Once Again - Interativa
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Capítulo 9
Itália mergulha um pedaço do frango no creme de pimenta . Seus olhos brilham como num lampejo antes de levar a comida até a boca. Ela mastiga lentamente, limpa os dedos no guardanapo e depois bebe um gole do vinho branco.
–Isso é maravilhoso – fala baixinho, quase como se estivesse confessando um segredo.
Kaleb acha graça e sorri:
–Não é?
Faziam horas que estavam ali, jogando conversa fora. As vezes Itália sorria do nada, inesperadamente, mas Kaleb não a culpava – parecia natural estar tão nervosa. Afinal, ela era a primeira. A número um de trinta e tantas garotas que estavam naquele momento se remoendo de curiosidade. Só que tudo parecia estar ajudando. O sol lá fora parecia um gritante desejo de bom dia. A comida era boa, assim como a bebida. E a simpatia natural de Itália era agradavel. Não era dia para horas ruins e os dois estavam aptos a extraírem o melhor desse encontro.
Era estranho pensar dessa forma. Era quase patético pensar em ter um encontro porque quase ninguém mais fazia isso. Pelo menos até onde ele sabia. Não que não saíssem para caminhar, não jantassem em um restaurante bacana ou programassem uma atividade diferente para o final de semana, mas quando falavam encontro a maioria negava, dizendo que “estavam saindo”. Kaleb achava que era porque a palavra meio que carregava um certo sentido de responsabilidade e seriedade. Algo que quase ninguém gostava muito.
Não era a palavra em si que impressionava Kaleb, e nem mesmo a ação. Sabia que podia lidar com isso, afinal, era uma pessoa. Por mais que fosse uma garota e, digamos, bonita. Era uma pessoa qualquer com quem ele conseguiria lidar. O que lhe deixava com um cutucão no fundo da mente, era pensar que compartilharia momentos diferentes com cada uma delas. Não tinha ideia do que o faria se sentir bem. Tinha medo de não gostar de nenhuma ou gostar de todas e no final ser um covarde indesiso.
Kaleb checa o relógio de parede disfarçadamente. O tempo que passavam juntos já passava de três horas. Ele suspira, um pouco impressionado.
–Acho que já tenho que devolvê-la para seu quarto – diz.
Itália parece um pouco desapontada. Ela limpa os dedos no guardanapo mais uma vez:
–Ah, claro.
O príncipe deixa os talheres pousarem sobre o prato e contorna a mesa onde oferece um braço para Itália. Ela faz o mesmo. Descança os talheres e aceita o apoio de bom grado.
Dando uma última olhada na sala perfeita, não consegue deixar de dizer:
–Obrigada por esse almoço.
Kaleb olha para ela, esperando que continuasse. Ela toma o ar e ele abre a porta.
–É que acho que ainda não me acostumei muito bem com tudo isso. Às vezes parece que não tenho nada para fazer e é um tedio. E você foi muito legal comigo. Conseguiu me fazer esquecer a saudade de casa e...
Ela ri, parando a frase no meio. Quase como se dissesse chega de tagarelar por hoje, Itália. Mas Kaleb a escuta e ela parece sincera. O corredor é deserto e mesmo o tom da voz da garota estando baixo e educado, é bem audível.
Eles passam por várias portas. Várias salas, escritórios, quartos... Mas ninguém os ouve e ninguém aparece por ali. O que é meio estranho. Kaleb estava certo de que a primeira vez que saisse com uma garota um grupo de repórteres os seguiria, ou sairia de atrás de um vaso de flores com camera ligada e microfone pronto. Mas não havia nada disso. O silêncio era tranquilizante. E desfilar de braços dados com uma garota desconhecida se tornava muito mais natural quando nenhum par de olhos estava avaliando. Por um breve segundo, Kaleb se lembrou de quando era uma criança e dizia que garotas eram complicadas e que nunca casaria. Por mais que ainda concordasse com a primeira parte, não se casar não era uma opção. Não soube bem ao certo porque o pensamento lhe ocorrera em tal hora, mas foi tão rápido quanto veio.
Ele parou diante da porta do quarto de Itália e sentiu o braço da garota deslizar do seu.
–Obrigada pela sua companhia, Itália – disse dando-lhe um beijo na mão.
Ela abriu a boca para responder, mas Kaleb foi mais rápido:
–E entendi o que você quis dizer com as vezes se tornar tedioso.
Os olhos da garota falaram por ela: assumiram um brilho de gratidão nítido.
Ela puxou a mão para si e entrou no quarto, mas não sem antes mecher os lábios dizendo um “tchau” sem som. Então o clic da porta fez com que Kaleb permanecesse do lado de fora. Ele permaneceu por mais uns segundos ali, não pensando em nada, não sentindo nada. E era a melhor coisa do mundo.
É aquela sensação de que você não sabe o que pensar. Como quando você chega de algum lugar num dia cheio, mas que não se sente cansado. Apenas se joga na cama e respira fundo, pensa em tudo que fizera desde que acordara e quando chega ao fim, pensa de novo. E tudo o que você faz é reviver o momento sem conseguir sentir nada.
Não sentir nada é uma sensação muito boa.
X
Na cabeça de Evelyn, nada fazia sentido. Então o príncipe aparece no baile, é super adorável com cada uma das garotas e some. Aí, quando todas parecem estar em uma abstinência em todo aquele tédio que passavam durante as tardes no Salão, ele aparece de novo. Manda um bilhete para Itália Mason, tem um encontro com ela e some. Zangada não era a palavra para definir o que Ev sentia. Era mais para uma curiosidade ou angústia.
