Onde Tem Ódio Tem Amor
92 Big Night
Notas iniciais
— Vem cá — disse quando as coisas se acalmaram um pouco, puxando-o para o canto do salão, longe do barulho dos convidados, onde poderiam conversar mais tranquilamente. Sinalizou para Levy, chamando-a também. A pequena atendeu de prontidão, entregando a Lucy a caixa que a loira tinha lhe entregado antes de saírem.
— Como parte importante da relação de vocês, já que fui eu quem os apresentei, quero fazer parte desse momento — Levy falou, colocando-se ao lado da amiga. — E eu também estou curiosa para saber que surpresa é essa que você preparou.
— O que é isso?
Segurou o objeto, tentando lembrar-se das palavras que tinha planejado para dizer ao entregá-lo. Era um momento um tanto quanto emotivo. Um filme se passava em sua mente, trazendo memórias desde o segundo em que seus olhos se encontraram pela primeira vez. Dava-lhe vontade de sorrir e chorar ao mesmo tempo.
— Bom, você fez algo especial ao me dar aquele cubo mágico, com toda sua simbologia a respeito dele, então queria fazer algo que fosse especial também — entregou a ele a caixa. Natsu abriu com cuidado, percebendo o olhar curioso de Levy espiando por sobre a tampa. Tratava-se de um colar, com um pequeno pingente. Examinando bem, podia ver que o pingente era constituído por duas letras, um L e um N, grudados um ao outro, quase se sobrepondo, como se formassem uma coisa só, unidos por uma pequena esmeralda. — Eu mesma tentei fazer um esboço e mandei para um designer de joias. Sei que não ficou tão bom assim, mas não há nenhum igual no mundo. É único. Como você é para mim.
Naquele momento, era tão difícil conter as lágrimas. Necessitou de um esforço colossal de sua parte. Contudo, eram lágrimas de felicidade, portanto não haveria problemas se algumas escapassem.
O garoto contemplava o colar com um grande sorriso no rosto, admirando não o objeto, mas todo o esforço de Lucy para tentar encontrar algo que representasse o que ele significava para ela. Significava muito mais do que qualquer coisa física poderia significar.
— É lindo, Lu-chan! — Levy comentou, animada.
— É perfeito. Eu amei, de verdade. Obrigado — disse, abraçando-a por vários e desejosamente intermináveis segundos. Novamente, teve vontade que estivesse a sós com ela. Entregou o colar a Lucy, pedindo ajuda para colocá-lo em seu pescoço. Gostou ainda mais de vê-lo daquela forma, como parte de si. Deixou a caixa em algum canto. Teria que se lembrar depois de pegá-la, já que não havia como guardá-la consigo. — Agora, se não se importa, Levy, vou roubar sua amiga por um tempo.
— Fique à vontade. A noite é de vocês.
Ele a levou até a pequena pista de dança no meio do salão, pondo suas mãos na cintura da loira. Encostou sua testa na dela, contemplando a felicidade notável em seus olhos.
— Que bom que você gostou do presente.
— Seria impossível não gostar.
— Nunca se sabe — respondeu, colocando suas mãos nos ombros do garoto, deixando-o guiá-la de acordo com o ritmo da música que tocava naquele momento. Sequer prestava atenção na melodia, nem ao menos sabia se seus passos combinavam com ela. Desejava apenas estar ali, perto dele, sentindo sua presença.
— Queria muito poder ir para casa agora e ficar sozinho com você. É um pouco desconfortável querer tanto te beijar e não poder com todas essas pessoas à nossa volta.
— Talvez possamos fazer algo menor no casamento.
— Acho que é uma ideia ótima.
— Mas você consegue resistir a mais algumas horas. Eu acredito em você, Dragneel — brincou.
— Eu não. Não faz ideia do quão difícil é.
— Faço. Pode acreditar que faço — comentou, apoiando o queixo no ombro de Natsu, inebriando-se com sua colônia. — Eu adoro o cheiro do seu perfume. Não sei definir como é, mas é tão bom.
— Você surge com assuntos tão aleatórios às vezes, Lucy — comentou, rindo.
— Seu cheiro natural também é bom.
— É? E qual é?
— Não sei, algo como menta.
— Menta? Sério?
