Olimpo esquecido
2 A chegada dos DEUSES
Notas iniciais
Na imensidão do espaço sem fim, uma espaçonave de carga fazia zigue-zague entre planetas e estrelas. No interior desse monstro metálico, viajavam os gênios especialistas em ressuscitar mundos que agonizavam, fosse pela seca ou pelo aquecimento global. Na direção da nave, o comandante Zeus olhava para a escuridão com preocupação, pois a Via Láctea estava ali em frente, com sistemas novos, turbulentos, com planetas minúsculos, a maioria sem vida humana. E seu destino estava ali em frente, num sistema solar com nove planetas rodopiando em redor de uma estrela, cada um com várias Luas, muitas delas prontas para dar início à vida vegetal.
Amon, um jovem piloto, interrompeu os devaneios de Zeus, aos berros. Com telepatia gritou-lhe que a nave estava com sobrepeso e havia perigo de colisão com os planetas. Zeus começou a correr entre labirintos para falar com Toth, pois a sobrecarga indicava que só podia estar na horta dos cultivos. Subiu uma longa escada, puxou a alavanca, mas a porta estava trancada por dentro. E começou a dar socos e gritos sem nenhuma educação.
Toth pressentiu a bronca do comandante e soltou sua amante afrodisíaca. Vestiu as roupas na corrida e abriu a porta para ver Zeus entrar com dificuldade. As plantas haviam crescido além do esperado, cobrindo cada espaço ali dentro. E Zeus continuou a gritar, exigindo que essa bagunça terminasse imediatamente. Teria que podar tudo e jogar o lixo para fora com desintegração no meio do espaço. Nada podia ser eliminado ali dentro. Teria que esticar o pescoço pela janela para fazer tudo pó, se assim precisasse. Depois girou a cabeça em busca de Ísis, a namorada de Toth, e a mandou cair fora e não aparecer na sua frente até que chegassem na Lua de Júpiter. Em seguida, saiu desse lugar indignado porque bateu a canela num jacarandá.
Toth viu sua namorada se perder nos corredores, com um sorriso nos lábios. Era tão linda, que seu peito enchia de felicidade apenas ao olhar para ela. Mexeu a cabeça, para espantar a tentação de chamá-la de volta e começou a examinar as folhagens. Acionou oito robozinhos para ajudar e começou a cortar de tudo um pouco: galhos, raízes que haviam crescido demais. E quem as escolhera fora ele mesmo. Uma Lua de Júpiter receberia essas plantas, e haveria, em pouco tempo, um Éden na Via Láctea. Ele nunca pensara que elas cresceriam tanto assim. Em seguida, com um olhar, fez tudo levitar para a antecâmara. Fechou a passagem, abriu para o vazio, e depois foi enviando raios para converter tudo em pó – raios que saíam de seus olhos poderosos. Perguntou com telepatia para Amon sobre o sobrepeso e respirou aliviado, pois a nave estava mais uma vez equilibrada. Toth começou então a colocar vitaminas, regar mudas novas, cuidando desses verdes como se cuida de um filho.
Ísis esperou Toth na sala de música, onde os tripulantes estavam a festejar a vida. Nesse cômodo, sempre havia alguém atacando o piano, ou um trompete, e havia os que se empolgavam dançando. Juntou-se aos músicos e começou a cantar uma ária de uma ópera famosa em seu mundo. Quando Toth entrou na sala, ela estava entoando um “lá natural” que fazia tremer as vidraças. Depois, ela e Toth dançaram, beberam, até o desejo sexual tomar conta de ambos. Correram para a suíte, e pularam por cima de um colchão encostado no chão, quais crianças.
Enquanto a maioria da tripulação se divertia com a dança ou namorando nas suítes dessa nave, Zeus, ao lado de Amon e Noé, seu engenheiro, examinavam a rota. Amon diminuiu a velocidade e foi se preparando para contornar o Sol. Girou ao redor dele como um capitão de navio, enquanto Zeus e Noé marcavam a rota até Júpiter. Mas, de repente, a nave começou a tremer. Examinaram o computador e viram horrorizados uma rachadura entre a horta e o corredor central. E, o que era pior, um planeta os estava sugando sem dó nem piedade.
