Onde Tem Ódio Tem Amor
61 Uma luz
Notas iniciais
Duas semanas atrás, quando foi sequestrado pelos homens de Martínez e teve um “acesso de loucura” (ao menos preferia chamar assim, era uma ideia mais confortável do que a verdade), ele pensou que daria adeus à vida. Por imensa sorte, conseguiu escapar com nada mais que um corte no peito. Porém, a sorte não estaria ao seu lado desta vez. Enfrentaria algo pior do que a coisa que tinha dentro de si. Lucy DEFINITIVAMENTE o mataria.
Estava atrasado. Muito, muito atrasado. Sua garota havia deixado bem claro que ele deveria chegar no horário, pois não gostaria de se atrasar demais para a pequena reunião na casa de Levy. Fazia já um bom tempo que não via os amigos e estava morrendo de saudades. A que horas devia estar em casa? 18h. Que horas eram enquanto ele corria desesperadamente pelas ruas vazias de Magnólia? 22h. Era um péssimo dia para seu professor decidir prendê-lo no curso por 3h, e ainda pior a sua escolha de ter ido a pé, perdendo mais de uma hora do seu tempo já escasso. Para ajudar um pouco mais sua situação, a bateria do seu celular estava no 0%. Ah, com certeza era um belo dia.
A parte boa é que já estava perto de casa, mesmo que não fizesse a menor diferença, não havia mais salvação para o seu caso. A parte ruim, bem, é que ele ainda demoraria alguns minutinhos após ter sido repentinamente jogado em um beco. É, a sorte realmente andava querendo distância de Natsu.
Ele não teve tempo de ver quem o jogou no chão, apenas sentiu o impacto do concreto com seu rosto, abrindo um pequeno corte no lado esquerdo de sua testa. Sequer precisou esforçar-se para se levantar. O próprio homem que o jogara fizera esse favor, porém de modo nada sutil, agarrando-o pela camisa e prensando-o na parede. Gostaria de ter tido tempo para reagir, mas andava muito lerdo ultimamente. Isso, e o fato de que o homem que o prendeu era incrivelmente rápido, além de forte, pois conseguia mantê-lo preso e quase sem ar apenas com o braço pressionado na garganta de Natsu.
— Quem é você? — Dragneel perguntou com dificuldade. Prestou atenção nas feições do homem, nunca o havia visto antes. Tinha o cabelo cortado rente à cabeça e uma barba rala, seu rosto era redondo, de expressão séria, e os olhos verdes inspiravam autoridade. Devia ter uma idade por volta dos 30 anos. — O que quer?
— Tenho te observado há algum tempo, garoto — Natsu se remexeu, tentando escapar dali. Aquele cara lhe dava arrepios. Porém sua tentativa lhe rendeu apenas um braço pressionado com ainda mais força sobre sua garganta. — Sei o que você é — Dragneel parou de resistir. Como ele poderia saber se nunca tinham sequer conversado? Mas também, como sabia que ele, Natsu, de fato era alguma coisa? — Tem pesadelos que parecem mais reais do que a própria realidade. Uma voz perturba sua mente em todos os seus momentos de fraqueza. O fogo não te machuca. Acertei, não é? Os principais sintomas. Ah, sim, eu sei bem o que é isso.
— Se sabe, o que é, então? — Natsu o desafio, tentando parecer tão imponente quanto o outro. Mas tudo a que se assemelhava era a um filhote assustado. Como poderia ele saber? As únicas pessoas a quem contara aquilo foram Lucy e Gray, e ainda sem entrar em detalhes. Poderia ser uma brincadeira de mau gosto de Gray? O homem riu com escárnio.
— Acha que é tão fácil assim? Descubra você. Se quer uma dica, comece pela sua infância. E quando descobrir, me procure.
Sorrateiramente, o misterioso homem colocou um papel com um endereço no bolso de Natsu, então o soltou. O garoto caiu no chão, tossindo enquanto recuperava o ar. Quando conseguiu se recuperar, o outro já havia ido embora e não deixara sequer sinal de que estivera ali, exceto Natsu.
