Notas iniciais
Quando casaram, em Olímpia, uma sacerdotisa os abençoou, falando que o amor era algo sagrado que só as mentes altruístas desfrutavam pela eternidade. Entre os Earthman isso seria conhecido “algum dia”, no mínimo em mais uns trinta mil anos. Então, havia que se agradecer o privilégio de ser um homem de Olímpia: forte, saudável e feliz. Ísis começou a chorar, pois era a primeira vez que ela casava com alguém, e era com um homem que só pensava nela, que só olhava para ela, hipnotizado por sua beleza.

Noé e Andrômeda morreram com mais de mil anos na cidade de Olímpia, deixando uma vasta descendência, embora tiveram um único filho, Apolo, o primeiro a nascer em Olímpia. Mas Apolo, por sua vez, teve muitos filhos. Ele puxou seu chip dos testículos aos quinhentos anos, e foi engravidando Afrodite a cada vinte anos. Dessa maneira, Noé e sua mulher morreram rodeados de muitos netos e bisnetos.

Durante todo esse tempo vivido em Olímpia, Afrodite e Ares, além de derreter o coração desse povo gentil, entraram no estudo das ciências e ajudaram a embelezar a cidade. E, quando a cidade lotou de gente, ajudaram Noé na construção de Angara, no meio do Mediterrâneo: uma cidade flutuante, com uma cúpula de cristal que a protegia do clima, e que servia como área de lazer. Os jovens chegavam a desfrutar dos hotéis servidos por robozinhos encantadores, numa paisagem de árvores coloridas e avenidas com todas as frutas deliciosas da terra.

Noé e Andrômeda morreram no cemitério de Angara, algo assim como um SPA moderno, com muitos jardins, piscinas e uma sala translúcida que mostrava a exuberância da beleza exterior. Noé tomou sua mulher nos braços e a estendeu sobre uma cama de cristal. E, em seguida, ele não fez nenhuma cerimônia para iniciar o chamego. Possui-a com vigor, até atingir o delírio que nunca terminava, pois ficava preso no cérebro, num devaneio eterno. Nem perceberam quando estavam fora dos corpos, flutuando no ar, enquanto o prazer do amor diminuía aos poucos. Enquanto isso, um raio vermelho desintegrava seus corpos, e eles estavam definitivamente “mortos”.

Como a morte era ainda mais deliciosa que a vida, eles voaram até a Lua para continuar o namoro. No lado semiescuro, entre a luz do Sol e a escuridão mais profunda, Andrômeda caiu por cima de seu homem, quando ele bateu de costas nas areias. Beijou-o com doçura, e sentiu que as caricias não teriam tempo para terminarem. Enquanto a Lua, e eles mesmos, giravam ao redor da Terra, nesse amor sem fim, aqui na Terra, Apolo e Afrodite também decidiram morrer. Eles haviam dedicado uma vida a fazer de Olímpia e Angara obras fantásticas da engenharia superior, a fim de que nada faltasse para a felicidade dos homens de Angor. Depois da morte, voaram direto para Marte, para fazer amor sobre as areias escaldantes. Apolo se estendeu de costas, enquanto Afrodite começava a seduzi-lo. Ele pulou como uma cobra, boca escancarada, e beijou-a, mordendo seus lábios. E, rindo, Afrodite entregou-se à paixão eterna. Afinal, era dona do homem mais belo de Olímpia, de Angara, da Terra e, talvez, de todo o Universo.

No entanto, depois de anos namorando sem trégua, Noé e Andrômeda sentiram o chamado da selva. Vestiram suas roupas elegantes e voaram direto para a África, onde encontraram os espíritos de Zeus, Set e Amon abraçados às esposas, numa conversa sem fim, já há muitos anos.

Zeus e Noé correram para o abraço, e Hera e Andrômeda se abraçaram chorando. Afinal, o ataque dos Earthman estava cravado na mente de todos, e, em Olímpia, isso era ensinado às crianças na primeira aula de escola. Todos sabiam que na África havia uma manada de Earthman, nascidos com DNA de Angor. E Noé finalmente perguntou-lhes:

— Mas... por que motivo nunca reencarnaram em Olímpia?

