Uwokisa Moriwara, sete anos. (...)

[…] Estava frio, muito frio. Tudo que eu podia sentir era um vazio enorme dentro de meu peito, uma dor incontrolável. O único som que eu podia ouvir era de meus dentes batendo uns contra os outros. Minhas pernas tremiam, já não sentia os meus braços. Já não tinha mais lágrimas para rolar sobre meu rosto e a solidão me corrompia a mente e minha sanidade, enquanto o frio desgastava meu corpo. Já não conseguia enxergar direito, estava sozinho e cansado, com fome, sede e frio. Estava confuso, eu não entendia o que estava acontecendo nem como eu havia parado naquele lugar. Enquanto eu tentava me aconchegar com alguns restos de pano e minhas próprias roupas, memórias começavam a passar sobre minha mente. Elas eram estranhas e eu não as compreendia.

Senti como se estivesse desfalecendo. Estava pronto a dar meu ultimo suspiro pela sobrevivência quando uma senhora de cabelos grisalhos me cobriu com seu manto. Eu estava muito tonto e não podia enxergar seu rosto, mas senti suas mãos quentes tocarem minha face, congelada e desfalecida. Então tudo escureceu, fechei meus olhos e cedi meu corpo ao relento, havia desistido de tentar lutar para sobreviver. Se a natureza me queria, ela teria...

Acordei alguns dias depois em um quarto imenso, com diversos tipos de adornos e fotografias. Uma prateleira de mogno perfeita, cheia de troféus e relíquias. A cama perfeitamente entalhada em cedro e uma mesa perfeita perto da janela, e que janela! Do lado de fora havia um jardim imenso, uma fonte com a água mais pura que eu já vi. Crianças brincavam lá fora, corriam e uma senhora com roupas maravilhosas às acompanhavam. Fiquei completamente encantado desde o segundo em que abri meus olhos.

-Ah, que bom que está que acordado Milorde. — Disse uma senhora que entrou pela porta. — Estávamos preocupados que não fosse mais acordar, fico radiante de ver que estas bem. Venha se vestir, não pode ficar andando apenas de roupão.

-Hu...? Ah, sim... — Disse-lhe com o tom assustado e confuso.

Onde eu estava? Quem seriam aquelas pessoas, tão bonitas e... Ricas?

- Milorde, presumo que queira ir ao banheiro primeiro. — Me disse a senhora em um tom doce e gentil.

-Uh? — Eu disse olhando para baixo — Gah! Que vergonhoso...

-Haha, não tem com o que se preocupar senhor, esta tudo bem, estarei esperando-o aqui.

Os anos então foram se passando, cada vez mais eu ia amadurecendo e crescendo, participava das festas da família e já era realmente da família. Então, aqueles anos teriam sido os mais maravilhosos de toda minha vida, eu já sequer tentava lembrar meu passado. Não me importava se eu tinha mãe ou pai, se fora abandonado ou qualquer que seja a desculpa, eu não me importava. Tinha uma moça maravilhosa, que me amava como seu próprio filho.

Educou-me, me ensinou coisas maravilhosas como costurar, cozinhar, cuidar dos cabelos, pintar, cantar e tocar flauta... Momentos únicos na minha vida.

Eu tinha seis irmãos, todos eram bem mais velhos que eu, porém eu via que a moça me tratava diferente, já que eu tinha a feição mais afeminada e doce, ela sempre me vestia como uma menina. Acordávamos bem cedo para escovar meus cabelos e irmos caminhar no campo, enquanto que meus irmãos trabalhavam pesado junto de seu pai. Eles trabalhavam na organização dos bens da família.

Sempre vivi sendo bajulado. Aos meus doze anos, já era perseguido por príncipes de diferentes reinos e classes, todos com propostas de casamentos arrebatadoras, completamente impossíveis de serem recusadas pela família. Eu os ouvia discutir a noite inteira sobre as ofertas e o quão tentadoras elas eram, porém tudo se resumia a uma coisa... Eu nunca fui o filho legítimo dela e era um homem, não uma mulher. Então se eu me casasse com algum destes príncipes, eu sujaria o nome da família, pois achariam que estariam tentando passar a perna no outro reino, casando um rapaz e não uma moça...

