Olá, Lua
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Lembro-me muito bem do dia em que conheci a pessoa que me fez ficar neste estado deplorável. O céu estava negro e as nuvens carregadas, mesmo após vinte minutos de chuva. Parecia que aquele aguaceiro nunca mais iria parar de cair. Coloquei minha capa de chuva transparente e segui para escola a pé, carregando uma sombrinha na mão direita. E mesmo assim, cheguei encharcada, dos pés a cabeça, na escola. Era o primeiro dia de aula e a única pessoa que ali eu conhecia há alguns anos era o Lucas, meu ex-namorado turrão.
Previa que a minha roupa secaria no meu corpo e um resfriado eu iria pegar. Porém, para minha total surpresa, uma garota negra de lindos olhos castanhos segurou-me pelo cotovelo, quando eu ia passando pelo corredor da escola, e disse-me:
— Oi – sua voz era um pouco envergonhada. — Pode me seguir, por favor?
Eu a encarei por uns instantes, tentando adivinhar o que ela queria comigo e, mesmo achando aquela situação estranha, a segui pelo corredor até o banheiro feminino. Ela colocou sua mochila vermelha em cima da pia e tirou de lá um short jeans e uma blusa preta, sem estampa.
— Talvez o meu número seja maior que o seu, mas acho melhor vestir uma roupa mais larga do que pegar um resfriado – ela disse me olhando. Sua voz saiu hesitante, quase com medo. “Será que ela está com medo de mim?”, questionei-me naquele momento.
—Ah, muito obrigada. Vou ficar te devendo uma? — Perguntei e ela riu brevemente.
— Não. — Ela sorria. — Mas peço que me devolva a minha roupa amanhã.
Eu ri. Aquela garota não queria nada de mim, além do que já era dela. Era difícil de acreditar que existia uma pessoa tão boa assim no Brasil. Enquanto eu me segurava na parede, chorando de rir, ela me olhava com um sorriso de lado. Sua expressão indicava que estava curiosa e ao mesmo tempo sem saber o que fazer. Enxuguei os meus olhos.
— Amanhã vou lhe devolver suas roupas, fique tranquila.
— Certo... – ela olhou para o chão, para as paredes, para o teto e enfim, disse: — Vou indo, então.
Ela fechou sua mochila e antes de sair do banheiro, despediu-se de mim com um aceno e um sorriso. Eu ainda não sabia o porquê, mas fiquei pensando naquela linda garota de cachos volumosos durante todas as aulas. No intervalo, tentei achá-la, mas não a encontrei em lugar algum.
Por hoje, isso é tudo. Não sei quando irei escrever-lhe de novo. Talvez amanhã ou daqui uma semana. Quem sabe na terceira vez que você abrir seu e-mail, apareça para você um aviso de que lhe escrevi novamente.
Enfim, Lua, até logo.
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