Hera respondeu-lhe:

— Por causa dos filhos Earthman, dos quais estamos cuidando como bebês. Eles morrem aos sessenta anos e, então, durante a vida espiritual, ensinamos-lhes muita coisa.

Noé perguntou novamente:

— Mas, eles não deveriam ter desaparecido? Soubemos de cinco inundações na África que mataram muitos Earthman. O que é que fizeram?

Zeus respondeu-lhes:

— Usamos a telepatia quando eles estão encarnados, pois, por incrível que pareça, eles nos escutam. As migrações são guiadas por nós. Eles acham que falam com “Deuses”.

Noé retrucou:

— Não vão poder fazer isso pela eternidade. Além do mais, os estupradores também reencarnam, e sempre irão matá-los como a baratas.

Foi a vez de Amon entrar na conversa:

— Eu tenho um plano. É meio louco, mas eu amei minha vida de índio e Ísis mais ainda. Queremos nascer entre eles. Ensinaremos a eles como se defender. Acho que podemos mudar o futuro deste mundo.

Noé ficou pensando, então, pois era um bom plano. Nasceriam feios, viveriam nus, peludos, fedorentos, mas o plano era bom. Olhou para sua mulher, que lia seus pensamentos como livro aberto, e perguntou-lhe:

— E daí, meu amor, o que gostaria para nossa próxima reencarnação? Nascer macaca ou nascer de novo como uma Deusa?

— Deusa? Eu diria escrava, pois eu inventei essa cidade com Hera, levantei-a no ar ao seu lado, e ralei construindo casas... eu trabalhei cada dia de minha vida. Nascer como macaca será férias para mim: só vou abrir a boca para comer e beijar você, e vamos namorar o tempo todo. Vão ser só uns cem anos de feiura... foi o que Ísis e Amon viveram... depois encarnaremos em Olímpia para recuperar nossa formosura...

Ísis entrou na conversa:

— Eu vivi atracada em árvores e posso disser que é afrodisíaco. O encontro amoroso fica mais selvagem, né, amor?

Amon respondeu-lhe:

— Maníaca, você vai ser uma macaca deliciosa...

Set falou, com tristeza:

— Bem, sinto muito, mas Ester está traumatizada. Ela odeia esses peludos. Porém, desde Olímpia, eu os rastrearei para protegê-los. E acredito que não vamos ficar neste mundo por muito tempo assim. Vou colocar uma antena na Lua, e os cientistas de Júpiter vão nos rastrear, mais cedo ou mais tarde. E vocês irão junto, eu não vou deixá-los para trás.

Apolo e Afrodite, que estavam chegando, escutaram tudo de longe e gritaram:

— Não acredito que vão nos deixar fora dessa aventura!...

Ísis correu a abraçar sua filha, com lágrimas nos olhos, enquanto Apolo era mimado como um guri por Noé e Andrômeda. Depois Ísis falou para Afrodite:

— Mas vamos nascer horrorosos, e vocês são tão lindos!... Não façam isso, minha querida.

— Mãe, eu nasci no mato, conheço a selva africana como a palma de minha mão, e Apolo está mais do que de acordo, né, meu querido?

E ele respondeu, abraçado aos seus pais, olhando para eles:

— Eu não abandono meus velhos para nada; além do que vamos nos proteger uns aos outros.

Em seguida todos se abraçaram emocionados. Set partiu chorando, jurando a si mesmo que cuidaria deles, como babá, durante uns cem anos. Em Olímpia, os homens ainda eram solteiros nessa idade; aventureiros, dedicados apenas à busca da felicidade, e Ester, com certeza, nunca o acompanharia. Ela detestava tanto os peludos que podia matar um deles.

Então os oito aventureiros encarnaram numa tribo pacífica, junto ao lago Vitória, no que hoje é o “Parque Nacional do Seringuete”.

Antes de encarnar, observaram os Earthman possuindo suas fêmeas ainda na moda primitiva: as fêmeas curvadas, para receber os machos por trás. Em todo lugar havia casais fazendo isso, até fêmeas com bebês pendurados no peito. Elas eram violentadas sem pedir licença: era só passar perto de um macho que eram estupradas no ato. Mas eram uma tribo que compartilhava a comida e se abrigava das penúrias do tempo fazendo casas de paus firmes ao redor de árvores, encobertas de folhagens. Abriam os cocos, bebiam o líquido e depois os quebravam para raspar a polpa. Catavam sementes de amêndoas, de nozes, comiam bananas e assavam peixes na beira da lagoa. Acendiam fogueiras e faziam jantares coletivos, geralmente peixe encoberto com folhas de bananeiras, acompanhado de batata doce e raízes de mandioca, assada entre as brasas.

