Notas iniciais
HEEEEEEEEEEEEEEEEY, GENTE! :D OTOTA voltou! Sentiram saudades? Espero que sim, hehe : ) Eu senti saudade de vocês :3 Quase 5.000 palavras no capítulo e espero que ele compense todo esse tempo em que ficamos desprovidos de atualizações. Boa leitura!

O salão de festas já encontrava-se cheio quando os dois finalmente decidiram se juntar à festa. Cada degrau transpassado carregava inquietação e hesitação. Com uma previsão de que aquela seria sem dúvidas uma longa noite, Lucy inspirou profundamente e pisou no último deles, apertando o braço de Natsu. Ele a olhou de soslaio, sorrindo de canto ao tentar transmitir um pouco de confiança de que a noite não seria assim tão ruim.

— Sorria e acene, Lucy. Sorria e acene — brincou, arrancando um fraco sorriso da jovem. Era a última pessoa indicada naquele lugar a dar instruções, levando-se em consideração que nunca estivera presente em um evento como aquele. Ao menos não que se lembrasse.

— Temos que recepcionar os convidados que estão chegando — Lucy o instruiu, dessa vez, uma instrução verdadeira.

— Certo... E o que eu faço exatamente?

— Não precisa fazer nada. Só fique ao meu lado — respondeu.

— Ah, posso fazer isso sem problemas. — Natsu sorriu outra vez, sem ser retribuído, porém. Infelizmente suas tentativas de animar Lucy não perduravam por muito tempo.

Lucy o guiou até a entrada do salão. Imaginou que a noite também seria dura para ele. Com exceção de Lucy, nada ali o agradava. A música não fazia nem um pouco seu estilo e a roupa era bastante desconfortável. “Por que as pessoas não podiam criar roupas formais que fossem confortáveis, seria tão melhor” refletiu internamente.

Como a loira dissera, ele não precisara fazer nada, apenas cumprimentar os convidados quando eles o cumprimentassem, embora fosse Lucy quem atraía toda a atenção, e mesmo que não gostasse, parecia possuir uma habilidade natural para aquilo, como se tivesse nascido para desempenhar aquela função.

Natsu agradeceu mentalmente quando a última convidada atravessou a porta, uma senhora loira.

— Senhorita Heatfilia, que prazer revê-la — a senhora cumprimentou, sorridente. Um sorriso que aos olhos de Natsu, pareceu levemente falso.

— Igualmente, madame Hidaya — respondeu Lucy em tom amigável. — Como vai a senhora?

— Muito bem. E você, minha jovem?

— Vou bem, também.

— E esse rapaz, quem é? — a madame questionou, desviando a atenção para o garoto. Natsu, completamente disperso, precisou de uma discreta cotovelada de Lucy para perceber que era agora o tema da conversa.

— Natsu Dragneel, meu namorado — Lucy respondeu, disfarçando o sorriso que a palavra lhe causava. O termo parecia informal demais para a ocasião, mas não queria defini-lo apenas como seu acompanhante. Seria como trair sua verdadeira relação.

— Ah, tem muito bom gosto, senhorita — comentou com um sorriso para Lucy. — Prazer em conhecê-lo, senhor Dragneel.

— O prazer é meu, madame... Hidaya — por pouco não errara o nome da senhora, o que imaginou não ser um erro muito aconselhável, teve que forçar sua mente a lembrar. A loira mais velha sorriu, satisfeita, voltando-se outra vez para Lucy.

— Aproveitando a ocasião, queria parabenizá-la pelo novo sistema motivacional que implantou na empresa, senhorita Heartfilia. Os materiais tem chegado com uma qualidade muito superior. Foi de fato uma ótima estratégia, não concorda, senhor Dragneel?

Sem ter a mínima ideia sobre o que madame Hidaya estava falando, Natsu não deu resposta alguma. Não poderia dizer que sim ou que não sem saber do que se tratava, embora devesse certamente concordar, analisando o contexto. Lucy acabou por intervir, salvando-o.