Noé isolou a área da tripulação, lacrando portas, e começou a berrar para seus mecânicos para zelar a fenda e sacrificar a horta, enquanto Amon lutava contra a gravidade desse planeta e começava a girar em torno dele, numa altura prudente. A horta desprendeu-se como um bólido do corredor central, levando junto o laboratório, o telescópio, os retransmissores espaciais, entrando na atmosfera do planeta com destino desconhecido.
Levou tempo para Noé recuperar todas as bocas danificadas e equilibrar o oxigênio interno. Ele e seus mecânicos tiveram que sair da nave, lacrar tudo por fora, soldar peças soltas. No final desse trabalho, a nave estava reduzida apenas à área da tripulação, pois mal restavam o armazém das farinhas e a cozinha. A horta que os alimentava havia partido e, com sorte, chegariam até Júpiter, onde uma equipe de cientistas de seu mundo possuía cinco laboratórios espaciais, com cultivos diferentes, além de umas seis naves para regressar ao seu mundo.
Quando Noé destrancou as portas lacradas, a tripulação invadiu a sala de comandos com mil perguntas à boca. E Zeus mostrou-lhes em detalhes tudo o que havia acontecido. Explicou-lhes que as mudas que trouxeram para povoar a Lua de Júpiter estavam lá embaixo, naquele planeta em frente, portanto a missão deles havia fracassado. Chegariam a Júpiter de mãos vazias, para explicar a falha da empreitada aos cientistas desses laboratórios. Para cúmulo, estavam isolados, pois não havia como se comunicar nem com Júpiter nem com ninguém. Teriam que decidir o que fazer, continuar a viagem, ou descer àquele planeta em busca da horta, numa tentativa de terminar a missão. Mas teriam que estar todos de acordo, como mandava o regulamento espacial.
Como toda a tripulação quis descer em busca das plantas, Noé deu as instruções de pouso. Cada tripulante entrou numa cabine de segurança máxima, e Amon fez a curva para entrar nas camadas externas, cruzar a fornalha e descer voando como um pássaro gigante.
E foi assim que a vida dos “Deuses” teve início aqui na Terra. Eles se espatifaram no chão, num dia muito quente, na África, entre os atuais Nigéria e Camarões. Embora toda a tripulação sobrevivera, os danos irreparáveis da nave os fizeram entender, em pouco tempo, que eles estavam desterrados num mundo selvagem.
Os casais com filhos menores tentaram consolá-los sobre o triste destino. Como mandava o regulamento das viagens espaciais, para cada tripulante teria que haver alguém do sexo oposto, pois toda a tripulação haveria de ser sempre metade macho, metade fêmea, e era por esse motivo que os casados traziam um filho como convidado, ou um parente, ou um amigo, para fechar a metade que estava incompleta. O único tripulante solteiro com namorada era Toth. O resto dos jovens tinha que escolher com quem desejaria iniciar uma vida a dois.
No entanto, os jovens tomaram tudo com otimismo: em vez de pensar em namoro, começaram a se organizar para percorrer o mato em busca de frutas e de legumes. Uns dez robozinhos os acompanharam para carregar coisas nas costas ou matar bichos venenosos.
A tripulação, todos cientistas de renome, se reuniu ao redor de Noé com a intenção de construir uma antena para transmitir um pedido de socorro até Júpiter. Eles também desejavam levantar casas e construir tudo em forma de palafitas. Já as mulheres casadas ansiavam examinar o que havia sobrado no interior dessa nave: suprimentos de comida, sementes, além de mesas, camas, panelas, fogão, para distribuir entre elas – sempre rindo para dar um ar de otimismo ao lado dos homens. E Noé, ao lado de Zeus, organizaram tudo em longas conversas, sentados no chão, debaixo de uma árvore frondosa.