Uma noite em questão a ouvi conversar com o marido, para pelo menos tentarem, mas ele aumentou o tom de sua voz e gritou com ela. Dizendo que nada nem ninguém, jamais nesse universo iria conseguir tomar o lugar da sua falecida filha Allegra, principalmente um pobre pirralho mendigo achado na rua, ao relento de uma noite fria. Ela desabou em prantos, enquanto eu corria para meu quarto, parece que haviam notado que eu os estava espionando quando corri, pois os ouvi gritar por meu nome repetidas vezes.

Tranquei-me no meu quarto enquanto pensava e chorava escondido dentro do guarda-roupa, meu esconderijo favorito. Eles gritavam e empurravam a porta, imploravam para que eu a abrisse, ela chorava e gritava por meu nome e pedia por todo o amor que eu tinha por eles, para abrir a porta...

Mas então, era isso afinal? Eles queriam uma garota para prosseguir com a herança da família, mas como a filha deles havia morrido, qualquer uma serviria apenas para enganar. Porém infelizmente naquela noite, eles haviam cometido o maior erro da vida deles. Confundiram um rapaz com uma garota e assim criaram seu desespero. Eu não era da família, eu não era amado nem jamais nunca fui. Eu era usado, iludido e ludibriado, apenas para servir aos propósitos da família... Não conseguia conter minhas lágrimas, vários pensamentos confusos se passaram por minha cabeça, coisas que eu jamais pensaria. Sentia-me só, infeliz, exatamente como naquele dia que me acharam ao relento da noite fria, perdido... No meio do nada... [...]

Meus irmãos sempre pegaram no meu pé, mas quando eu perguntava para minha mãe, ela respondia que era por que eles tinham inveja.

-Inveja mamãe, mas de que?

-Da sua beleza indubitável e que você seja mais especial, que todos eles.

Tudo mentira! Enganação! Mentiram para mim este tempo todo e eu acreditei, acreditei feito um bobo! Eu não acredito que mesmo com meus dezesseis anos, me deixei enganar, deixei me levar pelas palavras de carinho, pelo amor que recebia. Meus irmãos estavam certos em implicar comigo, eu não era da família, nunca fui e nunca seria. Eu era apenas um animalzinho de estimação, um objeto de orgulho e adorno!

-Uwokisa...

-Irmãozinho! Que bom que você esta aqui! Como você entrou? — Abracei-o com todas minhas forças. Mellvhon era meu irmão favorito, ele sempre foi muito gentil comigo e justo, nunca me disse sequer uma palavra dolorosa, mas eu via que ele era um pouco enciumado quanto a mim, pois antes da minha chegada, ele era o caçula e assim sempre foi o mais bajulado.

-Vá embora... — Disse com a cabeça baixa, sem conseguir olhar para mim.

-O que? Como assim irmãozinho?

-Eu não sou seu irmão! Vá embora! Suma de nossas vidas, rato imundo!

- Irmãozinho, por que esta me tratando desta maneira? Você não gosta de mim?

-Seu desgraçado infeliz, se aproveitava de sua aparência feminina para ganhar toda a atenção! Ninguém nunca te amou, apenas queríamos uma garota para o posto da hierarquia, mas por azar, eles voltam com você!

Ao dizer isso, ele agarrou-me pela gola de meu vestido e levantou-me no ar, acima de sua cabeça.

-Irmãozinho, por favor! Pare, me solte! Me solte!

-Soltarei sim! Soltarei! Mas pra fora da janela!

- Irmãozinho! Por favor, não! Não faça isso! Por favor!

-Morra seu desgraçado!

Fiquei pendurado pela janela, escorregando com a chuva e assustado com os raios. Estava confuso e não entendia o por quê daquilo tudo estar acontecendo, o que eu havia feito de tão ruim, a ponto de merecer a morte de forma tão fria...?

-Mellvhon! Não! — Gritou minha mãe enquanto entrava no quarto.

-Por favor, Uwokisa! Me dê sua mão! Anda, me da sua mão Uwokisa!