— Muito obrigada pelo elogio, madame. Natsu não tem qualquer envolvimento com a empresa.

Madame Hidaya pareceu surpresa. Mais tarde, notando os olhares que a maior parte dos convidados lhe dispunham, o rapaz perceberia que todos esperavam que Lucy se envolvesse com pessoas do seu meio, e não com um garoto qualquer, desconhecido, sem um sobrenome de renome.

— Ah, não? Então, com o que trabalha?

— Ele trabalha em um restaurante — Lucy aprontou-se em responder.

— Oh, um chef, então?

— Não exatamente — a loira novamente respondeu, deixando a resposta clara.

Parecendo entender, a madame fechou quase completamente, de forma progressiva, o sorriso que trazia em seu rosto, desconfortável e evidentemente surpresa. Natsu apenas observava suas reações, achando-as muito interessantes, ao invés de se sentir ofendido.

— Bem, é um prazer lhe ver, senhorita Heartfilia. É melhor eu me juntar aos outros convidados.

— Claro. Sinta-se à vontade. — Lucy encerrou a conversa, observando enquanto a senhora se afastava, sentindo pouco depois o hálito quente de Natsu próximo de seu ouvido.

— Eu acho que eles não me acham uma boa influência para você, Lucy.

— E você é? — a loira o provocou, guiando-os até uma mesa vazia.

— É claro que eu sou. Você não poderia estar em melhores mãos — ele então aproximou ainda mais sua boca do ouvido de Lucy e sussurrou: — Literal e figurativamente.

A loira sorriu abertamente, descansando na cadeira. Uma hora inteira em pé apenas recepcionando convidados já havia sugado boa parte de sua energia. O que, por outro lado, não parecia acontecer com Natsu, que mexia nos talheres bagunçando-os e organizando-os repetidas vezes, com sua hiperatividade agindo. Começara a pensar melhor a respeito daquela reação e dos olhares dos convidados, sentindo-se agora, no fundo, um pouco preocupado.

— Natsu — o garoto ergueu o olhar, fitando Lucy. —, falta muito para a noite acabar?

— Um pouquinho — respondeu sorrindo. Pouco depois se levantou, estendendo a mão para Lucy. Na verdade, faltava um tempo considerável, e não iria deixar aquelas horas serem completamente entediantes. — Me concede uma dança, senhorita?

— Sério? — ela o encarou, pouco animada. — Acabamos de sentar.

— Qual é, Lucy? Não vai recusar meu pedido, vai?

Ainda relutante, a loira acabou por aceitar. Se não aceitasse, sabia que Natsu a encheria até mudar de resposta, então era melhor poupar logo as palavras que seriam gastas em vão.

Ele a levou até o centro do salão, repousando suas mãos na cintura da loira, enquanto as dela estavam apoiadas em seus ombros, e a guiou seguindo o ritmo da música clássica que tocava no momento.

— Isso definitivamente não combina com você, Natsu. — Lucy comentou, divertindo-se com a situação e com o empenho do garoto em agradá-la, por mais que fugisse completamente do seu estilo.

— Por que não? Posso muito bem ser um homem refinado que aprecia música clássica e usa terno e gravata todos os dias.

A loira quase não conseguiu conter o riso.

— Não, não pode, porque esse não seria você. Natsu Dragneel usando terno e gravata todos os dias? Definitivamente não. Eu iria achar que alguém te sequestrou e te trocou por um clone.

— Poderíamos pular essa parte, não é? Do terno e gravata. Porque com isso acho que eu não conseguiria me acostumar mesmo — Lucy riu, aproximando-se mais de Natsu, relaxando sua cabeça no peito do rapaz. Com o queixo apoiado na cabeça da loira, comentou: — Sabe o que eu fico imaginando? Você quando criança, correndo por esse salão enorme.

Lucy suspirou. Imagens de sua infância invadiram sua mente quase instantaneamente.

