Onde Tem Ódio Tem Amor
93 ESPECIAL - I will protect you
Notas iniciais
— Ok, me explica de novo: por que eu tenho que fingir ser seu namorado?
— Você tem problemas de memória ou o que? — Reclamou, bufando. A bolsa que carregava não estava pesada, mas ainda assim parecia um peso gigante. Estava se irritando com a menor das coisas. Natsu também não colaborava em nada para diminuir sua irritação.
— Não, só gosto de ouvir a solução genial que você arranjou para os seus problemas — o garoto respondeu, sorrindo de orelha a orelha. — E quero ter certeza se entendi certo. Além do mais, você prometeu que iria repetir quantas vezes eu pedisse em troca de eu aceitar.
Bufou outra vez. Fazia muito aquilo em companhia daquele garoto. Porém, era um preço baixo ser caçoada por ele em troca do favor.
— Meu pai arranjou uma nova namorada e quer que eu vá com eles numa viagem para apresenta-la.
— E o que você disse a ele mesmo?
— Que eu não podia porque estamos namorando e é seu aniversário.
— E qual foi o resultado?
— Ele me fez te levar comigo.
— Exatamente. Viu, Lucy? É por isso que Pinóquio nos ensina que mentir só nos prejudica — não poderia estar mais satisfeito com a situação. Tirando sarro da garota, colocou seu braço sobre os ombros dela. — Mas tudo bem. Vou adorar fingir ser seu namorado por um fim de semana.
— Isso é tortura.
— Isso, querida Heartfilia — disse, pegando algo de dentro do bolso da blusa —, é inteiramente culpa sua.
— O que é essa coisa?
— Nós vamos de avião até esse chalé na neve em que seu pai está, não é? — Lucy fez que sim. Era óbvio, considerando que a grande máquina em que viajariam estava bem à frente deles, praticamente. Já estavam quase embarcando. — Você sabe que eu passo mal em aviões, certo? Não vou correr esse risco dessa vez. Vou tomar isso aqui e apagar durante toda a viagem.
— Em outras palavras, quer dizer que vou ter que aturar sua cabeça-dura no meu ombro a viagem inteira.
— Qual é, Lucy. Sou seu namorado, é o mínimo que pode fazer.
— Namorado falso!
— Não importa. Ainda assim, namorado. Por sua livre e espontânea vontade sua.
— Por livre e espontânea falta de ideia. Podia ter dito que estava doente, ia me poupar muita dor de cabeça.
— Já pensou que você ter inventado essa mentira ao invés de qualquer outra pode significar que no fundo você anseia para que nossa relação suba a esse nível?
— Nem em um milhão de anos.
— Sei, sei.
— É sério.
— Acredito em você.
— Seu falso.
— O mais falso é aquele que esconde seus sentimentos de si mesmo, então quem é o verdadeiro falso aqui, hein, Heartfilia?
— Continua sendo você.
Não, aquela parte era mentira, pois ele já havia admitido para si mesmo há muito tempo que estava apaixonado por aquela garota ao seu lado. Porém, também não se enganava achando que era o cara certo para ela. Sabia que não era. Provavelmente seus anseios nunca se realizariam, aquela falsa história nunca se tornaria verdadeira, por mais que quisesse. Podia se considerar uma pessoa ruim por estar feliz com aquele desejo se realizando, ainda que sendo parte de uma farsa?
Precisava parar de pensar naquelas coisas, ou deixaria sua expressão de bobo apaixonado muito explicita. Engoliu o remédio a seco enquanto subiam a escada de embarque. Estaria perdido sem aquele pequeno comprimido, pois apenas a ideia de entrar naquela máquina já o deixava enjoado.
Suas cadeiras ficavam bem ao lado da janela do lado esquerdo. Lucy não lhe pediu, porém a deixou tomar seu lugar na janela. Dormiria a viagem inteira, então para ele não faria diferença, e sabia que ela gostava de olhar a paisagem lá do alto, não custava nada ceder o espaço. Não entendia como. Olhar o mundo daquela forma o deixava completamente tonto, como se a parede do avião fosse sumir a qualquer instante e ele cair naquela imensidão.
Antes mesmo da máquina decolar, já sentia sua cabeça pesar, aos poucos caindo sobre o ombro de Lucy, que já havia se apressado a pegar um livro que andava lendo. Estranhou que ela sequer reclamou. Tentou ler uma parte da página em que ela estava, vendo um trecho que dizia o seguinte: “(…) E coro com a lembrança da sua boca e das suas mãos, dele dentro de mim.”. Sorriu maliciosamente, dizendo com o único objetivo de constrangê-la:
— Pervertida.
