Onde Tem Ódio Tem Amor
90 You can count on me
Notas iniciais
Havia o vento gelado que entrava pela fresta da janela, e, em contraste, os lábios quentes dele pressionando seu pescoço por longos segundos, fazendo-a se encolher na cama, aconchegando-se mais em seu abraço. Era tão comum acordar daquela forma, mas mesmo assim sorria, especialmente por lembrar-se de que aquele não seria um dia comum. Mal conseguira dormir naquela noite. Não sabia o porquê da ansiedade dominar cada célula de seu corpo, afinal, nada mudaria. Era apenas uma festa para anunciar o noivado, sendo que grande parte de seus conhecidos já até mesmo sabiam. Se estava daquela maneira para a festa, não queria nem pensar em como estaria seu estado na data do casamento. Em pensar que nunca havia dado importância para coisas do tipo.
Tinha conseguido se acalmar pelo menos quando Natsu a abraçou, sendo tomada pelo sono. Porém, ainda assim dormira pouco.
— Não quero sair da cama — ele resmungou, sonolento. A voz tão próxima de sua pele deixou-a eriçada.
— Então não saia — respondeu. Virou-se para ele e entrelaçou suas mãos.
— Alguém tem que pagar as contas dessa casa, não é? — Natsu brincou, depositando um beijo em seu colo nu. Ela riu, afinal, ganhava quase dez vezes mais do que ele, mas Natsu tinha aquele orgulho financeiro que o obrigava a dividir as contas exatamente na metade. — O que foi? Está nervosa?
O coração de Lucy batia de forma mais acelerada do que o normal. Conseguia notar a diferença baseando-se no tanto de vezes em que deitava sua cabeça no peito da jovem e percebia seus batimentos, sentindo a leve e ritmada vibração causada pelo movimento em seu rosto. Adorava aquilo. Podia passar horas ouvindo aquele som. Era sua música favorita.
— Só um pouco. E você?
— Talvez. Só um pouco, também. É estranho. Mas um estranho bom.
— Percebeu que já faz mais de um mês que estamos numa relação estável? Sem nenhum tipo de problema grave — comentou, apertando a mão de Natsu.
— Sério? Uau. Isso deve ser tipo um recorde para nós.
— É. Chega a dar um pouco de medo. Não ia me surpreender se um de nós desmaiasse no meio da festa.
— Ou fosse sequestrado.
— Ou uma ex-namorada sua aparecesse dizendo que tem um filho seu. Se seguisse nesse ritmo logo Magnólia estaria infestada de mini Natsus.
— Isso não seria nem um pouco legal.
— Não mesmo. A cidade se tornaria um caos. Seria como uma infestação de pequenos diabinhos de cabelo rosa destruindo tudo por onde passam.
— Eu sou a favor de uma infestação de mini Natsus-Lucys.
— Aí a situação ficaria balanceada. O lado “Lucy” colocaria o lado “Natsu” nos eixos e nenhum edifício seria destruído.
— Ah, é mesmo?
— Claro. Quem você acha que te coloca na linha, garoto? — ela respondeu, rindo. Tão cedo e já iniciando conversas completamente sem sentido. Assim era a vida ao lado dele. Ao menos conseguiam brincar com os desacasos que os acometeram naqueles anos. Tornava mais fácil de lidar com as situações.
— Mas relaxa, Heartfilia — disse, beijando-lhe a bochecha. — Vai dar tudo certo, e nenhum mini-Natsu vai aparecer. Ou qualquer outra coisa. Nada de ruim vai acontecer.
— Eu sei.
— Quer me acompanhar em um banho quente nessa manhã gelada? — Perguntou, ainda próximo de seu ouvido.
— Não, obrigada. Acho que vou dormir mais um pouco.
— Que eu saiba, isso não te impede de nada. Você pode muito bem tomar um banho comigo e voltar a dormir.
— Não, porque se eu levantar agora não vou conseguir voltar a dormir.
Natsu suspirou, pondo-se em pé.
— Fresca.
— Chato — respondeu, ainda segurando a mão quente do garoto. — Acho que vou passar na casa da Levy para me arrumar, então te vejo à noite, se eu não acordar antes de você sair.
— Ok. Até mais tarde.
Natsu desapareceu dentro do pequeno cômodo ao lado do quarto. Alguns segundos depois ouviu o som da água caindo do chuveiro. Parecia com o barulho da chuva, então bastou fechar os olhos para adormecer, ainda sorrindo.