— Apenas na sua imaginação mesmo, Natsu. Papai não gostava que eu corresse pela casa.

— Mas qual é, toda criança desobedece esse tipo de ordem dos pais. Não corra, não jogue bola dentro de casa, não coma a sobremesa antes do jantar.

— Não eu, não na minha família. Se meu pai não gostava de uma coisa, era regra inquebrável sua proibição. Eu não corria pela casa. Na verdade, mal me lembro de brincar aqui.

— E o que você fazia, então? — o garoto perguntou, arqueando as sobrancelhas.

— Estudava. Me preparava para assumir a empresa um dia. Esse tipo de coisa. Imagine uma criança de cinco anos estudando economia.

— Que infância cruel. — Natsu encerrou, apertando-a ainda mais em seus braços.

Sentiu uma repentina vontade de separar qualquer um dos seus dias e mostrar a Lucy, mesmo que por apenas vinte e quatro horas, e independente da idade que possuíam, como era uma infância verdadeira. Tentar voltar a ser criança por um dia e dar a ela pouco do prazer que aquilo proporcionava, pois achava injusto que alguém crescesse sem apreciar a infância.

Ela fechou os olhos e o deixou guiá-la pelo resto da música. Jun tinha razão. O poder para decidir se a noite seria terrível ou ao menos suportável cabia a ela, e com Natsu ali o suportável não era apenas possível, como real.

Apenas afastou-se do rapaz quando uma voz a chamou, sem ter chance de fingir que não ouvira.

— Senhorita Heartfilia, podemos conversar por um instante?

Aquela voz a puxara cruelmente de volta à realidade. Pertencia a uma das pessoas com quem menos gostaria de conversar, Sr. Martínez. Mas, as convenções sociais a obrigavam a lhe dar a seguinte resposta:

— Claro — ainda que relutante, desvencilhou-se dos braços de Natsu. — Eu já volto.

Ouviu ainda ele murmurar um “ok” antes de acompanhar Martínez até perto da mesa de bebidas. O homem tomou uma pose séria, encarando-a como se fosse seu próprio pai.

— O que pensa que está fazendo, senhorita? — a questionou, indo direto ao ponto.

— Não entendi — a loira respondeu com sinceridade. Ao menos pelo que se lembrava, não havia feito nada de errado, nem no baile, e nem em seu comando na empresa.

— Seu pai lhe deixou um império, aliás uma decisão extremamente inconsequente, na minha opinião, e a cada dia percebo estar mais certo, pois parece que seus interesses estão em qualquer lugar, menos no bem da empresa. Confiar um dos maiores empreendimentos do país numa jovem irresponsável de vinte anos, o que Jude tinha na cabeça?

— Ainda não entendo o que quer dizer com isso. A empresa vai muito bem, caso não saiba, ainda melhor do que quando estava nas mãos do meu pai, que também a comandou muito bem. Não há base alguma que suporte o que o senhor está falando — Lucy rebateu, irritada.

— Vai muito bem por enquanto, mas aposto minha vida que não demorará até que você acabe afundando-a. E se quer saber, me refiro a esse rapaz. O que pensa que está fazendo quanto a isso? Está realmente decidida a manchar o nome da nossa empresa, não é?

— Natsu? — perguntou, confusa, pois não enxergava relação alguma entre seu trabalho e o garoto. — O que ele tem a ver com isso?

— As pessoas estão comentando. Espera-se uma atitude mais adulta da herdeira dos Heartfilia, e não... isso. Não que se envolva com um tipo desses. Tenha consciência de que o que você faz causa reflexos na empresa. Possui uma imagem pública a zelar. O que nossos clientes pensarão disso?

Lucy desviou o olhar, com a raiva queimando em seu corpo.

— O que eu faço na minha pessoal não diz respeito a você ou a qualquer um dos presentes aqui.

— Faz, quando corremos o risco de perder potenciais clientes.

