Onde Mora o Coração
8 O passado de Ramona Bello
Notas iniciais

Miami (Flórida), 11 de Agosto de 2015 (Terça-feira).
Uma van branca estava estacionada do outro lado da rua em frente ao Banco de Miami, a SWAT se aproximava lentamente, eram cerca de 10 profissionais. Eles se posicionaram na lateral dela, próximo a porta. Rapidamente eles abriram-na e apontaram as armas, mas quando entraram, não havia ninguém.
— Não tem ninguém na van — disse um deles no rádio comunicador — repito, não tem ninguém na van.
Eles então olharam atentamente dentro da van e viram que havia um fundo falso. Depois tiraram e viram que no chão havia um bueiro com a tampa aberta.
— Eles fugiram — disse novamente o comandante deles — repito, eles fugiram.
Imediatamente eles desceram pelo bueiro para ver onde ele daria e se ainda encontrariam os dois.
***
Após conversar com Reid e a filha, Hotch fez outra ligação.
— Oráculo de Quântico... fale se é condescendente a ouvir a verdade — disse Penélope atendendo o telefone.
— Garcia, você está no viva-voz, o que pode nos dizer sobre Ramona Bello — pediu Hotch.
— Ramona Bello, 45 anos, estadunidense da Califórnia, filha de imigrantes brasileiros, se formou em matemática em Harvard, mudou-se para Londres em 2008.
— Quero saber mais, Garcia. Tem algum caso de violência ou qualquer outra coisa parecida na vida dela?
— Seu pedido é uma ordem. Vejamos — dizia Garcia mais uma vez digitando a pesquisa no computador — bem, a mãe dela, Mônica Bello, era de uma família tradicional brasileira, casou-se com um americano, Peter Reynold’s, que era um capitão da marinha nacional. Mas a mãe dela se separou do marido quando ela ainda era uma criança e casou-se novamente logo que a filha fez 11 anos.
— O que pode nos dizer do padrasto dela?
— Henry Froster, na época do casamento tinha 42 anos. Tinha uma loja de antiguidades em Palo Alto na Califórnia. Atualmente cumpre pena pelo assassinato da esposa, Mônica Bello.
— Quando a mãe dela foi morta?
— Em 03 de maio de 1988. Quando Ramona tinha 18 anos.
— O que motivou o assassinato?
— Temos pouca informações sobre o processo, já que ele é bem antigo. Mas pelo pouco que temos diz que Mônica Bello pegou o marido e a filha na cama. Henry Froster alegou em seu julgamento que o “caso” com a enteada era consentido e que matou a esposa para proteger a menina da fúria da mãe.
— E Henry Froster é alguma coisa de Philip Froster?
— Sim, é pai.
— Mas Ramona e Philip são irmãos?
— Não, Philip é fruto do primeiro casamento do pai.
— Só mais uma coisa — pediu Hotch — Morgan e JJ me falaram de uma Sarah Bello, ela é parente de Ramona Bello?
— A resposta também é sim... Sarah é tia de Ramona.
— Obrigado, Garcia.
— Não tem de que — respondeu Penélope desligando o telefone.
Após desligar o telefone, Hotch ficou alguns segundos em silêncio.
— Ramona Bello é o dominante — concluiu Hotch — ela se via na prima, Ayden Bello e agora se ver em Wendy. É ela quem escolhe, Cutt e Philip são meras peças para ela.
— Mas por que matar as meninas? — indagou Elle — a mãe dela é que foi morta.
— Talvez por que seja o que ela queria que tivesse acontecido — retrucou Rossi — ela quer viver novamente sua vida e vive através das meninas, só que ao invés da mãe morrer, quem morre é a filha.
— Com certeza o padrasto a abusava desde cedo — concluiu Elle — mas nem com Ayden e nem com Wendy tem indícios de abuso sexual por parte de Philip.
— Ramona domina Philip, ela não deixaria isso acontecer — retrucou Rossi.
— Deixa eu ver se entendi — disse Elle — ela sequestra as meninas, faz tortura física e psicológica, mas não deixa ninguém tocá-las.