Ísis, que entrara nessa aventura por ser a mulher mais apaixonada do universo, tentou se conformar trabalhando. Entrou no mato com seus amigos solteiros. A mãe África fora generosa com os desterrados: havia raízes comestíveis, grãos de café, arroz selvagem, cevada para fazer cerveja, uvas para fazer vinho e frutas desconhecidas, porém deliciosas. Entre os jovens havia estudantes de tudo: agronomia, geologia, medicina... mas o que mais havia eram artistas como Ísis, quer dizer, gente totalmente inútil. E esses gênios da arte eram alvos de piadas todos os dias.
O que realmente começou a machucar o coração de Ísis foi seu amado: Toth, de amante insaciável, convertera-se em homem calado e frio. Trabalhava com Noé, ou se perdia no mato em busca de algum vestígio da horta. Como que rindo dele, a mãe África lhe mostrava as mais belas matas da criação, que mantinham a floresta úmida, quente, com milhões de passarinhos voando ao redor dele.
Ísis tentou consolá-lo de seus fracassos. Docemente, ela lhe falou, num dia qualquer:
— Não continue se machucando, meu amor; tudo não passa da vontade do destino.
— Destino? Se eu não tivesse conhecido você, nada disto teria acontecido.
— Mas... como assim?
— Eu sempre banquei encomendas importantes, e nunca aconteceu um acidente! Mas você entrou na minha vida e eu me transformei num irresponsável! Jamais deveria ter me seguido!
— Mas eu segui você por amor... você era tudo para mim... agora vejo que não passa de um cego presunçoso!
— Eu? Cego, eu? Quem é que você pensa que é? O que você tem de tão bom além de ser promíscua?
— Promíscua? Eu entrei na sua vida, virgem...
— Era virgem, mas é promíscua... só pensa em sexo... eu apenas sou um corpo para você...
O golpe das palavras foi tão avassalador, que Ísis saiu correndo em direção ao mato, chorando aos gritos, pensando sobre o que iria fazer com a sua vida...
Demorou para Ísis se acalmar. Enquanto corria sobre os galhos, ferindo as pernas, foi espantando a dor do peito, pois sentia-se suja, mal-amada, desprezada, envergonhada... na verdade ela era um lixo errante nessa selva primitiva... Com sorte, uma cobra a morderia no tornozelo e terminaria com sua vida miserável. Afinal, havia sido marcada. Todas as suas amigas jovens e solteiras sequer haviam beijado um homem. Quem é que iria querer casar com ela?
Assim que a noite escureceu tudo em redor, ela subiu numa árvore gigante, com a vã esperança de uma cobra terminar com sua vida. Estendeu-se de costas entre ramas firmes, e dormiu. Acordou com umas pedras batendo nela. Virou a cabeça, pensando que fosse a manada de macacos, mas o que descobriu foi Amon, agasalhado para excursão, com uma mochila gigante nas costas, olhando-a. Ele sorria com cara de patife, cinicamente, como sempre a olhara ao passar. E o escutou falar:
— Desce daí, pois eu tenho algo para te propor...
— E o que seria, posso saber?
— Sou o único sem mulher.... gostarias de viajar comigo para o norte, com uma turma? Como amiga; se o amor pintar a gente se amarra...
— Vou, como amiga! Mas Toth não pode saber de nada. Ele morreu para mim...
— Já providenciei isso, ele está tapado para qualquer contato telepático...
— Mas... isso é possível?
— Hummm... honestamente, é proibido em Angor; mas aqui estamos num planeta sem leis... Toth nunca vai conseguir falar contigo e muito menos comigo... Vai, pula logo!
— Promete que vai me respeitar? Em Angor, uma mulher que termina um namoro tem direito a trinta dias de “mulher intocável”.
Mas, assim que Ísis desceu de um salto, Amon correu a dar-lhe um abraço de urso, buscando sua boca para enchê-la com a língua...
— Para aí, cara! Qual é a pressa? E meus trinta dias, que acabei de pedir?