— Sim. É bom — algumas vezes, quando acordava antes de Natsu, deitava sua cabeça no ombro dele apenas para inalar aquele aroma que a pele do garoto possuía. Era estranho, sabia, mas gostava.
— Você tem cheiro de morango. Dá vontade de morder — comentou, mordiscando de leve a bochecha de Lucy.
— Natsu.
— O que? Não posso te morder?
— Eu não sou comestível, caso você não saiba.
— É? Fala isso para um canibal.
— Mas você não é canibal.
— Como você pode ter tanta certeza?
— O que? Então eu aceitei me casar com um canibal sem saber disso?
— Quem sabe? Vou deixar esse mistério pairando na sua cabeça. Só se lembre dessa indagação toda vez que for minha vez de fazer compras e eu trouxer carne para casa.
— Depois sou eu quem viajo demais.
— Foi você quem me fez ficar assim. Eu era apenas um jovem normal até você chegar com sua loucura e me contagiar. Agora me transformei nessa coisa que pensa aleatoriedades a todo momento.
— Normal, claro. Vou fingir que acredito — respondeu, sorrindo. Encostou a cabeça no peito dele e fechou os olhos, tentando prestar atenção nos acordes da música, porém acabou se concentrando mesmo nos fortes batimentos do coração de Natsu. Quando os abriu novamente, encontrou Alexei e Leslie adentrando o salão. Ele os cumprimentou com um discreto aceno, enquanto a garota ruiva sorria de orelha a orelha. Lucy não tinha visto-a muitas vezes, mas em todas estava com aquela energia contagiante. Era um pouco como Natsu, sempre sorrindo. Simpatizava com ela por esse motivo. — Seus amigos estão aqui.
— Estão mesmo — disse, prestando atenção nos dois. — Leslie conseguiu convencer o Alexei a vir. Impressionante. Não imaginava que ele iria aparecer.
— Ele é bem antissocial, não é?
Lucy também não fazia exatamente o tipo sociável. Era simpática sempre, claro, e não tão introspectiva quanto o irmão, porém os dois possuíam características bastante similares. Talvez fosse a genética agindo. Ela sequer sabia de seu parentesco, até recentemente nunca o havia visto na vida, e, mesmo assim, conseguiam ser bem parecidos.
— Diríamos que acho que se ele pudesse morar numa caverna pelo resto da vida não iria se importar nem um pouco. Ainda bem que Leslie faz parte da vida dele e o obriga a ter um pouco de interação social.
— Falando em pessoas que vieram, aparentemente sua avó não quis mesmo aparecer.
— Eu te disse — ele respondeu, encostando novamente sua testa na dela. — Minha única família é você.
— Isso é estranho — comentou, apertando o tecido do smoking de Natsu entre seus dedos.
— O quê?
— Sabe, esse conceito, família. Nunca foi exatamente muito claro para mim. Nunca foi muito algo que representasse uma coisa aconchegante e feliz, principalmente depois da morte da minha mãe. Então, sempre me pareceu meio esquisito. Nunca senti como se fizesse realmente parte de uma família. Mas, agora, essa palavra representa algo tão bom. Uma sensação de segurança, um lugar para onde sempre posso voltar, como imagino que deveria ser — sorriu, expressando aqueles pensamentos. — Acho que você reformulou o conceito de família para mim.
— À disposição sempre que precisar, senhorita — respondeu, apertando-a ainda mais em seus braços. — Ei, desde quando Levy e seu sócio são amigos?
Numa mesa não muito distante dali os dois conversavam e riam, parecendo entretidos um com o outro. Ao menos Levy estava se distraindo. O plano de Lucy havia funcionado.
— Desde hoje. Eu apresentei os dois. Achei que Levy poderia precisar de uma companhia, e Jun é um cara legal.
— Cara legal é? Hum.
— Estava pensando que eles formariam um casal fofo. Sabe, os dois não são exatamente altos, tem aparência de crianças, são bem parecidos. Fisicamente, pelo menos.
— Seria bom. O Jun arrumar uma companhia... — nada nunca conseguia disfarçar o tom enciumado da voz de Natsu quando sentia-se daquela forma. Seu olhar para o garoto também deixava bem perceptíveis seus pensamentos.