Dragneel pegou o papel e sentou-se recostado à parede, atônito demais para esboçar qualquer reação. Não conhecia aquela rua, mas ficava em Magnólia. Se ele estava falando a verdade, sobre saber o que havia de errado com Natsu, então talvez poderia ajudá-lo? Lembrou-se de quando foi sequestrado, daria qualquer coisa para nunca mais sentir o que sentiu naquela noite outra vez. Lembrou-se das palavras que disse para Lucy, mais tarde, da culpa que sentiu.
“Estava deitado, com o peito desnudo e um curativo sobre seu ferimento. Lucy se aproximou devagar, com os olhos marejados. Deitou-se ao lado dele, sem conseguir olhá-lo nos olhos diretamente. Ele a abraçou, sem querer fazendo-a voltar a chorar.
— Se eu não tivesse te pedido para vir comigo, nada disso teria acontecido.
— Não foi sua culpa, não aja como se fosse, Lucy. Se eu não estivesse aqui, que outra coisa ele poderia ter feito para conseguir o que queria? Machucado você? Melhor que tenha sido comigo. — Lucy aconchegou-se no peito do garoto. Ele estava muito quente desde o momento em que o encontrara, preocupava-a. — Lucy.
— Sim? — perguntou, erguendo a cabeça para fitá-lo.
— Lá, naquela casa, eu... — como poderia dizer aquelas palavras? Já era duro dizê-las para si mesmo, dizer para alguém que o amava seria terrível, uma ingratidão sem tamanho, porém precisava compartilhar sua agonia com alguém, caso contrário sentia que iria explodir. — Por um momento... eu quis morrer. De verdade. Não estava aguentando aquela dor, era algo surreal, cada célula do meu corpo parecia estar queimando. Eu é que lhe devo desculpas. Fui fraco e egoísta e completamente egocêntrico e não pensei em você, no que acabaria acontecendo. Estava praticamente implorando para morrer e-
Levando uma de suas mãos ao rosto do rapaz e a outra ao seu coração acelerado, Lucy o parou. Doía, é claro que doía saber que ele sentiu vontade de abandonar a vida. A simples ideia de perdê-lo a deixava em pânico. Mas não conseguia culpá-lo.
— Você não é fraco, Natsu. É só humano. Às vezes acha que precisa suportar tudo, sinceramente, é uma das coisas que me irrita em você, mas não precisa. Não precisa ser inabalável o tempo todo. Só, por favor, nunca mais pense em fazer algo assim. Perder você... acho que é algo que eu não conseguiria suportar — o rapaz assentiu, mais calmo, vendo novas lágrimas brotarem nos olhos de Lucy, trazidas pela sua última frase. — Vamos esquecer essa noite, ok? Nós dois. Esquecer todas essas coisas que nos perturbaram. Amanhã é um novo dia.
A loira sorriu, e Natsu encontrou ali o motivo pelo qual deveria sempre cumprir com aquela promessa. Aquele sorriso, ele o guardaria na memória todas as vezes em que fraquejasse. Jamais deixaria-o escapar de sua mente. E assim, se agarraria à vida independente da dor que sentisse.”
Natsu fechou os olhos e respirou fundo. Iria seguir a única dica que conseguira durante sua vida inteira, mas não naquele dia, não naquela noite. Na ocasião em questão, tinha outros assuntos para resolver, assuntos que envolviam certa Hertfilia.
***
— Onde você se meteu, Natsu? — Lucy o questionou assim que ouviu o som da porta abrindo.
— Desculpa. Vários problemas, sabe como é.
A loira arqueou a sobrancelha. Com as mãos de Lucy na cintura, Natsu sentia que estava levando bronca de sua mãe, não de sua namorada.
— Não, não sei não. Você me deixou preocupada sabia? E o que foi que houve com sua testa? — perguntou, referindo-se ao pequeno corte. O garoto encaminhou-se para o banheiro, precisava tomar um banho rápido antes de ir.