-Rosa! Saia daí você não pode ajudá-lo!

-Por favor, não o deixem morrer! Não deixe que ele caia! Me de sua mão!

Eu não queria morrer, não estava em meus planos, mas parecia que não haveria outra escolha, eu não queria que minha mãe ficasse se machucando mais ainda, por me ver naquelas condições e correr o perigo de se jogar também. Eu estava muito longe de seu alcance e também muito longe do chão, não havia outra escolha.

-Mãe... — Disse sorrindo — Esta tudo bem, eu vou ficar bem, obrigado por tudo, mesmo que tenha tudo sido apenas um mal entendido, muito obrigado pelo carinho e pelo amor que você me deu. Prometo que jamais esquecerei você que é e sempre será meu anjo guia...

Ao dizer tais palavras, me soltei da janela e deixei meu corpo sentir a brisa do vento. Durante a queda, eu estava feliz, me sentia livre, estava sorrindo. Mais uma vez a natureza requisitava meu corpo e desta vez, ela o teria por definitivo. Ao abrir meus olhos durante a queda, vi a última cena que meus olhos veriam, minha mãe havia pulado da janela, por algum motivo para tentar me segurar. Ela agarrou-me em seus braços ainda durante a queda e disse que havia prometido jamais se separar de mim e tampou os meus olhos com suas mãos macias. Então, tudo apagou...

-Ei garoto, acorde, acorde seu infeliz!

Uma voz estranha que eu nunca tinha ouvido estava a me chamar, mas... Quem?

-Mãe...?

-Que mãe o que garoto! Levanta daí! Chegue mais perto! Era uma senhora que estava segurando um cajado que parecia mais na verdade um pedaço de galho de árvore, ela estava completamente suja, imunda, seu hálito fedia e suas roupas estavam os trapos.

-Como a senhora pode saber se sou menino, se estou em trajes femininos?

-Ora essa, acha que sou boba? Não tem como confundir um rapaz de uma menina, é totalmente impossível! Ainda mais para alguém com a minha idade!

-Mas...

-Calado! Venha comigo, tenho uma proposta a lhe fazer.

-Proposta? Lhe seguir? Eu não sei quem é você nem onde eu estou, não vou seguir ninguém! Me deixe em paz!

-Tem certeza jovenzinho...? Você foi o culpado pela morte da sua mãe. Olhe só, veja!

Não tinha nada a minha volta, apenas um campo fúnebre e esfumaçado, uma nuvem negra avermelhada cobria tudo, eu só podia ver a senhora...

-Aonde?! Eu não a vejo! Mãe!

-Bem, aqui...

Debaixo da fumaça, eu pude ver um pouco uma luz que se formava por debaixo de um local, quando aos poucos a fumaça abaixou eu pude ver, minha mãe deitada, ela ainda respirava. Agonizando, corri desesperadamente para cima dela, mas a senhora se posicionou em minha frente e disse que somente eu poderia salvá-la, mas havia um preço grande a pagar... Gritei que estava disposto a tudo pela minha mãe, aquela pessoa que sempre sacrificou tudo por mim. A senhora sacudiu a cabeça dizendo que ela nunca foi minha mãe. Eu sabia disso, só não estava preparado para lembrar disto...

Corri para longe da velha, eu não sabia onde estava indo, não tinha caminho, não tinham paredes, era apenas um grande espaço de nada! Cheio de fumaça para todos os lados. Eu apenas corria e corria, para o nada, correndo sem parar, quando me bati de vez com algo monstruoso, cai sentado ao chão olhando para aquela sombra assustadora que se erguia cada vez mais por cima de mim, ficando cada vez maior. Ela soltou um urro terrível e em pânico comecei a me arrastar para tentar ficar de pé, quando finalmente me levantei ele agarrou-me pelo vestido e me segurou. Enquanto isto, eu podia ver que, ao lado da minha mãe começaram a aparecer outras sombras monstruosas.

Eu gritava para que a soltassem, mas de nada adiantava, pois elas não me davam a menor atenção. A velha se aproximou de mim e calmamente ergueu sua mão, dizendo:

-Você pode soltar sua mãe, como eu já disse. A propósito, não somente sua mãe, mas você também...