— É um romance! Cala a boca e dorme, Natsu.
— Ok, ok — disse, acomodando-se nela. Não precisou de muito para obedecer a ordem. Segundos depois já tinha apagado.
***
— Natsu, acorda — chamou-o, cutucando o garoto.
— O que? Já chegamos?
— Quase. Mas achei melhor acordar você antes que começasse a babar na minha blusa.
— Eu não babo enquanto durmo.
— Prefiro não arriscar.
De qualquer forma, o avião já estava pousando. Pela janela, Natsu conseguia ver neve caindo. Andava de forma mole, ainda estava com sono, tanto que Lucy reclamou várias vezes durante o caminho até o táxi que pegariam até o chalé do pai dela que ele estava andando muito devagar e que, daquela forma, era melhor já ficarem no aeroporto, pois só chegariam ao táxi quando fosse hora de voltar. Exagerada como sempre, pensou. E bipolar, considerando-se que logo estaria reclamando dele estar muito agitado, quando a sonolência passasse completamente.
— O que você tem? — Perguntou, olhando-a de canto, quando entraram no veículo. Tinha medo de que se fitasse-a diretamente levaria novas represálias.
— Como assim?
— Normalmente você se irrita fácil, mas hoje parece estar pior ainda.
— Não é nada — respondeu sem encará-lo.
— Eu conheço você, Heartfilia. O que é? Parece nervosa — não parecia. Estava. Conseguia perceber apenas olhando o quanto Lucy estava estressada e ansiosa.
— Por que? Só por não querer conhecer a nova "namorada" do meu pai? De quem ele nem sequer tinha me falado antes de me convidar para conhecê-la? Aliás, de quem eu nunca ouvi falar.
— Sabia que tinha alguma coisa rolando. Relaxa. De qualquer forma, você raramente o vê. Isso não vai afetar sua vida tanto assim.
— Obrigada por jogar isso na minha cara — curta e grossa, respondeu. Não poderia mesmo se tentasse convencer qualquer pessoa de que seu estado naquele momento era calmo.
— Desculpa. Não era minha intenção te deixar mais chateada. Só estava tentando ajudar.
— Eu sei. Você tem razão. Eu estou mesmo meio nervosa. Me desculpa por descontar em você.
— Sem problemas. Estou aqui para o que precisar — disse, passando o braço por sobre os ombros de Lucy, que, desconfortável, moveu-se para o lado. — O que? Posso ser seu saco de pancadas, mas não posso te dar um meio abraço?
— Agora você entendeu.
— Que tipo de amizade é essa em que eu só saio perdendo?
— Quanto drama, Natsu.
— Se existisse uma associação nacional da amizade, eu te denunciaria a ela por ser uma péssima amiga.
— E eu ficaria tão magoada com isso.
— Deveria mesmo. Seria uma grande decepção. Ia pegar muito mal para você.
Não prestou atenção no que Natsu falava, a vista da janela do carro estava mais interessante. Finos e pequenos flocos de neve caíam lentamente do céu. Costumava visitar o chalé de seu pai quando era pequena e lembrava-se de amar estar lá nos períodos de neve. Deitar-se naquela imensidão branca e deixar desenhos no chão era seu principal divertimento. Contudo, lembrava-se também de que em todas as vezes sua mãe lhe fazia companhia. Aquela era a primeira vez que visitava o chalé sem ela. Em parte, sua irritação também se devia a isso. Ao fato do pai ter a audácia de levar uma pessoa que sequer conhecia a um lugar tão especial, como se tudo que viveram ali não tivesse significado nada para ele.
— Será que se eu encostar minha língua no vidro ela vai grudar?
— O que? — Tão absorta em suas lembranças, até esquecera-se da presença de Natsu ao seu lado.
— Eu poderia fazer um teste.
— Se deixar um pingo de saliva no meu táxi vou te fazer limpar ele inteiro com a língua — sem olhar para trás, o motorista avisou. Imediatamente, as bochechas do garoto coraram.
— Desculpa — virou-se para ela e sussurrou: — Não sabia que ele estava ouvindo.
— Bem feito — independente de qualquer discussão ou desentendimento que às vezes tinha com o garoto, estava feliz por estar ali com ele. Suas idiotices a mantinham distraída.
Talvez por vergonha do taxista, talvez por falta de assunto, o que achava um pouco improvável, Natsu não falou mais nada durante o resto do percurso.
Aos poucos a cidade ia ficando para trás, casas se tornavam cada vez mais incomuns. Adentravam uma região deserta, povoada apenas por árvores e, muito provavelmente, pelos animais que ali viviam. Era quase noite, já estava escurecendo quando chegaram ao chalé, que, apesar de velho, mantinha sua elegância. Seu toque rústico combinado com o tempo de existência tornavam-no um lugar perfeitamente aconchegante.
