Onde Tem Ódio Tem Amor
84 Teoria do Caos
Notas iniciais
Sabia que todo aquele tempo sem poder gastar energia em algum momento traria prejuízos. Sinceramente, pensava que as consequências viriam até mais cedo, afinal, já fazia alguns dias desde os acontecimentos com Ryan. Não havia dúvida alguma de que estava em mais um dos pesadelos causados pelo Koscheivich. Sonhos normais eram muito diferentes daqueles, seria impossível confundir. Sonhos se pareciam com... bem, sonhos. Já naqueles pesadelos tinha a sensação de estar realmente de forma física dentro de sua mente, tinha a completa noção do que fazia e do que acontecia. E a pior parte, nunca conseguia se forçar a acordar, como poderia fazer se aquele fosse um sonho normal.
Daquela vez ao menos o monstro não estava presente. Encontrava-se em uma sala, muito parecida com a de um cinema, porém sem as fileiras de cadeiras. O chão era plano, havia paredes ao seu redor e uma grande tela à sua frente. Olhou para os lados, procurando algum detalhe, mesmo que sem saber exatamente o que procurar. Não estava com medo, não sentia mais medo daqueles pesadelos. Nada grave poderia lhe acontecer ali, de qualquer forma. Talvez algumas queimaduras ou ferimentos leves, mas sobreviveria a coisas como aquelas.
De repente, as luzes colocadas nas paredes se apagaram. Na tela, uma imagem começou a surgir, exatamente como se estivesse num cinema, pouco antes do filme começar. O vídeo trazia uma criança. Lucy, logo concluiu, quando não tinha mais que cinco anos.
Ficou confuso por um momento. Não entendia o motivo do Koscheivich querer mostrar-lhe aquilo, ou como ele tivera acesso àquelas imagens, prováveis lembranças. Recuou alguns passos para ter uma melhor visualização, sem sentir dor, notou. Ao menos havia aquele ponto positivo, no sonho estava completamente bem, os ferimentos que possuía na vida real não lhe causavam nada ali.
No vídeo, a criança corria em direção ao pai, que estava sentado em frente a uma escrivaninha, analisando alguns papéis. A mãe vinha logo atrás, sorrindo.
— Quantas vezes preciso te dizer para não correr em casa, Lucy? — O homem falou, sem tirar os olhos dos papéis. A pequena diminuiu o ritmo, andando até ele. Quando se aproximou o suficiente, depositou um desenho sobre a escrivaninha.
— Olha o que eu fiz, papai.
Jude, Natsu presumiu, imediatamente afastou o desenho, colocado sobre seus preciosos documentos.
— Não vê que estou ocupado, menina? — Disse, de modo duro, deixando a garota com uma expressão triste no rosto. A mãe, percebendo a situação, defendeu a filha.
— Você poderia ao menos dar uma olhada, Jude.
Por sobre os óculos, o homem lançou um olhar rude à sua esposa, contudo, atendeu ao pedido. Sempre acabava fazendo suas vontades. Seria melhor se não o tivesse feito.
— Essas proporções estão completamente ridículas, e esses traços muito mal feitos. Tomou meu tempo com essa besteira? O seu tempo, enquanto podia estar fazendo coisas muito mais proveitosas?
— Desculpa, papai... — a pequena disse. Com a cabeça abaixada e o olhar triste, deixou a sala.
— Você poderia ser um pouco mais maleável com a sua filha — a mãe comentou, antes de seguir Lucy. — Ela tem apenas cinco anos, Jude.
— A vida não será maleável com ela. É bom que aprenda desde já.
Não era surpresa para Natsu ver o tipo de infância que Lucy tivera, mas incomodava-o. Fazia-o sentir vontade de alguma forma poder mudar aquilo. Imaginou se ela não teria tido uma vida mais feliz se tivesse crescido ao lado de Alexei.
A imagem na tela mudou. Lucy estava mais crescida, talvez com seus oito ou nove anos de idade. Estava sentada, abraçada aos seus joelhos, chorando em frente ao túmulo da mãe. Chovia naquele dia e sua roupa estava completamente encharcada, porém a garota parecia não se importar com o fato. Aparentava estar ali já há algum tempo.
— Senhorita Lucy! Até que enfim te encontramos! — Uma mulher a chamou, fazendo-a levantar a cabeça para olhar. Virgo, Natsu se lembrava de tê-la conhecido quando visitara a mansão dos Heartfilia. Não estava sozinha, Jude vinha logo atrás, andando calmamente, porém trazendo em seu rosto uma expressão dura. Segurava um guarda-chuva, talvez para não molhar o caro terno. Virgo correu em direção à pequena, sem se importar com a chuva. — O que está fazendo aqui? Vai acabar pegando um resfriado.