— Ah, nada de mais. Tive uma queda de pressão, caí e acabei batendo a cabeça. — respondeu enquanto se despia, tratando de guardar o papel em sua gaveta no banheiro até que estivessem de volta e pudesse deixá-lo em um lugar mais seguro. Não queria que Lucy o encontrasse. Aquela foi a primeira desculpa que lhe ocorreu. Lucy sentou-se na cama, de frente para a porta ainda aberta, logo fechada por Natsu — Um pouco de privacidade é bom, sabe?
Lucy o encarou pela fresta que deixara aberta, tentando escolher entre a) Natsu era muito cara de pau, ou b) A batida em sua cabeça era mais séria do que pensara.
— Quê? Nós dormimos juntos, Natsu, eu já te vi sem roupa várias vezes, qual é o seu problema?!
— Problema? Não tenho nenhum problema — o rapaz gritou de debaixo do chuveiro. — Hey, a propósito, Lucy, eu estava pensando em irmos visitar minha avó. O que acha?
— Quantas mudanças de assunto repentinas — a garota comentou.
— É, e estou mudando outra vez. O que acha?
Pensando com mais atenção, Natsu nunca lhe falara sobre sua avó. Nem sabia que a senhora estava viva. Seu muito recente interesse por ela lhe parecia um pouco estranho. Aliás, seu comportamento inteiro lhe parecia. Acontece que o rapaz encontrava-se em um estado de euforia após ter encontrado finalmente algo que poderia perseguir para encontrar a resposta que tanto queria, e o medo por estar perto de conseguir.
— De visitarmos sua avó? Tá, claro. Onde ela mora?
— Numa cidade perto daqui — o garoto respondeu, desligando o chuveiro. — Deve dar uma hora de carro. — saiu do banheiro pingando, com a toalha enrolada na cintura e esquecendo-se de que Lucy odiava quando ele molhava o chão do quarto daquela maneira, sendo fuzilado pelo olhar da loira. Natsu bagunçou o cabelo, como sempre fazia quando sabia que havia feito algo errado. Segurou o rosto de Lucy com as mãos e lhe deu um rápido beijo. — Desculpa.
— O que eu faço com você, Natsu?
— Pode fazer muitas coisas — o garoto respondeu, piscando. É, Natsu era um caso perdido. Pegou as primeiras roupas que encontrou em seu armário e pôs-se a vesti-las.
— Então, por que esse interesse repentino pela sua avó? — a loira interrogou-o.
— Estava conversando com Chris outro dia — começou enquanto vestia uma camiseta amarela. De repente se tocou de que não era boa ideia citar Chris em sua mentira, sabendo do desafeto que Lucy sentia por sua amiga. — Enfim, estávamos falando sobre parentes e percebi que a última vez em que a vi foi quando eu tinha uns quatro anos. Faz bastante tempo, e ela é minha única parenta viva além da minha tia. Mas, bem, você sabe. Não dá para considerar muito minha tia, já que ela mesma preferiria não pertencer à mesma família que eu. Vamos?
Lucy se levantou. Era uma explicação minimamente plausível, apesar daquele interesse ainda lhe parecer estranho.
— Só isso? — perguntou, deixando que Natsu segurasse sua mão no caminho para fora do apartamento.
— Eu também quero saber um pouco mais sobre o meu passado. Acho que ela pode me ajudar com isso. — aquela parte era verdadeira. Afinal, precisava seguir a regra de que “toda mentira tem um fundo de verdade”.
— E por que?
— Só curiosidade.
Por mais tarde que fosse, decidiram seguir até a casa de Levy a pé. A noite estava linda demais para não ser apreciada, as estrelas cintilavam no céu sem nuvens, e, como diria Olavo Bilac, conversavam com os dois, “pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas”. E amor certamente era algo que não faltava-lhes, abrindo possibilidades de conversar por horas e horas com aqueles belíssimos corpos luminosos sem entediar-se. Mas a conversa haveria de ficar para outro dia, estavam com pressa.
