Olimpo esquecido

3 Os Homens da Terra


Notas iniciais
E a vida de todos eles mudou de vez. Noé começou a construir os carros, maiores, para transportar madeira. Já Toth fazia as mudas trazidas da Amazônia se multiplicarem, trabalhando no meio da Ilha Mikonos, com os agricultores. Na África, Set cortava madeiras, e, junto com Zeus, levavam-nas diariamente para as ilhas gregas, descarregando-as junto ao comboio que chegava das Américas.

Os casais que ficaram na África após o acidente, entre os atuais Nigéria e Camarões, em pouco tempo não eram mais os homens elegantemente trajados que um dia aterrissaram no planeta. Suavam tanto, que os maridos enrolavam um tecido e o cingiam na testa para conter o suor. As mulheres encurtaram todas as saias e os vestidos, deixando-os bem acima dos joelhos. Nos pés, só eram usadas as botas altas para evitar mordidas de cobras e mosquitinhos. Com os cabelos eram feitas tranças, rabos de cavalo, ou coques em cima da cabeça.

A cidade deles foi planejada por Noé e seus engenheiros. Eram casas sobre altas palafitas, janelas com vidro, móveis modernos trazidos do interior da nave, junto a fogões que ardiam sozinhos e geladeiras que congelavam tudo sem necessidade de energia. Era pura mágica. Fora ou dentro da nave esses artefatos se nutriam de algo que aqui na Terra era desconhecido, o futs, uma energia que existe no ar, recebido diretamente do Sol, mas que se expande qual oxigênio.

No entanto, o que eles necessitavam ia além de dormir em camas confortáveis e desfrutar da vida em família. Em rodas de amigos, concordavam cada vez mais que havia que se percorrer o mundo, conhecê-lo, descobrir um lugar apropriado para levantar uma cidade superior – como em Angor – e tudo isso requeria afazeres diferentes. Era imprescindível examinar cada árvore, cada pedra, à procura de substâncias naturais para fundir a “metalponita”, cujo material era básico para a construção civil, muito mais dura que o aço, porém mais leve que o isopor.

E, pouco a pouco, novas tarefas foram sendo assinaladas para cada um. Com os destroços da nave desenharam um protótipo de um carro, e, enquanto Noé e seus mecânicos o construíam, o resto dos homens saiu à procura de matéria-prima. Para as mulheres foi solicitado o desenho da cidade, afinal, a maioria eram engenheiras de construção.

As engenheiras Hera – mulher de Zeus – e Andrômeda – mulher de Noé – iniciaram o desenho das plantas da cidade empolgadíssimas, junto a oito amigas talentosas. A cidade teria que ser aérea para evitar os terremotos, as enchentes que inundavam a selva, o gelo que cobria os continentes a cada doze mil anos e as erupções dos vulcões. Para gerar o clima ideal dentro dela, teria que ser coberta com uma cúpula ou uma pirâmide de cristal. E decidiu-se por uma pirâmide, que flutuaria a uns sessenta metros acima do chão, o suficiente para os carros saírem e entrarem voando de dia ou de noite.

Quando o protótipo do primeiro carro ficou pronto, Noé convidou Zeus e outros amigos para dar a primeira volta ao redor do mundo, pois entravam nele umas vinte pessoas, com folga. Set – filho de Zeus e Hera – pulou sem pedir licença, com sua namorada Ester. Andrômeda sentou-se ao lado de Noé, para ver tudo de frente, ao lado do leme. Em seguida subiram Toth e os agrônomos, os geólogos e quem conseguiu sentar. Na verdade, o carro era como um iate moderno que voava no ar, flutuava sobre a terra, a uns 50 cm sobre ela, e navegava no mar. Então, eles voaram sobre o Atlântico direto para o oeste, em busca de aventuras.

Quando viram um outro continente, com um matagal verde profundo, o coração de todos começou a bater aceleradamente. Assim que viram a horta anteriormente arrebentada brilhando ao Sol, Toth começou a enternecer-se. E, pouco a pouco, eles desceram no coração da Amazônia, onde as matas de Angor se multiplicavam loucamente. As sementes eram espalhadas pela chuva e pelo vento, os bichos comiam os frutos com gula e semeavam a selva com seu cocô cheio de nutrientes. As mangas eram devoradas pelos macacos; as jacas, pelos guaxinins; os maracujás, os abacaxis, tudo estava alimentando uma fauna magnífica.