— Estou sem mulher desde que saímos de Angor... e estamos numa terra sem leis...
— Eu não acredito! Tem umas cinco mulheres loucas por ti!...
— Sim, eu sei. Mas eu estava esperando que Toth broxasse.
— Palhaço! Eu não o deixei por... por... causa disso...
E Ísis caiu aos prantos abraçada nele. Amon deu-lhe água de seu canil, sentou-a no chão, sem parar de acariciar seus cabelos loiros que caíam em cascatas douradas pelas costas. Assim que ela parou a choradeira, beijou-a com doçura para não a assustar. Mas Amon estava febril. Enquanto a beijava, pouco a pouco foi sendo cada vez mais ousado. Tinha presa em possuir essa mulher.
Quando Ísis desmaiou, exausta de prazer, Amon soltou-a e carregou-a para baixo de um mato baixinho, e estendeu-a sobre uma manta de sua mochila. Cortou uma maçã, descascou laranjas, comeu, e, assim que ela abriu os olhos, deu-lhe de tudo na boca. Deu-lhe água de coco, tirou-lhe a blusa molhada de suor, e Ísis amarrou os cabelos para cima. Depois olhou para Amon como a um macho, pela primeira vez. Era o homem mais lindo de Angor, e agora o homem mais belo da Terra. Perfil perfeito, boca carnuda, olhos azuis profundos, cabelos soltos ao vento e pretos como a noite.
Amon, por sua vez, estava nas nuvens. Havia amado essa mulher desde que a viu cantar pela primeira vez ao lado dos músicos de bordo. Dançando, ela era a pura perfeição. Mexia seus quadris generosos e seus seios balançavam com sensualidade. Não havia mulher mais bela do que ela naquela nave, e a havia amado em silêncio. Afinal, em todo mundo civilizado, uma mulher com namorado era “intocável”. Em Angor havia dois caminhos a seguir num caso como o dele: esperar pelo fim do relacionamento do casal ou fazer hipnose para esquecer. Mas Noé, casado e experiente, havia-lhe dito ao ouvido em certa ocasião: “Ele é um imbecil, um dia ela o larga”. E, assim que Ísis brigou com Toth, ele correu atrás da felicidade.
Então os dias transcorreram na doce rotina de se lambuzarem mutuamente com beijos e carícias ininterruptas. Quando a noite os cobria com seu negrume, dormiam grudados como lesmas, e, assim que a luz os iluminava, Amon começava a beijá-la e a falar-lhe nos ouvidos palavras ardentes de paixão.
Num momento qualquer, eles começaram a conversar sobre o futuro. Amon foi a primeiro a falar:
— Nunca corte os cabelos, pois sou louco por eles...
— Falo a mesma coisa, adoraria vê-lo com seus cabelos até a cintura... como um índio, afinal agora somos índios do mato, de verdade!
— Prometa que nunca vai me largar, e que vai ser minha até morrermos bem velhinhos!
— Prometo!
— E vai aprender a cozinhar para mim...
— Insolente! Sou cozinheira formada com louvor, minhas bolachas são únicas, você vai ver...
— Hummm... adoro comer, gosto de tortas com muito creme, frutas, sobremesas caramelizadas... Amor, vou engordar que nem porco...
— Se me agarrar como nestes últimos dias, a gente vai gastar toda essa energia...
— Verdade! Você nunca se cansa, meu amor?
— Não sei... com Toth era tudo tão diferente...
— NUNCA MAIS ME FALE O NOME DESSE SUJEITO E MUITO MENOS DE OUTROS AMANTES!
— Amantes? Quantos machos você acha que eu tive?
— NÃO QUERO SABER!
— Pois saiba que eu só tive UM! E você? Quantas damas foram?
— Hummm... não vou dizer...
— Haha!... cinquenta? Oitenta? FALA!
— Cinquenta.
— Mas que degenerado! Eu só tive um namorado e você comeu cinquenta mulheres! Afinal, você é o quê? Colecionador de fêmeas?
— Mas eu sou homem, sabia?
