chakra que criou na palma da mão, Naruto viu as cicatrizes. Algumas ele conhecia, outras eram novas, mas a que mais doía era a invisível: o modo como Sasuke parecia ter diminuído, não em poder, mas em espírito.

Enquanto limpava o sangue, Naruto percebeu que suas próprias mãos tremiam.

— A gente se quebrou tentando ser o que eles queriam, não foi? — murmurou Naruto, mesmo sabendo que o outro não ouvia.

Ele pegou uma bacia com água da chuva e começou a baixar a febre de Sasuke. Horas se passaram. O Sétimo Hokage, o homem mais poderoso do mundo, estava ali, sentado no chão de terra batida, cuidando do homem que o mundo chamava de "Sombra", mas que ele chamava de "lar".

Perto do amanhecer, Sasuke despertou. Seus olhos focaram lentamente no teto de madeira e depois no rosto cansado de Naruto, que estava sentado ao seu lado, vigiando seu sono.

— Por que você não me deixou lá? — a voz de Sasuke era um fio, desprovida de sua habitual arrogância.

— Porque eu já te deixei ir embora uma vez, Sasuke. Eu passei metade da minha vida tentando te trazer de volta — Naruto respondeu, os olhos azuis fixos nos dele. — Eu não sou o Hokage aqui dentro. Eu sou apenas o Naruto. E o Naruto não consegue respirar se souber que você está morrendo sozinho em algum lugar.

Naruto sabia que, ao cruzar aquela porta, ele estava deixando para trás o símbolo que jurou ser, mas, olhando para Sasuke, percebeu que o título de Hokage nunca preencheu o espaço que pertencia ao homem à sua frente.

Sasuke desviou o olhar, uma lágrima solitária traçando um caminho pela têmpora.

— Sakura... as crianças... eles merecem o herói. Eles não merecem um homem que está vazio por dentro.

— Eles merecem a verdade, Sasuke — Naruto disse, aproximando-se e segurando a mão de Sasuke, os dedos entrelaçando-se naturalmente. — E nós também.

O silêncio que se seguiu tornou-se incômodo. Denso o suficiente para que o som da respiração de ambos fosse o único marcador dos minutos que se seguiram.