— Esse seu ciúme é totalmente bobo.
— Não é bobo — respondeu. A testa franzida, aquela velha expressão de menino irritado no rosto. — Ele gostava de você. E algumas vezes você passa mais tempo com ele do que comigo.
— Parece uma criança reclamando que a mãe dá mais atenção para o irmão — Lucy respondeu, rindo. Apertou as bochechas do garoto, deixando-as avermelhadas. — E agora está vermelho. Tão fofinho.
— Para, sua coisa chata — disse, segurando as mãos de Lucy e colocando-as de volta em seus ombros. Ainda observava Levy e Jun. Mesmo que estivesse conversando com ele, ainda conseguia notar o olhar triste que carregava. — Você descobriu o porquê da Levy estar assim ultimamente?
— Não exatamente. Ela não quis me contar. Mas sei que tem a ver com aquele cara.
Gajeel parecia também muito distraído naquela noite, mas com a jovem acompanhante que trouxera. Alternava entre as bebidas e agarrá-la no canto do salão. Lucy não fazia a menor ideia de quem era aquela mulher, contudo, definitivamente não gostava dela.
— Ela te falou ou você tirou essa conclusão? — Ele perguntou, inquisitório.
— Ela falou, ok? Mas mesmo se não tivesse falado, não é difícil perceber. Gajeel é um idiota. E não um idiota como você. Ele é do tipo ruim.
— Então eu sou do tipo bom? — Riu. As definições de Lucy eram tão estranhas quanto ela.
— Ele não deveria ter trazido essa nova namorada. Olha a cara dela. Parece uma bruxa. Deve ter sido assim que conseguiu convencer o Gajeel a ficar com ela.
— Você só está dizendo isso por causa da raiva. Ela é bastante bonita, na verdade.
Como resposta, o garoto ganhou um belo soco em seu ombro.
— Ótima coisa para se dizer na sua festa de noivado. Começou muito bem, Dragneel.
— É brincadeira. Depois eu sou o ciumento — a provocou, beijando sua bochecha. — Mas por que ele não deveria tê-la trazido? Se eles terminaram, o Gajeel tem o direito de seguir em frente. Além do mais, ela não tem culpa. O culpado da situação é ele. Você não deveria falar mal da moça sendo que nem a conhece.
— Ele tem esse direito, mas é meio rude trazer a sua nova namorada num evento em que você sabe que sua ex vai estar, sendo que terminaram há tão pouco tempo. E ainda mais ficar se agarrando com ela praticamente em frente à ex.
— Talvez.
— Talvez? Eu ficaria muito chateada se você fizesse isso. Você também não ficaria?
— Ficaria, mas é que não dá para confiar muito no seu julgamento. Ele acaba sendo influenciado pela Levy ser sua melhor amiga. Não tem como pensar de forma neutra.
— Mesmo se ela não fosse, essa continua sendo uma péssima atitude. Gajeel poderia muito bem ter vindo sozinho, ou se queria tanto ficar com a nova namorada não ter nem vindo e passado a noite com ela. Não precisava praticamente esfregar na cara da Levy que está com outra pessoa.
— Acho que nisso você tem razão. Ele foi um tanto babaca nesse aspecto.
Ela encostou a cabeça no peito do garoto, suspirando.
— Detesto ver a Levy assim. Ela é a última pessoa do mundo que mereceria sofrer.
— Eu sei.
Naquele momento, começou a ouvir uma melodia muito conhecida, que a fez esquecer o recente assunto. Afastou a cabeça, movendo o olhar para os alto-falantes, como se aquilo pudesse fazê-la ouvir melhor. Depois, sorriu discretamente. Lembrava-se muito bem.
— Lembra dessa música? — Perguntou. A letra começava com as frases “Lying here with you so close to me. It's hard to fight these feelings when it feels so hard to breathe. Caught up in this moment. Caught up in your smile.”.
— Não...
— Ok, deixe-me refrescar sua memória... — disse, arrastando-o conforme o ritmo. — Era uma bela noite de dezembro. Os pássaros cantavam...
— Pássaros cantando à noite?
— É só para dar mais dramaticidade. Me deixa continuar.
— Ok, ok.
