Onde Tem Ódio Tem Amor
101 Real Monsters
Notas iniciais
Era uma viagem longa, mas por ela não se importava de passar horas sentado no duro assento do trem, vendo a mesma paisagem se repetindo, apenas imaginando o que a teria levado a telefonar de forma tão desesperada, querendo segurá-la em seus braços até convencê-la de que não havia nada errado. Quando a deixara partir, estava perfeitamente bem. O que ou quem quer que a tivesse deixado naquele estado, iria pagar.
Mesmo o táxi que pediu para levá-lo da estação até a mansão dos Heartfilia parecia mover-se na velocidade de uma tartaruga. Já era noite quando finalmente conseguiu avistar a casa. Conhecido pelo segurança, não precisou de permissão para entrar. Em frente à porta, seu coração palpitava rápido quando apertou a campainha, mais do que tudo, preocupado com como encontraria Lucy ao passar pela entrada.
Alguns segundos e disparos de seu coração depois, ouviu a porta sendo destrancada, abrindo passagem. Lucy estava parada à sua frente. Não mais chorava, ainda que seu rosto estivesse inchado. A primeira coisa que fez foi abraçá-lo, inspirando profundamente o perfume da camiseta do rapaz.
― O que aconteceu? ― Perguntou, ainda com ela em seus braços. Afastando-se, a moça respondeu:
― Depois.
Então o segurou pela mão e puxou-o para dentro da casa. Virgo estava na cozinha e sorriu ao vê-lo. Estava com a mesma aparência de sempre. Parecia não saber o que havia acontecido com Lucy.
― Natsu! Que bom te ver outra vez. Quer comer alguma coisa? Deve ter sido uma longa viagem.
Estava mais ansioso para saber o que tinha acontecido com sua noiva, mas seu estômago fez questão de lembrá-lo que não tinha comido praticamente nada o dia inteiro.
― Para falar a verdade, estou faminto ― respondeu sorrindo. Lucy ainda segurava sua mão.
― Vou preparar algo. Podem descansar enquanto isso. Eu aviso quando estiver pronto.
― Obrigado, Virgo. ― A dona da casa então o levou até a sala. A televisão estava ligada, logo imaginou que ela estava assistindo algo quando chegou. Parecia um filme, mas não sabia ao certo qual era. ― Interessante?
Sentou-se no sofá e puxou Lucy para sentar-se ao seu lado e acomodar a cabeça nas pernas dele. Ela aceitou de bom grado o gesto.
Precisou apontar para a televisão para que ela entendesse a pergunta.
― Não sei. Eu não estava prestando muita atenção.
― Você está bem? ― Obviamente não, mas precisava ouvir dela.
― Parece que minha cabeça vai explodir e que meu estômago está sendo corrompido por dentro ― disse, com a voz fraca, de olhos fechados.
― Essa é uma definição bem precisa ― ao menos conseguiu fazê-la sorrir. ― O que te deixou assim?
― Nós conversamos sobre isso depois, ok? Eu realmente não quero tocar nesse assunto agora.
― Quer que eu peça para a Virgo te trazer algo?
― Não. Só... fique aqui comigo, certo? ― Ela encolheu-se, como se precisasse se proteger de algo. Ele pegou uma almofada e colocou embaixo da cabeça dela, tentando deixá-la mais confortável.
― Claro ― disse, beijando-a na testa. ― Parece bom, esse filme. Acho que você deveria ver.
Na verdade, sequer tinha prestado atenção no que acontecia nas cenas. Procurava apenas distrai-la.
― Não, obrigada.
― Tem certeza? Tem... pessoas morrendo. Espera, é um filme de terror? Não estava prestando atenção mesmo, não é? Você odeia filmes de terror. Ou me chamou aqui para revelar que agora é seu gênero favorito?
Lucy sorriu outra vez. Ele ofereceu-lhe a mão, devidamente aceita por ela, apertando-a contra seu peito.