— Ela as tortura as meninas física e psicologicamente como uma forma de castigar a si própria — respondeu Hotch — ela sente-se culpada pela morte da mãe, o que confirma que ela era vítima de abuso por parte do padrasto.
— Wendy disse que Philip a infernizava e tentava falar para a mãe, só que a mãe não a ouvia — falava Elle — talvez seja isso. Quando a mãe pegou ela e o padrasto na cama, ela tentou dizer que não consentia aquilo, mas a mãe não a ouviu. Deve ter sido isso também com Ayden e Sarah — Elle fez uma pausa — só que por que essa culpa pela morte da mãe?
— Crianças abusadas tendem a se sentir culpada por tudo — completou Rossi — inclusive pelo abuso sofrido.
— Sinto muito pelo que ela passou, mas isso não é motivo para tirar a vida de pessoas, principalmente por que elas nada tem a ver com o que ela sofreu — disse Elle — e sua ex-mulher, hein Hotch? Sendo analista de perfis e não acreditou na própria filha para acreditar no canalha do marido.
— Eu não posso julgá-la por isso, ele esconde muito bem as micro expressões — respondeu Hotch calmamente — ontem à noite mesmo, ele me convenceu que havia sido um bom pai para Wendy, apesar de eu ter um pé atrás com ele, imagine para Emily que confiava cegamente nele.
— Certo, desculpe. Você tem toda razão. Eu só não entendi o que tudo isso tem a ver com o assassino da moeda? E o pedófilo do Jason Cutt — indagou Elle.
— Para mim, isso tem tudo a ver com o que está no cofre, que não tem nada de dinheiro para Wendy — concluiu Hotch — com certeza ele só colocou no nome dela para despistar. Quando descobrirmos o que tem lá, saberemos como os fios soltos se encaixam nessa história.
— Bom — disse Rossi abrindo a porta do carro — eu vou voltar para a delegacia para interrogá-lo. Me desejem sorte.
Assim que Rossi saiu, Elle passou do banco de trás para o banco da frente, nesse instante chegou a primeira mensagem pelo rádio comunicador.
“Não tem ninguém na van — disse um deles no rádio comunicador — repito, não tem ninguém na van”.
— É a SWAT — disse Elle surpresa — eles iam pegar Cutt e a Bello que estavam numa van aqui ao lado...
— Sim, são eles mesmos — concordou Hotch.
“Eles fugiram — disse novamente o comandante deles — repito, eles fugiram”
— Os dois sabem que estamos aqui fora — concluiu Hotch — e sabiam que SWAT estava a caminho. Eu vou ligar para Reid para avisá-lo. Tenta ver se descobre como eles ficaram sabendo.
***
— Eu preciso de alguma coisa para cortar isso — disse Reid estando de joelhos, olhando atentamente para os fios.
— Estamos num banco — falou Wendy — com certeza deve ter uma tesoura, estilete ou qualquer outra coisa parecida.
— Eu vou pegar com algum funcionário — falou Reid se levantando.
— Por favor, não me deixe aqui sozinha — pediu Wendy segurando o braço esquerdo do rapaz com as duas mãos. Reid assustou-se com ela lhe tocando e mostrou-se desconfortável com aquela situação — ah, desculpe — disse a garota soltando-o.
— Não precisa pedir desculpas — disse Reid — o problema não é você, sou eu que não estou acostumado a ter as pessoas me tocando o tempo todo — Spencer fez uma pausa e em seguida continuou — eu vou lá pegar alguma coisa para cortar isso, mas volto logo.
— Você não vai a lugar nenhum — disse a Senhorita Bello acompanhada de Jason Cutt. Ela apontava uma arma para os dois.
Reid e Wendy se sentiram encurralados pela malvada. E sem pensar duas vezes ela tirou na perna esquerda de Reid. A garota gritou em desespero. Spencer sentiu suas pernas adormecerem e uma dor forte latejando, ele acabou caindo sentado no chão.
— O que você fez? — perguntou Wendy indo socorrer Spencer, ficando de joelhos ao lado dele e colocando a mão sobre o ferimento para estancar o sangue.
— SAI DE PERTO DELE — gritou Jason Cutt, mas Wendy ignorou.
O telefone de Reid começou a tocar.
