Havia uma linda e gloriosa mansão em meio a um bosque, perto de uma estrada, onde várias pessoas passavam todos os dias para ir ou voltar do trabalho ou da escola. Todos adoravam ouvir os gorjeios dos pássaros vindos dela e alguns até passavam em frente a ela pela manhã bem cedo, apenas para ouvi-los.

A mansão era imensa, linda, toda pintada em branco e dourado. Tinha imensos jardins com flores tão belas, que ninguém jamais havia visto. Era um mundo diferente e distante, mas mesmo assim tão próxima da realidade. As pessoas jamais viram o morador daquela mansão, pois eles tinham medo de se aproximar dela depois que seu antigo dono morrera misteriosamente sem deixar quaisquer suspeitas. O caso fora abafado e a mansão deixada de lado. Mesmo com todos os anos que haviam se passado, ela nunca se deteriorou e ela continuava linda, intacta e sempre bem cuidada. Então daí surgira a ideia de que alguém ainda morava ali. […]

Era um dia quente e ensolarado, a luz do sol entrava diretamente ao quarto atravessando uma pequena abertura da cortina. Os pássaros do lado de fora cantavam distintas melodias, cada qual mais bela que a outra. Um pequeno pardal decidiu entrar pela janela entreaberta e voou até a cabeceira da cama pousando calmamente e cantando sua melodia.

-Bom dia raio de sol... -Disse o rapaz levantando a cabeça do travesseiro e observando o pássaro. -Esperei você a noite toda, achei que não voltaria mais para mim. Vamos, diga-me: sentiu saudades minha? Pois eu senti muito a sua...

O rapaz carinhosamente esticou um de seus dedos até o pardal, esperando que ele pousasse em seus dedos, mas o pardal voou para longe, passando por todo o quarto e indo até a janela pousar em seu parapeito. Ele cantava uma melodia frenética e repetitiva e estava afobado se debatendo de um lado a outro.

-Pequeno, o que houve? Algum de seus amigos se machucou de novo? -Ele caminhou até a janela e abriu a cortina, deixando entrar completamente a luz do sol.

O pardal voou até seu ombro e observou junto a ele o lindo dia que está lá fora. As pessoas caminhando calmamente de um lado a outro, crianças rindo e brincando enquanto iam à escola (algumas bicicletas) e homens indo ao trabalho.

O pardal puxou um de seus fios de cabelo e se emaranhou em seus cabelos, voltando a pousar na janela.

-Eu já lhe disse que eu jamais iria pisar neste mundo novamente. Não quero arriscar que nada daquilo aconteça novamente, estou bem aqui e aqui permanecerei. -Exclamou ele. Agarrou o pardal com uma das mãos, abriu a janela, colocou-o para fora e fechou-a.

Ele caminhou novamente até a cama e se deitou sobre ela de uma só vez, respirando fundo enquanto resmungava:

-Mais um dia... Mais um lindo dia, enquanto eu... estou fadado à desgraça dentro desta maldita mansão... -Exclamou puxando os lençóis da cama.

Condenado a passar o resto de sua vida sozinho dentro de uma velha e abandonada mansão, ele jamais soube os valores humanos, jamais teve quaisquer planos para sua vida, objetivos, metas... Todos os seus dias eram iguais, ele sequer tinha vontade de levantar-se da cama. Tudo seria igual, o que fazer então?

Então ele continuou deitado, enquanto o pardal batia seu pequeno bico no vidro da janela buscando uma forma de entrar. Ele sequer se movia, continuou deitado até o cair da noite.

Com a chegada da noite os pássaros iam dormir, aconchegavam-se em algumas árvores, em seus ninhos ou até mesmo dentro de casas, telhados e tudo mais que servisse de abrigo. O bosque que era bem denso deixava tudo bem mais escuro, mal se podia ver o céu pela janela do quarto. O rapaz que continuara deitado à cama, mexia em alguns objetos que estivera ao seu alcance, enquanto trauteava uma pequena melodia, tal qual parecida com o ritmo do canto dos pássaros. Pendurou-se a borda da cama e procurou algo debaixo dela, vasculhava de um lado a outro, até que acidentalmente escorregou e caiu de costas ao chão. Assustado e envergonhado pelo patético papel que passara, virou-se de bruços e continuou a procurar algo debaixo da cama.