— Por eu estar namorando alguém que não pertence a uma classe elevada? Isso é ridículo. Tenho certeza de que nossos verdadeiros clientes irão levar em conta muito mais a qualidade do produto do que minha imagem pública. Façamos o seguinte, senhor Martínez: vamos esquecer essa conversa, e quando quiser realmente falar sobre negócios, só então me chame.

Poderia considerar como falta de educação, mas Lucy se recusava a permanecer olhando para aquele homem por mais tempo, portanto assim que encerrou sua fala, virou-se e procurou por Natsu, encontrando-o não muito longe dali, e pela sua expressão parecia ter ouvido o diálogo.

Não preocupou-se em pedir que ele a seguisse, imaginando que ele o faria de uma forma ou de outra, e estava certa. Subiu as escadas, em direção ao seu quarto. Sua cabeça latejava tanto que o simples fato de andar parecia fazer uma bomba explodir dentro de si. Precisava desesperadamente fugir de todo aquele burburinho de pessoas conversando, mesmo que por poucos minutos. Só queria um refúgio onde pudesse descansar por um breve momento.

Natsu entrou no quarto pouco depois dela, ainda sem ter lhe dirigido a palavra. Recostou-se na cama, com as mãos apoiadas no colchão, observando enquanto Lucy massageava suas têmporas. Depois, a loira caminhou até o criado-mudo, ao lado da cama, abriu a gaveta, tirou de lá uma cartela de comprimidos, pegou um e o engoliu a seco, voltando a andar pelo quarto.

— Talvez eles tenham um pouco de razão — o garoto comentou inocentemente, não percebendo o péssimo momento que era aquele para debater sobre o assunto. Boa percepção não era uma de suas qualidades.

— Como é? — Lucy perguntou, perplexa.

— Pode ser que isso realmente prejudique sua imagem, não é uma besteira total. Estava pensando sobre isso. Não gostaria de acabar te prejudicando de alguma forma.

A loira suspirou, sentindo-se prestes a explodir. E pior ainda, prestes a explodir com a pessoa errada.

— Quer dizer que você também acha isso, Natsu? — perguntou, deixando claramente explícita a irritação em sua voz.

— Não exata-

— E o que eu deveria fazer? Acha mesmo que eu ligo para o que essas pessoas acham das coisas que eu faço fora do ambiente de trabalho?! — a loira o interrompeu, quase gritando.

— Não foi isso que eu-

— Acha que a opinião delas realmente importa tanto para mim que eu seria capaz de não dar importância para algo que me faz feliz?!

Começando ele a ficar irritado com as interrupções de Lucy, levantou-se da cama, tentando assim prender sua atenção.

— Lucy, quer me-

— Porque se você acha mesmo isso, Natsu, deve achar também que seria melhor que nós dois terminássemos para agradar a vontade deles. E então, é isso que suge-

Lucy ultrapassara os limites da paciência do rapaz. Se teria que tomar medidas drásticas para ser ouvido, então as tomaria. Segurando-a pelos braços, a prensou na parede, ao lado do armário, prendendo-a com seu corpo e assim obrigando-a de uma vez a olhá-lo.

— Quer, por favor, me deixar falar?! — tomou o silêncio de Lucy como uma permissão, sentindo àquela distância a respiração acelerada da loira. — Eu não disse nada disso, foi você quem colocou essas palavras na minha boca. Só fiz um comentário. E eu nunca faria algo assim por causa de outras pessoas. Que vão à merda todos eles. Mas dá pra você se acalmar?!

Lucy suspirou, evitando o olhar de Natsu, recobrando a consciência e tentando controlar sua anterior irritação. Sentia-se ainda mais à beira de um colapso.

— Me desculpa. Eu perdi o controle. É só que, essa casa, essa cidade, o dia de hoje, e então você falando isso, só foi demais para mim.

Ele aliviou a pressão de suas mãos nos braços de Lucy, também diminuindo sua irritação, porém sem sair do lugar. Incomodava-o ainda o fato de parte daquele estresse todo ter a ver com o reencontro de Lucy com seu ex-namorado, entretanto.