— Eu não me importo, Virgo — respondeu, a voz embargada pelo choro.
— Eu me importo — Jude comentou. A garota fez uma expressão de surpresa. Seu pai nunca havia se preocupado muito com o que se passava com ela. — Um resfriado acarreta em gastos com médico e remédios, então trate de sair dessa chuva, menina.
Sua suposta preocupação fez sentido para a garota. Só havia se enganado quanto ao motivo. Não era ela, mas sim o dinheiro.
— Eu sinto falta dela, Virgo.
— Eu sei, princesa — colocou a mãe sobre a cabeça de Lucy, tentando confortá-la, apesar de no fundo saber que nada seria suficiente para suprir a saudade que sentia da mãe.
— Não deveria sentir falta de Layla — Jude se intrometeu novamente. — Você causou a morte dela. Não tem esse direito. Agora, vamos logo para casa. Já me fez perder tempo demais nessa sua aventura.
Natsu sentiu muita raiva naquele momento. Afinal, Lucy era só uma criança, nunca tivera a intenção de causar o acidente que levou Layla ao falecimento. Um homem como Jude não deveria nunca ter sido pai. Queria poder contar a Lucy sobre ela ter sido adotada por aquele casal, talvez aquilo pudesse fornecer alguma explicação sobre o modo como Jude a tratava. A criança que ele acolhera acabou provocando a morte da mulher que amava, afinal. Contudo, imaginou que não faria diferença alguma ela saber ou não. O que estava feito não podia ser mudado.
Uma nova cena surgiu. Mas nessa houve apenas uma única fala, de uma Lucy adolescente e magoada. De alguma forma, sabia que aquele diálogo pertencia à briga que ocorreu pouco antes da garota fugir e conhecer Ryan.
— Gostaria que tivesse sido você ao invés dela! — A menina gritou pouco antes de sair do escritório do pai, porém não sem antes escutar novamente que a morte da mãe tinha sido culpa dela.
A cena seguinte causou um misto de sentimentos negativos em Natsu. A maioria deles envolvendo ciúmes e raiva. Lucy estava deitada, com a cabeça sobre o peito de Ryan, ainda humano. Notou que ela usava o colar que ganhara dele. Um cobertor envolvia seus corpos, mas sabia que não vestiam roupa alguma, e era terrível ter conhecimento sobre esse fato. Fazia-o sentir-se ainda pior.
— Queria não ter que voltar para casa. Queria ficar aqui com você — ela disse.
— Eu sei, meu amor. Gostaria que você pudesse ficar.
— Poderia ser uma boa ideia. Eu fugiria de casa, viria morar aqui.
— Não acho que isso daria certo — claro que não achava, Natsu pensou. — É um prédio barato e caindo aos pedaços, não é um bom lugar para se viver.
— Eu não me importo com essas coisas.
Ryan riu.
— Você cresceu em uma mansão luxuosa, cercada de empregados, com certeza iria se importar.
— Contanto que estivesse com você, já seria suficiente — Lucy era tão inocente naquela época.
— Um dia, meu amor — irritava Natsu a forma como ele a chamava. Talvez fosse por aquele motivo que Lucy odiava quando ele a chamava da mesma forma, mesmo que por brincadeira. Vivia dizendo que era por ser algo tão clichê, mas talvez devia trazer más lembranças. — Um dia isso acontecerá.
Novamente a imagem mudou. Lucy não estava muito mais velha, mas definitivamente mais cansada. Estava chorando, deitada numa cama enquanto segurava um ursinho de pelúcia azul. Mais uma vez Natsu não fazia ideia de como, mas sabia que o brinquedo teria pertencido ao filho de Lucy se ele tivesse sobrevivido.
Jude se aproximou cauteloso. Parecia também ter chorado nas últimas horas.
— Sei que eu não tenho exatamente o direito de dizer isso, mas sinto muito pelo seu filho — Lucy levantou o olhar, porém não respondeu. — Os médicos fizeram tudo o que poderiam ter feito para salvá-lo, mas o garoto estava muito fraco.
Lucy novamente ficou em silêncio, agarrada ao ursinho. Natsu podia quase sentir sua dor, mesmo que ela não falasse nada. Odiava vê-la daquela forma.
— Posso me sentar ao seu lado? — Jude perguntou. Lucy assentiu. Ele sentou-se no canto do colchão. — Sabe, eu estava me acostumando com a ideia de ser avô. Talvez imaginasse que pudesse recuperar com meu neto o tempo que perdi com você. Sei que fui um péssimo pai, Lucy, mas eu vou mudar, prometo. Se não for tarde demais para você.