Contudo, o que mais chamava a atenção eram os alaridos guturais e as palavras que gritavam entre eles. Os berros mais usados eram o de “perigo”, ou “socorro”, de meninos que chamavam os pais, diante de uma cobra venenosa ou de uma pantera ameaçadora. Os homens corriam a prestar auxílio com paus afiados em forma de lanças, e matavam as feras sem dó. Só que as palavras eram curtas: geralmente uma sílaba, no máximo duas, mas faladas em separado. Era um dialeto simples, mas que todos eles entendiam.

E os deuses encarnaram, foram muito bem cuidados, mamaram até os dois anos, sempre ao lado de mães protetoras, e, já mais crescidos, iam pescar no lago com os adultos. Eles enterravam uma estaca afiada nos peixes maiores, orgulhosos, se vangloriando de suas façanhas.

O nome que os pais deram para Ísis foi Al-amal; Amón foi chamado desde sempre como Rá; Hera foi nomeada como Is-tar; Andrômeda como El-isá. Apolo foi sempre chamado de Is-mar; Afrodite de Es-la; somente Noé e Zeus conseguiram convencer seus progenitores a dar-lhes o mesmo nome.

Proteger-se do assédio sexual dos adultos não foi necessário, pois Apolo deu uma surra tão violenta num macho, que eles ganharam o direito à monogamia desde pequenos. Nunca mais ninguém tentou roubar-lhes a mulher; e Amon, Zeus, Noé e Apolo começaram a ser imitados por alguns jovens, formando um grupo de casais monogâmicos que, além de comer ao redor da fogueira, também sabia bater palmas, requebrar os quadris, pois Ísis inventara uma flauta para acompanhar as danças.

Entretanto, estavam num mundo selvagem, e uma chuva impiedosa caiu na África sem aviso. Set apareceu numa nave gigantesca por cima da tribo, e içou a todos no ar. Depois rumou para o Mar Vermelho para que continuassem a existência num lugar que hoje é chamado de Porto Sáfaga. A África foi inundada sem dó nem piedade, ocorrendo a transformação de selvas em savanas e savanas em desertos, devido ao fato de ela ter ficado inundada pelo período de quatrocentos anos.

Enquanto Set salvava as tribos africanas, dispersando-as para cada canto do planeta, os demais homens de Olímpia içavam a bicharada e a deixavam cair na Índia, na China, nas Américas, em muitas Ilhas, numa corrida contra o tempo, nos lugares onde a terra era rica em frutos, água e clima agradável.

Mas, no Porto Sáfaga, Set desceu com uns vinte agricultores e distribuiu uma tenda de pano para cada família, além de alfombras coloridas. Nos dias seguintes, ensinou-lhes a cuidar de cabras para obter o leite, a plantar legumes, a fazer cumbucas de argila como panelas para a sopa, a tomar banho esfregando o corpo com ervas aromáticas e a socavar buracos coletivos, longe das moradias, para evacuar os intestinos. Set também lhes socavou um pequeno riacho, rodeado de tâmaras, maçãs, pêssegos, uvas suculentas, deixando-os no meio de um Oásis maravilhoso para perdurar a vida. Também domaram camelos para montaria, cavalos para ajudar na roça, e levantaram as primeiras casas de argila secada ao Sol. E como Set os ajudou a construir um relógio solar para saber sobre a passagem do tempo, os agricultores se aconselhavam, entre eles, sobre os segredos da boa agricultura.

Ísis e Amon passaram a correr a cavalo, se perdendo nas areias do deserto, para namorar olhando o Sol se pôr no horizonte, e regressavam antes que o frio e o negrume da noite os atingissem. Já em outras ocasiões organizavam competições de corrida a cavalos. Era quando homens e mulheres disputavam a chegada, entre gritos e torcidas, de filhos e familiares. Mas era nos dias de acampamento que a magia acontecia. Entre as areias, isolados da cidade, montavam as tendas em círculo, para acender a fogueira da noite e dançar ao redor mexendo os quadris. As mulheres se mexiam com extrema sensualidade, enquanto seus machos cantavam e batiam palmas. Quando entravam na tenda para dormir, Ísis se estendia sobre tapetes, olhando nos olhos de seu macho moreno, peludo, mas muito viril.