-Co- como?

-Basta que, entregue-me sua pureza, sua alma e me faça alguns servicinhos básicos.

-Mas para que você precisa disto?! — Gritei já assustado e apavorado.

-Como você pôde perceber, eu já estou velha, cansada e horrenda, preciso de almas, principalmente puras, para voltar a ser a linda mulher que sempre fui.

-Mas o que eu ganharia com isso?

-Bem, pra começar, sua mãe não morreria, segundo, eu não te mataria. Porém, como eu sou uma mulher muito justa, eu posso lhe agradar com a imortalidade e o poder supremo, já que eu dependerei de você para que me traga algumas almas lá de cima...

Ao dizer isto a sombra jogou-me ao chão, com toda brutalidade possível, o que me deixou deveras dolorido.

-O que me diz garotinho? Te darei exatos cinco segundos para pensar e se decidir, pois sou uma mulher extremamente, justa...

Eu não queria ter que trabalhar para uma velha estranha, principalmente para tarefas tão desgastantes e mórbidas. Porém eu também não queria que minha mãe fosse morta por aqueles terríveis seres e tudo isso, por minha culpa. Eu estava confuso e não sabia ao certo que pensar ou o que fazer, só havia uma escolha...

-Espere! Você vai me fazer forte e imortal não é?! — Gritei, procurando ganhar tempo enquanto pensava.

-Oh, sim claro, porém você já sabe meu preço requisitado...

-Sim, eu o reconheço.

-Mas, ainda tem um porém que eu esqueci de mencionar. Ninguém de sua família, principalmente sua amada e gentil mãe, irá se lembrar de ti. Nunca mais, será como se você jamais houvesse existido.

-O que?! Como? Isso não é justo!

-A vida é injusta meu amor, sinta-se feliz por eu estar sendo a primeira a lhe ensinar sobre ela. Pois se fosse com outro alguém, não lhe perdoaria. Então, depende de você, fazê-la mais fácil ou mais difícil, alem de que a vida de sua mãe esta em jogo. Será que ela não valeria tanto esforço? Seria você tão ingrato e miserável ao ponto de negar sua vida pela de quem deu tudo por ela?

Era o fim, eu estava nostálgico e todas as minhas fontes de pensamentos e arrependimentos estavam transbordando em pânico. Eu simplesmente não queria acreditar que aquilo poderia ser real, era apenas um pesadelo, eu haveria de acordar logo e minha mãe estaria me esperando como sempre ao lado da cama, para irmos caminhar no campo. Eu então contaria a ela o pesadelo que tive e ela me abraçaria contando que fora apenas um pesadelo, que ela estaria ao meu lado para sempre e jamais iria se livrar de mim... Pelo menos era isso que eu gostaria que tivesse acontecido.

Assustado e com as forças esgotadas, aceitei a oferta da velha, apesar de me arrepender imediatamente, era tarde demais para voltar atrás, eu já havia firmado o contrato ao dizer tais palavras.

Ela se aproximou de mim, enxugou meus olhos que já transbordavam em lágrimas e colocou uma de suas mãos em minha cabeça, dizendo:

-Meu amorzinho, com uma pureza como a sua, terei vitalidade o suficiente por décadas, he he he...

Ela me fez beber um líquido estranho e vermelho que tinha um gosto terrível. Comecei a sentir algo me queimando por dentro, gritei em pânico pela dor agonizante, não tinha descrição... Pela minha boca, olhos e nariz jorravam-se litros de sangue, ao meu redor eu não conseguia mais enxergar nada alem de um mar de sangue. Meu vestido estava queimando, achei que eu estava morrendo, porém fiquei consciente o tempo todo. O que estava acontecendo? Eu queria apagar, desmaiar, esquecer de tudo aquilo, não queria sentir o que estava sentindo. Pude ver minha pele rachar, se abrir completamente, eu estava em pânico. Amedrontado, deitei-me ao chão procurando esperar aquilo tudo passar logo, enquanto a velha apenas assistia sorrindo, ate que finalmente eu senti como se arrancassem minha pele, mas ao olhar, não o era.