― Não. E não. Pode mudar de canal se quiser. Realmente não me importo.
― Não, tudo bem ― ao contrário dela, gostava dos filmes de terror. Mesmo que sua própria vida tivesse se tornado um e os filmes passassem sempre a desesperança de um final feliz. Esperava que sua vida pelo menos tivesse um final diferente daqueles nos quais o vilão sempre ganha. ― Aconteceu algo bem engraçado com o Gray hoje, sabia?
― O quê?
― Um guarda o parou e o prendeu quando viu o sobrenome. Alguma coisa relacionada com os pais dele terem ajudado a inocentar um criminoso em um caso alguns anos atrás.
― Ele o prendeu sob qual acusação?
― Desacato. Passou o dia inteiro preso. É bem injusto, na verdade. Mesmo que o cara fosse culpado, os pais dele estavam apenas trabalhando. Inocente até que se prove o contrário, certo? Aos olhos do júri, eles provaram a inocência. E o Gray não tinha nada a ver com a história.
Lucy se ajeitou no sofá. Seu braço começava a doer devido à posição em que estava.
― É o peso do sobrenome. Você tem sorte de Dragneel não ser um nome relevante na sociedade.
― Vou fingir que não me ofendi.
― Não, é sério. Quando seu sobrenome é conhecido, as pessoas te olham diferente, e na maior parte das vezes não é algo bom.
― Não importa. Não preciso que seja um sobrenome reconhecido pela sociedade. Não ligo para essas coisas. Só preciso que seja reconhecido por você.
Abriu os olhos e sorriu de canto, brincando com os dedos do rapaz.
— Eu sei que não estou exatamente demonstrando, mas estou muito feliz por você ter vindo. Obrigada.
Sentiu seus olhos marejando novamente. Naquela manhã, depois do que sentiu, estar com ele era tudo o que havia desejado. Após somente uma ligação, lá estava, confortando-a mesmo sem saber o que tinha acontecido. Se Natsu não fosse o homem da sua vida, tinha certeza de que não iria querer ninguém mais, pois sabia que ninguém seria capaz de superá-lo.
— Eu sei que você não está bem. Não se preocupe com não demonstrar. Nunca deixaria de tentar te ajudar. E você me deixou bem preocupado. Eu precisava vir checar.
— Desculpe por isso — apertou mais a mão dele, sabendo que provavelmente o tinha deixado estressado pensando no que poderia ter acontecido.
— Eu sou tipo aquele cara da música, sabe? Que diz que andaria 500 milhas e outras 500 só para ser o cara que anda 1000 milhas pela garota? Sou esse tipo de cara. Mesmo substituindo o andar por um trem, mas, bem, se eu viesse andando provavelmente demoraria um pouco mais para chegar.
Outro sorriso. A cada um deles sentia-se um pouco vitorioso. Cumprir o papel de animá-la era uma das coisas que mais o alegravam.
— É, você é meu cavaleiro de armadura brilhante ― brincou, girando a aliança de noivado no dedo dele.
— Cavaleiro não. Posso ser o dragão? O cavaleiro é muito sem graça. Ele chega, mata o dragão e tira a princesa do lar dela, e todo mundo o acha incrível por isso. É tão babaca. O dragão é muito mais legal. A função dele é proteger a princesa a qualquer custo.
— Claro, Natsu. Você pode ser o dragão ― ajeitou-se novamente. ― Já que estamos falando de músicas, tenho uma para você também.
― É? Qual?
― “You’re my sunshine, my only sunshine. You make me happy when skies are grey. You'll never know, dear, how much I love you” ― cantou, mais para um recitar, baixo, ainda brincando com o dedo dele, olhando-o nos olhos apenas depois. Ficava com vergonha demais para cantar sabendo que ele estava olhando. ― Você é meu raio de sol, você me faz feliz quando os dias estão nublados. Nunca saberá o quanto eu te amo.