— Seu pai tem tanto dinheiro. Por que não faz uma reforma? — Natsu questionou assim que o carro partira de volta para a cidade.
— Por que? Iria perder toda a graça.
— Mas não cairia na sua cabeça.
— Ele não vai cair, foi muito bem construído. E não é tão velho, seu exagerado — mesmo que o teto não fosse desabar sobre sua cabeça, naquele momento não sentia a mínima vontade de entrar no chalé. — Ok, vamos logo acabar com isso.
— Você realmente não gosta dessa história do seu pai estar namorando, não é?
— Eu disse que você era meu namorado só para tentar fugir disso. O que acha?
— Que você está desesperada.
— Exatamente. Vamos.
Então, ela tomou uma longa respiração e caminhou até a casa. Parou em frente à porta, lembrando-se de um detalhe. Já que tinha dito que Natsu era seu namorado, devia agir como tal, para não levantar suspeitas da mentira. Assim, antes de bater na madeira e com o rosto um pouco mais avermelhado, deu a mão ao garoto, que não reclamou ou questionou a ação.
Seu pai veio logo atendê-la. Devia estar cozinhando, afinal trazia um guardanapo nas mãos, e já era quase noite.
― Lucy, que bom te ver ― cumprimentou a filha. Sem abraços nem nada do tipo. Apenas um aceno e um sorriso de canto. Era seu jeito. ― Natsu, como vai? Espero que esteja cuidando bem da minha filha.
― Muito bem, senhor Heartfilia ― passou seu braço ao redor da cintura da loira, grudando-a ao seu corpo. Ela forçou um sorriso, sem ter certeza se sobreviveria àquela noite e já se arrependendo da mentira. ― Com certeza estou.
― Acho bom. Aliás, meus parabéns.
O garoto franziu a testa. Não fazia a menor ideia do que ele estava falando.
― Parabéns? ― Então, Lucy lhe deu cutucou na costela, trazendo-lhe a lembrança: a mentira sobre seu aniversário. ― Ah, sim! Obrigado.
― Bem, entrem, entrem, está frio aí fora.
Obedeceram, pendurando os casacos num bideiro ao lado da porta e deixando ali também as mochilas com roupas e outros acessórios necessários. Havia uma jovem de longos cabelos loiros ondulados e corpo esbelto na cozinha, provando o que aparentemente era molho de tomate. Era mais alta que Lucy, porém não aparentava ser muito mais velha. Sentiu uma pontada de ciúmes ao perceber o modo como Natsu olhou para aquela desconhecida quando entraram. Mas, não havia como não se impressionar. A garota era muito bonita.
Jude caminhou até ela, abraçando-a.
― Lucy, esta é Ofélia, a moça de quem te falei.
― Prazer em conhece-la, Ofélia ― provavelmente, a segunda maior mentira que contara aquela noite.
Ofélia sorriu abertamente, andando apressada até Lucy, suprimindo-a em um abraço definitivamente não desejado e que, para ela, soou carregado de falsidade.
― Estava tão ansiosa para te conhecer. Seu pai me falou muito sobre você, Lucy. Espero que possamos nos dar bem.
― Claro.
Ela então repetiu o abraço com o garoto.
― E você deve ser o Natsu.
― Em carne e osso.
― Bem, apresentações feitas, fiquem à vontade para conversar. O jantar deve ficar pronto em meia-hora.
― Na verdade, pai, eu estava pensando em dar uma volta por aí, mostrar o lugar ao Natsu. Faz tempo que eu não venho para cá.
― Com toda essa neve? Tem certeza? ― Jude questionou. A neve não era o maior problema, não nevava tanto assim, já o frio, por outro lado, tornaria uma caminhada talvez um pouco sofrida.
― Nós vamos ficar bem.
― Ok, tudo bem. Tomem cuidado.
Não esperou muito mais. Segurou a mão de Natsu e o puxou até a porta, pegando os casacos. Faria qualquer coisa para ficar o menor tempo possível com aquela moça. Não importava se ela fosse uma boa pessoa ou não, ficava extremamente desconfortável com a ideia de seu pai ter uma nova namorada.
― Não se preocupe, senhor Heartfilia. Eu tomo conta dela.
Mesmo após saírem e caminharem adentro da floresta localizada ao lado do chalé, Lucy não percebera que ainda apertava a mão do rapaz. Sua expressão não lhe parecia muito amigável para que dissesse alguma coisa. Somente quando ela começou a diminuir os passos ele teve coragem suficiente para isso.