Havia sido minha alma, sendo arrancada de mim. Meus cabelos mudaram de cor, meus olhos também, eles estavam vermelho, puro feito o sangue, raízes começaram a subir sobre meu corpo ate meu rosto, infiltraram-se completamente dentro de minha carne, deixaram marcas profundas, caminhos, ramos, espinhos... Já não sentia mais dor, não sentia mais pavor, pânico... Tudo havia passado. Pelo contrario eu me sentia bem, tudo aquilo estava ótimo, eu não compreendia...

-Trato é trato: tenho sua alma e sua pureza, você terá sua mãe viva e sua imortalidade. Sou uma mulher de palavra, meu amor...

Não conseguia enxergar direito, erguia minha cabeça tentando ver a velha, mas ela já não estava mais lá, somente uma mulher linda e exuberante. Meus olhos jamais viram tal beleza.

-Para não dizer que sou ruim, lhe dei a lembrança de sua mãe, ela não gostava de rosas vermelhas? Pois então meu amor, você é a rosa e como toda rosa tem espinhos, você será a prova viva disto. Tome, coloque isto.

Ela colocou um laço de fita em meu pescoço, ele tinha um amuleto e um sino nele, perguntei para que servia e ela me disse que eu aprisionaria as almas ali dentro, para quando necessário, ela iria me procurar novamente, para tê-las. Me deu algumas roupas e me colocou uma capa, dizendo que era a mais digna de um príncipe honrado que assim como eu, sacrificava sua vida pela de seus amados. Então mandou-me ir e começar o meu trabalho. Disse-lhe que eu não sabia aonde eu deveria ir e ela apenas me advertiu que eu sentiria o local quando eu chegasse lá.

Quando abri meus olhos via pessoas correndo acima de minha cabeça, gritando e era tudo branco, elas estavam muito felizes em me ver acordado. Novamente, confuso e tonto adormeci.

Alguns dias depois acordei, estava em um hospital, era muito silencioso e todo aquele silêncio estava me dando calafrios, tentei me levantar da cama, mas estava completamente preso por tubos e fios. Não conseguia falar, tinha um tubo em minha garganta, fios por todo meu corpo, aos poucos fui levantando minha mão para colocar na cabeça, e quando toquei meu cabelo, senti algo estranho. Eles haviam cortado meu cabelo, meu magnífico e maravilhoso cabelo, aquele pelo qual minha mãe sempre se empenhou tanto em cuidar. Estava curto, muito curto, na altura de minhas orelhas. Entrei em colapso, arranquei todos os fios que haviam em mim, me debatia para me soltar da cama.

Derrubava todos os aparelhos e arranquei o tubo de minha garganta, tudo que eu podia ver era o sangue escorrer... Eu não sentia dor, apenas ódio, puro e terrível ódio insano e insaciável. Tudo aquilo que eu havia passado teria sido por nada?! Era inaceitável!

Então após um tempo médicos e enfermeiras entraram para tentar me controlar. Eu gritava no mais puro ódio que já senti, eles haviam de pagar pela desgraça que haviam me causado. Eu estava fora de mim e não estava conseguindo compreender que aquelas pessoas queriam me ajudar. Naquele momento elas eram meus inimigos e eu precisava me livrar de meus inimigos. De minhas mãos começaram a sair enormes raízes cheia de espinhos, que foram sufocando cada pessoa daquela sala, eu estava feliz, sorria e gritava com uma risada que ecoou por todo o hospital.

Tudo começou a sair do controle e quando me dei por satisfeito havia acabado de matar mais de seiscentas pessoas ou para ser mais exato, qualquer coisa que respirava naquele local: pacientes, médicos, companheiros, visitas, animais, tudo. Não sobrou nada.

Quando acordei daquele transe terrível, fiquei apavorado pela quantidade de sangue e pessoas mortas, só conseguia lembrar da cena da minha mãe. Corri imediatamente para fora do hospital, queria ir pra longe, fugir e nunca mais voltar. Chorava alto e gritava em desespero, mas ninguém parecia me ver, nem me escutar, eu estava sozinho novamente, ao relento, correndo de mim mesmo, amedrontado e apavorado.