— Por que agora? — Lucy questionou, tendo que reunir muita coragem para conseguir fazer com que algum som saísse de sua boca. Jude inspirou profundamente antes de responder.
— Você é tudo o que restou da sua mãe. É tão parecida com ela, em todos os sentidos possíveis — mesmo sendo adotada, era inegável a semelhança entre Lucy e Layla, Natsu pensava. — Ela te amava mais do que tudo, tenho certeza de que não gostaria de te ver sofrendo. Quando quase perdi você também, comecei a pensar muito. Se não tivesse sobrevivido, eu perderia a última parte de Layla. Você teria vivido rodeada de sofrimento, e grande parte disso por minha causa. Sua mãe provavelmente teria ficado extremamente magoada comigo pelo modo como te tratei. Mas não pense que é só por causa dela. Quando quase te perdi, percebi a importância que tem na minha vida. Quando seu filho morreu, me imaginei passando pela mesma situação, e só o pensamento me deixou em pânico. Você é minha filha, Lucy. Minha herdeira. Parte de mim. E por mais que às vezes não pareça, eu amo você.
Cautelosamente, como se sentisse medo de que ela fosse fugir, Jude a abraçou. Lucy permitiu o contato, passando a chorar ainda mais.
Então, a tela escureceu. Natsu acordou. Diferentemente dos pesadelos que costumava ter, não estava ofegante ou molhado de suor, apenas seu coração batia rápido demais, de forma dolorosa, até. Continuava sem entender exatamente o porquê do Koscheivich ter lhe mostrado aquelas memórias, mas se o objetivo era deixá-lo incomodado, conseguira.
A primeira coisa que fez foi olhar para o lado, encontrando Lucy dormindo de forma serena. Olhando-a daquela forma, tão calma, jamais poderia imaginar o quanto ela sofrera no passado. Ainda com o coração acelerado, abraçou a cintura da jovem e beijou seu pescoço. Sentiu-a se mexendo.
— Eu amo você — sussurrou ao pé do ouvido da garota. Pelo canto do olho, viu-a sorrir.
— Eu amo você também, e esse é um ótimo jeito de acordar, mas que horas são?
— Ainda é cedo — respondeu, beijando-a novamente. Lucy se mexeu um pouco mais, ajeitando-se.
— Falar “eu te amo” parece tão clichê às vezes. Deveríamos pensar num jeito novo de dizer isso. Variar um pouco, sabe?
Natsu ergueu a cabeça, franzindo a testa.
— Eu nutro fortes sentimentos afetivos por você?
— Não ficou muito bom — Lucy respondeu. O garoto riu.
— Não mesmo.
— Então, por que você já acordou? — Perguntou, curiosa. Realmente ainda era muito cedo. Natsu não respondeu. Ao invés disso, continuou dando longos beijos pelo pescoço da loira. — Natsu.
Ela virou-se para ele, obrigando-o a parar e responder sua pergunta.
— Só estava pensando.
— Pensando sobre o que? — Ela perguntou, ajeitando-se na cama. Ele se demorou na resposta, mas respondeu.
— Seu passado — não conseguiu olhá-la nos olhos ao falar. Lembravam-no dos olhos tristes que ela carregava em todas as cenas que vira.
— Meu passado? Por que? — Questionou, confusa. — Nem eu penso sobre essas coisas, Natsu.
— Como consegue não pensar?
— De que adiantaria pensar? Faz parte do passado. Ficar revivendo esses momentos não vai mudá-los. A única coisa que vai fazer é me sentir mal de novo, e não quero isso.
— Eu sei, mas — o garoto disse, apoiando o cotovelo sobre o colchão —, você passou por muitas coisas ruins, e ninguém deveria sofrer assim.
— Muita gente enfrentou coisas piores. Por que estava pensando sobre isso? — Não precisou esperar por uma resposta. Natsu era fácil de ser decifrado. — Teve um pesadelo, não é? Sobre o que?
— Não importa.
Lucy procurou pela mão do rapaz, entrelaçando seus dedos.
— Me conta.
Ele não queria falar, não sabia como colocar em palavras sem deixar escapar algum detalhe sobre o Koscheivich. Mas parecia justo que Lucy soubesse, afinal, era sobre ela.
Abaixou o olhar, tentado buscar uma forma de explicar.
— Era como se eu estivesse vendo um filme sobre a sua vida.
— Um filme? — Lucy franziu a testa. — Ok. E por que isso ficou na sua cabeça?