― Ela não me pareceu tão ruim assim.
― É mesmo? Então por que você não volta e faz companhia a ela?
― Por que tanta raiva, Lucy?
― Eu não estou com raiva ― mesmo ela sabia o quanto não conseguiria convencer com aquelas palavras.
― Então por que quis sair nesse frio ao invés de ficar no calor daquela lareira? ― Cada vez mais o puxava com mais força. Natsu chegou a quase tropeçar em algumas raízes. Ela parou repentinamente, quase fazendo-o escorregar.
― Se está tão incomodado volta para lá. Ninguém está te prendendo aqui ― Natsu arqueou as sobrancelhas. Estava ela tão inconsciente do que fazia que ainda não tinha percebido que suas mãos estavam unidas? Por via das dúvidas, elevou-as à altura dos olhos da loira. Ela imediatamente o soltou após isso. ― Pronto. Livre.
Tentou voltar a andar como antes, porém o garoto a segurou pelo punho e a prensou contra a árvore mais próxima.
― Eu não vou te deixar sozinha.
― Eu não preciso de você.
― Me fala por que está tão brava.
― Não.
Ele suspirou. Lucy podia ser uma pessoa um pouco mais fácil de se lidar.
― Ok. Se você não quer me contar tudo bem. Mas não vou te deixar sozinha, sem chance ― Lucy relaxou aos poucos, vendo que ele não se afastava, gradativamente se acalmando, refletindo em seus pensamentos. Ficaram em silêncio por longos segundos, até Natsu, em toda sua aleatoriedade, perguntar: ― Você já beijou alguém na neve?
― O que? ― Estranhou a pergunta repentina.
― Nada. Só estava pensando que deve ser o mesmo que beijar na chuva, já que a neve é quase chuva.
Ela riu, empurrando-o, pasma com a habilidade do garoto de mudar completamente o assunto.
― Você é estranho.
― Você é estranha. Então, aonde vamos?
― A um lugar que eu costumava ir quando era pequena ― respondeu, voltando a andar, dessa vez sem precisar prender Natsu para que ele a seguisse.
― Ok.
Lucy os guiou por entre as árvores. Ele ficou imaginando como ela conseguia não se perder. Parecia que toda a vegetação era igual, e de acordo com a garota, fazia muito tempo que ela não ia até o tal lugar. Acaso se perdessem, seria com certeza muito ruim. Morreriam congelados ou de fome. Começou a ficar com medo, porém relaxou quando ela parou em frente a uma pequena entrada fechada por tábuas de madeira.
― Quando eu era pequena conseguia passar por baixo das tábuas, mas acho que dessa vez não vai dar. Me ajuda a tirar isso.
Ele obedeceu. Sem muito esforço, puxou duas das tábuas que impediam a passagem. O suficiente para conseguirem entrar. A madeira estava já muito podre, então foi fácil tirá-las de lá. Seguiu Lucy pela entrada, precisando acender a lanterna do celular para enxergar dentro daquilo que parecia uma mina abandonada.
― Por que você vinha aqui? Esse lugar é medonho ― era completamente escuro e úmido. Definitivamente não um bom lugar para uma criança brincar.
― Não sei, eu gostava. Gostava de fingir que era uma exploradora com uma lanterna, procurando por tesouros escondidos. Às vezes vinha para cá quando ficava triste, geralmente nos momentos em que queria passar um tempo com o meu pai e ele tinha que trabalhar, mesmo em viagens.
― Entendi ― não completamente, porque aquela caverna ainda lhe dava arrepios. ― Já ouviu falar de “Until Dawn”?
― Não.
― É um jogo. Nele existe uma criatura chamada Wendigo que surge quando uma pessoa pratica canibalismo, e quando essa criatura surge ela se alimenta de outras pessoas. No jogo, ela vive numa mina, porque uma pessoa dentro de lá, desesperada de fome já que não conseguia sair, comeu outra, e esse lugar está me lembrando muito aquela mina.
― O que foi? Está com medo?
― Talvez.
― Para de ser medroso. Natsu.
Não falou mais nada, porém andava colado na garota, e ela percebia, achando muito engraçado que ele estivesse com medo de uma história fictícia. Ela, por outro lado, estava completamente normal. Se não tinha medo quando era pequena, não era agora que teria. Ao menos até escutar barulhos vindos mais ao fundo.
Natsu a agarrou pelo antebraço. O barulho ficava mais forte, como se algo se aproximasse rapidamente.
― Ok, vamos sair daqui.