Com um sorriso no rosto, beijou-a outra vez na testa.
― Tão fofinha que dá vontade de morder.
― Eu estava muito mal, e então você chega e quase instantaneamente me faz rir. Não sei que bruxaria é essa, Dragneel, mas gostaria que todos pudessem ser como você.
― O mundo não aguentaria mais de um Natsu Dragneel. É mais beleza, simpatia e humildade do que o planeta é capaz de suportar.
Sentou-se e passou seus braços em volta do pescoço do rapaz. Ele sempre dizia aquilo, já até havia decorado o discurso narcisista.
― E é assim que você estraga o momento.
Beijou-o nos lábios, sem pressa nenhuma, sem nenhuma outra intenção além de mostrar o quão grata estava por tê-lo ao seu lado em um momento ruim. E teria continuado o simples beijo se Virgo não os estivesse chamando da cozinha.
― Você está com mau hálito ― Natsu comentou, com aquele sorriso que já entregava de cara a mentira.
― Não estou não.
― Talvez eu tenha me enganado, preciso de outro beijo para ter certeza ― disse, sorrindo travessamente.
― Seu mentiroso aproveitador. Essa é a pior estratégia para ganhar um beijo que eu já vi na minha vida.
― Funcionou?
― Nem perto.
― Droga.
Ainda que tenha dito aquilo, acabou por beijá-lo do mesmo jeito.
― Pode me carregar? Realmente não estou nem um pouco a fim de levantar daqui.
― Nem ― respondeu, puxando-a do sofá. ― Fico fraco com fome. Vamos.
Cedendo, ela o seguiu até a cozinha. Virgo havia preparado dois lanches simples, mas que cheiravam muito bem. Para Natsu, cujo estômago implorava por comida desde cedo, parecia um banquete. Lucy, por outro lado, não sentia a menor fome. Muito pelo contrário, achava que se colocasse algo na boca, seu estômago rejeitaria no segundo seguinte.
Sem esperar, o rapaz segurou um dos lanches como se ele pudesse criar vida e fugir e deu a primeira mordida. Parecia um alimento divino tamanha a fome que estava.
― Espero que goste. Não pude fazer nada mais sofisticado.
― Está ótimo ― respondeu, já arrancando o segundo pedaço.
― Pode ficar com o meu, se quiser ― Lucy ofereceu. ― Não consigo comer nada.
― Quer que eu te prepare um chá, senhorita?
― Não precisa, Virgo. Obrigada.
― Tem certeza? Está muito bom ― Natsu falou, ainda com a boca cheia.
― Tenho. E parece que você precisa mais do que eu.
Ele deu de ombros. Não dispensaria tão belo prato como aquele.
― Lucy não me avisou que vinha, Natsu. Fez uma boa viagem?
― O trem não é exatamente o meio de transporte mais confortável. Acho que por ser muito antigo e não tão usado, não ligam mais para deixá-lo agradável. Na verdade, até pouco tempo eu nem sabia que ele existia. Mas foi tudo bem. O que importa é o destino, certo? Cheguei inteiro.
― Que bom ― Virgo comentou. ― Ouvi que você está trabalhando em uma academia.
― Sim. Um amigo é o dono. Sou basicamente um secretário, mas ajudo em algumas coisas também.
― E ele não se importou de você viajar repentinamente?
― Eu expliquei meus motivos. Ele é compreensivo ― especialmente tratando-se de Lucy. Natsu podia estar morrendo que Alexei não iria deixá-lo faltar ao trabalho, mas se dissesse que sua falta era relacionada a Lucy, seu chefe quase implorava para que ele deixasse de comparecer e fosse socorrê-la.
― Entendi ― Virgo disse, encerrando o assunto. Enquanto os dois conversavam, a jovem checava as mensagens no celular, alheia à discussão. ― Tem certeza de que não quer comer nada, senhorita?