Quando despertou, horas depois, a casa estava vazia. Havia dormido por tempo demais. Logo precisaria sair também, mas tinha tempo para adiantar um pouco do trabalho acumulado. Pelos recentes dias de viagem, estava completamente atrasada em tudo que precisava fazer, mas ao menos Natsu parara de implicar com o tempo que dedicava às suas funções.
Quando o relógio marcou quatro horas da tarde, decidiu que já era tempo de ir à casa de sua amiga. Tinha três horas para estar pronta para a festa, e ainda queria conversar com Levy sobre o que andava incomodando-a, já que não havia tido tempo para isso ainda. Pegou suas coisas, além do vestido que pretendia usar, e saiu.
As pessoas na calçada encaravam-na por estar carregando o traje nas mãos em plena rua, porém não se importava. A casa de Levy não ficava tão distante a ponto de precisar chamar um táxi, menos de 10 minutos caminhando. Seria desperdício de dinheiro. Além do mais, caminhar era bom para o meio-ambiente e para a saúde, e já que Natsu vivia fazendo reclamações sobre o modo como ela levava sua vida, poderia usar como argumento para dizer que estava se exercitando. Não deixava de ser uma verdade. Contudo, admitia que não era exatamente o melhor modo de transportar uma roupa para um evento formal. Se acaso caísse ou sujasse o vestido, mesmo que ele estivesse envolto em uma capa de proteção, Levy iria querer cortar sua garganta, afinal, fora ela quem escolhera o modelo, assim como viera dela a ideia da festa. A pequena parecia mais empolgada com todo o evento do que a própria Lucy. E era bom que fosse assim. Quem sabe a festa pudesse lhe causar alguma empolgação.
Logo avistou a pequena casa. Seu tamanho era inversamente proporcional ao aconchego e conforto que oferecia. Era semelhante a Levy. Não possuía tamanho, mas seu interior vencia a mais luxuosa das pessoas. Ou residência.
Bateu na porta, ouvindo pouco depois a voz alta de sua amiga.
— Pode entrar.
Lucy obedeceu. Encontrou a dona da casa deitada no sofá da sala, assistindo um filme qualquer na televisão. Sequer moveu o olhar para ver quem acabara de adentrar sua residência.
— Sabe, seria bom você perguntar quem é antes de pedir para entrar. Nunca se sabe, poderia ser um ladrão.
— Claro, porque um ladrão com certeza iria bater na porta — argumentou, ainda com os olhos fixos na tela.
— É, acho que você tem razão. Mas perguntar não vai te matar — Lucy respondeu, sentando-se na poltrona, ao lado do sofá. — Tudo bem?
— Uhum — Levy resmungou.
— Você parece meio desanimada.
— É só a preguiça de sair de casa — disse. Pegou o controle, desligou a tv e sentou-se. — Você também não parece tão animada assim considerando que é sua festa de noivado.
— Meu ânimo é interior, mas com a ideia em si, com o motivo da festa, não com a festa. Não gosto desse tipo de evento. Toda a coisa de ter que se arrumar, e depois passar horas conversando com várias pessoas. É cansativo demais.
— Mas não é como as festas com as quais você está acostumada, relacionadas a trabalho. São seus amigos, pessoas que você conhece.
— Eu sei, mas continua sendo cansativo.
— Por que decidiu fazer, então, Lu-chan?
— Não sei... A comida em festas é sempre boa — respondeu, brincando.
— É um bom motivo.
— Com certeza é.
— Além do mais, é meio sem sentido, sabe? Ele já fez o pedido, afinal, e quase todas as pessoas que conhecemos já sabem. Acho que o único motivo é a comida mesmo.
— Deve ser. Provavelmente é isso.
O silêncio se instaurou no aposento. Levy não parecia fazer muita questão de conversar, não aparentava se incomodar com a falta de assunto, quase como se na verdade o desejasse. Lucy se ajeitou na poltrona, tomando uma longa e profunda respiração. Se sua amiga não lhe diria nada, teria que tocar no assunto de alguma maneira. Do contrário, ele não surgiria sozinho.
— Tem certeza de que está tudo bem?
Levy demorou para responder. Hesitando, aparentemente.
— Sim, tenho certeza — tinha certeza de que ela quase acrescentou um “por que a pergunta?” no final, porém desistiu, sabendo que isso prolongaria a conversa. De uma forma ou de outra, ela não acabaria ali, mas tinha uma ínfima esperança de que conseguiria cessar a curiosidade de Lucy baseando-se na confiança.