— Como conseguiu sobreviver durante um ano aqui?

A loira deu um fraco sorriso.

— É uma boa pergunta.

— Precisa relaxar um pouco, Lucy — o rapaz disse, sério.

— Eu sei, mas-

Ele a silenciou, colocando seu dedo indicador sobre os lábios da loira.

— Não tem “mas”. Não foi um conselho, e nem um pedido. Foi uma ordem. Precisa relaxar — repetiu, extremamente autoritário.

Lucy sequer teve chance de tréplica. Antes que pudesse ter tempo para pronunciar qualquer palavra, ele a calou com um beijo que não transparecia qualquer intenção senão aquela. Aos poucos deixou-se levar, envolvendo seus braços no pescoço de Natsu, permitindo que seus hormônios e neurotransmissores promovessem o vínculo e a proximidade entre ambos.

Talvez realmente precisasse daquilo, de alguém que assumisse o controle por ela, já que sozinha não conseguia mantê-lo. Precisava de alguém que a dissesse quando estava prestes a atingir seu limite para que conseguisse parar antes de atingi-lo, e esse alguém sem dúvida era Natsu.

— Vai acabar provando que eles estão certos desse jeito, me prendendo aqui — comentou quando ele afastou seus lábios.

— É? Foda-se. Está louca se acha mesmo que eu vou te deixar voltar para lá nesse estado. Seu bem-estar é mais importante do que o que eles irão achar por não estar presente.

Naquele momento, não sabia se irritava-se com Natsu ou agradecia a ele e o deixava lhe dar as ordens. Acabou optando pela segunda opção, deixando-se levar.

— Natsu — ele murmurou, incentivando-a a continuar a falar. —, será que seremos o tipo de casal que dura pelo resto da vida?

O garoto estranhou a pergunta, mas não a questionou.

— É claro que sim. Vamos ficar velhinhos juntos, e eu vou estar casado com uma senhora muito sexy.

Lucy riu.

— Com oitenta anos duvido que eu vá estar sexy.

— Você sempre vai ser sexy pra mim, loirinha.

Se a intenção de Natsu era distraí-la, bem, ele havia feito um ótimo trabalho. Sua mente continuava dividida entre o dever e seu bem-estar, mas Natsu lhe fazia tão bem que decidiu prolongar o segundo por mais um beijo, um pouco mais intenso que o primeiro, mas ainda sem qualquer segunda intenção.

Chegava a sentir um medo constante de perdê-lo. Estava tão acostumada com as perdas que sentia como se não fosse demorar até que ele também lhe escapasse por entre os dedos, e esse medo era uma sensação terrível.

Para sua infelicidade, batidas na porta a fizeram ser obrigada a afastá-lo de si. Era Virgo quem batia, o seu padrão era inconfundível.

— Pode entrar, Virgo — a loira ordenou.

— Senhorita Heartfilia, desculpe atrapalhá-la, mas o senhor Nagashi estava te procurando.

— Tudo bem, desço em um minuto. — Virgo acenou e voltou a fechar a porta. Ao menos alguém além de Natsu naquela noite que não a faria morrer de tédio. O senhor Nagashi era um homem de meia idade com quem adorava conversar. Seu constante bom humor sempre a deixava animada.

— Eu não preciso descer, preciso? — o rapaz perguntou, torcendo para receber um “não”. — Não é como se fossem sentir minha falta mesmo.

— Tudo bem, pode ficar aqui. — a loira caminhava até o criado-mudo, para retocar seu batom, já que boa parte dele havia saído com o beijo. Quando virou-se para encarar Natsu, acabou encontrando essa “parte”. Sorriu instantaneamente quando viu toda a região ao redor da boca do garoto em um tom avermelhado, apontando para seu rosto, indicando para que se limpasse. — Se houvesse crianças no baile, você poderia entretê-las sendo o palhaço.