— Porque comecei a pensar que eu não quero ser alguém que vai te fazer sofrer ainda mais.
Alguns segundos depois de processar a fala, a garota riu. Sentou-se na cama, procurando uma posição mais confortável para aquela conversa.
— Isso é muito fofo, mas você não me faz sofrer, Natsu.
— Mas já fiz. E se acabar acontecendo de novo?
Lucy deu de ombros. Não importava para ela o que poderia ou não acontecer. O presente sim, fazia diferença, e no presente não havia com o que ele se preocupar.
— Assim como eu já te fiz sofrer.
— As vezes em que você me fez sofrer foram muito menores do que aquelas em que o contrário aconteceu.
— O que, isso virou uma competição agora? Quem magoou mais o outro? — Natsu não respondeu. — Não importa, idiota. Não importa quem fez o quê ou as coisas que aconteceram ou virão a acontecer. Faz parte. Algumas vezes nos magoamos, não existe uma forma de evitar. Se isso vai acabar nos separando um dia, eu não sei, e não quero pensar nisso. No agora, você não me faz sofrer. Pelo contrário. Eu nunca estive mais feliz.
Natsu também se sentou, suspirando. Aquela questão ainda incomodava-o.
— Mesmo assim. Sempre parece que vou fazer alguma besteira e acabar estragando tudo. E eu não quero que isso aconteça. Não quero ver você com o mesmo olhar magoado que te vi naquele pesadelo.
— Claro que isso seria ruim e doloroso, mas se acontecer, se eventualmente acabarmos nos separando de forma definitiva, eu não vou ter me arrependido de nada, Natsu. Tive ótimos momentos com você. E acontecimento nenhum mudaria isso. Mas pare de pensar sobre essa história de me magoar, ok? Eu estou aqui. Você está aqui. Nós dois estamos bem e nossa relação nunca esteve melhor. Não há nada que possa indicar um futuro como esse.
— Tudo bem. Vou parar de pensar nessa possibilidade — Natsu voltou a se deitar. Uma dúvida começou a rodear sua cabeça naquele instante. — Se pudesse voltar no tempo, teria mudado as coisas que aconteceram na sua vida?
— Não — a loira respondeu, sem sequer pensar por muito tempo.
— Não? — O garoto questionou. Imaginava que a resposta seria “sim”.
— Já ouviu falar sobre a Teoria do Caos?
— Não — disse. Lucy voltou a se deitar, tentando ter maior contato visual com Natsu.
— Bom, a principal ideia dessa teoria é a de que uma pequena mudança no início de algo pode trazer grandes consequências para o futuro. Por exemplo, imagine que seus pais nunca tivessem morrido. Você não teria se mudado para Magnólia, não teria conhecido Gray, Levy, Erza, Gajeel...
— Você — o garoto completou.
— Eu. Sua vida teria sido completamente diferente. As pessoas com quem estaria agora seriam diferentes. No fim, sua vida seria totalmente outra se aquele incidente não tivesse acontecido. A mesma coisa comigo. A morte da minha mãe me levou a conhecer Ryan, que, por mais que tenha sido um babaca e que tenha sim me feito sofrer muito, causou a reconciliação entre meu pai e eu, nos fez ter uma relação que nunca tínhamos tido. E sem isso, provavelmente eu não teria me mudado para cá, não teria conhecido você, Levy e todos os outros. Minha vida teria sido outra, e não sei se iria gostar tanto dessa outra realidade quanto gosto desta. Então, por mais que tenha sido doloroso, aqueles acontecimentos me trouxeram até esse momento. É um modo mais confortável de pensar, eu acho.
— Eu não sei. Talvez tivéssemos nos encontrado de outra maneira se essas coisas não tivessem acontecido.
— Bom, acho que nunca vamos saber.
O garoto se ajeitou na cama. Lucy notou uma leve coloração avermelhada espalhando-se por suas bochechas, estranhando vê-lo daquela maneira.
— Então... você não se arrepende de ter me conhecido? — Perguntou, cauteloso. Lucy sorriu, apertando as bochechas do rapaz e deixando-as ainda mais coradas.
— Você é tão inseguro às vezes, Natsu. Não, de jeito nenhum, seu babaca. Mesmo sendo esse garoto problemático que você é, não me arrependo.
— Ei, olha quem fala. Você já me meteu em muitos problemas também, garota.
— E você? Se arrepende? — Lucy perguntou, soltando o rosto de Natsu e deixando que ele se aproximasse do dela, prestes a beijá-la, vendo antes de fechar seus olhos um grande sorriso se formando no rosto do rapaz. Em resposta, também sorriu.
— Não mesmo.
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