Ondas
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Notas iniciais
Michael estava na estrada há horas, ele aceitou um emprego novo em Castle Rock, uma cidade ao lado do Maine, estávamos precisando mesmo de tranquilidade, o último ano foi péssimo pra nós dois, já é o segundo aborto que eu tenho em menos de seis meses, dessa vez, no entanto não foi tanto por culpa minha, nem mesmo do meu corpo que não aguentou a gravidez, eu me joguei da escada ou cai delas. — Olívia? Você está bem? – Michael perguntou, ele estava dirigindo, estávamos na estrada há quase duas horas, nossa antiga vida ficou pra trás, estávamos indo para um hotel, a chuva castigava a nossa jornada para a nova casa, raios e trovões cruzavam os céus, quando finalmente passamos por uma placa escrita “Bem vindo a Castle Rock, total de habitantes: 1800” eu olhei pra placa e virei novamente o rosto pra janela, após tantas consultas psiquiátricas e medicação, eu acabei caindo numa depressão profunda, acabei ficando com medo de tudo e todos, a minha família acabou apoiando a viagem, já que iríamos morar numa mansão da guerra civil, construída no Maine, a mansão foi comprada por um preço relativamente baixo, eram nossas economias junto com a hipoteca de nossa antiga casa, nossos pertences pessoais já haviam sido levados por um caminhão de mudança no dia anterior, eu fiquei bem chateada de não poder chegar antes deles, tenho certeza que as caixas não vão estar em suas marcações ou seja, mais trabalho pra mim... Chegamos ao hotel, ele é bem simples, foi o que pudemos pagar por uma noite, após quase quatro horas na estrada, eu estava cansada demais, a cidade estava deserta, deve ser uma daquelas horas mortas, onde ou todos estão dentro de casa ou estão bem longe da cidade, o asfalto parecia novo, como se acabassem de tê-lo feito, descemos do carro e eu peguei minha bolsa com todos os remédios necessários e desci do carro, entrei no hotel, fomos recebidas por uma garota, meia idade, piercings no nariz, cabelos loiros e má atitude. — Vocês têm reservas? – Ela perguntou de uma forma um tanto rude. — Não. Mas queremos um quarto pra dois, precisamos dormir. – Michael falou pra mulher, só agora eu havia reparado que ela usava uma plaquinha com o nome “Anne” fixada em seu peito. — Bem, por hoje, temos apenas camas separadas. – Anne falou, olhando para meu marido, Michael é um homem bem bonito, moreno, alto, cabelos curtos, quase careca, quando o conheci na faculdade ele era igualzinho ao que é hoje ele fazia engenharia, eu estava fazendo Psicologia, quando terrivelmente perdi meu Segundo pai, Michael ficou do meu lado durante essa hora difícil, eu distraidamente derrubei café nele, enquanto eu andava e respondia uma mensagem de minha amiga Mariah (Não a Carrey), estava cansada demais pra pensar no passado. — Mas a placa lá fora diz claramente que tem vagas. – Michael a respondeu, mas eu nem estava mais pensando na menina, mas sim na decoração da recepção, as cores predominantes eram o preto é o vermelho, mas não aquele vermelho comum, algo bem sangue. — Em quartos com camas separadas. – Anne falou. – Eu estava ficando nervosa, minha vontade era dar na cara dela, mas eu não poderia, seria presa por agressão. — Nós ficamos com o quarto. – Falei, já nervosa, aquela menina estava me tirando do sério, eu estava bem ansiosa pra chegar a minha nova casa, que pelo jeito seria pior que minha antiga, tudo que pensava no momento era a longa jornada de trinta minutos que eu precisaria fazer de casa até o mercado mais próximo do Maine. — Aqui está a chave do quarto. – Ela pendurou a chave entre os dedos em nossa direção. — Quarto sessenta e seis, seguindo para trás, virando à esquerda. – Anne falou, eu puxei a chave de sua mão, eu e Michael seguimos, não antes de dar uma assinatura no grande livro de registros do hotel, do lado de fora, com toda a chuva e vento, o letreiro luminoso piscava “Red Hotel – Há vagas”, um raio cruzou o céu na mesma hora que eu estava lendo o letreiro, um clarão tomou conta do céu, mas teve uma parte onde parecia não ter tido efeito, ela continuou escura, num formato esférico, eu esfreguei meus olhos com os dedos, no segundo raio, o céu voltou a se iluminar por completo, sem faltar parte alguma. Minha mente deve ter me enganado, mas pra mim, pareceu muito que uma tigela estava parada no céu, bloqueando o raio...