E em meio a essa vida cheia de tranquilidade, Ísis teve dez filhos, um a cada três anos, e seus filhos eram inteligentes e obedientes, e aprenderam a fazer os trabalhos dos adultos. Dessa maneira, os clãs dessas famílias numerosas deram origem às lendas da antiguidade. Noé ficou mais famoso por causa de seus discursos entre os clãs. Andrômeda teve somente um filho, pois Noé pediu para Set que lhe fizesse vasectomia. Mas Apolo lhes deu muito netos, bisnetos e tataranetos. E, rodeado de sua longa descendência, Noé contava histórias sobre a origem das estrelas, dos planetas, e sobre os homens. Ele explicava que muitos anjos desceram um dia na Terra para fertilizar os homens, portanto todos eram filhos dos anjos, e, como “filhos angelicais”, tinham a responsabilidade de cuidar do planeta.

Quando Noé morreu, estava com 150 anos. Foi a último a partir, como um avatar amado e chorado pela família e pelo povo. Todos os corpos foram queimados na beira do mar, como Set ensinara para todos os homens daquela tribo.

Na vida seguinte, Amon, Zeus, Noé e Apolo encarnaram em Olímpia, com suas esposas, para uma vida civilizada. Em Olímpia, eles namoraram desde a infância em escolinhas que eram um encanto. Sempre de mãos dadas, comiam o lanchinho. Aprenderam a ler e a escrever, desenvolveram os poderes da mente, e decoraram o mapa da Terra nos mínimos detalhes. Quando chegaram à adolescência, estavam prontos para duas coisas: entrar na universidade para estudar todas as ciências e começar um namoro mais quente, em qualquer lugar do mundo.

Ísis e Amon voaram num carro pequeno com destino a uma Ilha do pacífico, sem nenhuma tribo de Earthman por perto. Perderam a virgindade ao lado de uma cachoeira maravilhosa. Ao cair da noite, Amon estendeu uma manta embaixo de matas pequeninas, como fizeram a primeira vez que se amaram na selva africana. O perfume do ar, o canto dos passarinhos eram afrodisíacos divinos, e Amon só desejava fazer uma única coisa: namorar sua mulher, durante mil anos. E Ísis ansiava a mesma coisa: deixaria a maternidade para a velhice, e viveria dia e noite grudada em Amon.

No entanto, em Olímpia e Angara, havia um rodízio de trabalho muito organizado. As catástrofes, que varriam os Earthman como baratas, eram acompanhadas através do “Espelho vivo”, uma placa de metalponita que funcionava como um televisor, mostrando as desgraças humanas. Os homens de Olímpia resgatavam sobreviventes de terremotos, maremotos, geadas impiedosas, vulcões que enlouqueciam, e os levavam para selvas com mandioca, milho selvagem, uvas, frutas fartas e um rio com peixes para continuar a existência. E Ísis e Amon foram chamados ao batente com berros telepáticos. Um tsunami avançava em direção a Papua Guiné, e eles voaram por cima desintegrando a onda, que aos poucos foi diminuindo de altura e não matou ninguém.

Quando casaram, em Olímpia, uma sacerdotisa os abençoou, falando que o amor era algo sagrado que só as mentes altruístas desfrutavam pela eternidade. Entre os Earthman isso seria conhecido “algum dia”, no mínimo em mais uns trinta mil anos. Então, havia que se agradecer o privilégio de ser um homem de Olímpia: forte, saudável e feliz. Ísis começou a chorar, pois era a primeira vez que ela casava com alguém, e era com um homem que só pensava nela, que só olhava para ela, hipnotizado por sua beleza. Como eles liam o pensamento um do outro, Amon lhe falou: “Eu também estou casando pela primeira vez, nesta vida, e em todas as encarnações do passado”. Em seguida se beijaram, com os rostos molhados. A eternidade sempre os juntaria, fosse como deuses de Olímpia ou como gorilas peludos.