— E daí? Vai me colocar galhos na testa com a desculpa de que você é homem? Eu MATO você, seu patife!
— Eu vou ser fiel, juro, e você também vai ser. Você vai ser minha pela eternidade, nesta vida, na próxima vida e assim por diante...
E começaram a rir, a se beliscar, a dar mordidas no cangote, a fazer cócegas, rindo sem parar, até se beijarem com ardor novamente. Ísis agradeceu do fundo da alma para os “espíritos do além” por esse macho perfeito. Desta vez havia encontrado o amor completo, uma alma gêmea incansável para beijar, namorar, por um tempo que jamais imaginara. O prazer a nutria como a melhor de todas as comidas, pois não sentia vontade de fazer mais nada, só desejava que esse amor fosse eterno. Quando desmaiaram, e caíram de lado sobre a manta, Amon só teve tempo de cobrir seus corpos. Ao amanhecer, perderam-se na mata para esvaziar bexiga e intestino. Depois recolheram umas “frutas do conde” suculentas para fazer o desjejum. Em seguida, Amon olhou para os cocos e os fez levitar até ele. Abriu um buraco de um olhar, e pegou um pedaço de taquara para beber. Saciada a fome, dormiram novamente, enquanto Ísis acariciava seus cabelos.
Um dia, a turma que viajava para o norte os encontrou. Quando descobriram Ísis desgrenhada, olheiras de quem não dorme quase nada, as piadas começaram, pois Toth estava percorrendo a selva em busca dela. Então era possível que Amon corresse perigo de vida. Havia que se apagar os rastros.
Mas Toth nunca os seguiu. Terminou se consolando com o trabalho, odiando-se todos os dias por tê-la perdido. E, como todo homem civilizado, ele só tinha uma opção: esquecê-la, fosse com outro relacionamento, fosse com um hipnotizador. E hipnose era algo que ninguém da tripulação desejava fazer. A vida na Terra seria dura, impiedosa, e os homens deveriam enfrentar tudo com coragem.
Ísis, por sua vez, passou a lembrar de Toth como um amigo que deixara para trás. Amon foi tudo para ela, depois da primeira noite juntos, e dedicou o resto de sua vida a fazer todas as suas vontades. Enquanto abriam a trilha em direção ao norte, no tempo de descanso, eles entregavam-se à paixão por cima de árvores ou dentro das águas dos rios, e dormiam grudados a cada noite dessa nova vida.
No que hoje é Guiné-Bissau, eles levantaram acampamento à beira de um rio. Chamaram Zeus, com telepatia, para dar o endereço, e ele lhes deu alguns conselhos para levantar uma cidade. A madeira para construção deveria ser mogno ou canela, e essas árvores deveriam ser arrancadas com a raiz, e secadas na sombra. Cada buraco deixado pelas raízes teria que ser coberto com pedras, folhas secas, estrume e terra. Depois deveriam plantar neles mudas de bananeiras, ou macieiras, ou algo novo catado da selva africana. Recomendava cultivar cacau, ou café, pois o mato estava cheio deles.
As casas foram levantadas uma ao lado da outra com vista para o mar, para admirar o Sol se pondo no horizonte todos os dias. Dentro delas havia um cômodo grande com fogão a lenha; ao lado, mais um cômodo onde fora colocado um colchão inflável no chão. Numa outra sala, eles fizeram o local da higiene, com uma banheira redonda de madeira e um buraco para as fezes: fezes que seriam transformadas em energia invisível, desintegradas com um olhar. Sobraria apenas o cheiro, odor que as mulheres dissimulariam com vasos de plantas com mirra e outras ervas de aroma forte, cultivos carregados nas mochilas, e que aromatizaram anteriormente o interior da nave durante a viagem.