— Muito engraçado — respondeu enquanto tentava retirar o batom de seu rosto. Lucy precisou ajudá-lo, já que sem um espelho não conseguia enxergar todas as regiões manchadas. Passou o dedo pelos lábios do rapaz, mas, ao invés de realmente ajudá-lo, piorou ainda mais a situação trazendo seu rosto para perto de si e lhe dando um beijo estalado na bochecha.

— Te vejo mais tarde então, palhaço Dragneel.

Lucy riu ao constatar que Natsu parecia uma criança ao retirar o batom de sua bochecha com a palma da mão, fazendo careta. Se pudesse escolher, gostaria de dizer “te vejo mais tarde” para os convidados, não para ele. Mas, obrigações eram obrigações.

Virgo a esperava do outro lado da porta e lhe lançou um olhar inquisidor quando viu a jovem loira, deixando-a corada. Não precisava perguntar para saber o que se passava na cabeça da senhora naquele momento. Virgo fora praticamente quem a criara, ambas se conheciam muito bem para esconder qualquer segredo.

Quanto ao senhor Nagashi, não demorou a encontrá-lo, além de ter tido uma conversa muito proveitosa com o velho, que a encheu de dicas e conselhos essenciais para quem ainda era tão jovem naquele complicado mundo dos negócios. Não era à toa que Jude prezava muito sua amizade.

Quase perdeu a noção do tempo, passando mais de hora conversando. Imaginou que Natsu poderia estar preocupado com sua longa ausência e decidiu procurá-lo assim que a conversa deu-se por encerrada. Foi até seu quarto, porém não o encontrou. Achou estranho, já que não o vira descer, todavia voltou para o salão e tentou achá-lo por lá. Novamente, nada. Nem sequer sinal de Natsu.

Procurou por Virgo, então, mas a senhora também não fazia ideia de onde o rapaz poderia ter se metido. Tentou Jun, com quem quase não falara durante toda a noite, mas o resultado fora exatamente o mesmo que obtivera com Virgo. Começou a realmente ficar preocupada, e sua preocupação atingiu níveis extremos quando finalmente descobriu o que havia acontecido. Através de Martínez.

— Procurando por algo, senhorita? — perguntou sorrindo de canto. O coração de Lucy falhou uma batida, interpretando o olhar de Martínez.

— O que você fez? — rebateu, quase sem conseguir conter a raiva que sentia daquele homem.

— Nós dois sabemos, senhorita Heartfilia, que é muito egoísmo de sua parte querer ter tudo. Então precisa escolher; a empresa, ou o rapaz. Não pode ter as duas coisas. Te dou meia hora para tomar sua decisão.

Com um último sorriso, Martínez se retirou, deixando-a imóvel, com os pensamentos acelerando a mil em sua mente e o corpo paralisado de medo. Infelizmente, tempo era a última coisa da qual dispunha naquele momento. Não podia ficar parada, tinha que encontrar Jun. O procurou com o olhar e assim que o encontrou arrastou o rapaz até o primeiro aposento vazio que avistou.

— Ei! Calma! O que foi, Lucy? — o garoto perguntou assim que ela o soltou, notando bem seus olhos marejados.

— Aquele desgraçado do Martínez! Não acredito no quanto eu fui burra em cair na conversa dele! Estava só me testando quando disse que meu relacionamento com Natsu iria afetar a empresa, vendo como eu reagiria! E eu dei a ele exatamente o que precisava para garantir que seu plano desse certo.

— Espere, me explique o que aconteceu — pediu Jun, confuso.

— Martínez sequestrou Natsu! Quer que eu escolha entre ele e as ações da empresa. Era isso que ele estava planejando, Jun.

O rapaz a olhou perplexo. Sentia que parte da culpa também era dele, deveria ter descoberto e impedido, ou feito qualquer coisa que fosse.

— Como? Mas, você não está pensando em entregar as ações para ele, está? Não pode fazer isso, Lucy. Foi seu pai que as deixou para você.

