Ondas
3 Monster - Parte I
Notas iniciais
O ano era 1962, a história já havia presenciado várias mortes, mas pra mim era algo novo. Eu havia saído do Brasil alguns anos antes, comecei a trabalhar em um jornal na quinta Avenida o ‘The Chronicles’, era uma Pequena gazeta diária em Nova York. Filho de pais que não dormem mais na mesma cama, repórter, morando em um apartamento pequeno, o governo de John F. Kennedy estava indo bem, eu estava adorando Nova York, eu podia finalmente ser quem eu queria, finalmente: livre.
Eu estava começando mais um dia, passei na lanchonete do Robert, onde as meninas sempre gostavam de me paquerar e onde sempre tocava Ray Charles, quando cheguei ao jornal, fui recebido por Bobby que me mandou ir para o Brooklin, havia acontecido um assassinato, Vincent e eu saímos apressados em direção a cena do crime. Um apartamento em um armazém, ao entrar o cheiro de eucalipto inundou meu nariz, Vincent começou a fotografar tudo, quando o capitão da polícia veio em minha direção. – Você é o repórter? – O homem de grande bigode perguntou. – Sim, somos do ‘The Chronicles’, me chamo Chico e ele se chama Vincent ele irá fazer as fotos para a matéria. – Falei e ele começou a me explicar o que havia acontecido, Anthony o dono da casa estava morto com um cano de ferro inteiro em sua bunda, na paredes no quarto símbolos escritos com sangue, cortes estratégicos no corpo, orelhas cortadas e partes de pele faltando. – O que aconteceu aqui? Capitão? – Perguntei. – Homicídio passional, ninguém sabe quem foi o autor, mas sabemos que o homem que morava aqui, gostava de sodomia e tinha comportamento invertido. – O capitão resumiu, a cena do crime estava horrível, Vincent começou a fotografar eu senti um arrepio correr toda minha espinha, no fim da manhã eu já tinha todo o material que precisava sobre o caso, agora o que eu e Vincent basicamente começamos a fazer foi fazer nossa pequena investigação, algumas obras de arte estavam nas paredes, mas no meio da galeria havia ganchos sem quadros, o lugar estava vazio e passaria longe de alguns olhos desavisados, mas claro alguém que liga tanto pra organização quanto eu, notei que alguém havia arrastando os quadros pelo carpete, Vincent olhava pra minha cara enquanto eu analisava a cena, em minha mente se passavam supostas situações do que poderia ter ocorrido. – Capitão. – Chamei o senhor de grande bigode, que em questão de segundos do estava ao meu lado. – O senhor viu essas marcas no carpete? Alguém levou os quadros arrastando pelo chão. – Falei. – Encontramos alguns quadros na porta dos fundos, mas só as molduras, as pinturas sumiram... – O capitão falou e eu corri para a porta dos fundos, lá encontrei os quadros no chão, arrastados pelo piso de madeira da cozinha que havia se arranhado por completo, então eu e Vincent fomos convidados a ir embora. Não podíamos poluir a cena do crime. – Chico, vamos embora. – Vincent falou e logo estávamos na porta da casa, entramos no carro de Vincent e saímos dali. Eu não tinha carro, minha preferência eram os transportes públicos e táxis, amo ficar nos bares, ouvindo todo aquele Jazz, a vida a noite, os bares gays que ficam escondidos de tudo e de todos. – Chico você quer ir lá em casa hoje a noite. – Vincent falou me tirando de meus devaneios. – Ah Claro. – Falei sorrindo. Vincent namorava uma garota, mas ela terminou com ele recentemente, acabou o trocando por um milionário texano que havia passado alguns dias em Nova York. – Você está muito quieto hoje, geralmente eu preciso te mandar calar a boca. – Vincent falou. – Eu fiquei pensando naquela casa, naquele homem morto, naquelas coisas desenhadas na parede com sangue, na falta de pele que pra mim foi arrancada por alguém que sabia o que estava fazendo. Aquilo foi muito estranho. – Falei. – Essa preocupação tem que ser dos detetives. – Vincent falou colocando a mão dele em minha perna.