Quando finalmente parei de correr, cansado, minhas pernas já não aguentavam, mas eu finalmente estava lá, na minha casa. Ainda sim quis entrar, abraçar minha mãe, então empurrei seus portões com toda força que eu tinha e subi a escadaria ate os aposentos de minha mãe, feliz e contente, porém sujo e embebido em sangue. Em meu rosto podia se ver o mais puro sorriso de felicidade.

Ao entrar em seu quarto gritei por ela, ela se virou imediatamente, porem algo estava errado, aquela não poderia ser minha mãe, seu rosto... Seu rosto lindo e perfeito, estava deformado. Seu braço havia sido amputado e ela não conseguia falar coisas que fizessem sentido. Coloquei minhas mãos tampando minha boca, enquanto ela ficou me perguntando freneticamente:

-Mellvhon? Phellipe? Alexandreh? Quem esta aí!? Diga, diga imediatamente ou chamarei os guardas!

Eu não conseguia compreender, o que aconteceu? Falei meu nome, disse-lhe que era seu filho e abracei-a deitando-me em seu colo e chorando, ela colocou uma de suas mão sobre mim e começou a gritar me empurrando, implorando para que a soltasse. Chamou os guardas e disse que não tinha nenhum filho com aquele nome, gritava por ajuda e socorro, dizendo que havia um assassino dentro de seu quarto. Repentinamente homens armados entraram no quarto e apontaram armas e espadas contra mim.

Mandavam que eu soltasse a rainha imediatamente, mas eu não queria feri-la, era minha mãe... Soltei-a e comecei a correr pelo quarto para tentar fugir dos guardas que atiravam contra mim enquanto outros me perseguiam. Então eu não tinha outra saída, eu tinha de matá-los. Parecia não importar quantos eu matava, mais e mais apareciam, tentavam me acertar e eu parecia estar sendo protegido, ninguém conseguia se aproximar de mim, uns corriam me chamando de demônio enquanto outros morriam tentando proteger sua rainha. Meus irmão subiram empunhando armas contra mim, fiquei nostálgico e não sabia o que fazer, fiz a única coisa que poderia fazer... Os matei. Minha família inteira havia sido morta, pelas minhas próprias mãos. Somente quem restava era minha mãe que continuava sentada lá, apavorada e tremendo, sem conseguir ver o que estava acontecendo. Eu devia matá-la também?

Aproximei-me e segurei em seu rosto e enquanto ela pedia por piedade, jogou-se ao chão e implorou para que, por favor, não a matasse. Abraçou e beijou meus pés. Eu não tinha como, eu não conseguia, tremia pensando no que fazer, minha cabeça explodia em pensamentos. Nunca imaginei ver minha mãe naquelas condições implorando por sua vida, principalmente para mim... Corri, fui embora para sempre daquele lugar e a deixei gritando e falando sozinha dentro do quarto, sem saber se eu ainda estava lá ou havia indo embora. Ela chorava muito, deitada no chão, sozinha...

Não era isso que eu queria para ela, não era o que eu tinha imaginado. Por que e o que eu havia acabado de fazer? Que tipo de monstro eu havia me tornado?!

Continuei correndo sem rumo, em meio à escuridão da noite, entrava e saia de ruas diferentes e mesmo cansado não parei um segundo. Me embrenhava em meio o matagal, mas nunca parava e jamais olhei para traz, tinha medo de que ao olhar para traz eu pudesse ver todo o meu passado e todas as maldades que fiz. Continuei seguindo, correndo, e até hoje luto para esquecer as atrocidades e me controlar ao máximo, para evitar tudo isso novamente e temo o dia, em que aquela velha venha me prestar contas, pois seu laço eu não consigo tirar do pescoço. Estou preso a uma promessa, um contrato, uma dívida que acabou fugindo completamente de meu desejo...

Aonde eu iria parar...?

Obrigado pelas lembranças, mesmo que elas não tenham sido muito boas, mas são os erros que fazem os momentos viverem eternamente...