Ele sequer esperou por uma resposta de Lucy para puxá-la para fora daquele local. O barulho que ouviram se aproximava cada vez mais, e o dono daqueles possíveis passos começava a fazer um barulho que arrepiava suas espinhas. O garoto aumentou a velocidade. Apenas parou quando estavam de volta à neve, jogando-se no monte branco, ofegantes.
Segundos depois, um cachorro de porte médio saiu da entrada da mina, rosnando para os dois.
― Esse era o seu Wendigo? Era disso que você estava com medo? ― Lucy perguntou, rindo.
― Não deixa de ser uma fera feroz ― ele respondeu, ainda jogado na neve. ― Salvei você.
― É, claro. Grande fera. Anda, vamos voltar.
***
― Ei, Luce.
No instante em que se virou, foi atingida em cheio por uma bola de neve, mirando ao abrir os olhos um Natsu em risos. Estavam já perto da casa, mas já que ele queria começar uma guerra de bolas de neve, lhe daria o que desejava.
― Você vai se arrepender disso, Dragneel.
Lentamente, dando-lhe tempo para ameaçar fugir, juntou um punhado de neve em suas mãos, formou uma bola e correu atrás do garoto. No exato momento em que a bola bateria bem em sua nuca, o garoto pisou em falso na beira de um pequeno barranco, escorregando. Ela correu até ele, preocupada, escorregando no barranco para chegar até Natsu.
― Eu to bem, eu to bem ― disse, contudo, ao tentar se levantar, sentiu uma pontada no calcanhar. ― Ok, não to bem.
― Eu te ajudo ― passou o braço dele por seus ombros, ajudando-o a andar e voltar para o caminho original. ― Claramente isso foi uma péssima ideia.
― Será? Eu não estou achando tão ruim assim.
― Talvez eu devesse deixar você na neve.
― Não seja tão cruel, Lucy. Eu te protegi do Wendigo.
― Meu herói.
― Sou. Pode me chamar de Flash.
― Você poderia ter torcido os lábios ao invés do pé. Teria sido mais útil para mim.
― Eu não acho que isso seja possível, Lucy.
― Eu daria um jeito de ser possível, não se preocupe.
Precisavam apressar o passo, pois escurecia rapidamente e logo mal conseguiriam enxergar o caminho de volta para casa. Por sorte, não estavam tão longe assim. Bastava seguir a trilha e em poucos minutos estavam novamente no chalé.
Seu pai veio ajudá-la assim que ela abriu a porta e ele notou que o garoto precisava apoiar-se nela para andar. Juntos, mesmo que sem tanta necessidade, o levaram até o sofá, onde poderia sentar-se e repousar o pé.
― O que aconteceu? ― Jude perguntou.
― Eu escorreguei. Nada de mais.
Ofélia adiantou-se e pegou alguns cubos de gelo enrolados em um pano de pratos antes de juntar-se ao trio. Entregou o pequeno embrulho a Lucy, que o pressionou contra o calcanhar de Natsu e o deixou ali, em contato com a pele.
― Tem certeza de que está bem? ― A moça mais velha perguntou.
― Natsu é um perfeito exemplo daquele ditado que diz que vaso ruim não quebra ― Lucy respondeu, sentando-se ao lado dele.
― Tudo bem então. Descansem um pouco, o jantar logo estará pronto.
Lucy torcia para que a comida não demorasse mesmo, pois Ofélia havia se sentado na poltrona ao lado do sofá e definitivamente não sentia a menor vontade de precisar conversar com a namorada de seu pai. Felizmente, ou infelizmente, ela estava mais focada em Natsu.
― Pobrezinho. Está sentindo dor? Conheço algumas massagens que poderiam ajudar.
― Ah, não, tudo bem. Não está doendo tanto. Mas obrigado ― ele respondeu. Lucy sentiu uma irracional pontada de ciúmes. Mesmo ele sendo seu namorado fictício, não queria outra pessoa lhe fazendo uma massagem. Sem esperar, o garoto colocou seu braço sobre os ombros dela, trazendo-a para mais perto. O interior do chalé estava muito confortável com o calor da lareira, mas com certeza tornou-se ainda mais agradável com o calor do corpo dele próximo do seu. ― Esse fogo até que torna o clima romântico, não acha?
― Claro ― respondeu, sem prestar atenção. Também não prestou atenção quando ele rapidamente encostou seus lábios na boca dela. O encarou como se questionasse a ação, porém sem esperar resposta. Como ele diria qualquer coisa na frente de Ofélia e de seu pai? Estragaria o disfarce.
― Muito bem. Vamos comer? ― Jude os chamou. Prontamente, ela se levantou, constrangida pelo beijo. Ainda assim, tentou agir naturalmente.
― Quer ajuda? ― Perguntou a Natsu.
― Não, tudo bem.