Levy foi quem abriu a porta para os dois quando finalmente chegaram, brincando com a demora dizendo que pontualidade realmente não era o forte de Natsu. De fato, nunca fora. O grupo inteiro estava reunido na sala, com uma convidada especial ainda. Gajeel estava sentado em uma cadeira, ao lado do sofá que acomodava Gray e Juvia, com o namoro firme e forte, graças a Lucy. Do lado oposto, em outro sofá, estavam Jellal e Erza, com um pequeno bebê em seu colo.
— Quem é essa coisa fofa? — Lucy perguntou, sentando com Natsu no sofá perpendicular aos outros, maravilhada com a pequena criatura que tentava segurar o colar que Erza usava.
— Meu sobrinho, Lin. Minha irmã foi viajar e o deixou comigo para que tomasse conta dele. — a ruiva respondeu, entregando cuidadosamente o bebê para Natsu.
— Hey, garoto. Como vai? — perguntou sorrindo, mesmo sabendo que não teria resposta de um bebê.
— Pode ir treinando para o futuro, Natsu. — comentou Jellal.
— Natsu como pai? — Gray se intrometeu, rindo. — Coitada da criança.
— Eu seria um ótimo pai, ok? — o rapaz rebateu, devolvendo o bebê para Erza.
— Eu concordo — Lucy disse.
— Só acredito vendo — Gray falou.
— Verá então, olhos caídos.
— Mas isso em um futuro bem distante — a loira completou. Ser mãe tão cedo definitivamente não estava mais em seus planos. Desde a última experiência, queria ter certeza de que estaria preparada.
— Podemos ir treinando a primeira parte de ter um bebê, o que acha, Lucy? — Natsu brincou.
— Acho que não é preciso muito treino pra isso, Natsu.
— Você estraga minha diversão, sabia? — fingiu-se irritado.
— É sempre um prazer — a loira sorriu.
Entre tantas conversas, demorou até que Natsu conseguisse um momento a sós com Gray. Permanecera eufórico durante toda a noite e mal aguentava aquela inquietação. Parecia que o corroeria por dentro se não contasse os motivos de sua agitação para alguém. Poderia ter simplesmente ter contado a Lucy, mas não queria envolvê-la naquela história, preocupá-la. Quando teve a chance, arrastou o moreno até o corredor, o mais longe possível da sala, em frente à janela.
— O que foi? — Fuulbuster perguntou. Natsu olhou outra vez em direção a sala, queria ter certeza de que ninguém os ouviria. Bebeu um gole da garrafa de cerveja que trazia em mãos e observou a rua pela janela, impacientando Gray.
— Se lembra dos meus sonhos, daquela voz, enfim, de todas aquelas coisas estranhas minhas? — Gray assentiu — Um cara me parou na rua hoje, alguém que eu nunca tinha visto antes. Ele disse que sabia qual era o meu problema e mencionou exatamente essas coisas.
O garoto prestou atenção nas expressões de Gray enquanto lhe contava. Se fosse uma brincadeira de mau gosto, saberia por aquilo. Ao contrário do que esperava, o moreno mostrou-se bastante surpreso, com as sobrancelhas arqueadas e as feições sérias.
— Que coisa estranha. Como ele sabe sobre isso?
— É exatamente o que eu tenho me perguntado. Ele me deu um endereço. Acha que eu devo procurá-lo?
— Eu não sei, cara. Pode ser algum tipo de armação. E eu teria certeza de que é se não fosse por essa pergunta, mas isso torna tudo diferente. Quer saber? Acho que deve ir. Mais estranho do que isso não pode ficar.
Algo em Natsu dizia a ele que podia sim piorar. Mas guardou aquele receio para si próprio. Não apenas por achar desnecessário compartilhá-lo, como porque Lucy se aproximava com Levy.
— Ei, eu e Levy vamos sair. Tudo bem por você? — a loira lhe perguntou.
— Claro, tudo bem — respondeu. Lucy se despediu com um beijo e saiu acompanhada da amiga.