Uma semana depois...
— Olívia? Você ainda está no sótão? – Michael gritou, eu ainda estava organizando a maioria das coisas, os carregadores deixaram as caixas jogadas em todos os lugares, meus Lp's foram parar na cozinha, minhas panelas foram parar no banheiro, eu estou mais cansada que nunca, Michael quase não para em casa e nossa vizinha mais próxima é Marci Baxter, ela tem três filhos e seu marido é um pintor conceituado, a família dele se formou basicamente em Nova York, eram conhecidos até que alguém assassinou o avô dele, mas mesmo assim a casa dela fica a quilômetros de distância, nossa casa é diferente de tudo onde eu já havia morado, o local é grande, ainda tem uma pequena casa de visitas nos fundos....
~Flashback~ — Caramba, que móveis lindos. – Falei puxando um dos lençóis brancos que cobriam a mobília. — Pois é esses móveis devem ser tão antigos. O pior é que eles estão bem cuidados. – Michael falou. Eu não sabia da existência dessa casa para visitas, ela fica aos fundos, depois da adega numa descida de cascalho. — Eu não acredito que você pagou tão pouco nessa casa. – Falei. — Bem só pode ter acontecido algo bem ruim, um imóvel desse não sai a preço de banana sem um motivo. – Completei enquanto puxava mais um lençol, cada móvel que eu revelava, ficava ainda mais impressionada, o sofá era de veludo vermelho, detalhes entalhados com ouro. — Eu ainda acho que tem algo de errado com esse lugar. – Falei. — Claro que não, as pessoas que moram aqui porque querem um sossego maior, por exemplo os Bexter construíram porque Albert precisava de inspiração para suas pinturas, Marci queria sair daquele estilo de vida caótico. – Michael estava tentando defender o fato de uma família ter gastado milhões em uma casa pra fugir de Nova York. Mas isso não tem muito nexo pra mim..
~Off~ — O tempo aqui transcorre com uma rapidez assustadora, eu mesma nem lembro o que fiz durante meu dia. – Falei enquanto ligava o micro-ondas para aquecer o que seria mais um dos meus jantares sozinha, Michael havia saído pra trabalhar, só chegaria próximo às três da manhã, eu estava cansada, depois de arrumar o sótão, recebi a visita de Jonah, filho mais velho de Marci, ele é um garoto peculiar, cabelo alaranjado jogado em seus olhos, pele meio dourada pelo sol, tinha uma aparência bem Latina/Irlandesa, mas ainda tenho quase certeza que o cabelo dele não é natural. Ele gosta de muitas coisas que eu gosto, por exemplo, Rock, passamos algum tempo mexendo nos meus Lp’s, mostrei pra ele os discos do Joy Division que eu tanto ouvi durante a faculdade, ele não tinha ouvido quase nem uma música da banda, então eu lhe mostrei algumas, outro ponto negativo da casa, não temos sinal de telefones celulares, somente sinal de cabo, que por sinal o cara não havia instalado ainda. Terminei de comer na bancada da cozinha, lavei meu prato, fui para a sala onde minha vitrola estava em uma mesinha perto da lareira, peguei um Lp de uma capa preta e coloquei o disco sobre o prato, após posicionar a agulha, sentei no sofá, eu estava cansada, mas ainda tinha de tomar meus remédios, a voz de Stevie Nicks soava como uma brisa em meu corpo cansado, eu amo o Fleetwood Mac, Steve cantava sobre Sete Maravilhas, a bateria batia lentamente como meu coração, eu estava com sono, meus olhos estavam pesando, eu estiquei minhas pernas, olhei para o teto branco e fechei meus olhos, quando fiz isso, literalmente ouvi a casa sendo puxada do solo, como se a fundação inteira estivesse sendo levada pelo céu, pulei do sofá com a pressa e previsão felina, coloquei meus pés nas sandálias e corri para fora de casa, olhando ao redor, não conseguia ver nada, não era um terremoto, muito menos um furacão, ao olhar em volta nem uma alma viva se via, se enxergava apenas a vasta neblina branca que hoje estava tão rala quando as nuvens em dias de verão. — Tem alguém ai? – Gritei, em resposta nem um som foi feito. Girei em meus calcanhares e não vi nada, quando do nada uma luz branca toma meus olhos....