― Até que enfim. Estou morrendo de fome, amorzinho ― Ofélia comentou. “Amorzinho”, Lucy sentiu vontade de vomitar antes mesmo de colocar qualquer coisa no estômago.
Sentou-se ao lado de Natsu e Ofélia, por mais que não desejasse, mas tampouco queria Natsu perto dela, e a garota havia tomado o lugar da ponta. Seu pai serviu a todos com a macarronada que tinha preparado e também com um pouco de vinho.
Ouvia Natsu conversando, contudo não prestava atenção no conteúdo do diálogo. Também não comia, apenas revirava os fios amarelos tingidos de vermelho e concentrava-se na bebida, enchendo sua taça repetidas vezes. Notou a conversa apenas quando seu pai começou a falar sobre o incêndio do qual Natsu a salvara.
― Que história linda ― Ofélia comentou, levando a mão ao peito.
― É. Salvei a vida da Lucy e em troca ela me deu seu coração. Não é mesmo, amor?
― Hu-hum ― ok. Ele estava começando a exagerar. Pensou enquanto virava mais uma vez a taça. No meio tempo em que estava bebendo, mal notou Ofélia atrapalhando-se com o pegador do macarrão e derrubando todo o conteúdo de sua taça na camisa que vestia.
― Droga ― reclamou, tentando limpar a grande mancha roxa. ― Essa é a única blusa que eu trouxe.
Quem partia em uma viagem e levava apenas a roupa do corpo? Lucy pensou.
― Acho que há algumas camisetas da minha antiga esposa no quarto. Posso pegar uma para você.
Aquilo foi a gota da água. O jeito irritante e a falsidade aparente da moça Lucy poderia suportar, mas não permitiria que além disso ela ainda usasse roupas de sua mãe.
― O que? Você está brincando, não é?
― Qual o problema, Lucy? Aquelas roupas estão jogadas no armário há anos. Deixe de ser egoísta.
― Aquelas roupas pertencem à mamãe.
― Sua mãe está morta há muito tempo. Garanto que ela não irá usá-las.
― Não importa. Você conhece essa garota há o que? Meses? E quer dar as roupas da minha mãe para ela? Qual o SEU problema? ― Disse, levantando-se da mesa e subindo apressadamente as escadas para o seu quarto.
― Eu vou falar com ela ― Natsu se prontificou.
Demoraria um pouco até conseguir subir a escada, mas sua opinião de antes ainda se mantinha: Não deixaria Lucy sozinha. Ainda mais sabendo que ela não estava bem. Encontrou-a sentada no chão ao lado da cama quando finalmente conseguiu chegar ao quarto. Sem dizer nada, sentou-se próximo a ela, também encostado na parede.
― Eu sei como isso parece ― ela falou.
― Como?
― Como se eu fosse uma garotinha mimada disputando a atenção do meu pai.
― Eu não vejo desse modo.
― É só que... ele nunca tratou minha mãe desse jeito. Nunca dispensou essa atenção a ela. Nunca cozinhou com ela ou a abraçou. Mesmo em viagens ele ficava o tempo todo trabalhando. E então ele faz isso com uma garota que mal conhece, que, aliás, tem idade para ser filha dele? Eu perdi a cabeça.
― Eu não te culpo. Também ficaria chateado se estivesse no seu lugar. Mas, ei, não estrague seu fim de semana por isso.
Lucy esboçou um fraco sorriso.
― Nunca pensei que fosse dizer isso, mas fico feliz por você ter vindo.
― Claro. Eu sou uma excelente companhia.
― Babaca ― uma ideia lhe veio à cabeça. Uma péssima ideia. Contudo, tinha bebido além do limite, portanto não estava com o julgamento exatamente no lugar certo. ― Posso fazer algo que provavelmente eu não deveria, mas que nesse momento estou precisando muito?
― O que?
Se tivesse que explicar, provavelmente perderia a coragem de fazer o que estava planejando. Era melhor agir de uma vez e livrar sua mente da vontade, portanto, sem dar chance para que ele recusasse, mesmo que soubesse que ele não o fosse fazer, beijou-o.
Num primeiro momento, Natsu ficou assustado. Não esperava pelo ato. Contudo, não demorou a se acostumar com o contato. Os lábios de Lucy eram macios demais para que pudesse reclamar de qualquer coisa. Além do mais, seus dedos massageando os fios de seu cabelo o deixavam um pouco drogue. Quando ela colocou sua boca na curva do pescoço dele então, arrepiando-o com o gelado de seu rosto contra sua pele quente, perdeu completamente os sentidos. Não conseguiu pensar racionalmente por longos segundos. Recordou um pouco da consciência apenas ao senti-la quase terminando de desabotoar sua camisa, e, mesmo assim, não conseguiu pensar bem o suficiente para bolar uma resposta que a fizesse parar.