— Não parece estar. Você tem agido de modo estranho. Não é a Levy que eu conheço.
— Isso é coisa da sua cabeça, Lucy.
— Tenho bastante certeza de que não é — tomou uma pose mais séria, tentando demonstrar confiança. — Eu sou sua melhor amiga, não é? Pode confiar em mim para dizer qualquer coisa.
Levy tentou disfarçar a tomada de ar. Queria contar, era perceptível, mas não conseguia.
— Não é nada.
— Você não estaria assim por nada — por que a maioria esmagadora de seus entes queridos tinha que ser tão orgulhosa? Natsu dissera exatamente a mesma coisa quando ela o questionara sobre o motivo de estar se sentindo mal na viagem. Sua vida seria muito mais fácil se eles simplesmente se abrissem. Sabia o quanto manter as coisas para si mesmo muitas vezes apenas tornava tudo mais complicado. Contudo, também sabia o quão difícil era falar sobre certos assuntos, portanto, tentava não os forçar. — Tem a ver com o Gajeel?
A pequena riu, desviando o olhar.
— Quando os problemas na minha vida não têm a ver com ele?
— O que aconteceu? Vocês brigaram outra vez?
— Bem que eu queria que fosse simples assim... — respondeu baixo, ainda que num volume suficiente para que Lucy conseguisse ouvir. Aos poucos, ela se abria. Tinha apenas que lhe dar espaço para isso. — Nós nunca voltamos, Lucy.
— Como assim? Vocês sempre voltam em algum momento, nunca ficam tanto tempo separados.
— É, bom, não dessa vez. Não importa, de qualquer forma. Ouvi dizer que ele está saindo com uma garota qualquer.
Havia mais naquilo. Sabia que havia, era perceptível em seu olhar. O buraco era mais fundo do que Levy tentava deixar transparecer. Mas parecia que queria esconder a outra parte a qualquer custo.
— O que mais?
— O que quer dizer com “o que mais?”
— Tem outra coisa, não tem? A Levy que eu conheço não ficaria assim só por causa de um cara, mesmo esse cara sendo o Gajeel.
— Bem, talvez você não me conheça tão bem assim — respondeu de modo brusco. Logo depois, levou as mãos ao rosto. — Desculpa, Lu-chan. Só estou sob muito estresse no momento.
— Eu sei. Não tem problema — aproximou-se de sua amiga, segurando sua mão. — Ei, eu entendo se você não quiser falar. Mas, se por acaso decidir desabafar com alguém, você sabe que eu estou aqui por você. Sempre quando algo acontece comigo é você quem me apoia e não me deixa cair, só quero poder retribuir tudo que faz por mim.
Levy esboçou um fraco sorriso.
— Eu sei. Obrigada, Lu-chan — respondeu, apertando a mão da loira. — Não precisa se preocupar comigo, ok? Vou ficar bem.
— Eu sempre vou me preocupar com você. Talvez morra de preocupação por causa de você e do babaca com quem daqui algumas horas aceitarei publicamente passar a vida, mas tudo bem. É por um bom motivo.
— Falando nisso, você não deveria estar se arrumando? — A pequena lembrou.
— É, provavelmente deveria. Posso usar o seu banheiro? Preciso tomar um banho.
— Claro. Sabe onde fica. E Lucy — a loira murmurou em resposta —, vai me deixar fazer seu cabelo e maquiagem, não vai?
Congelou, sem saber que resposta dar. Sabia que se deixasse, Levy iria exagerar, e não queria nada exagerado. Apenas o bom e velho simples.
— Eu não sei se posso confiar em você com isso...
— Por favor! Prometo que vou me comportar.
A loira suspirou, relutante.
— Isso vai te deixar mais animada?
— Definitivamente.
— Ok, ok... O que eu não faço por vocês?
Deixou a sala com uma Levy sorridente, muito contrário do cenário que encontrara minutos antes. Ao menos tinha conseguido alguma coisa. Talvez não tivesse resolvido a situação de Levy, mas era melhor do que nada.
Dirigiu-se ao banheiro do quarto de hóspedes, no segundo andar. Já estivera ali tantas vezes que estava acostumada com o lugar. Ligou o chuveiro, despiu-se e entrou no pequeno cubículo, sentindo a água caindo sobre suas costas. Tentou relaxar por um momento, não pensar em nada, esquecer a preocupação de algo dar errado naquela noite e a ansiedade, tentando apenas sentir o jato forte massageando seu corpo.