Zeus e Noé sentaram no chão com suas mulheres, arrasados pela emoção, pois um pedaço de Angor estava em redor. Levariam tudo para o outro continente e, no futuro, para a cidade flutuante. Além do fato de que o material para fazer a “metalponita” estava em todo lugar. Set, especialista em fundição, foi encontrando raízes de matas desconhecidas e as foi arrancando, guardando para pesquisa. A mãe Terra mais uma vez os impressionava com tanta fartura. Era como se os anjos tivessem semeado o planeta com batatas, mandioca e frutos selvagens deliciosos. Havia espécies diferentes de laranjas, melancias gigantes, melões... a Amazônia era um verdadeiro jardim do Éden.

Continuaram nessa viagem ao redor do mundo. Percorreram toda a Ásia e, quando chegaram ao Mar Egeu com seu arquipélago, ficaram pasmos ante tamanha beleza. Podia-se construir a “cidade do futuro” flutuando por cima de uma ilha e cultivar os suprimentos nas demais. Desceram em todas, examinando a riqueza do solo, a umidade do ar, e a escolhida foi Delos. Já Mikonos seria transformada num jardim do Éden, e o lugar onde se levantaria a fundição para produzir a metalponita.

E a vida de todos eles mudou de vez. Noé começou a construir os carros, maiores, para transportar madeira. Já Toth fazia as mudas trazidas da Amazônia se multiplicarem, trabalhando no meio da Ilha Mikonos, com os agricultores. Na África, Set cortava madeiras, e, junto com Zeus, levavam-nas diariamente para as ilhas gregas, descarregando-as junto ao comboio que chegava das Américas.

Os engenheiros construtores acamparam de vez em Mikonos, para fazer os moldes dos condutores de futs, a energia que seria captada do Sol. Esses condutores fariam a cidade flutuar entre nuvens, absorvendo o futs e espalhando-o para cima e para baixo da plataforma principal. E o futs, extraído diretamente do Sol, nutriria tudo nessa cidade, desde carros até patins, eletrodomésticos dentro de casas, os robozinhos que haviam sobrevivido à queda da nave... Além do mais, o ar da cidade seria também diferente, pois os homens nunca envelheceriam, e as matas nunca apodreceriam.

Quando a “água régia” da metalponita ficou pronta, os moldes dos condutores de futs foram sendo preenchidos e, logo em seguida, submetidos a temperatura fria – com gelo carregado dos Alpes – e, por último, desintegrados com o olhar, para extrair a forma interna. A peça modelada foi então polida e coberta com cera de abelhas. Ela tinha o tamanho de um carro, porém era mais leve que uma pena de avestruz. Depois começaram os afazeres para construir a plataforma da cidade, uma prancha gigante, com capacidade de suportar em cima uma cidade para cem mil pessoas.

Desta vez, a metalponita começou a ser jogada sobre um campo de areia aplanada que, em seguida, era alisado com a mirada, já que o “poder da mente” sempre era usado. Ele fazia parte da profissão de todo engenheiro de Angor. Com o olhar faziam a mistura se mexer, em seguida sair da fundição como um rio aéreo, voando em direção ao chão, e depois ela se espalhava como manteiga derretida, conforme a vontade dos construtores.

Quando essa plataforma foi acabada, fizeram-na subir a uma altura de l,80 m, que era a altura média de todos eles. Enquanto alguns usavam a Psicosinesse para mantê-la no ar, outros construtores grudavam os condutores de futs, embaixo dela, com a distância de 100 metros entre cada um deles.

E a plataforma nunca mais tocou o chão, pois o futs entrou em ação no ato, e ela ficou esvoaçando no ar, à espera de ser transformada em uma cidade. Foi a vez de construir as casas, e os canteiros com árvores e plantas coloridas, para enfeitar as avenidas. Também foi acrescentado um pequeno lago aéreo, por cima de um edifício de oitenta andares, onde se concentrariam as águas para nutrir toda a cidade. Já as águas sujas seriam purificadas numa usina especial, construída no centro de um jardim botânico.

Mas, um dia, algo inesperado aconteceu. Os carros aéreos com madeiras da África não apareceram. Noé os chamava com telepatia, mas ninguém respondia. Parecia que estavam todos mortos. E como toda a frota de carros estava na cidade africana, os engenheiros começaram a fabricar um carro de metalponita às pressas.