― Não, Lucy, não posso fazer isso ― disse, tentando afastar-se. ― Eu estou saindo com uma pessoa faz um tempo. Desculpe por não te contar.
Ela parou de beijá-lo e o encarou somente pelo tempo necessário para saber que aquilo era uma grande e completamente não credível mentira.
― Não, não está ― e beijou seu pescoço novamente, tirando-lhe a camisa, sem grandes resistências, começando a descer seus lábios do pescoço para o peito do garoto.
― Eu poderia estar se eu quisesse ― talvez devesse. O tiraria de vários problemas envolvendo aquela loirinha. O problema era que seu coração não conseguia enxergar ninguém além dela.
― Eu sei o que você está fazendo e pode parar, ok? Eu não sou mais uma garotinha que não sabe o que faz.
Era difícil agir racionalmente quando os lábios dela estavam sobre os seus novamente. O que poderia fazer? Sonhava com aquilo praticamente todos os dias desde que se descobrira apaixonado por Lucy. Por isso não se opôs quando ela o beijou outra vez, e muito menos conteve seus movimentos no instante em que teve a ideia de fazer com a jovem o mesmo que ela fizera com ele e livrá-la da blusa que vestia. Não se controlou também quando suas mãos deslizaram pelas costas dela até estarem entre a pele e a alça do sutiã, subindo até os ombros e depois descendo lentamente até quase encostar nos seios da garota. Precisou de muito esforço para lembrar-se de que aquilo não era certo e que não demoraria até que ela se arrependesse. Tinha que interrompê-la antes que fosse tarde demais. Então, quando ela já começava a lhe desabotoar a calça, colocou suas mãos sobre as de Lucy.
― Espera, eu realmente não posso fazer isso, por mais que eu queira. Você não está bem, não é justo deixar que você tome uma decisão da qual vai se arrepender depois.
― Por que você acha que eu vou me arrepender?
― Porque em condições normais você não iria querer isso.
― Como tem tanta certeza, Natsu? Por que eu não posso simplesmente querer ir pra cama com você, descompromissadamente?
― Porque não é você. Não é do seu feitio. Você sabe que não. Só está tentando encontrar um jeito de fugir da realidade por um tempo, mas isso não vai resolver seus problemas.
― E o que tem de tão errado em querer se distrair?
― Nada, desde que não seja algo que você vai desejar não ter feito depois.
― Para de tentar me proteger. Para de sempre tentar me proteger. Eu não sou uma menininha inocente.
― Não.
― Por que não?
― Porque eu me importo com você. Até mais do que deveria. Você pode acreditar ou não, mas é uma das pessoas com quem eu mais me importo. Não vou te deixar fazer isso, Lucy. E eu quero. Quero muito. Mas não posso.
Ela relaxou, suspirando e sentando-se com a costas na parede. Natsu tinha razão. Talvez não fosse realmente uma decisão da qual fosse se arrepender, mas estava frágil demais naquele momento, e nenhuma decisão que tomasse seria boa.
― Seria tão mais fácil se você fosse igual aos caras que não hesitariam nem por um segundo.
― É, pena que não sou ― ao menos, não com ela. ― Seria bem mais fácil para mim também, porque, acredite ou não, você é uma garota muito atraente. É difícil tomar uma decisão racional com você me beijando.
Ela riu de canto, olhando para o teto.
― Nós somos dois idiotas. Já perdi a conta de quantos beijos aconteceram. Por que continuamos fazendo isso?
― Porque meus beijos são irresistíveis. E só acontece às vezes. Não é como se fizéssemos isso todos os dias. Apesar de que eu não ia reclamar.
― É, mas um dia você vai seguir com a sua vida, eu vou seguir com a minha e esses beijos vão ficar para trás, sem ter significado nada.
Aquilo o magoou um pouco. Não sabia se por Lucy acreditar que os beijos não tinham significado, porque para ele valiam muita coisa; ou se por ela não vê-lo em seu futuro. Não se iludia achando que estaria nele, mas não conseguia não ter esperanças. Mesmo que fosse apenas como amigo.
― Por isso temos que nos beijar muito agora. Sabe, para compensar o futuro.
― Acho que não é assim que funciona.
― É claro que é ― ao menos gostaria que fosse, pois se não fosse estar no futuro de Lucy, queria aproveitar o presente. ― Vem cá. Está muito frio.
Ele a puxou para perto de si, e ela o abraçou, repousando sua cabeça sobre o peito do garoto.
― Você é um bom amigo.