Um mês depois....
— Então é tudo que você se lembra? – Disse o médico que me analisava, “Dr. Callum” era o que estava escrito em seu crachá. — Sim, após a luz eu não lembro de mais nada, nada mesmo, parece que esses dias nem se passaram... – Respondi ao médico. — Bem, você não tem hematomas ou sinais de contusão, nem muito menos trauma, não sei como ou muito menos o que pode ter acontecido com você, mas de todos os testes feitos o único que atestou algo foi o de sangue, ele indica que você está grávida. – O médico falou, eu fiquei pasma, espalmada na maca, Michael olhava para a cara do médico como se ele estivesse fazendo uma piada de mal gosto, mas pelo tom de voz que ele falava era algo bem sério. — Bem eu acho que terminei aqui, agora você vai ter que falar com os detetives do caso. – O médico falou, na minha mente eu já sabia que Michael havia feito um escândalo tão grande sobre meu desaparecimento, tenho certeza que cartazes com minha foto foram parar em todas as cidades vizinhas, Michael sempre foi muito preocupado com minha condição, mas acho que de uma forma totalmente amável, ele nunca quis esconder nem a mim, nem a minha condição. — Boa Tarde. – Um dos detetives falou ao entrar na sala. — Eu sou o detetive Knight, ele é meu parceiro o detetive Gómez. – O homem completou apontado para o jovem de pele bronzeada e bigode cheio que entrava atrás dele. Em ficha técnica, Knight era caucasiano, na casa dos trinta e tantos, cabelo preto e sobretudo marrom com uma calça social com algumas pregas nas pernas, já Gómez era o sonho de Latino, olhos castanhos bem claros, cabelos pretos, pele cor de canela, roupas mais joviais. — O senhor deve ser o Sr.... – O detetive tentava ler o sobrenome de Michael no documento em anexo a uma prancheta. — Senhor Abernathte. – Michael completou. —Mas pode me chamar de Michael, senhor seria o meu pai. – Michael falou tentando mudar um pouco do clima pesado que estava no ambiente. — Bem Michael, nós estávamos investigando o caso da senhorita Olívia. — Pelo que a polícia deixou de evidências nesse caso, sabemos que ela faz uso de medicamentos psicológicos, sabemos que ela estava sozinha é que o remédio da noite não chegou a ser retirado da embalagem... — Espera, vocês acham que eu tive um surto? – Falei. Eles estão colocando a culpa em minha condição quando visivelmente eu fui abduzida? Eu estava começando a ficar com raiva. – Eu fui claramente abduzida, sequestrada por... — Aliens? – O detetive Knight completou. — Senhora, o governo não aceita essa hipótese, todos sabemos que nunca foi descoberto vida alguma nesse universo. – O detetive Gómez continuou. — Eu vi a luz, aquilo não poderia ser outra luz, nem mesmo um refletor gigante. – Falei. — Senhora, a luz pode ser parte do surto. – Ele falou. — O senhor por acaso está chamando minha mulher de surtada? – Michael falou. – Não, só estamos pontuando o fato que ela pode ter esquecido de tomar o remédio, visto algo que não é bem o que ela imaginava.... – O detetive falou. — Você acha que eu teria a capacidade de imaginar algo assim? Além de fingir que não aconteceu mais nada, depois disso aparecer sem um arranhão, bem nutrida e grávida? Você está zombando de mim? – Perguntei ao detive...
Meses depois...