— Você, como sempre, estava cheio de ciúme. Então, me puxou para dançar, no exato momento em que essa música começou a tocar. E, quando chegou no refrão, na parte do “Just a kiss on your lips in the moonlight”, você me beijou. Foi naquela noite em que você admitiu que me amava e que não conseguiria viver nem mais um segundo da sua então incompleta vida sem mim.
— Ei, eu me lembro dessa noite, mas não foi bem assim, Heartfilia. Não me lembro das palavras “incompleta vida” e a parte de “não conseguir viver nem mais um segundo sem você” na história. De qualquer forma, acho que deveríamos repetir a dose, sabe, só para dar sorte.
— Claro, para dar sorte.
Ele sorriu em resposta, lentamente aproximando seu rosto do dela, aproveitando cada segundo da aproximação. Deixou seus lábios se tocarem pouco a pouco, quase sentindo a troca de energia quando estavam a menos de milímetros de distância. Devagar, sem pressa, permitindo-se cada mínima sensação.
— Acho que aquela é uma das minhas noites favoritas — Lucy comentou, sorrindo.
— Eu também.
— E acho que essa entra no ranking entre as favoritas.
— É, para mim também.
— Aconteceu tanta coisa desde aquela noite... — comentou, sua cabeça novamente no peito dele.
— Com certeza, coisas demais. Mas acho que tudo deu certo no final, não é? Considerando tudo.
— Você acha? Acha que tudo ficará bem? Considerando tudo.
— É, acho que sim.
— Bom, a parte realmente importante é que mesmo depois de tudo você continua sendo o mesmo babaca de sempre...
— E você a mesma estranha — apertou-a contra seu corpo, o mais forte que pôde. Ela protestou, empurrando-o enquanto ria. Parou, porém, quando percebeu Levy levantando da mesa onde estava e caminhando até uma escondida sacada no canto do salão. Era difícil enxergar o local. Não a encontraria se procurasse depois sem tê-la visto. Tinha a impressão de que era justamente o que Levy queria, isolar-se.
— Espera um pouco — disse, afastando-se de Natsu. — Eu já volto.
— Ok. Vou pegar algo para beber, quer?
Acenou positivamente sem nem ter prestado atenção na pergunta, seguindo o rastro de sua amiga. Podia não ser uma ideia tão boa assim, mas estava preocupada. Não deixaria Levy sozinha daquela maneira.
Abriu com cuidado a porta que levava à sacada. A pequena segurava a madeira do guarda-corpo com a mesma intensidade que impedia as lágrimas de caírem. Chorava silenciosamente, tão perdida em seus pensamentos que só percebeu a presença de Lucy quando ela lhe tocou o ombro. A loira sorria timidamente, como se, sem precisar de qualquer palavra, dissesse “estou aqui”.
Levy fitou-lhe por segundos. Não disse nada, não necessitava, apenas abraçou sua amiga, permitindo que as lágrimas que antes molhavam a madeira, agora caíssem sobre o ombro de Lucy. E assim permaneceram por um bom tempo, até que Levy conseguisse se acalmar, ao menos um pouco.
— Como eu posso ser tão burra, Lucy? — Perguntou, afastando-se.
— Não é culpa sua. Não fale assim.
— É culpa minha por estar chorando por causa de alguém que não merece absolutamente nada.
— Gajeel é um completo imbecil, e ele realmente não merece que você chore por causa dele. Mas, quantas vezes eu também já não chorei por causa do Natsu, e aqui estamos agora. Não dá para controlar seu coração. Tudo bem você estar mal agora, isso não vai durar para sempre. Seja esquecendo ele ou lhe dando outra chance, uma hora vai passar. Embora eu admita que prefiro a primeira opção.
— Mas Gajeel e Natsu são completamente diferentes. Natsu jamais faria as coisas que ele fez, ou diria o que ele disse.
— O que ele disse?
— Me acusou de traição. E agora fica nesse showzinho com essa garota que ele conheceu há o que? Duas semanas? Tentando me atingir. E claramente conseguindo — disse, voltando a apoiar-se na madeira.
— Mas você...
— Não! Claro que não, Lucy! Eu jamais faria uma coisa dessas.
— Eu sei, só estava confirmando.