— Passa esse telefone — ordenou a Senhorita Bello, porém nenhum dos dois atenderam a ordem dela. Então ela mesma foi e colocou a mão no bolso da calça dele bruscamente para pegar o celular. Em seguida ela pisou forte sobre as mãos de Wendy que estava sobre o ferimento de Reid. Ambos gritaram instantaneamente — essa é para da próxima vez vocês atenderem uma ordem minha.
— Por que está com ele, Wendy? — perguntou Cutt.
— Dar para calarem a boca — mandou Ramona olhando no visor do celular a identificação de quem ligava — eu preciso atender uma ligação — o telefone continuava tocando e ela então atendeu, só que ficou calada.
— Reid? — perguntou Rossi percebendo o silêncio.
— Não, papai — falou imitando uma voz fina e irritante.
— Quem está falando?
— Eu pensei que acharia seria sua filha.
— Eu conheço a voz da minha filha.
— Para um pai ausente, isso é muito, sabia?
— Vamos parar com esse joguinho Ramona Bello.
— Ah pelo visto nem preciso me apresentar. Vocês são rápidos mesmos, estou impressionada.
— Sei também da sua mãe e do seu padrasto.
— Eu não quero discutir isso com um pai que abandona a própria família pelo trabalho.
— São pessoas como você que me fazem não ter tempo para as pessoas que são muito importantes para mim.
— Sério mesmo? — ironizou Bello — são sempre as mesmas desculpas, vocês não se cansam? E mais, não quero falar com você. Eu quero falar com Emily Prentiss. Eu exijo a presença dela, senão vou estourar os miolos da filhinha dela.
— Emily não vai. Isso está fora de cogitação.
— Olha o rapaz já está ferido, quer mesmo que eu machuqe a moça, mesmo ela sendo uma desconhecida para você.
— Você não vai fazer isso.
— Acha mesmo isso?
— Eu não acho. Eu tenho certeza.
— E por que tem tanta certeza?
— Você não fará nada até Emily está ai e isso eu não vou permitir — Hotch fez uma pausa e resolveu provocá-la — sua mãe deve ter ficado muito irritada quando a viu com o marido na cama.
— CALA A BOCA!
— Ela deve ter brigado com você, achado que você deu confiança para o marido dela...
— As mães deveriam acreditar mais no que as filhas dizem, sabiam — dizia ela sem conseguir disfarçar o quanto aquilo a magoava — você acha certo o que sua ex-esposa fez? Ficar do lado do marido e contra a filha?
— Não, mas os instintos dela de mãe falaram mais altos e foi graças à isso que chegamos em você.
— Verdade? Então traga-a aqui. Os dois só saem vivos daqui depois que Emily Prentiss vir falar comigo.
Hotch estava com o celular no viva-voz, por isso Elle ouvia toda a conversa e logo deu um sinal para o chefe.
— Hotch — falou cochichando chamando a atenção dele — talvez seja uma boa ideia a presença de Prentiss.
— Do que está falando?
— Por favor, confie em mim e diga que Emily estará com ela logo.
Hotch ficou hesitante.
— Hotch, acho que está envolvido emocionalmente no caso está deixando suas habilidades de analista de perfis a desejar. Analise bem tudo que ela disse.
Aaron ficou pensativo e chegou a uma conclusão.
— Mas é perigoso... a presença de Emily pode deixá-la mais nervosa.
— Não, acho que vai acontecer o inverso... ela quer que a mãe a escute e acredite na filha, então vamos dar isso a ela. É a única forma de todos saírem sãos e salvos desses lugar, pois se invadirmos dar tempo de ela explodir a bomba.
— Acho que entendi...
Hotch voltou a falar com a Senhorita Bello.
— Ok, Emily estará ai em 1 hora.
— Meia-hora é suficiente.
— 1 hora ou ela não vai.
— Agente, você não está em condição de exigir nada.
— 1 hora e não se fala mais no assunto — falou Hotch veemente.
— Então não tem acordo.
— Acho que tenho uma ligação na outra linha... tchau!
— Espere — pediu ela — eu vou esperar 1 hora.
— Certo, voltamos a nos falar quando ela estiver aqui.
Hotch desligou o telefone.