O resto do dia passou voando, a redação estava em chamas após o caso que eu estava noticiando, fiquei metade do dia em minha mesa e a outra metade eu passei no arquivo do jornal, procurando assassinos com um padrão igual ou parecido nos últimos anos, mas o único que eu consegui encontrar havia acontecido há 63 anos antes com Albert Fish, mas ele matava principalmente crianças que ele sequestrava, estuprava e acabavam servindo de alimento pra ele que tinha hábitos alimentares voltados ao canibal além de coprofágicos. Então peguei todos os arquivos que possuíamos no jornal e comecei a estudar, peguei minha bolsa e coloquei alguns dos arquivos lá dentro e finalmente havíamos terminado a matéria, o jornal estava sendo mandado as prensas e eu estava pronto pra ir pra casa, comecei a descer as escadas do jornal em direção a rua, a tarde estava úmida e quente, o sol estava alaranjado, eu andei sem rumo ainda pensando no cara morto que eu vi no Brooklin, entrei num bar que passei na frente alguma vezes ele se chama “The Pink Flamingo” um dos clubes “duvidosos” de Nova York, a luz estava baixa e eu entrei e sentei em um dos bancos do balcão, ao meu lado havia um cara com postura de um lenhador da Carolina do Norte, assim que peguei minha cerveja e ele começou a tentar conversar e eu ainda estava perdido em meus pensamentos, mas apenas percebi ele falar a palavra “Banhero” com aquele sotaque Sulista, ele queria que eu fosse ao banheiro com ele, mas invés disso eu apenas dei as costas e paguei a cerveja, quando fui virar dei de cara com talvez o homem mais bonito que havia visto em minha vida, talvez em toda a América na verdade. – Boa noite. – Ele falou. – B-b-boa noite. – Respondi. Seu cabelo era preto como a noite, seus olhos eram cor de esmeralda, um cigarro preso entre os lábios e uma caixa de fósforos em sua mão. Eu pelo contrário, cabelo castanho, olhos escuros, um terno coberto pelo casaco enorme, um óculos redondo no rosto e uma pasta em minha mão. Eu continuei a andar depois que eu esbarrei nele, sai do bar, assim que o ar noturno bateu em meu rosto eu lembrei que tinha de ir beber junto com Vincent, então comecei a minha caminhada, pronto pra gritar por um táxi. – Táxi. – Gritei enquanto um dos carros amarelos parava em minha frente, quando fui abrir a porta do táxi, uma mão foi em direção a porta da frente e eu parei. – Esse táxi era seu? – Era o mesmo moço do bar falando. – Bem eu chamei, mas se você quiser eu espero o próximo. – Falei me afastando um pouco. – Claro que não, pode ir. – O Homem falou fechando a porta do Táxi. – Mas é seu. – Falei e ele também se afastou do táxi que ligou o motor e saiu. – Meu táxi. – Falei me desesperando. – Eu tinha chamado ele. – O moço falou. – Claro que não, eu estou atrasado. – Falei. – Deve estar indo para um encontro. Não? – Ele me perguntou com um tom de brincadeira. – Tenho, preciso trabalhar com um amigo. – Falei pra ver se ele me deixava em paz... – Então você é o senhor trabalho? – Ele perguntou zombando de mim. – Se eu for? Senhor desconhecido. – Falei. – Pode me chamar de Yan. Então não sou mais desconhecido. – Ele falou. – Sou Chico. – Falei. – Você não é americano é? – Yan perguntou. – Tenho uma porcentagem. – Falei. – Agora eu vou embora, você me atrasou bastante perdendo meu táxi. – Falei e sai correndo para um táxi que havia parado poucos metros à frente.
Quando cheguei à casa de Vincent, as coisas estavam diferentes dentro de mim. Cheguei à entrada da casa onde Vincent morava, a casa era antiga e foi de seus avós, que acabou passando a suas gerações, atualmente Vincent mora sozinho. Seus pais se mudaram pra Monson no Maine, eu bati na porta enorme porta de madeira e alguns minutos depois Vincent abriu a porta, o cabelo ruivo alaranjado meio molhado, uma blusa amassada. – Achei que você não vinha mais. – Vincent falou. – Trânsito dessa cidade é caótico. – Falei sorrindo. – Entre. – Vincent falou abrindo a porta, eu entrei e a casa estava linda assim como dá última vez que eu entrei a meses atrás, a iluminação estava meio baixa, as sala de estar não parecia a mesma. – O que você estava fazendo? – Ele perguntou – Eu passei num Bar e acabei bebendo uma cerveja. – Falei. – Bom. – Vincent respondeu. Em pouco tempo estávamos bebendo vinho, dando algumas risadas e falando sobre as últimas matérias do jornal, sobre ele estar sozinho e sobre eu estar sozinho, a essa altura acho que o vinho estava falando por nós. – Ainda não entendi como o garoto brasileiro está solteiro. – Vincent falou colocando a mão em minha perna. Meu rosto ficou em chamas nesse momento. – E você? Jessie foi uma tola por ter deixado um cara lindo como você solto por aí. – Falei e logo estávamos frente a frente, nossos lábios estavam quase se tocando. – Um Rapaz lindo? – Vincent falou e finalmente me beijou, os lábios de Vincent eram macios e seu beijo era diferente do de Antônio, a última pessoa que amei e que meu pai tirou de mim, Vincent me tocava, eu conseguia sentir as pontas de seus dedos em minha pele. – Eu te amei assim que vi você entrar no jornal. – Vincent falou entre o intervalo dos beijos. Eu nunca pensei que Vincent gostava de mim dessa forma... A noite evoluiu nos levando pra cama dele, estávamos bêbados de vinho e... Acordei ao lado de Vincent, que ainda dormia, vesti minha camiseta e fui à cozinha, minha boca estava seca, eu ainda estava bêbado, não sei se por conta do vinho ou se por conta do sono. Após tomar meu copo de água fui ao banheiro e me olhei no espelho, apenas de cuecas e blusa, lavei meu rosto e quando olhei pra trás vi a figura de Vincent na porta. – Bom dia. – Ele falou arrumando o cabelo. – Pensei que você havia fugido. – Vincent falou abrindo um sorriso. – Não tinha como fugir eu estava bem bêbado, quase dopado. – Falei. – Ótimo. – Vincent falou entrando sem roupa no banheiro, ele se posicionou em frente ao vaso e eu sai do banheiro meio desconcertado. – Você não quer tomar um banho? – Vincent me perguntou. – Ah, eu gostaria. – Falei. – Eu vou pegar uma toalha pra você. – Vincent falou saindo após ter terminado de urinar.