— Estamos juntos há tanto tempo que até perdi as contas, e ainda assim ele não tem a capacidade de confiar em mim. Ao invés disso, prefere ficar se agarrando com a primeira que aparece na frente dele para me provocar. Muito maduro, como sempre.
— Não importa o que ele acha. Você sabe a verdade, sabe que não fez nada de errado. O único errado nisso tudo é ele. As atitudes do Gajeel mostram o quanto ele não merece alguém como você. Esquece ele, Levy.
— Se fosse tão simples assim eu esqueceria, mas não é só isso...
— O que mais aconteceu?
Levy disfarçou, tomando noção de que não deveria ter dito nada. Balançou a cabeça, negando.
— Nada. Não é nada. Para de se preocupar com isso. Você deveria estar aproveitando a noite, não tentando resolver os meus problemas ou enxugando as minhas lágrimas.
— Você tem razão, sabia? — Levy arqueou as sobrancelhas. — Se não fosse por você, pela sua interferência, muito provavelmente eu e Natsu não estaríamos aqui essa noite. Talvez eu até o odiasse ainda. E quantas vezes você não enxugou minhas lágrimas? Me acomodou na sua casa quando eu queria um tempo do mundo? Então, é óbvio que eu vou me preocupar. Não iria conseguir aproveitar coisa nenhuma com a minha melhor amiga sofrendo.
Levy sorriu, tímida. Talvez seu gosto para homens fosse péssimo, mas seu radar para amizades funcionava muito bem.
— Obrigada, Lu-chan.
— E ainda acho que você vai encontrar alguém que te mereça e que vai te fazer esquecer o Gajeel.
A pequena riu. No fundo, só queria que as coisas pudessem ser diferentes, que ele fosse um cara com quem pudesse contar, não que precisasse esquecê-lo, pois, apesar de tudo, gostava dele. Infelizmente, não era assim que o mundo funcionava.
— Não sei se isso vai ser tão fácil, mas espero que sim.
A porta da sacada se abriu, atraindo a atenção das meninas para lá. Natsu entrava, segurando duas taças, uma em cada mão.
— Olá, belas moças. O que fazem aqui fora nessa noite fria? — Entregou uma das taças à loira, oferecendo a outra a Levy.
— Só conversando — Lucy respondeu.
— Não, obrigada, Natsu.
— Tem certeza? — Levy não era exatamente viciada em bebidas alcoólicas, mas não costumava recusar. Lucy estranhou a atitude.
— Tenho — sua amiga sorriu disfarçadamente. — Esse olhar de vocês me faz acreditar um pouco mais naquela conversa que acabamos de ter, Lu-chan. É bom saber que pelo menos uma de nós teve sorte no amor.
— Não sei se dá para chamar ter me apaixonado por essa coisa de sorte, mas...
— Que conversa? — Natsu perguntou.
— Nada que te interesse, seu curioso — Lucy respondeu.
— Grossa. Sério que vou ter que aguentar isso na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe? Acha que vou sobreviver, Levy?
— Foi escolha sua, agora lide com isso — Lucy respondeu.
— Acho que vai sim, Natsu.
— Então, estavam conversando sobre o quão incrível eu sou? — Dragneel perguntou, fazendo pose.
— Não, sobre o quão ridículo o namorado, ou ex-namorado da Levy é. Você não é o centro do universo, Dragneel.
— Não, só o centro do seu universo. Mas, ei, Levy, não se preocupe. Caras às vezes não pensam com a cabeça de cima. Pode até ser que ele esteja com aquela moça, muito bonita, por sinal — comentou novamente, apenas para provocar Lucy. Funcionou, já que recebeu uma bela cotovelada —, mas tenho certeza de que a dona daquele coração de pedra é você. E, se quer saber, aquela garota não deve chegar nem aos seus pés nos pensamentos dele.
— Acho que no caso do Gajeel não é só às vezes que isso acontece — a pequena comentou. — Mas obrigada, Natsu.
Novamente, a porta se abriu, atraindo olhares. Ficou com medo de ser Gajeel. Tinha sempre o azar da pessoa de quem falava aparecer no momento menos propício. Felizmente, era apenas Jun.
— Estava procurando por você, Lucy. Acho que preciso ir, sabe, para não perder o voo — o garoto disse. Logo quando notou o rosto inchado de Levy, franziu a testa. — Você está bem?