***
— Wendy — disse Reid baixinho — saia de perto de mim... Jason Cutt não está gostando nada dessa sua aproximação comigo.
Wendy olhou para Jason Cutt que estava em pé ao lado de Bello que conversava com Hotch ao telefone. O olhar dele era realmente de quem estava morrendo de ciúmes.
— Mas se eu soltar, você vai perder muito sangue e corre o risco de morrer, não sabemos quanto tempo o socorro demorará.
— Ele não está gostando nada disso, e se ele perder o controle, nós dois vamos estar mortos antes que ajuda chegue.
— Isso não tem nada a ver com você não gostar das pessoas te tocarem? — perguntou Wendy.
— Não... eu juro que não.
— E como vai fazer para estancar o sangue?
— Eu me viro — respondeu o rapaz se afastando e se encostando na parede e com a mão esquerda pressionou o ferimento. Wendy levantou-se cruzando os braços e encarando a Bello que havia acabado de desligar o telefone.
— Oi sua fofa — disse Ramona — sua mamãezinha já vai chegar.
— Minha mãe — estranhou Wendy.
***
Emily assim que soube de tudo que estava acontecendo correu para o banco. A polícia, a SWAT, o esquadrão antibomba já estava toda plantada na porta do banco e todas os funcionários e clientes foram retirados de lá, ficando apenas os quatro: Ramona Bello, Jason Cutt, Spencer Reid e Wendy Hotchner.
— Eu vim assim que soube — disse Emily para Hotch que instintamente assumiu o caso com a ausência de Rossi — minha filha está lá dentro com uma bomba presa no corpo?
— Sim, Emily — respondeu Hotch — e a única forma de sair tudo bem é você fazer aquilo que te disse por telefone.
— Eu entendi perfeitamente — retrucou Emily já chorando — você me perdoa?
— Perdoar pelo que Emily?
— Por ter sido uma completa idiota e ter caído na conversa de Philip — falou ela — eu já perfilei os piores bandidos que você pode imaginar, mas não percebi um que estava debaixo do meu nariz e acabei colocando a vida da nossa filha em risco.
— Emily, esquece isso — Hotch segurou o rosto dela limpando as lágrimas — se concentre em tirar Wendy e Reid em segurança de lá.
— Certo, Aaron. Eu já vou entrar.
— Boa sorte!
Emily já dava as costas indo em direção a porta do banco e Hotch já voltava para onde Elle.
— Só mais uma coisa — disse Emily virando-se e fazendo Hotch virar-se também.
— O que?
Emily se aproximou de Hotch, ele estranhou a reação dela, mas ficou esperando.
— Isso — Emily segurou o rosto de Hotch e o beijou, beijou ferozmente como se fosse o último beijo. Hotch já não conseguia conter a emoção de sentir os lábios dela juntos ao seu. Como ambos sentiram falta disso — acho que agora posso ir.
— Boa sorte, meu amor — falou Hotch voltando a beijá-la — eu acredito em você.
Emily dessa vez entrou no banco.
***
Rossi preparava-se para entrar na sala de interrogatório, onde Philip o aguardava quando JJ e Morgan chegaram. Eles ficaram na frente do vidro, onde observavam Froster.
— Nós viemos o mais rápido que podemos — disse JJ.
— E a imprensa lá? Como ficou? — quis saber Rossi.
— Ela já está aqui — respondeu JJ — já estão sabendo de todos os detalhes da operação.
— Suspeitamos que foi assim que a Senhorita Bello descobriu de todo o trabalho — completou Morgan — já que os detalhes da operação saiu na mídia horas antes com a mesma repórter de ontem. Agora como a informação vazou ninguém sabe.
— E por causa de uma repórter com necessidade atenção, Reid e Wendy correm perigo, temos que fazer alguma coisa — desabafou Rossi — mas primeiro eu vou interrogar Philip.
— Vai lá — disse JJ — vamos ficar aqui acompanhando. Qualquer coisa se precisar da gente, estamos à disposição.
— Obrigado — agradeceu David.
Rossi entrou na sala de interrogatório segurando uma pasta e sentou-se de frente para Philip.
— Agora somos nós dois — disse Rossi o encarando.
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