― Sim. Foi um dia estressante. E provavelmente amanhã também vai ser. Ainda não descobri quem vazou as informações sobre o meu passado para aquela revista, e quero esclarecer essa história o mais rápido possível ― repentinamente, o sorriso de Virgo morreu e seus ombros ficaram tensos, sua expressão preocupada. Lucy notou a mudança, largando o celular na bancada. Havia comentado mais cedo naquele dia sobre o vazamento de informações, mas Virgo mudou de assunto tão rapidamente que achou que ela sequer tivesse ouvido. Contudo, aquela era uma reação estranha demais para ser ignorada. ― O quê? Sabe quem foi?
― Sei sim, senhorita ― tentou esconder o nervoso apertando um guardanapo que antes estava pendurado em seu ombro. Abaixou a cabeça, com vergonha de suas próprias palavras.
― Quem? Precisa me dizer para que eu tome providências, Virgo. Mesmo se estiver tentando proteger alguém. Se essa pessoa vazar outros tipos de informações, sobre a companhia, talvez, pode prejudicar muita gente.
― Fui eu, senhorita.
Natsu largou o lanche imediatamente, vendo a expressão de confusão formando-se no rosto de Lucy. Com a tensão estabelecida no ambiente, não conseguia sentir-se confortável para comer.
― Você... não, não. Você é uma das pessoas em quem eu mais confio, Virgo. Não precisa proteger ninguém, eu sei que não foi você.
― Não estou mentindo.
Quase conseguia sentir o cérebro de Lucy tentando montar qualquer explicação que desarmasse Virgo e a fizesse confessar que era mentira, pois a verdade era dolorosa demais para aceitar.
― Não. Não é possível ― vendo que a expressão da senhora continuava impassível, sentiu o peso daquela declaração. ― Por quê?
― Naquela época, minha filha estava doente. Eu não tinha dinheiro suficiente para pagar pelo tratamento. Então esse jornalista surgiu e me ofereceu um bom pagamento por informações sobre o motivo do seu pai estar tão sumido. Ele sabia que tinha algo acontecendo, apesar de não saber o quê. Era uma revista pequena, achavam que essa matéria poderia dar-lhes algum destaque. Eu ainda não era tão próxima da sua família, senhorita, então aceitei, mas não há um dia em que não me arrependa de ter traído sua confiança e a de seu pai.
Via os olhos de Lucy ficarem marejados e desejou poder fazer algo, porém sabia que não podia se meter naquela situação. Se falasse qualquer coisa, provavelmente Lucy ficaria ainda mais irritada. Aquilo era apenas entre elas.
― Por que não simplesmente pediu pelo dinheiro?
― Era uma situação delicada a que vocês estavam vivendo. Eu não queria importuná-los com os meus problemas.
― Exatamente. Era uma situação delicada. Mas você decidiu que a melhor ideia era enfiar uma faca nas minhas costas e na do meu pai, não é? Ele confiava em você. Eu confiava em você. Acho que nós dois fomos muito idiotas mesmo.
A jovem levantou-se e andou apressadamente até as escadas, sequer dando tempo para que Virgo se defendesse. Ela também estava magoada, mesmo sabendo que havia agido mal no passado. Guardar um segredo como aquele por tanto tempo devastava uma pessoa. Cometeu um erro que não podia desfazer, e agora estava enfrentando as consequências.
― Sinto tanto por isso.
― Vou falar com ela ― Natsu disse, imediatamente indo atrás de Lucy, no quarto dela. Sabia que não podia consertar coisa alguma, mas sua noiva já estava tendo um dia ruim sem uma notícia como aquelas. Ao menos poderia oferecer algum conforto.
A jovem andava de um lado para o outro quando abriu a porta, mexendo no cabelo. Largou a mochila com suas coisas no canto, tentando não fazer movimentos bruscos.
― O que foi? Veio enfiar mais uma faca nas minhas costas? Pode aproveitar, Natsu, porque parece que hoje tem um alvo grudado nela.