— Sim. Quer dizer, mais ou menos. Não é nada, não se preocupe. Acho que também vou, Lu-chan. Provavelmente é melhor.
— Tudo bem. Mas prometa me ligar se não estiver se sentindo bem.
— Posso te dar uma carona, se quiser — Jun ofereceu. A pequena agradeceu sorrindo e aceitou. Podia pegar o carro no dia seguinte. Não se sentia bem para dirigir naquele momento.
— Obrigada, Jun. E sim, prometo, Lu-chan.
— Então, te vejo quarta-feira? — O garoto perguntou à Lucy. A loira acenou, desanimada.
— Você vai viajar essa semana? — Natsu indagou, voltando-se a ela.
— Infelizmente. Ossos do ofício.
— Bom, então acho que tenho que aproveitar sua presença nesses dias — comentou, aproximando-se apenas um pouco mais da loira. Deixaria as provocações para depois, quando estivessem a sós. Não gostava muito da presença de Jun, e Levy não aparentava estar bem. Ao invés disso, abraçou a amiga, despedindo-se.
— Não deixe que ela estrague a noite se preocupando comigo, ok? Faça o que você faz de melhor e a mantenha distraída — Levy disse, baixo o suficiente para que somente ele ouvisse.
— Pode deixar.
Depois, deu um apertado abraço em Lucy, agradecendo pela noite e pelo suporte. Jun se despediu de longe. Já estava atrasado. Perdera um pouco a noção do tempo e agora precisava correr. Pouco depois, os dois saíram, deixando Lucy e Natsu sozinhos.
— O que aconteceu com ela? — Perguntou.
— O que você acha?
— Gajeel.
— Óbvio — respondeu, bufando. — Eu vou falar com ele. Isso não pode ficar assim.
— Não, não vai não — ele a impediu de sair dali prendendo-a com seus braços entre seu corpo e as madeiras do parapeito. — Não vai resolver nada. Só vai criar confusão.
— Odeio ver ela assim.
— Claro que odeia, ela é sua melhor amiga. Mas não tem nada que você possa fazer.
Lucy suspirou pesadamente. Sabia que Natsu tinha razão, contudo, gostaria de poder fazer algo, qualquer coisa que fosse.
— Podemos ir para casa? Acho que não tenho mais ânimo para festas — pediu, olhando-o nos olhos. Ele sorriu, aproximando seu rosto do dela.
— Eu sei como levantar seu ânimo.
— Natsu, não é hora para essas coisas — respondeu rispidamente.
— Que coisas?
— Você sabe que coisas.
— Por que você acha que tudo o que eu falo tem conotação sexual? — Perguntou, arqueando as sobrancelhas.
— Porque tudo que você fala tem conotação sexual.
— Errado, senhorita Heartfilia — segurou a mão dela, afastando-se, levando-a consigo. — Apenas me siga.
— Para onde?
— Confia em mim.
Não tinha certeza se confiava. Ele a puxou, descendo as escadas da sacada. O salão ficava numa espécie de clube e toda a calçada estava mal iluminada. Havia algumas lâmpadas, mas não eram suficientes para deixar o caminho claro. Sendo assim, não sabia para onde estavam indo, até Natsu parar em frente ao cercado da piscina do clube.
— É brincadeira, não é? — Sabia que a resposta era não quando Natsu se esgueirou por entre as grades, sorrindo e incentivando-a a segui-lo. — Acho que não deveríamos ir aí.
— Vamos, Heartfilia. Cercas existem para serem atravessadas.
— Acho que na verdade existem para impedir que as pessoas atravessem.
— Faça algo divertido uma vez na vida.
— Você é uma péssima influência.
— Uma péssima influência que te faz criar as melhores memórias.
— E se alguém nos encontrar?
— Dizemos que somos um louco casal apaixonado que só queria aproveitar a noite. Vamos.
Por fim, e com muito custo cedeu, aceitando a ajuda de Natsu para cruzar a cerca. Ele a guiou até a beira da piscina aquecida, tirou os sapatos, ergueu a barra da calça e sentou-se ali, colocando os pés na água quente. Lucy fez o mesmo. Quando ela se sentou, ele tirou o blazer e o colocou sobre os ombros da loira, abraçando-a.