Entrou num estado de transe e, no segundo em que ouviu o barulho da porta do banheiro se abrindo saiu dele de forma tão brusca que pulou de susto.
— Levy! — Gritou, tentando cobrir com os braços as partes expostas de seu corpo.
— Ah, desculpa, esqueci de pegar um creme que deixei guardado aqui.
— Mas não podia ter esperado?! — Exclamou.
— Por que? — A pequena perguntou inocentemente, realmente sem entender o motivo do escândalo. — Relaxa, Lu-chan. Não tem nada de mais nisso.
— Claro que tem! — Disse, as bochechas coradas e infladas.
Levy começou a rir, achando graça da situação.
— Viu? Por isso o Natsu e eu adoramos te constranger. É engraçado. Você fica completamente sem jeito.
— Juro que não sei por quê — respondeu sarcasticamente, bufando.
— Esqueceu que vejo as mesmas coisas todo dia quando me olho no espelho? Não tem nada de mais, sério. Você tem que levar as coisas mais de boa, Lucy. Senão fica tão fácil te provocar que daqui a pouco perde a graça.
A pequena ainda ria quando saiu do aposento, deixando uma Lucy completamente corada, soltando todo o ar que estava prendendo. Se um dia fosse presa por assassinar aqueles dois, apelaria ao juiz dizendo que eles tiveram culpa fazendo-a perder a sanidade.
Terminou o banho o mais rápido que pôde, para não correr o risco de repetir o incidente. Enrolou-se na toalha e saiu para o quarto de hóspedes, onde Levy lhe esperava com todo seu material pronto. Corou imediatamente ao vê-la outra vez, lembrando-se do recente acontecimento.
— Ok, sente-se aqui — disse, apontando para uma cadeira que havia colocado no quarto. A loira obedeceu. Levy começou primeiro a mexer em seu cabelo. Sentiu sono. Sempre sentia quando faziam coisas do tipo. — Você ficou tão sem jeito assim quando Natsu te viu como veio ao mundo pela primeira vez também?
— Talvez... — respondeu, encolhendo-se na cadeira, desajeitada.
— Tenho pena dele. O coitado deve sofrer com você, Lu-chan — a pequena comentou, rindo.
— Será que podemos não falar sobre isso, por favor? — Pediu.
— É tão fofo o modo como você fica com vergonha tão fácil. Dá vontade de apertar. Talvez ele não saía perdendo tanto assim.
— Levy...
— Ok, ok. Vou parar, prometo — apesar disso, a pequena ainda ria. Ao menos, ela estava se divertindo. — Ei, Lucy.
— O que foi?
— Como você soube que valia a pena, sabe, assumir um compromisso desses com o Natsu? Que não vai acabar se arrependendo depois.
— Eu não sei. Talvez acorde amanhã e pense que foi uma péssima ideia, tantas vezes eu já achei que era. Mas, agora, parece a coisa certa a fazer. Não dá para saber exatamente, acho. Só sei que gosto de estar com ele, então prefiro arriscar. Por que a pergunta?
— Nada. Não é nada — respondeu, distante. Depois, voltou a se concentrar no cabelo de Lucy. — Agora, me deixe trabalhar. A arte requer atenção.
— Sem exageros! — A lembrou.
— Sem exageros, prometo.
***
Estava pronta, apenas esperando por sua amiga para saírem de casa. Levy não deixara que ela visse o resultado final, então fazia uma mínima ideia do que a pequena havia feito em seu rosto e cabelo. A fez prometer que não se olharia no espelho sob a justificativa de que queria que Lucy visse o resultado na expressão de Natsu quando ele a encontrasse. Uma frescura, em sua opinião, mas, como estava tentando fazer de tudo para distrair sua amiga, submeteu-se àquela ideia estranha.
Poucos minutos depois, Levy desceu as escadas, elegantemente num vestido longo preto, contrastando com os cabelos levemente cacheados e azulados encostando em seus ombros.
— Ok, vamos encontrar seu príncipe encantado — disse, aproximando-se de Lucy.
— É, não acho que ele esteja muito para príncipe, mas tudo bem. Ei, Levy, pode guardar isso com você? — Perguntou, entregando-lhe uma fina caixa preta.
— Claro. O que é?
A loira arqueou as sobrancelhas. Uma expressão de quem tinha um grande plano em mente surgindo em sua face.
— Você verá. Vou mostrar para aquele convencido de que ele não é o único que consegue fazer uma boa surpresa...
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