No dia em que os gorilas africanos enlouqueceram, Ester estava perdida no mato recolhendo argila para seus vasos. E foi por esse motivo que ela foi a única mulher que se livrou do estupro e do massacre coletivo. Seu namorado Set, por sua vez, foi o primeiro a desmaiar com pedradas na cabeça e depois seu cérebro foi esmagado no chão com patadas ferozes. Zeus, que correra para defendê-lo, seguido pelo pai de Ester, tiveram o mesmo destino. Hera, paralisada, pois os gorilas matavam somente aos homens, começou a desintegrá-los com a mirada. Mas desmaiou com um golpe na nuca e, em seguida, seus braços foram amarrados e foi vendada com um pano para que não enxergasse. Então sentiu um estupro coletivo, que demorou longo tempo. E o que era pior que a dor, é que esses animais eram férteis. Ela estava sendo inseminada com um filho que seria metade homem e metade besta. Desmaiou num momento qualquer, sem que isso fizesse diferença, pois a rodada de amantes peludos não tinha tempo para terminar.

Sobre uma árvore, Ester viu tudo de longe. Petrificada com a visão, ela logo reagiu, dilatou as pupilas e enviou um raio de morte. Começou pelos machos estupradores, em seguida com as macacas que os acompanhavam, com os filhos, os bebês de colo; ela não se deteve até fazer pó de toda a manada de gorilas. Depois desceu e começou a girar os corpos com as cabeças arrebentadas. Seu pai, seus três irmãos, junto a todos os maridos e namorados das mulheres estupradas. Assim que Ester encontrou seu amado morto, ela começou finalmente a chorar. Primeiro foram lágrimas de desespero, mas em seguida desmaiou sobre o corpo dele, sem mais desejo de viver.

Quando Ester recobrou a consciência, tinha se passado muito tempo. Hera tentava consolar as mulheres mais jovens, que não conseguiam entender por que esses animais tinham enlouquecido. Mas Hera lhes explicava que eles não pertenciam ao reino animal, eles deveriam ser Earthman, homens encarnados no corpo de um animal. Com certeza, espíritos migrantes de um mundo civilizado que não conseguia controlar o fascínio por mulheres lindas como elas.

Em Angor, quando um cônjuge morria, seu companheiro tinha autorização para o suicídio. Elas iam para o cemitério, onde um raio as fazia dormir o sono da morte. Mas, aqui na Terra, embora pudessem se suicidar, havia que se ter a consciência de que todas elas estavam grávidas, e, matar um ser humano, dentro do ventre, era proibido; não pelas leis dos homens, mas pelas leis cármicas. Deveriam ter os bebês, deixá-los aos cuidados de uma manada de símios amorosos, e depois poderiam se suicidar num lugar qualquer.

Mas Ester não se juntou a Hera nem a sua mãe para dar palpites. Ela nunca mais falou, negou-se a comer, e um dia entrou no mato em busca da morte. Já Hera e as mulheres grávidas preencheram uma mochila com mantimentos e rumaram para o Sul da África, em busca de símios amigáveis.

O dia em que Noé chegou nessa cidade só encontrou os cadáveres, o lugar abandonado, e uma carta de Hera que lhes contava sobre tudo o que havia acontecido. Para piorar, ela estava fechada à telepatia, e ele não soube para onde se foram.

Enquanto Noé chorava como um guri, abraçado a sua mulher, Toth e seus amigos desintegravam os corpos, desintegravam as moradias, os destroços da nave, pois eles levaram poucas coisas para Delos: apenas uma antena que nunca funcionara e os carros para transportar árvores da Amazônia. Definitivamente, a África seria evitada pelo resto de suas existências, pois os Earthman, com certeza, perambulavam por todos os cantos da selva africana.

Examinaram de longe o povoado de Amon, e suspiraram aliviados. Não havia mais do que macaquinhos bem miudinhos ao redor, numa área de muitas milhas. Mesmo assim, Noé lhes enviou uma cerca de energia, como proteção, para que nada acontecesse com esses pequenos. Afinal, o mais velho dessa turma era Amon, um gênio precoce de dezoito anos.

Notas finais
O dia em que Noé chegou nessa cidade só encontrou os cadáveres, o lugar abandonado, e uma carta de Hera que lhes contava sobre tudo o que havia acontecido. Para piorar, ela estava fechada à telepatia, e ele não soube para onde se foram.