Momentos antes, as duas conversavam na cozinha. Levy andava deprimida. Gajeel estava saindo com uma garota qualquer. Certo que a culpa também era dela por não admitir o que sentia por ele, mas ele deveria já ter percebido seus interesses por ter algo mais do que apenas amizade. Era um tapado, em suas palavras. A loira então sugerira que fossem a um bar, para distrair a mente da pequena amiga, e ela aceitara, apesar de um pouco contrariada em atrapalhar a noite de Lucy.
O rapaz confiava em sua namorada, sabia que ela não faria nenhuma besteira, então permitiu sem pestanejar. Assim também poderia ter mais tempo para conversar com Gray sobre suas teorias a respeito daquele cara estranho. Sentia que era o único com quem podia contar sobre aquele assunto. Com Lucy não contaria, pois aquela coisa o assustava, não queria transmitir a ela seu pânico. Preferia deixá-la alienada quanto àquelas informações.
Não era muito novidade que nem sempre as intuições de Natsu funcionavam. Pois bem, naquela noite ele enganou-se profundamente. Uma hora depois de Lucy ter saído, seu celular tocou. Era ela.
— Natsuuu — o chamou, com a voz arrastada e música ao fundo, quando o rapaz atendeu. — Vem aqui.
— Onde você está, Lucy? — a questionou, preocupado.
— Bebendo com a Levy. Diz “oi”, Levy — Natsu ouviu um pouco distante o “oi” de Levy. Pressionou suas têmporas, irritado.
— Você está bêbada?
— Só um pouquinho, amor. — “um pouquinho” era eufemismo. Para ela o estar tratando por “amor” deveria estar muito bêbada. Lucy nunca o chamava assim.
— Me diga onde está.
Desajeitadamente, Lucy lhe passou o endereço do bar, e então ele desligou, chamando Gajeel para acompanhá-lo, afinal, Levy estava junto, era problema dele também.
— Ei, Gajeel, vamos.
— Onde? — o moreno perguntou.
— Encontrar duas garotas que irão levar uma bela bronca logo, logo.
***
Encontrá-las não foi problema. Assim que entrou no tal bar, Natsu avistou sua loira no balcão, bebendo. Ao seu lado, Levy, que lutava até para se equilibrar no pequeno banco. Praticamente marchou até onde Lucy estava, chegando sorrateiramente até ela, que, quando o viu, enlaçou seus braços no pescoço do rapaz, sorrindo, sem ter noção do perigo.
— Natsuuu!
— Já se divertiu demais por uma noite, não é? Que tal irmos para casa? — o garoto sugeriu, vendo-a desaprovar a ideia.
— Não quero ir pra casa.
— Não? E o que você quer então?
A loira sorriu maliciosamente. Sua mão escorregou para debaixo da camiseta do rapaz.
— Você.
— Isso é um lugar público, Lucy — rebateu, retirando a mão de Lucy de onde estava. Lucy fechou o rosto. Então ele sorriu, com uma ideia em mente. Estava irritado, mas não poderia perder aquela chance. Pegou seu celular e ativou o gravador. Aquele material lhe seria muito útil no dia seguinte. — O que você quer mesmo, Lucy?
— Você, amor. Já disse.
— Quer transar comigo? Aqui, nesse bar, cheio de gente?
— Uhum — Lucy murmurou, tentando aproximá-lo de si.
— Tem certeza disso?
— Absoluta — a garota afirmou, desabotoando os botões da própria camisa. Natsu interrompeu a gravação, já tinha o suficiente, e guardou o celular. Preocupando-se agora em parar as mãos de Lucy antes que ela acabasse se despindo na frente de todas aquelas pessoas.
— O que você está fazendo, sua louca?
— Natsu, você é cruel — a loira reclamou, fechando a cara outra vez.
— É, sou sim — o rapaz concordou, jogando-a em seus ombros, seguindo o exemplo de Gajeel com Levy, já que por vontade própria ambas se recusavam a ir para casa. A diferença é que a pequena batia contra as costas do moreno tentando se libertar, enquanto Lucy apenas aceitou ser carregada. — Ei, Gajeel, podemos ir?