— E o que eu deveria fazer?! Deixar que Natsu morra nas mãos dele?!

Aquela palavra... Lucy precisou sentar-se em uma cadeira próxima de si para que não acabasse desmaiando, por alguns segundos chegou a sentir sua visão escurecendo. Estava completamente desesperada.

— Não, claro que não. Deve existir um jeito.

Mesmo com a confusão em seus pensamentos, Lucy esforçou para encontrar algo que fosse útil para resolver aquela situação. E encontrou:

— Há algo — a garota então se levantou, tão rápido que novamente sua visão falhou. — O comandante foi um dos convidados do baile, não é?

— Foi.

— Então eu irei aceitar a proposta de Martínez.

— Como é?! — Jun exclamou.

— E precisarei de um favor seu. Eu sei que é lhe pedir demais, Jun, mas, por favor, é a única maneira. Preciso que informe a situação ao comandante e siga o carro de Martínez com ele. Sei que será arriscado, já que não sabemos quem o está ajudando, nem para onde o levaram, e já que não haverá tempo para chamar por reforços, mas ficarei lhe devendo a minha vida se fizer isso por mim.

Jun refletiu por alguns segundos. Suspirou e por fim lhe deu uma resposta:

— E o que é que não faço por você? Vou encontrar o comandante, espere por uns 15 minutos aqui para me dar tempo, e então vá atrás do Martínez. Vamos esperar na saída, se tudo ocorrer como planejado.

Lucy acenou positivamente. As chances do plano falhar eram imensas, e nesse caso não pensaria duas vezes em abrir mão das ações, mas era sua única chance. Precisava tentar.

***

Sua cabeça doía quando recobrou a consciência, mais precisamente na região de sua nuca. Levou um tempo demorado até que sua visão voltasse completamente ao normal. Não se lembrava de praticamente nada. Em um momento estava andando tranquilamente pelo jardim da mansão, no outro sentiu uma pancada e caiu desmaiado.

Ao tentar se mexer, notou estar pendurado pelos braços no teto, com o peito nu, a alguns centímetros do chão. Devia fazer já um tempo que estava naquela posição, pois seus braços encontravam-se dormentes. A dor aumentou ainda mais quando tentou mover sua cabeça, para explorar o quarto em que estava sendo mantido. Tentou calcular o tempo em que permanecera desacordado, mas não fazia a mínima ideia.

O súbito movimento despertara a atenção de um homem sentado em uma cadeira próxima de Natsu.

— Ora, vejamos quem acordou.

— Que lugar é esse?

— Vamos combinar algumas regras — o homem levantou-se da cadeira e caminhou até Natsu. — Você não diz nada, a não ser que eu lhe diga para dizer. Entendeu? Não fará perguntas, ou qualquer coisa do gênero.

Natsu não discutiu, não encontrou forças para isso. O homem não voltou a lhe dirigir a palavra, portanto permaneceu quieto, seguindo a regra, vendo os segundos passarem como se fossem horas em uma posição extremamente desconfortável.

Repentinamente, ouviu o barulho de um carro parando perto da casa. Logo depois uma porta se abriu e identificou o som de pessoas conversando, porém tudo o que conseguia escutar eram murmúrios, tornando impossível que identificasse as palavras. Poucos minutos após o celular do homem que estava lhe vigiando tocou.

­— Ahn? Então ela quer uma confirmação de que o garoto está aqui? — o homem sorriu cinicamente. — Sem problemas, podemos providenciar isso.

O homem largou o celular sobre uma mesa à frente de Natsu e pegou em seu lugar uma faca de corte, devidamente afiada. A sangue frio, abriu um corte não muito profundo bem no meio do peito do rapaz. A dor não era nada que não pudesse suportar, apenas o incomodava, e o sangue quente que escorria por sua pele não o incomodava tanto que fosse motivo para gritar de dor, sendo assim, não conseguiu entender qual era a intenção daquele homem.