— Eu tentei abortar, várias vezes, das várias tentativas, nem uma eu consegui tirar esse monstro de dentro de mim, o clima entre eu e Michael só piorou com o crescimento desse feto dentro de mim, nossa vida sexual parou de existir, durante esse período também aconteceram algumas coisas muito estranhas, a casa, barulhos estranhos, luzes mais estranhas ainda, Michael acabou instalando um telefone, câmeras de segurança, mas mesmo assim, nunca consigamos ver nada nas câmeras além de estática, eu permanecia com medo, mas mesmo assim Michael não me deixou voltar pra casa de minha mãe, os vizinhos apresentação vinham verificar como eu estava, menos Jonah, ele ficou assustado segundo Marci. Eu não o culpo, apareceram fotos minhas em todos os noticiários nacionais e internacionais, a imprensa o pressionou pra que ele informasse onde eu estava o garoto foi acusado de homicídio, eu ainda não entendo porque Marci se dá ao trabalho de vir aqui me visitar, seu filho iria ser mandado pra cadeira elétrica por culpa minha, mas até então eu percebi que ela era uma boa pessoa, já que não me deu um tapa na cara e continua vindo me visitar. — Como você está? – Ela perguntou. — Estou bem, um pouco incomodada com meu tamanho, estou parecendo uma porca grávida. – Falei. — Para de ser boba, a gravidez deu a você aquele ar de beleza materno. – Eu dei uma gargalhada em resposta. — Me diz como isso, meu cabelo está quebrado, minhas unhas grandes e sujas, meus olhos secos, barelados. – Falei pra Marci. — Marci me olhou e deu um sorriso tão pequeno e murcho que ela mesma não teve a coragem de continuar os elogios. — Como está Michael? Feliz com a chegada do bebê? – Marci perguntou-me... — Nem um pouquinho, na verdade, ele não queria esse filho, assim como eu não queria, assim como nunca quis vir para essa casa estranha. – Falei. — Você sabe que você está certa? Vocês nunca deveriam ter vindo pra essa casa, dizem que ela é amaldiçoada, que o mal vive aqui. – Marci falou. — O que? – Foi à única coisa que consegui responder... —ela tem um porão ou um sótão? – Marci perguntou. — Um sótão. – Respondi. — Você poderia me levar lá? – Marci pediu. — Claro. – Respondi, me levantando em direção as escadas, Marci me seguia como uma sombra, olhando todo o trabalho que Michael teve de arrumar a casa sozinho enquanto eu estive desaparecida. Os olhos de Marci eram minuciosos, chegamos na escada mais estreita que levava ao sótão, fui subindo devagar, estava cansada, a gravidez havia desgastado a minha vontade de andar e minhas forças nas pernas para os movimentos necessários. — Você está cansada? – Perguntou Marci. — Não, foi só uma tontura que bateu. – Falei abrindo a pequena porta no fim da escada, abrindo a porta, bati minha mão na parede e uma luz fraca se ascendeu é Marci foi avançando a frente de mim, olhando tudo que tinha na frente dela. — Eu quis lhe contar isso desde que vocês chegaram, mas não pude, as coisas iriam destroçar seu casamento, a muito tempo essa casa faz isso com as pessoas, várias já foram mortas, várias já foram separadas, essa casa é amaldiçoada. – Marci me entregou o jornal velho que dizia: “Mais um casal morto na mansão Vermelha.” Era o título. – Casal é encontrado morto, empregada desaparecida é procurada como testemunha, já não é o primeiro nem será o último acontecimento estranho da casa onde moradores afirmaram que viram luzes sobrevoando a mesma, infelizmente o Maine não é, nem nunca mais será o mesmo.... – Falei lendo a frase escrita por Peter Jacobson para o Maine Times. — Te falei, essa casa é do mal, você foi a única vítima que desapareceu e depois reapareceu, a única encontrada viva, olhe a notícia. – Marci me mostrou seu telefone, na tela um print do mesmo jornal o título era “ Nova moradora da mansão vermelha desaparecida, reaparece grávida: a única sobrevivente dos desaparecimentos reapareceu ontem e foi levada pelo marido ao hospital Local de Castle Rock.” — Você é considerada a única sobrevivente dessa casa. – Marci falou depois que eu li o telefone. Eu não sabia que isso acontecia. — Eu nunca pesquisei sobre essa casa horrível. – Falei. — Eu teria avisado, mas nunca quis destruir seu casamento. – Marci falou. Minha visão ficou turva, eu sentei em uma cadeira velha que estava perto de mim....
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