Itália não apareceu depois do encontro com o príncipe e nem no dia seguinte. Ela apareceu apenas no final de domingo, quase a noite. Mas era toda sorrisos e orgulho. Muitas meninas haviam a atacado quando ela entrara no Salão parecendo muito confiante usando um vestido floral rodado. Até mesmo Evelyn circulara por perto, em busca de ouvir alguma coisa, porque não se senia intímia ou descarada o suficiente para chegar na cara dura e pedir detalhes sobre o encontro. Se fosse ela, não gostaria de espalhar aos ventos e se gabar por um encontro. Itália poderia ser assim, certo?
Mas a menina não respondeu pergunta nenhuma, apenas fez um breve movimento com a mão, pedindo para que as selecionadas se acalmassem e disse que iria contar sim, mas só depois. Durante o jantar.
E assim fez. No domingo, ela percebeu que o banquete era muito mais caprichado – não que nos outros dias não servissem comidas fabulosas, mas nesse dia em especial... Era literalmente de comer rezando. A mesa foi posta por mais um grupo de criadas silenciosas. Havia massa com molho de champignons, cordeiro com legumes e queijo suíço. E para beber três opções de sucos: abóbora, limão e laranja.
Itália se sentou e serviou-se de massa e suco de limão. Cada olinho brilhante daquele Salão parecia se concentrar em cada movimento. E foi a partir da terceira garfada ela começou o relato:
–Foi um almoço normal – começou meio receosa – Conversamos e tivemos um tempo... agradável.
–Agradável? – pediu Jade. – Um almoço com o príncipe não pode ser simplesmente agradável, pode?
Itália descansou os talheres enquanto mastigava. Pareceu considerar a hipótese e arqueou uma sobrancelha:
–Nós rimos bastante, comemos bastante e bebemos um vinho maravilhoso...
–Achei que vinhos eram servidos só em bailes – disse Alpha, baixinho.
–Ah, Kaleb me explicou que nós só podemos beber em bailes ou quando temos a permissão de algum membro da família real.
Katerina tomou um gole do seu suco de abóbora se inclinou de leve na mesa:
–E o que mais aconteceu? – Da boca dela, saiu a pergunta que Evelyn pensava em verbalizar.
–Gente – Itália começou a se envergonhar um pouco – Não aconteceu nada demais. Ele é muito gentil, vocês vão ver quando chegar a hora.
Luana encontrou os olhos da amiga e sorriu. Um sorriso sugestivo e um pouco... esperançoso? Era esperança nos olhos dela?
–Ele deixou você chama-lo pelo nome?
–Não conversamos sobre isso. Mas foi ele quem deu o primeiro passo, sabe? Que veio até mim, me cumprimentou e essas coisas.
–E ele nem disse algo como ‘Vou sumir e, por favor, ninguém surte’ – quis saber Jade.
–Não. Ele não disse nada.
Evelyn suspirou. Quando chegaria a vez dela?
X
Kaleb deu duas batidas rápida na porta. Tinha que ser rápido porque a) logo alguém o descobriria e b) não queria ser descoberto enquanto estava com os cabelos bagunçados e com as mangas da camisa social arregaçadas na altura dos cotovelos. Esse era o Kaleb que só Kaleb conhecia. O que tinha desleixo pela aparência e o que provavelmente se fosse visto no ato do relaxamento com a aparência seria zombado.
Esperou por uns segundos. Mas a porta continuava imóvel e não havia nenhum ruído lá dentro. Suspirou. Seu punho bateu três vezes na porta. Um, dois, três segundos... Nada.
Ah, vamos lá... pensou.
Bateu mais duas vezes na porta e quando estava no ponto de jogar as duas mãos contra a madeira, viu o rosto de Myranda por uma frestinha mínima. Na verdade não era o rosto inteiro, seus olhos grandes combinados com aqueles cílios postiços conseguiram chamar sua atenção ainda quando contrastados com a pele clara.
–Escute – sussurrou quase colando o rosto na porta – Preciso muito de você.
Myranda ergueu as sobrancelhas.
–Não, não no sentido malicioso, Myranda. É que eu acho que você pode me dar uma ajudinha aqui...
Dessa vez ela abriu a porta mesmo. Escancarou, para dizer a verdade. Entendeu rapidamente a seriedade no tom de voz de Kaleb e a porta aberta e a expressão de tedio no rosto era o maior convite de “Por favor, entre” que ele receberia da prima. Não hesitou. Entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.
–O que você precisa? – a voz de Myranda saiu baixinha, ela limpou a garganta e repetiu: — O que você precisa?
–Vamos falar sobre como e porque você chegou aqui.
Quando viu que Myranda não respondeu nada, continuou:
–E também sobre o fato de você me odiar.
–Você quer dizer... a morte da garota e coisa e tal?
Kaleb fez que sim com a cabeça:
–O que você sabe sobre Franklin Delano Roosevelt?
–Você não deveria pedir isso pra sua mãe? Ela que sabe tudo sobre História...
–Ah, certo. Se não estivesse fazendo justamente uma coisa que não posso fazer essa provavelmente seria minha primeira opção.
Myranda abriu a boca para falar alguma coisa, mas não conseguiu verbalizar nada, no fim, apenas suspirou:
–Justo. – silêncio – Mas... Você vai ter que me por à par do que já sabe.
Fale com o autor