Após fechar a porta, levantou ambas as mãos, em sinal de rendição.
― Venho em paz, humana.
Lucy parou, suspirando, as mãos na cintura.
― Sem brincadeiras, ok?
― Eu sei, só queria te acalmar. Eu sei que não é bem seu melhor momento, mas você precisa me contar o que aconteceu, porque senão não vou conseguir te ajudar.
― Vá tomar um banho primeiro ― ordenou, olhando para o chão.
― Por quê? Eu estou fedendo?
― Não. Eu só preciso de um tempo para colocar minha cabeça no lugar antes de conversarmos, tudo bem?
Ele assentiu, sabendo que discutir não adiantaria em nada.
― Certo. Mas a primeira coisa que vai fazer depois é me contar tudo. Sem mais enrolações, ok?
Lucy concordou, sentando-se na cama enquanto ele fechava a porta do banheiro. Enquanto ele estava no banho, pegou o celular do garoto, que ele havia jogando na cama antes de entrar no outro cômodo, para se distrair. Havia várias mensagens trocadas com Christine. Ele nunca mais tinha falado dela, então era estranho ver que ainda conversavam tanto. Muito embora o ciúme que sentia com relação à moça tivesse diminuído consideravelmente, ainda não se sentia completamente confortável. Mesmo assim, não leu as conversas. Respeitava a privacidade de Natsu, por mais que soubesse que ele não tinha nada a esconder. Também não gostaria que ele olhasse tudo o que ela fazia com o celular, simplesmente por ser desconfortável.
Além dessas, também havia mensagens de Levy, perguntando como Lucy estava, e Gray, todas não lidas. Respondeu às de sua amiga, afinal referiam-se a ela própria, então não viu problema nisso.
Sentiu vontade de entrar no banho com Natsu simplesmente para tentar fazê-lo esquecer da conversa que deveriam ter, entretanto, sabia que ele não esqueceria tão fácil. Não depois de ter viajado por horas só para saber o que tinha acontecido. E ele com certeza notaria sua estratégia antes mesmo de qualquer coisa.
Quinze minutos depois, com a toalha em volta do pescoço, despido da cintura para cima e com o cabelo ainda pingando, ele saiu do banheiro.
― Ok, teve seu tempo, agora me diga o que aconteceu com você ― disse, ainda enxugando o cabelo, e sentou-se na cama.
Lucy apertou o tecido da calça, levantando-se, pois não conseguia ficar parada pensando nos acontecimentos daquela manhã.
― Não sei por onde começar.
― Que tal do começo? ― Era uma resposta óbvia, mas era também a única cabível.
― Certo ― assentiu, cruzando os braços. ― Eu estava trabalhando em alguns documentos hoje mais cedo, e já estava naquilo por horas, então decidi parar um pouco e ir pegar um café. Quando cheguei perto da copa ouvi alguns dos sócios lá, conversando, com a porta encostada. Como tinha ouvido meu nome, não quis entrar e fiquei escutando do lado de fora. As coisas que eles estavam dizendo, Natsu...
― O que eles falaram? ― Perguntou, já sentindo a raiva surgindo em sua voz, prevendo o que estava por vir.
― Coisas como que não sabiam como meu pai tinha deixado tanto poder para mim, que ele era um velho burro, que provavelmente tinha pagado para minha mãe se casar com ele, ou que ela só tinha se casado por ele ser rico, entre outras coisas piores.
― O que eles disseram?
― Natsu...
― O que eles disseram, Lucy? ― Insistiu, elevando o tom da voz.