Então as coisas mudaram um pouco. Seu vigilante pegou um pacote contendo pequenos cristais que Natsu não conseguiu identificar. Colocou um punhado em sua mão, sorriu cruelmente para Natsu, e esfregou os cristais no ferimento que havia acabado de fazer. À princípio o rapaz nada sentira, mas após poucos segundos o machucado começou a arder tanto que se perguntou se era aquela a sensação que as pessoas sentiam quando o fogo lhes queimava.

Se fosse apenas a ardência insuportável teria talvez conseguido conter o grito de dor, porém junto com aquela sensação veio uma dor lancinante em sua cabeça e fortes náuseas. Não era efeito da substância inserida em seu ferimento, mas sim algo muito mais complexo, que ele tentava entender há anos sem sucesso.

“Posso parar a dor, tanto quanto posso aumentá-la, Dragneel.” A ardência em seu ferimento triplicou. Todas as dores passaram a crescer em escala. A cada segundo passado aumentavam de intensidade. “Não é preciso sofrer. A dor é opcional. Não sou seu inimigo, sou parte de você, corro em suas veias, componho parte do sangue que o mantém vivo. Dividimos o mesmo corpo há muito tempo. Não é a mim que deve temer.”

— Faça parar, por favor... — o garoto implorou. Aquela dor era surreal. Um humano qualquer não a teria aguentado. Nem mesmo Natsu, em sua condição de humano. Naquele momento sentiu vontade de morrer. Quase implorava pela morte para não ter que sentir aquela dor que corroia cada célula do seu corpo.

“Posso muito bem fazer isso, mas não sozinho. Preciso de sua permissão, Natsu. É terrível, não é? Essa característica que o deixa fraco, posso exterminá-la de você. Deixe que eu assuma o controle e acabarei com toda a dor que está sentindo. Me dê seu “sim”, Dragneel. Uma palavra e não sentirá mais nada”

A dor deveria ter corroído também sua capacidade de discernimento, porque para deixar de senti-la sequer hesitou ao dizer:

— Si-

Teria completado a palavra que destruiria sua vida se Lucy não tivesse invadido a sala no exato momento, acompanhada de Jun armado, obrigando-o a recuperar o senso, salvando-o. A voz parara de ressoar em sua mente, a dor havia sido aliviada e sua respiração estava extremamente acelerada.

Apontando a arma para o sujeito, Jun o obrigou a ajoelhar-se e se render. Enquanto isso, Lucy correu em direção ao rapaz e, com a faca, cortou as cordas que o prendiam. Natsu não conseguia sequer manter-se em pé. Sentou-se no chão com a loira, sua cabeça apoiada no peito dela.

— Água... — murmurou. Sua garganta estava extremamente seca.

— Jun, deve ter água em algum lugar dessa casa. Pode procurar e trazer um pouco? — a loira pediu. Jun acenou, obrigou o sequestrador a se levantar e o levou até os outros dois, Martínez e um segundo comparsa. Lucy apoiou seu queixo na cabeça de Natsu. O garoto sentiu quando as lágrimas da loira caíram em seu cabelo. — Está tudo bem.

Se não fosse por Lucy, não gostaria de saber o que teria lhe acontecido. Naquela noite, chegou a três conclusões: a) O que quer que estivesse dentro de si, e agora sabia que estava dentro dele, não era nada bom; b) A coisa podia controlar não apenas seus sonhos, mas também seus sentidos; e c) Poderia levá-lo à ruína facilmente, ou seja, à morte.

Notas finais
Bem, gostaria de dizer que preparem-se, pois estamos a, no máximo, pelas minhas contas, 5 capítulos de duas grandes revelações ;) E aproveitem bem esses 5 capítulos, porque após essas revelações, serão raros os momentos "calmos", hehe. Digam o acharam do capítulo nos comentários, e também pra que eu saiba que não me abandonaram depois de tanto tempo sem capítulo, ok? kkkkk :D Até o próximo, pessoas o/