Olimpo esquecido
9 Uma vida sem glorias
Notas iniciais
A cidade de Gênova passava por grandes rivalidades comerciais naquela época. Grandes senhores eram donos da riqueza, uma vez que a burguesia europeia crescia como um novo poder intitulado. Guardavam dinheiro em bancos, vendiam seus produtos gananciosamente, e reis e papas os respeitavam, pois, dependiam da burguesia por causa de suas generosas contribuições. O pai de Ísis era um daqueles homens: cauteloso, rígido, dono de um dos estabelecimentos mais belos de Gênova. Ele recebia em casa pessoas importantes, em noites regadas a vinho e comida farta, e seus filhos eram criados por amas de leite, que também os instruíam dentro de casa.
Foi durante a adolescência que Ísis viu um “anjo” no seu jardim. Era tão lindo! Cabelos até os ombros, olhos azuis profundos, sorriso cínico na boca, que avançou como uma pantera macho, e deu-lhe um beijo na boca. Depois, Ísis viu uns dez rapazes no alto do muro rindo às gargalhadas, assobiando – havia uma aposta entre eles, e metade alegava que os pais de Ísis iam matar Amon a pauladas-. Ísis começou a rir, pois isso era comum entre a juventude genovesa: roubar um beijo de uma donzela rica como ela era um desafio para poucos valentes.
A segunda vez que Ísis viu o anjo foi dentro de sua própria suíte. Ele pulara o muro, escalara sua janela, entrara e sentara na sua cama. Ísis perguntou-lhe:
— Não tens medo que eu grite?
— Já terias gritado se não gostasses de mim. Mas acho que estamos apaixonados.
Ísis tampou a boca com a roupa de cama, para afagar sua risada. Afinal, ela já estava prometida para seu primo Osíris e casariam nesse mesmo ano. Osíris já sabia o trabalho de comércio de especiarias, era rico como ela, e haviam namorado com beijos desde sempre. E falou para seu anjo:
— Eu sou noiva, e podes morrer de tanta porrada. Meus irmãos te matariam se soubessem que estás aqui para me seduzir.
— Eu sei! Mas eu não tenho medo de ninguém...
E Amon beijou-a com ânsia, com os ímpetos loucos da juventude.
Quando o dia começou a clarear, Amon pulou a janela como um gato, e gritou-lhe antes de desaparecer no jardim:
— Sou Amon, espera por mim...
E Ísis sorriu, pois ele tinha o mesmo nome de um deus egípcio. Fechou os olhos rememorando cada instante desse encontro, e percebeu que esse deus lhe havia roubado sua virgindade e seu coração.
Durante dois meses eles se amaram nos lugares mais improváveis daquela casa. Durante a sesta familiar, juntavam-se na adega escura onde se guardava o vinho. Durante as noites, Ísis também descia pela janela, e se escondiam embaixo de uns arbustos menores. E, quando havia festa na casa, eles dançavam felizes. Ninguém desconfiava de nada.
Contudo, Osíris sentiu o drama cair sobre ele com toda crueldade. Nos encontros da tarde, sentados na sala da família, Ísis não desejava mais seus beijos e lhe pedia para anular o compromisso. E não adiantava ficar bravo, ou fazer ameaças, pois ela estava inquestionável. E Osíris começou a espioná-la. Quando descobriu Amon pulando o muro antes do Sol raiar, ele ficou petrificado. Tinha um rival, que era muito mais rico do que ele. Mas em vez de desistir de Ísis, foi falar com seu tio, exigindo o casamento imediato, antes do povo saber que Ísis estava desonrada.
O inferno caiu sobre Ísis. Toda a família exigia esse casamento; caso contrário, ela iria para um convento. Ísis não era mais uma donzela, e um compromisso de casamento era decidido pelos pais naqueles tempos medievais. Ela não tinha como desistir. E, chorando, pediu para ir para um convento, pois casar com Osíris estava fora de questão. Sequer seus pais perguntaram quem era o homem que ela amava. O que importava era a honra de família, e Amon já estava condenado à morte. Antes do dia acabar, Osíris saiu pela cidade em busca de vingança.
Por aqueles tempos, o maior convento da Itália estava em Roma, perto do papado e do poder da Igreja – um recinto de muros altos, escuro, frio, com muitos cães que percorriam os jardins para espantar os ladrões.
Ísis adentrou à dura vida de uma noviça. Levantava cedo, trabalhava na roça, capinando, semeando, regando, coisas que ela adorava. Também gostava de rezar, pois sua mãe era uma cristã fervorosa e Ísis sabia as rezas de cor; além disso, na sua casa, havia alguns livros escritos à mão, sobre heróis cristãos, que ela adorava ler. No entanto, em cada momento de silêncio, viajava com o pensamento para as noites de amor ardente com Amon. Durante as noites, na sua cama dura de madeira, fechava os olhos e caia nos sonhos falando seu nome, lembrava de sua boca gulosa, de suas mãos fortes que a apertavam, na verdade só havia um homem no seu coração. Osíris, afinal, ela o amara só como mais um irmão.
Mas, numa noite tenebrosa, o pesadelo invadiu sua vida, sem dó. Duas mulheres ricas e bem vestidas entraram em seu quarto e a despiram sem pedir licença. Beijaram-na, abusaram de seu corpo nu, enquanto riam, numa farra que durou longas horas. Ao amanhecer, Ísis lavou seu corpo com panos, vestiu-se e foi conversar com a freira maior em hierarquia. E viu, ante seus olhos, uma mirada impávida, um rosto cínico, de uma freira que ganhava somas altas de dinheiro vendendo as noviças lindas como ela. Então soube que nada mudaria. A freira ordenou vinte chibatadas nas suas costas, e a ameaçou com mais outras cinquenta, se ela ousasse falar “tamanha mentira” para mais alguém.