— Você é louco — disse, embora sorrisse. Apoiou a cabeça no ombro do garoto, observando o céu, refletido também na água da piscina. Tocar o reflexo era quase como tocar as estrelas em si. Pensou em sua mãe naquele momento, nas histórias sobre estrelas que ela lhe contava quando era criança. Gostaria tanto que ela pudesse estar ali naquela noite. Mas sabia que, de alguma forma, ela estava. Sempre estaria consigo, onde quer que estivesse. — Isso tudo é tão louco.
— Eu sei. Mas você está feliz, não está?
— Sim. Infinitamente.
— É só o que importa para mim — respondeu, depositando um beijo na testa de Lucy.
— Levy me perguntou uma coisa hoje mais cedo, sobre como eu sabia que estava fazendo a coisa certa.
— E o que você respondeu?
— Que eu não sabia, mas que gostaria de arriscar — levantou o olhar, fitando-o. — E você, como sabe que é a coisa certa?
— Bom — disse, ajeitando a postura. — Quando eu era pequeno tinha um dinossauro de plástico que eu adorava. Eu sempre o levava para a escola.
— O que isso tem a ver com o nosso casamento? — Perguntou, curiosa.
— Me deixe chegar lá, apressada. Enfim, tinha uma garota que gostava de mim.
— Natsu Dragneel arrasando corações desde o jardim de infância.
— Obviamente. Mas, como estava dizendo, tinha essa garota, e ela sempre queria me puxar para brincar com ela e fingir que o meu dinossauro era nosso filho. Eu odiava aquilo, odiava quando ela tentava pegar meu dinossauro e dizer que era dela também. Um dia, eu estava conversando sobre isso com o meu pai, dizendo como odiava as meninas, em especial aquela, porque ela ficava querendo roubar meu dinossauro. Falei que nunca iria querer me casar, se teria que dividir minhas coisas.
— Que criança birrenta.
— Ei, me deixa continuar.
— Ok, ok.
— Então, meu pai riu e falou que um dia eu iria encontrar alguém com quem não só não iria me importar, mas também ia querer dividir meu dinossauro preferido. Ia querer fazer tudo junto dela, dividir minhas coisas com ela, assim como meu coração. Na época eu achei que ele estava maluco. Mas, quando eu conheci você, me lembrei dessa história, das palavras dele. E descobri que não era besteira, porque com você, Heartfilia — disse, abraçando-a mais forte —, eu dividiria todos os dinossauros do mundo.
— Que romântico — respondeu, sorrindo. — E que comparação estranha.
— É uma história fofa, ok?
— Concordo, muito fofa — disse. Logo depois, o puxou pela gravata e o beijou, do jeito como queria ter feito durante toda a noite, matando parte da vontade que sentira durante todo o tempo que estavam ali. Levou sua mão ao rosto dele, emaranhando seus dedos entre os fios macios. Estava até com medo de que, de tão envolvidos no beijo, acabassem caindo na água. Portanto, encerrou o contato mais cedo do que gostaria. — Vamos para casa?
— Acho uma ótima ideia.
Ele a ajudou a se levantar. Lucy foi mais rápida em arrumar o vestido e calçar o sapato. Já terminava de atravessar a cerca enquanto ele ainda dava um jeito em sua situação.
— Isso foi meio injusto. Sua resposta foi muito melhor que a minha — comentou, enquanto Natsu se juntava a ela do outro lado da cerca.
— Não tenho culpa se minhas histórias são melhores.
— Chato — falou, rindo. Estava à frente do garoto, mas parou sem motivo. Começou a se sentir mal sem saber por que. De repente, tudo em sua volta estava girando, e, para seu azar não havia nada em que se apoiar. Sua respiração acelerava à medida que tentava controlar aquela sensação horrível. — Natsu.
— O que foi? — Perguntou, já preocupado.
— Lembra hoje cedo, quando estávamos conversando sobre a possibilidade de um de nós desmaiar no meio da festa? Eu sei que estávamos brincando, mas... eu não estou me sentindo muito bem.
— O que você está sentindo? — De repente, tudo escureceu. Por sorte, ele conseguiu segurá-la antes que ela caísse no chão. — Lucy. Lucy!
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