Após termos tomado banho e um ótimo café, coisa que eu não fazia há anos, já que tomo café diariamente em lanchonetes e restaurantes do bairro ou no entorno do jornal. – Vamos, precisamos ir para o jornal. – Vincent falou e ao me levantar da cadeira ele me deu um beijo lento e longo. Foi um dos melhores beijos da minha vida. No carro eu não conseguia esconder o sorriso mais besta que eu já tive em meu rosto. O dia estava claro, pessoas andavam com suas pastas, mulheres com seus cachorros, as pessoas estavam animadas e eu também, o trânsito estava agitado. Chegamos ao jornal e ainda deu tempo de comprar um copo de café, então começamos a subir as escadas conversando sobre tudo e quando chegamos à porta Bobby já estava lá. – Vocês estão esperando o quê? O capitão acabou de ligar, aconteceu outro crime em Brighton Beach, corram pra lá agora. – Bobby falou e Vincent e eu voltamos para o carro. – Você acha que pode ser o mesmo? – Vincent falou. – Isso é o que vamos descobrir. – Falei.
Minutos após sairmos do jornal chegamos a um apartamento em Brighton Beach, um apartamento enorme em Brighton Beach. – Outro apartamento de bicha. – Pensei ao ver a frente do prédio, cercados de carros de polícia, pulei do carro deixando Vincent lá ainda procurando um lugar pra estacionar. – Você não pode entrar na cena do crime. – Um policial gordo falou. – Sou do ‘The Chronicles’, fui chamado aqui. – Falei. – Hey, Lincoln deixe o garoto passar. – Outro policial falou e eu pude entrar. Entrei no lounge do prédio e só ele era maior que todo meu apartamento, subi as escadas enquanto o policial falava em meu ouvido, eu apenas conseguia ouvir o sangue pulsando em meus ouvidos, Vincent vinha atrás me seguindo, quando olhei pra trás vi seu rosto pálido. Ao chegar um par de luvas nos foram entregue, ao abrir na porta, meu queixo caiu novamente, no sofá da sala, um prato e um guardanapo sujo de sangue um prato e talheres em uma pequena mesinha, o sofá estava sujo de sangue, ao olhar pra cozinha o balcão estava sujo de sangue, na pia uma tábua de queijos com pedaços de pele, um pequeno livro de receitas ainda manchado de sangue, quando cheguei ao quarto vi uma das maiores surpresas de minha vida, o homem estava amarrado a sua cama, de forma quase idêntica, um cano em seu ânus, braços e pernas amarrados, pedaços de pele faltando, o odor dessa vez era de rosas, tudo levava a crer que o assassino havia sido o mesmo que matou a bicha velha do Brooklin. – Eu estou ficando louco ou essa cena é uma cópia do que vimos no Brooklin? – Vincent perguntou. – Não. É realmente uma cópia. – falei e o policial começou a me olhar. Quando me virei pra olhar a parede onde os quadros estavam, havia uma moldura ainda pendurada, onde a tela havia sido retirada. – Esse assassino gosta muito de arte. – Falei. – O dia havia transcorrido por meus dedos e no fim do dia a única coisa que me lembro é de ver as prensas estampando o jornal onde a notícia da primeira página era “Assassino de Nova York faz sua segunda vítima: Por Chico Araújo”.
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