Também, ainda com dores, toda machucada, ela foi assaltada por um homem muito velho, que pagou uma pequena fortuna por uma noite com ela. Então, nos dias seguintes, foram fêmeas, ou homens senis que faziam pouca coisa – a beijavam, ou lhe pediam massagens, carícias, e serem gentis.
Amon soube da existência desse convento, através da ama de leite de Ísis, que apareceu na sua casa soluçando. Ela também falava que ele deveria fugir, pois todos os irmãos de Ísis, além de Osíris, estavam-no procurando. E Amon, que sabia de muitas histórias parecidas, preferiu colocar a espada na cintura e se aprontar para o pior.
A luta de Amon e Osíris foi assistida até pelos anjos, desde a vida além da morte. Ambos eram espadachins magníficos, e as feridas nos braços, nas pernas, terminaram quando Osíris desmaiou ferido de morte. Como a morte se pagava com a forca na cidade de Gênova, Amon fugiu da cidade com destino a Roma, em seu cavalo preto, enquanto soldados o procuravam em cada casa próxima à de sua família.
Num dia ensolarado, Ísis viu uma freira que caminhava diferente pelo pomar. Ísis foi chegando perto e, quando ela levantou o véu, viu o rosto de seu amado Amon, que lhe fazia sinais para guardar silêncio. Então ela, como autômata, seguiu-o com destino às latrinas dos guardas – um lugar fedorento, solitário, com uma porta pequena, totalmente arrombada de fora. Antes de sair, Ísis trocou as roupas, e correram a cavalo em direção às catacumbas romanas.
Sem falar nada, entraram nas tumbas abandonadas como quem entra num palácio real, pois estavam novamente juntos, e podiam se amar na solidão daquele lugar. Ísis puxou sua roupa com afobação e Amon abraçou-a com garras de aço. Estenderam uma manta no chão, onde sentaram; as bocas se esfregaram uma contra a outra, num amoro que seria interminável. Depois dormiram nesse chão batido, duro, sujo, enquanto a escuridão começava a inundar as cavernas.
Sobre o futuro eles não pensavam, pois aquilo não existia mais. Amon era um condenado à morte, procurado pela lei, e Ísis, uma noviça foragida. Podiam fugir, mas assim que os descobrissem, suas vidas terminariam em tragédia.
Os últimos dias de Ísis e Amon foram realmente tristes. Sem mais nada para comer, enfraquecidos, saíram pelas ruas de Roma durante a noite, e adentraram numa fonte rodeada de esculturas milenares. Cortaram os pulsos e se apagaram, abraçados, na escuridão. Seus corpos, boiando em meio a uma fonte vermelha de sangue, foram encontrados ao amanhecer.
Na vida espiritual, oito anjos os receberam com remédios, para que recuperassem as forças perdidas, sem parar de rir às gargalhadas. Eles estavam festejando, pois ganharam uma aposta contra outros anjos, que alegavam que Ísis casaria com Osíris. Eles haviam apostado que Amon iria matá-lo sem dó. Amon lembrou-se de tudo subitamente, de seu ciúme doentio, do medo de perdê-la, e a beijou com o rosto banhado em lágrimas. Estava comprovado que ambos eram loucos de paixão um pelo outro. Em seguida, pediram para que esses anjos os casassem pela “eternidade da existência”.
E, para festejar esse casamento divino, os anjos convidaram todos os filhos, netos, bisnetos e tataranetos de Ísis e Amon, numa cerimônia na Ilha de Creta. Eram umas quinhentas mil lindas crianças de olhos azuis, algumas com cabelos negros como Amon, já outras com cabelos dourados como Ísis, ou com seus olhos cor de mel.
Depois, voaram para uma longa Lua de Mel, numa pequena Lua de Júpiter. Olharam para seus filhos Ares e Afrodite, que trabalhavam num laboratório espacial, em cujo lugar as plantas trazidas da Amazônia se multiplicavam como mágica. E Amon perguntou-lhe:
— Nascemos aqui, com eles? Ou preferes que retornemos para a Terra?
— Um descanso seria bom, mas retornaremos daqui a uns quinhentos anos, ou mais do que isso, talvez... O que achas?
— Acho bom, pois vamos viver centenas de anos grudados como duas lesmas! Eu vou beijar assim que a veja nessa escolinha infantil... só para compensar nossa última encarnação... Amor, eu sofri demais!...
— E eu? Nunca imaginei que o amor podia causar tamanha dor... meu peito tinha uma faca cravada, de dia e de noite... eu não sei viver sem você...
E, mais uma vez, com os rostos molhados, se beijaram docemente, preparando-se para uma vida civilizada, num lugar onde jamais eram separados dois amantes como eles. Ísis nasceria filha de Afrodite, que era casada com Apolo, e Amon encararia como seu primo, filho de Helena, esposa de Ares.
Na altura dessa vida, dos amigos que abandonaram a Terra, Zeus e Hera, com Set e Ester, já haviam partido para Angor fazia alguns anos, mas Noé ainda estava por lá, pois deixar Apolo sozinho partia seu coração e, além mais, era o eterno pai de Ares desde que chegaram nessa Lua a fazer pesquisas. Quando ele e Andrômeda descobriram, na creche, que seus netos eram seus amigos, nem sabiam o que pensar, pois corriam o perigo de ser mais uma vez contaminados com a louca ideia de tentar salvar os Earthman de seus erros humanos. Mas, Noé, telepata experiente, falou para todos com a voz rouca de emoção:
— Que nada, eles só estão aqui para namorar...
Depois os encheram de beijos e afagos, pois teriam centenas de anos pela frente para saber sobre tudo que estava acontecendo na Terra.
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