E os milênios se alastraram na doce rotina. Milênios como vivos, milênios como espíritos errantes. Quando nasciam em Olímpia, Ares e Afrodite eram seus filhos novamente, e eram mimados como a primeira vez que nasceram na África. Até que um dia entravam no cemitério para morrer, depois de uma vida de trabalho, viagens ao redor do mundo e amor ardente em cada dia vivido. Afinal, os homens de Angor nunca envelheciam, jamais ficavam senis, já que a energia que circulava nas cidades vinha diretamente do Sol. O futs, algo conhecido apenas pelos mundos do além da Terra, nutria-os como a mais preciosa dádiva universal.

Foi ao redor do ano 20.000 que os oito aventureiros, Apolo, Amon, Zeus e Noé, junto a suas mulheres que sempre os acompanhavam em todas as loucuras, encarnaram de novo entre os Earthman, rindo do futuro. Ninguém em Olímpia conseguia entender essa mania de reencarnar como homens cheios de pelos que nunca tomavam banho e defecavam se limpando com folhas do mato.

E encarnaram no lugar que hoje é conhecido como Bangladesh, no Golfo de Bengala, que, além de ser um paraíso tropical, possuía uma fauna muito mais rica do que a África. Os elefantes eram um pouco mais baixinhos, o que permitia montá-los para percorrer a selva. E eram tão inteligentes que ajudavam os homens a carregar troncos pesados para construir moradias. Afrodite era apaixonada pelos tigres. Ela os alimentava na boca com pedaços de carne ou frutas, e caminhava pelo mato rodeada deles.

E foi na Índia que a civilização dos Earthman começou. Uma tribo de três mil homens construiu a primeira cidade da Terra, com pedra sobre pedra e esculturas gigantes de animais e de homens. Set conseguiu ensinar-lhes muita coisa: além da tecelagem, a cerâmica e a agricultura. Os homens da Índia aprenderam a cortar pedras de calcário com ferramentas bem primitivas, que eram como martelos e formões de pedra de meteoritos, uma pedra duríssima, que servia para socavar pedras gigantes com maestria. Também aprenderam a colocá-las em encaixes perfeitos, sempre se ajudando com os elefantes na força bruta. A fim de nunca faltar água, fizeram córregos vindos de rios, para alimentar poços gigantes no centro da cidade.

Ares, que acompanhava Set para proteger sua família contra hordas selvagens, preferia vigiar as tribos vizinhas e limpava os arredores de assassinos. Catava-os como quem pesca peixe, com um raio de luz, e levava-os para lugares muito distantes, planícies da Mongólia ou tribos africanas isoladas pela geografia.

Desta vez, todos os amigos tiveram uma história de muito trabalho. Apolo subia pedras no ombro; Ísis esculpia rostos em blocos enormes; Afrodite, Hera e Andrômeda se perdiam ensinando a cultivar o arroz selvagem, a mandioca, o milho, rodeadas de mulheres que haviam perdido aparências de bestas e mostravam corpos bem torneados, cabelos longos e sedosos, e um sorriso encantador. A linguagem desta vez era fluída, com um dialeto de muitas palavras, então a comunicação entre os homens era com diálogos longos.

Ísis teve dez filhos novamente, aos quais Amon passou o máximo de conhecimento. Ensinou-lhes sobre a origem do universo, a origem dos homens, e sobre como a vida era transitória porque, depois da morte, nascíamos novamente, e que era dessa maneira que eles sempre seriam seus filhos, pela eternidade da existência. Ísis ensinou, desta vez, para suas filhas sobre como dar felicidade ao marido na cama, e de como era importante que o sexo fosse feito todos os dias, pois o corpo necessitava de três coisas: da comida, do ar e da energia vital, a qual entrava no corpo com fúria nos momentos do prazer maior, e nada dava mais prazer ao ser humano do que o amor ardente.

Empolgados pela sabedoria que aumentava entre os homens da Terra, eles reencarnaram várias vezes, sucessivamente, para ensinar os Earthman a levantar cidades nos lugares que hoje são chamados de Birmânia, Camboja, Quirquistão, Bulgária, Azerbaijão e Hungria.