— Claro — o moreno concordou, sem aparentar dificuldades em segurar Levy.
Para Natsu, a caminhada ia calma, apesar dos protestos de Lucy, para os quais ele sequer dava atenção, em dizer que aquela posição estava desconfortável. Já a pequena, não parava quieta um instante, fazendo-o se perguntar se ela nunca se cansaria de bater nas costas do pobre Gajeel. Até que, em certo momento, ele explodiu.
— Você quer agir como criança?! Então irei lhe tratar como criança! — gritou, dando uma forte palmada no bumbum de Levy, o que a deixou extremamente constrangida, mas ao menos serviu para que se aquietasse.
— Gajeel, seu safado — a loira comentou.
— Cala a boca, Heatfilia — Gajeel rebateu. Lucy então virou-se para o garoto:
— Natsu.
— O que foi?
— Me dá a sua camiseta?
— Pra quê quer minha camiseta? — estranhou e arqueou a sobrancelha.
— Pra vestir, ué. Pra quê mais iria querer.
— E por que quer vestir a minha? Você tem a sua.
— Porque a sua tem o seu cheiro.
Natsu bufou, mas diante daquele rosto pedinte não conseguiu dizer não. Colocou Lucy no chão, tirou a própria camiseta e a entregou. Para sua sorte, a rua estava deserta e ninguém a viu tirar a camisa para vestir a dele. Colocou uma nota mental em sua mente: “não permitir que Lucy chegasse perto de bebidas alcoólicas de novo”.
— O que foi? — o garoto perguntou perante o olhar de Lucy para ele, ainda com as sobrancelhas arqueadas.
— Me leva no colo?
Natsu bufou. Merecia um prêmio pelo trabalho que Lucy lhe dava, mas obedeceu sua vontade.
— Francamente, Lucy...
Após alguns minutos de caminhada, a loira acabou por adormecer no colo de Natsu. Mesmo apesar do trabalho que lhe dava, mesmo após tê-lo feito passar frio até o caminho de volta para casa, ele acabou por sorrir. Estava completamente decidido a procurar aquele homem que o abordara mais cedo, porque se tinha uma chance de se livrar da coisa que tanto o perturbava, o faria. Não apenas por ele, mas por Lucy também.
***
Na manhã seguinte, a loira acordou com sua cabeça latejando, sem se lembrar de detalhes da noite anterior. Havia uma bandeja de café da manhã no criado-mudo, ao lado da cama, contendo uma grande xícara de café e analgésicos.
— Bom dia, dorminhoca. Teve uma boa noite de sono? — Natsu perguntou, o tom de sua voz propositalmente elevado.
— Não enche, Natsu — a loira reclamou, cobrindo os ouvidos com o travesseiro. A passos lentos, o garoto se aproximou e sentou-se na cama.
— Eu te preparo o café, trago remédios, e é assim que você me trata? — Lucy não respondeu. — A propósito, eu não sabia que você tinha um desejo tão grande de transar em público, Lucy.
— Como é? — o questionou, sem entender. Sorrindo, Natsu pegou o celular e lhe mostrou a gravação, rindo interiormente ao ver a expressão assustada de Lucy. — Natsu... O que você fez?
— O que eu poderia ter feito? Você estava sedenta pelo meu corpo. Acho que algumas pessoas devem ter filmado... tente procurar no YouTube mais tarde.
— Natsu! — a loira exclamou, assumindo uma pose mais séria. E foi aí que Natsu não se conteve e desatou a rir.
— Você tem tanta confiança em mim que me emociona, Lucy. — ainda rindo, ele se levantou, enquanto a loira jogou-se na cama, aliviada por ser apenas brincadeira.
— Você é um chato!
— Um chato que você ama — com uma piscadela, saiu do quarto.
Por bem ou por mal, era mesmo verdade. Fazer o quê, ela amava aquele idiota.
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