― Quer mesmo saber? Tudo bem, eu te digo ― falou, também aumentando o tom, sabendo qual seria a reação do rapaz se contasse, mas também sentindo a mesma raiva que havia sentido quando ouviu surgindo outra vez. ― Eles estavam conversando sobre o quanto eu deveria prestar somente como objeto de satisfação de desejos, e não administrando uma empresa, suavizando o que realmente falaram. Um deles disse que em algumas reuniões, enquanto eu me levantava para falar, ficava me imaginando nua e precisava tomar cuidado para “esconder”, se entende o que eu estou falando. O outro concordou, e ainda disse que se divertia às vezes no banho pensando na “chefe” e que esperava que a esposa não descobrisse, ou ele estaria ferrado. Era esse tipo de coisa que estavam falando, Natsu. ― Sentia tanta raiva que sua garganta doía, e via nos olhos de Natsu o mesmo. Precisava acalmá-lo antes que ele perdesse o controle da mesma forma como ela quase perdeu naquela manhã. ― Não estou te contando isso para te deixar bravo.
― Um pouco tarde demais para isso, porque a minha vontade é de socar a cara desses filhos da puta até estarem irreconhecíveis ― disse, apertando os punhos.
― Você não vai fazer nada, ouviu? Esse problema é meu e eu tenho que resolvê-lo. Não preciso que você faça algo, ou que resolva meus assuntos. Eu só quero seu apoio. Depois do que aconteceu, eu corri até o banheiro, porque senti que se ficasse ia quebrar tudo que encontrasse pela frente. Eu estava com tanta raiva, Natsu. Tanta raiva. Por isso eu te liguei e por isso estava chorando. Não era por medo ou por ter ficado magoada, era por querer tanto fazer algo e saber que não podia. Eu precisava que você me acalmasse, ou ia acabar fazendo alguma besteira. Suportei o dia pensando que iria te ver e rir das suas idiotices de sempre quando chegasse aqui.
― Não tem nada que possa fazer contra esses caras? Não pode deixar as coisas assim, Lucy.
― Eles são tão donos da empresa quanto eu. A única diferença é que eu tenho mais poder dentro dela.
― E se fizesse uma denúncia na polícia?
― Com que provas? E quem vai acreditar em mim com o meu passado? Por que acha que eu queria tanto apagar qualquer evidência do que aconteceu naquela época? Parte dessa visão que eles têm de mim se deve à minha história.
― Não, a visão que eles têm é por serem doentes que não conseguem manter a porra do pau abaixado.
A tensão nos ombros de Lucy estava lhe causando uma dor horrível. Tentou diminui-la fazendo uma massagem. Havia passado o dia tentando encontrar uma solução para o problema, mas não conseguia pensar em nenhuma.
― Sabe qual foi a pior parte? Ter que encarar aquelas pessoas em uma reunião à tarde sabendo o que estava passando pela cabeça deles.
Ele também mal conseguia conter-se parado. Ainda precisava lidar com a consciência de que, se não controlasse a própria raiva, poderia dar margem para o Koscheivich invadir sua mente.
― Isso não é certo. Nem um pouco.
Lucy riu.
― É, não sei se sabe disso, mas nem todos os caras são como você, ou Gray, ou Jun. E o mundo é um lugar de injustiças, infelizmente. Eles vão continuar com esse pensamento, e não há nada que eu possa fazer a não ser ignorar. Não posso denunciá-los pelo que pensam e não tenho prova nenhuma para usar contra eles. Eu cheguei a pensar em vender minha parte da empresa, mas não seria nem um pouco justo. Dar o controle total para aquelas pessoas é entregar a eles um passe livre para escravizar os funcionários. Pensei também em entregar minha parte ao Jun, mas eu estaria jogando fora tudo o que meu pai passou a vida me ensinando.
― Não é justo você entregar o que é seu por direito por causa deles.
― Não, não é. Por isso minha única alternativa é aguentar. Ignorá-los. Mas é tão ruim. Eu me sinto completamente exposta. A única pessoa a quem eu dei permissão para pensar em mim dessa forma é você. Só que não posso controlar o que se passa na cabeça daqueles doentes. Eles são 30, 40 anos mais velhos do que, Natsu. É assustador. E não posso fazer nada. Para completar ainda descubro que uma das pessoas em quem eu mais confiava durante boa parte da minha vida me traiu. Não tem noção da raiva que eu estou sentindo.