Porém, nem todas as vidas entre os Earthman foram tão bem-sucedidas.

Quando a pior tormenta de gelo caiu sobre a Europa, Ísis e Andrômeda davam de mamar a Afrodite e Apolo, numa tribo de Earthman, à beira do Mediterrâneo. Desta vez, Set e Ares apareceram com vinte carros aéreos e os deixaram numa caverna gigante nos Montes Urais. Carregaram cabritos, para que não lhes faltasse o leite; ovelhas, para que tivessem lã; e lhes ensinaram a fazer a horta hidropônica no interior da caverna. Ao redor de um pequeno lago, plantaram arbustos pequenos – que lhes dariam galhos para a fogueira –, capim para as bestas e frutas, como bananeiras, de fácil reprodução. A caverna ficou transformada num pequeno paraíso tropical, com comida abundante. Para iluminá-la, Set abriu vinte orifícios até a superfície, por onde entravam os raios do Sol.

Ester e Helena, esposa de Ares, carregaram vinte teares para lhes ensinar a tecer a lã e a costurar meias, calças, luvas e mantas grosas. Nessa altura de sua existência, Ester havia perdido o temor aos Earthman, afinal, já não eram mais peludos, havia gente bonita em meio aos primitivos: a maioria, tataranetos de Ísis, ou de Afrodite, que em cada vida se enchiam de filhos. Havia meninos com os cabelos loiros de Ísis e Apolo, outros que possuíam os cabelos vermelhos de Hera e os que possuíam os olhos azuis profundos de Amon.

Nas vidas seguintes, nasceram em Olímpia para recuperar uma vida civilizada, mas sempre vigiando seus descendentes, ajudando-os em tudo. Desciam num carro voador como deuses, e os homens os rodeavam com carinho. Cada menino de cabelos loiros fazia o coração de Ísis bater, mas nunca conseguia adivinhar de quem eram filhos, ou netos, pois Afrodite também dava à luz filhos com esses cabelos loiros, como Apolo, mas com os olhos azuis de Afrodite. Somente Hera sabia que os meninos de cabelos vermelhos eram seus descendentes. E ficavam entre eles em acampamentos, que duravam longos dias. Na Índia, aperfeiçoavam as ferramentas para escultura, pois já se fundia o ferro, o cobre e o bronze nas periferias das pequenas cidades.

Infelizmente, uma nave vinda de Angor, apareceu num dia qualquer para levar todos os homens de regresso a casa. Enquanto a alegria era geral, tanto em Olímpia como em Angara, Amon, Noé, Zeus e Apolo alegaram aos berros que não era certo abandonar os Earthman justo no momento em que aprendiam a levantar as primeiras civilizações da Terra. Deixá-los ao acaso do destino era cruel, insensato e mesquinho.

Mas ninguém lhes deu ouvido. Sequer Set e Ares, que não teriam como apoiá-los e protegê-los dali em diante. As cidades seriam destruídas, e eles não estavam a fim de seguir o exemplo dos pais e viver uma vida entre primitivos.

Foi no ano 8.000 a.C. que eles se foram. Toth organizou a evacuação geral, e eles partiram. Desde o ar, desintegraram as cidades de Olímpia e Angara, com todos seus tesouros, e não puderam dizer adeus aos oito rebeldes, pois eles estavam convertidos em “espíritos”.

Ares partiu chorando, aos gritos. Set o abraçou com carinho e lhe disse:

— Vamos até Júpiter, para trabalhar com os cientistas. Podemos voltar para a Terra a cada cem anos, como espíritos. O que achas? Meu velho não vai suportar muito, conheço-o; ao primeiro estupro eles abandonam a Terra...

— Tens certeza?

— Podes apostar que sim...

Notas finais
Mas ninguém lhes deu ouvido. Sequer Set e Ares, que não teriam como apoiá-los e protegê-los dali em diante. As cidades seriam destruídas, e eles não estavam a fim de seguir o exemplo dos pais e viver uma vida entre primitivos. Foi no ano 8.000 a.C. que eles se foram. Toth organizou a evacuação geral, e eles partiram. Desde o ar, desintegraram as cidades de Olímpia e Angara, com todos seus tesouros, e não puderam dizer adeus aos oito rebeldes, pois eles estavam convertidos em “espíritos”.