Alguns poucos minutos depois ele tocou em uma pequena caixa de madeira empoeirada, puxando-a devagar, colocou-a sobre seu colo e a abriu gentilmente, soprando seu pó para longe. Dentro desta caixinha havia um pequeno saco preto, amarrado com uma fita vermelha. Ele retirou-o de dentro da caixa e cuidadosamente puxou seu laço. Ao abri-lo reparou que existiam alguns pedaços de metais prata e dourado. Ao pegar dois destes pedaços, percebeu que eles podiam ser montados. Aos poucos ele retirou todos os pedaços e montou um a um, sem parar. Quando ele finalmente terminou de montar e pôs o objeto ao chão para observar o que houvera montado, seus pedaços firmaram-se criando um único objeto. Para sua surpresa, se tratava de uma flauta. Uma flauta transversal.

Ao tocar novamente na flauta, ele pôde lembrar da primeira vez que havia tocado uma flauta em sua vida. Todos aqueles momentos em que ele treinara com a sua própria flauta arduamente todos os dias, para encantar a sua mãe com sua melodia.

Aproximou-se da janela e a abriu completamente afastando suas cortinas, tomou a flauta em uma de suas mãos e posicionou-a em frente à boca. Segurou-a firmemente com as duas mãos, posicionou seus dedos e soprou-a suavemente. Dela saíram suaves melodias que o lembrou dos velhos tempos, que o fizeram então com que tivesse ainda mais vontade de continuar a tocar.

Passando logo por ali vinham algumas crianças andando em um pequeno grupo durante a calada da noite. Eram crianças de rua, maltrapilhas, que andavam em grupo apenas para se protegem umas as outras. Até que algo chamou a atenção de Richard, o mais novo.

Ele e seu grupo caminhou até a frente da mansão e escutou a estranha melodia vindo dela. Era um som pesado, melancólico, que deixou todos assustados. Eles então correram para longe, gritando e berrando sobre a mansão ser assombrada. Mas apenas Richard decidiu ficar e entrar na mansão para descobrir de onde vinha aquela melodia.

Ao chegar a seus portões enormes de ferro, eles estavam completamente trancados, com correntes e cadeados, então ele tivera que escalá-los cuidadosamente até chegar do outro lado. Quando ele finalmente conseguiu descer, se deparou com a imensa quantidade de flores em seu jardim. Cada qual mais bela que a outra e todas descansando para o longo dia que teriam ao amanhecer. A melodia então começava a ficar mais próxima e cada vez mais alta. Richard estava decidido a ir atrás desta melodia e adentrou o jardim seguindo direto a porta da mansão. Qual não foi sua surpresa ela estava trancada, ele avistou uma enorme pedra e a lançou à janela. Ele temia que o barulho parasse a melodia, mas ao perceber que ela continuara, ele cuidadosamente passou pela janela quebrada evitando se cortar.

Dentro da mansão, estava tudo tão solitário... Vazio e empoeirado. Os móveis tinham teias de aranhas por toda a parte, objetos quebrados, não havia felicidade... Só muita tristeza e solidão, uma bela mansão por fora, mas tão vazia e sozinha por dentro...

Richard entristeceu por ver tudo aquilo naquele estado e pôs um olhar vazio e sem esperanças ao rosto, subindo as escadas do salão. Caminhando devagar ele escutou a melodia ficar cada vez mais alta e a seguiu, abrindo quarto por quarto. Richard então viu o ultimo quarto ao fundo. Sua porta estava cheia de vinhas e rosas murchas, marcado por toda a extensão do corredor. Com cuidado ele tocou a porta e encostou seu ouvido, podendo ouvir a melodia vir diretamente do quarto. Ele queria entrar, ver quem tocava aquela linda música, mas ele tinha medo. Medo do desconhecido, medo do que este poderia fazer com ele, então tão sutilmente quanto veio, ele se afastou da porta andando de costas até a escada. Ele não conseguia descer as escadas ouvindo aquela melodia tão pesada e solitária, aquela música ia bem fundo na cabeça e no coração de Richard. Fazia seu coração bater forte e sua respiração pesar. Mas ele tinha que continuar, ele tinha que ir embora, ali não era o seu lugar e mesmo que ele quisesse ficar e ver quem era, ele não poderia...

Ao pisar o primeiro degrau da escada ela fez um rangido tão agudo que ecoou por todo o corredor, fazendo o coração do pequeno Richard gelar de medo. A melodia cessou e ele só podia escutar seu coração batendo forte enquanto suas mãos tremiam ao corrimão da escada.