Omok 오목
2 Estigma
Notas iniciais
Era um dia nublado em Dalseong-gun,Daegu.As ruas estavam pouco movimentadas e os aglomerados que ainda se formavam logo eram desfeitos.Havia previsão de alagamento naquele dia.
As pessoas apressavam o passo para garantir que chegariam aos seus lares em segurança.Aos poucos os gritos das brincadeiras das crianças aqui e ali silenciavam e os animais se abrigavam.
Logo,o estalo do fechamento das persianas formaria um coro.Era como assistir uma fábrica sendo gradativamente desativada.A omissão de uma cidade ainda não adormecida.Entretanto,eu não poderia sair dali.
Era dia de entregar panfletos.Sim,entregar panfletos.A única ocupação que ainda era concedida para pessoas como eu.
A o que parecia,para a sociedade tradicional coreana não bastava que um criminoso cumprisse sua pena,a família dele também deveria pagar o preço do que não cometeu.
A entrega estava ruim naquele dia,quer dizer,era comum que as pessoas se afastassem ao perceberem que era eu quem distribuía os anúncios.
Contudo,devido ao alerta de enchente,as pessoas o faziam sem ao menos disfarçar,como se o fato da ponte estar menos movimentada as deixassem vulneráveis a alguma ofensiva da minha parte.
Distraída por conta do cansaço,deixei os panfletos caírem,logo eles seriam arrastados se eu não me esforçasse para pegá-los.Porém,pela primeira vez alguém me ajudou a recolhê-los.Agradeci fazendo uma pequena reverência.
–Não há de quê.Retrucou um rapaz de voz familiar.
Devido ao baixo movimento,decidi migrar para outro local a fim de cumprir meu trabalho da melhor forma que poderia.Contudo,não resisti em olhar para a direção oposta,a fim de identificar quem havia me ajudado.
Imediatamente me arrependi de ter o feito quando percebi que se tratava de Chung-ho,amigo de infância do meu falecido irmão.Desviei o olhar assim que o mesmo me fitou.Não sentia rancor dele nem nada do tipo,o problema não era ele e sim o que representava.
Taeyong costumava dizer que mesmo depois de curadas e esquecidas,nos mais secretos recessos as fissuras das nossas colunas continuariam a viver e sangrar.De fato era o que eu estava sentindo naquele momento,aquela aparição não havia me feito bem.
Abalada,desisti do que estava fazendo e me dirigi à linha ferroviária,precisava de um tempo sozinha, não deveria derramar lágrimas em público.Além disso, precisava ir para casa pois a chuva já ameaçava cair.
Não demorou muito para que o trem finalmente chegasse.Não haviam muitos passageiros no seu interior,apenas duas garotas que conversavam animadamente nos assentos dos fundos.Sentei-me um pouco a frente delas e encostei minha fronte na janela.
Já havia se passado um pouco mais de um ano desde o suicídio do meu irmão.Por incrível que pareça tal fato e suas consequências na minha vida ainda me assombravam quase que diariamente.
Eu estava sozinha agora,com uma mensagem a se decifrar,era basicamente uma foto do último registro de Taeyong enviada por um número anônimo aparentemente no dia do seu velório.
Me doía ter que analisar suas últimas palavras e as feridas profundas que sua partida me trazia,nós éramos muito próximos.Todavia,me doía ainda mais fingir que aquele crime nunca havia acontecido e que todos os mistérios relacionados ao seu suicídio eram apenas fantasia.
Desbloqueei a tela do meu celular e deixei que sua claridade refletisse em minha face.Rapidamente vasculhei por aquele arquivo apesar dos meus dedos trêmulos.
Lá estava ele,a causa das minhas inúmeras noites de insônia.Mesmo que não o tivesse encontrado,aquelas palavras estavam cruelmente marcadas na minha memória quase como um recital.
“ Me desculpem pelo o que vou fazer,por mais que eu tente,por mais que eu desapareça,nada muda o que eu fiz.Esse crime não poderá ser apagado.Me desculpe por você que foi punida no meu lugar,que sempre foi delicada e frágil.
Não faz sentido eu continuar aqui,eu apenas destruí a vida de todo mundo,mas vocês me deixaram entrar,eu tive a coragem que vocês não tiveram,vão me dizer que não tive?Mas isso não importa,que direito eu tenho de dizer isso agora depois de tudo?
No fim eu sempre vou levar a culpa de certas coisas que vocês não admitem ter para colocar o peso de vocês sobre meus ombros.Mas saibam que eu não os odeio,vocês fizeram parte dos melhores e piores momentos da minha vida,são minha história e eu amo vocês.No fundo dói mais culpar do que apagar vocês,então adeus e obrigada por tudo.
Amigo,eu realmente estava lá naquele dia mas eu não fiz aquilo,porém errei em não ter denunciado.Vocês ainda são irmãos apesar de tudo.
Donghyun não adianta me culpar porque no fundo também sabe que tem uma parcela de responsabilidade,você devia tê-lo parado.Eu apenas fui o início,mas vocês fizeram todo o resto sozinhos,sinto muito pelo o que aconteceu.
Boa vida para todos”
Ao terminar de ler,pisquei dezenas de vezes para disfarçar meus olhos marejados.Eu não entendia quem eram aquelas pessoas,o que havia acontecido.Sim,eu sabia de uma parte,e por mais que seja difícil admitir eu tenho medo de descobrir tudo,de descobrir no que Taeyong estava envolvido.
E por mais que fosse egoísta eu estava magoada,por que ele teve que me deixar sozinha?Por que eu tive que pagar por tudo isso?Aquela promessa era falsa depois de tudo?
Enquanto divagava,mais um passageiro embarcou no trem,olhei de relance e avistei Chung-ho novamente.Abaixei minha cabeça e fingi mexer no celular.Eu realmente não queria reviver tudo aquilo,revisitar aquelas memórias.
Mas a verdade é que eu já havia o feito,e por mais que eu insistisse em fingir uma vida normal essa palavra já era desconhecida pra mim.Eu não iria parar,não iria me conformar até que finalmente descobrisse aqueles segredos.
Fale com o autor