Se ele próprio, que apenas ouvia a história, estava com o sangue fervendo, conseguia imaginar muito bem a raiva que Lucy sentia. Não era apenas por ela ser sua noiva e odiar saber que homens que ela odiava ficavam imaginando-a daquela forma, mas também por saber o quanto ela se esforçava para fazer tudo certo no trabalho. E, mesmo assim, tudo pelo que era reconhecida eram seus atributos físicos. Ela praticamente não dormia, passava dias fora de casa, se alimentava mal, e ninguém ali parecia reconhecer esses esforços.
― Quer saber? Está com vontade de bater em algo, quebrar coisas, certo? Então deveria. Deveria colocar toda sua raiva para fora.
Lucy riu.
― Sério? Em quê?
― Em mim ― disse, levantando-se.
― O quê? Não está falando sério ― disse, completamente certa de que ele havia enlouquecido.
― Estou sim.
― Eu não vou bater em você, Natsu.
― Por que não? Eu também te magoei muito já, não é? Também te fiz sofrer.
― No passado. Não importa mais.
― E daí? Anda, Lucy. Bata em mim ― disse, dando alguns tapas em seu próprio peito.
― Eu não vou fazer isso.
― Por quê? Tem medo de enfrentar seu próprio noivo? Se não tem coragem nem de me enfrentar, como espera ser mais forte do que aqueles caras? Como espera conseguir encará-los de forma superior?
― Cala a boca, Natsu.
― Talvez eles estejam certos. Talvez Lucy Heartfilia seja só uma mulher gostosa sem competência para nada mais além de sexo ― odiava muito a forma como estava falando, mas precisava provocá-la para que conseguisse fazê-la liberar toda a raiva. Lucy estava se contendo e ele queria que ela se soltasse.
― Cala a boca ― notou que a raiva em sua voz já aumentava. Sabia que era arriscado e que poderia magoá-la de verdade, mas Lucy era esperta. Perceberia em pouco tempo qual era a ideia dele.
― Por quê? Só estou falando o que você está demonstrando. Está mostrando ser frágil e inocente, como eles pensam que você é ― ela já o fuzilava com o olhar, mas ainda não era o suficiente. Precisava ir mais fundo. ― Como Ryan pensava que você era.
― Você quer que eu te bata? Certo ― aproximou-se e deu-lhe um soco fraco no peito, apenas para fazê-lo parar.
― Só isso que consegue fazer? Sério mesmo? ― Provocando-a, conseguiu outro soco, um pouco mais forte. ― Está com medo de me machucar, Lucy? Imagine que eu sou um dos homens naquela sala. Imagine que eu disse coisas horríveis sobre você, sobre seus pais, que eu sempre te trato como inferior.
Conseguiu outro soco. E outro. E outro. Cada um mais forte do que o anterior, até chegar em um ponto em que os socos de Lucy realmente estavam lhe causando dor. Contudo, não se importava, desde que conseguisse fazê-la liberar um pouco daquele estresse contido, reduzir a tensão que ela carregava. Via os olhos dela enchendo-se de lágrimas. Quando percebeu a força dos socos tinha diminuído, a abraçou, deixando-a deitar a cabeça nos ombros dele enquanto normalizava a respiração e deixava as poucas lágrimas caírem.
― Você é tão forte, Lucy Heartfilia. A pessoa mais forte que eu já conheci na minha vida. E não pode deixar ninguém nunca te fazer duvidar disso. Que se explodam aqueles caras. Eles nunca vão ter o privilégio de realmente conhecer a melhor pessoa desse universo. Você é infinitamente melhor do que eles, em todos os sentidos possíveis, e sabe disso. Nunca deixe que eles tirem isso de você, entendeu?
Ela assentiu, abraçando-o mais forte, sentindo o peito quente e extremamente avermelhado dele contra seu corpo.