Aquilo não o deixava feliz. Não queria ser um bom amigo. Queria ser mais do que isso. E por um instante, imaginou que talvez pudesse. Talvez se deixasse-se iludir achando que poderia ser alguém que fosse bom para Lucy, conseguiria tê-la da forma como tanto desejava. Talvez se se esforçasse, poderia ser o cara que ela gostaria. Apenas talvez.
― Posso te fazer uma pergunta? ― Pretendia saber se ela gostaria de tentar tanto quanto ele gostaria. Porém, no exato instante em que Lucy abriu a boca para responder, a porta também se abriu. E rapidamente se fechou quando Jude notou a falta de roupa dos dois.
― Me desculpem. Não queria atrapalhar.
Imediatamente Natsu se levantou e Lucy vestiu novamente a camisa.
― Pode entrar ― Lucy respondeu e o senhor entrou novamente no quarto.
― Eu só queria conversar com você por um instante.
― Eu vou tomar um banho e deixar vocês conversarem ― então lhe veio à cabeça as coisas que Jude poderia imaginar o que ele faria no banho após presenciar aquela cena. Completamente sem jeito, complementou: ― Só tomar banho. Literalmente. Só isso.
― Natsu, apenas vá ― Lucy disse, sentando-se na cama. O garoto acenou e saiu.
Jude sorriu, sentando-se ao lado da filha.
― Eu gosto do garoto. Mas tem que admitir que ele é um tanto quanto desajeitado ― Lucy não respondeu. Ainda estava brava. ― Me desculpe, ok? Eu sei que você está chateada e não era minha intenção te magoar, Lucy.
― Eu só não consigo entender. Por que você faz coisas para ela que nunca fazia com a mamãe?
― Eu mudei muito desde aquela época, Lucy. Perdi a Layla e quase perdi você. Isso me fez mudar, você sabe disso. Eu costumava viver como se nunca fosse perder nada, e quando aprendi que em um segundo tudo o que eu mais amava poderia ser tirado de mim, decidi que iria aproveitar melhor a vida. Percebi que você não gostou muito da Ofélia.
― Eu mal a conheço.
― Escute, eu sequer sei se essa relação irá durar. Mas eu sei que a nossa vai, e que você é muito mais importante para mim do que qualquer outra pessoa. Então, pode me perdoar?
Lucy respirou fundo. Como poderia dizer não?
― Ok.
― Bom. Amo você. Sempre vai ser minha garotinha ― antes de se levantar, ele lhe deu um beijo na testa. Já estava perto da porta quando se virou e disse: ― Ah, mais uma coisa: ele dorme no chão.
***
Demorou mais tempo no banho do que esperava. Estava com medo de voltar ao quarto muito cedo e Jude ainda estar lá. Passou em frente à porta entreaberta e viu Lucy já deitada na cama, dormindo. Estava com sede, então decidiu descer para tomar um copo de água. Arrependeu-se no instante em que viu Jude na cozinha. Contudo, não tinha como voltar. Ele já o tinha visto.
― Vim só matar a sede antes de dormir ― comentou, outra vez sem jeito.
― Eu sei da mentira de vocês.
― Sabe? Quer dizer, que mentira? ― Tentou disfarçar, mas havia deixado óbvio demais.
― Eu conheço minha filha. De qualquer forma, também sei que ela gosta de você. E você gosta dela.
Natsu suspirou, debruçando-se sobre o balcão.
― Sim, eu gosto.
― Natsu, eu queria te pedir novamente uma coisa.
― O que?
― Tenho a sensação de que essa viagem será a última vez em que verei minha filha. Não tenho me sentido bem ultimamente. Não contei nada a ela porque não quero deixá-la preocupada. Mas, se por acaso algo acontecer comigo, cuide da minha Lucy. Não deixe que ela sofra, por favor.
― Do que está falando? Nada irá acontecer com o senhor.
― Apenas me prometa, Natsu.
Não gostava do tom daquela conversa. Era sério demais. De qualquer forma, Jude sequer precisava lhe pedir aquilo. Cuidaria de Lucy mesmo que ninguém tivesse lhe pedido.
― Eu prometo. Faria qualquer coisa para proteger a Lucy.
― Bom. Isso me deixa aliviado ― respondeu. Sorrindo.
Natsu não levou aquilo muito à sério naquele momento. Pareciam apenas devaneios pessimistas de alguém que havia perdido muito de sua vida. Porém, não muito tempo depois, Jude faleceu. E quando recebeu a notícia, o garoto lembrou-se da promessa que havia feito, com a certeza de que suas palavras foram completamente verdadeiras: faria qualquer coisa para proteger Lucy.
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