Olá, Lua
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Olá, Lua.
Aqui estou, a perturbar-te, novamente. Antes de começar a narrar o que já é passado, mas que é tão presente para mim, quero lhe agradecer. Você não me respondeu e por isso lhe sou grata. Sinto que posso confiar em você agora. Já se passaram dois dias desde o primeiro e-mail e você não me procurou e nem me questionou. Muito obrigada por me permitir desabafar contigo.
Quero lhe pedir mais uma coisa: não se prenda a uma única forma de escrita. Sou uma garota que gosta de falar formalmente e, às vezes, não. Gosto de brincar com as palavras sem me preocupar. Sei que gostas de ler e, talvez, até de escrever. Por isso, peço que não se perturbe.
Continuarei a narrar, mas sobre o dia seguinte.
Antes das aulas começarem, procurei por ela em toda a escola, mas não a encontrei. Fui para minha sala e sentei-me na terceira cadeira da quarta fila, bem no meio da sala. Eu ainda não havia feito amizade com ninguém da sala, entretanto, sentia olhares em cima de mim. Já me acostumei com o fato de chamar a atenção das pessoas, mesmo não tendo essa intenção.
Apareço em algumas revistas e não lhe conto isso para me gabar, e sim para deixar as coisas mais claras. Trabalho de modelo para juntar dinheiro para minha faculdade. Não pretendo seguir com essa carreira desgastante para o resto da minha vida. Ser modelo nunca foi o meu sonho. Porém, ser veterinária, sim.
Bem, ignorei todos os cochichos e fiquei a espera do professor. Quando ele chegou, logo atrás, estava ela. A morena mais linda que eu já havia visto em minha vida. Seu cabelo estava molhado, permitindo-me ver que, na realidade, seu cumprimento ia abaixo da cintura. Seus olhos brilhavam por baixo de seus longos cílios. Seus lábios estavam pintados de um vermelho fraco, quase invisível. Suas mãos pequenas seguravam a barra de sua camisa vermelha que continha uma estampa do Superman. Ela parecia envergonhada.
O professor bateu as mãos, chamando a atenção dos alunos e, ao mesmo tempo, fazendo-os se calarem.
— Galera, bom dia – ele disse para nós e para ela sussurrou: — Pode se sentar.
Ela caminhou e, quando finalmente me olhou, sorriu. Pareceu mais de alívio do que de felicidade.
— Oi – ela disse. — Tudo bem?
Esperei ela sentar na cadeira à minha frente e lhe respondi:
— Tudo. E com você?
— Estou bem também — ela ajeitou o cabelo que lhe caía nos olhos. – Meu nome é Júlia, qual é o seu?
— Beatriz — sorri. — Ah, trouxe sua roupa. Aliás, muito obrigada por emprestar-me ela ontem. — Abro minha mochila, tirando as roupas. — Aqui estão.
— Obrigada — respondeu, ajeitando uma mecha de seu cabelo que caiu sobre seus olhos. Ela guardou as roupas na mochila. — Então... — ela começou a olhar para os lados, como se não soubesse o que fazer ou falar. Sorri, achando-a muito fofa.
— Se você quiser, posso emprestar o meu caderno com as matérias de ontem para você. Não teve nada demais, mas é sempre bom ter os cadernos em dia — digo, tentando puxar assunto.
— Ah, sim. Com certeza vou querer — ela sorri.
O professor começou a falar, Júlia se virou para frente e eu fiquei olhando para seus cabelos e costas. Fiquei feliz por ela ter aceitado pegar o meu caderno emprestado, assim teria outra oportunidade para conversar com ela.
Meu notebook está molhando, por causa das minhas lágrimas. Não sei o que fazer agora. Queria poder voltar ao passado e mudar o que aconteceu. Não sei quem sofre mais: ela ou eu. Não sei o que escrever agora para você. São poucas as palavras que te escrevi sobre ela, mas a emoção é tanta em mim.
Não sei se consigo continuar a te escrever hoje.
Estou afundando em meio às lágrimas.
Desculpe-me por isso.
Por chorar agora, assim como chorei hoje cedo, e ontem à noite, e ontem à tarde, e ontem de manhã.
Desculpe-me.
Não consigo mais escrever.
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