― Obrigada.
― É só minha função.
Ela sorriu, enxugando as lágrimas. Puxou-o até a cama e deitou-se ao lado do garoto, de frente para ele. Sabia que podia contar com Natsu para fazê-la sentir-se melhor. Não que estivesse completamente calma, mas ao menos conseguia controlar um pouco mais.
― Espero que não fique roxo ― disse, apontando para o peito do garoto.
― É por uma boa causa ― respondeu. ― Está melhor agora?
― Um pouco, sim ― ajeitou-se, suspirando. ― Eles tiveram a coragem de falar até mesmo que minha mãe tinha provocado a própria morte para se livrar do meu pai, Natsu. E isso foram só coisas que consegui ouvir. Imagine o que já não disseram.
― Eles são doentes, presos num pensamento retrógrado. Tudo com o que se importam é dinheiro. Não deixe que eles entrem na sua cabeça.
― Eu sei. É só muito estressante. Eles tornam a minha vida aqui um inferno.
― Não ligue. Mostre que você é superior, independente do que eles façam.
Lucy deitou-se de costas, colocando o braço sobre a testa.
― É o único jeito. Agora, sobre a Virgo, não sei o que fazer.
― O que tem em mente?
― Não posso demiti-la, seria injusto. Mas não sei também como encará-la depois disso.
De certa forma, entendia os motivos de Virgo, afinal, fazia quase a mesma coisa.
― Ela não queria te machucar. Às vezes as pessoas agem de forma estúpida para proteger alguém que amam. Cometeu um erro e provavelmente não quis te contar para que você não ficasse magoada.
― E isso funcionou muito bem, não é? Eu odeio que mintam ou escondam coisas de mim, Natsu ― precisou abaixar o olhar, pois sabia que se encaixava naquela descrição, mesmo que Lucy não soubesse.
― Mesmo com boas intenções?
― Não importa a situação, a verdade é sempre melhor.
Lucy tinha razão. Talvez ele devesse parar de esconder toda sua história. Mesmo que aquele não fosse o melhor momento, precisava falar, ou perderia a coragem.
― Lucy, eu...
Quase como um alerta para impedi-lo, alguém bateu na porta. Lucy pediu para entrar. Era Jun.
― Oi. Desculpe atrapalhar ― franziu a testa ao ver Natsu ali, provavelmente surpreso. ― Só queria saber se aqueles documentos estão prontos? Hasen vai vir buscá-los mais tarde.
― Sim. Num envelope azul na escrivaninha do escritório.
― Ok.
Jun fechou a porta, deixando-os sozinhos novamente.
― Por acaso esse Hasen é um dos caras sobre quem você estava falando? ― Deduziu pela expressão de Lucy. Ela assentiu.
― O que estava preocupado com a esposa descobrindo sobre seu fetiche ― Lucy riu, percebendo o quão ridículo era aquilo. ― Ele tem três filhos e uma neta, Natsu. Uma neta!
― Aposto que iria ameaçar o primeiro desgraçado que dissesse sobre ela as coisas que ele disse sobre você.
― A hipocrisia reina nesse mundo ― sentou-se na cama, respirando fundo. ― Eu sei que você estava morrendo de fome e quase não comeu. Um restaurante italiano novo abriu aqui perto. Quer ir jantar lá? Eu realmente não quero estar aqui quando esse velho vier.
― Claro. Me deixe só vestir uma camisa.
Pegou uma blusa com capuz de sua mochila, sentindo-se culpado por mais uma vez não ter coragem de revelar a verdade. Lucy era forte e conseguiria aguentar, tinha certeza disso. Mas ela já sofria tanto sem precisar saber que era adotada e que sua família real descendia da origem de um monstro real. Ela não deveria ter que carregar mais esse peso. Sabia que uma hora precisaria contar, mas não naquele dia. Naquele dia, ela já tinha enfrentado monstros demais.
Fale com o autor