Mas, viver na Terra, exigiu-lhes outras coisas cansativas, como colocar em prática uma ciência que estudaram antes de viajar e que em Angor era chamada de “Tecnologias Primitivas”. Haviam aprendido Cerâmica, Tecelagem, Agricultura, Costura, Marcenaria, Vidraçaria, sem imaginar que isso iria ser praticado de verdade, alguma vez, num mundo inferior. Com o passar do tempo, todos teciam cortinas, colchas, tapetes. E construíram uma cervejaria, onde se faria também o vinho. Afinal, a cevada crescia no mato junto ao arroz, ao trigo, à cana doce e às parreiras que eles mesmos haviam plantado. As mudas de uvas começaram a crescer e florescer dando grãos doces, que eram apanhados com carinho e armazenados para fazer o vinho. As mulheres também fizeram a horta comunitária, com as sementes trazidas nas mochilas. Legumes e frutos coloridos se espalharam além das casas, e se adentraram no matagal. E, para moer grãos, os homens levitaram pedras da praia, desintegraram um buraco nelas, e depois ajudavam a moer grãos com paus firmes.
Depois de fazer as panelas, Ísis começou a inventar pratos para fazer seu homem feliz. Fazia leite de amêndoas; cremes veganos, que misturava com farinha de milho, ou de mandioca, de cevada, de trigo, adoçados com mel ou suco da cana doce; e fazia bolachas e tortas no forno a lenha. Com as frutas, fazia melados, marmeladas, e, quando Amon trouxe um casal de patos, os ovos dos bichos foram seu melhor aliado para inventar pratos mais sofisticados. Quando Amon lhe trouxe um casal de búfalos, ela pulou de alegria, pois o leite, o queijo e a manteiga começaram a realizar milagres na sua culinária. Eram suflês, tortas de legumes, macarronadas, acompanhados de sobremesas com caldas de melados de cana doce, marmeladas de frutas, brigadeiros de cacau... Amon não tinha reclamações a fazer. Engolia tudo como um troglodita, pois seu cabelo estava longo qual um índio, e, com energias redobradas, tomava a cozinheira no colo e a carregava para o colchão.
E foi assim que a vida deles transcorreu na terra africana, que lhes deu um clima ótimo, frutos deliciosos e uma paisagem exuberante. Cantavam na praia ao pôr do Sol, dançavam requebrando quadris ao redor de uma fogueira, nadavam, subiam o rio em canoas, e o vício do amor ardente acontecia a qualquer hora e em qualquer lugar.
Mais ou menos aos oitenta anos, a paz dessa vida simples foi tumultuada com a chegada dos filhos.
Um a um os homens deram fim à esterilidade, retirando dos testículos um chip que ganharam aos cinco anos, e suas mulheres começaram a ficar grávidas, uma de cada vez. Todos correram a improvisar novos cômodos nas casas. Sem parar de rir deles mesmos, fizeram beliches de madeira, mesas, cadeiras; e as mulheres, as panelas de argila para cozinhar sopinhas. Tudo na brincadeira, se preparando para uma nova vida de papais responsáveis. Até construíram uma Escola para ensinar aos meninos.
O primeiro filho de Ísis e Amon recebeu o nome de Ares. Ele tinha cabelos negros como Amon, e foi mimado em tempo integral. Amon o carregava o tempo todo, limpava sua bundinha com folhas molhadas, desintegrava seu cocô... Ares gostava de estar nu como um indiozinho. Ísis o cobria com uma manta para dar os seios, e, o melhor de tudo, Amon teve “licença de paternidade” por um ano. Os amigos deixavam a colheita na porta, e Ísis mal cozinhava uma sopa. Tomavam banho com Ares no meio, pois o menino só lhes trazia felicidade.
Depois nasceu Afrodite, tão linda quanto Ísis, mas com os olhos azuis profundos de Amon. Dessa vez, Ísis carregava sua filha, pois Ares e Amon eram inseparáveis. O menino comia sentado no colo do pai, subia em seus ombros quando saíam de casa ou nadavam juntos no rio. Ares era como peixe, pois já mergulhava com seu pai antes mesmo de saber caminhar. Quando cresceram, jogavam bola com o pé, e isso passou a ser um afazer de todos os dias. Parecia que os homens haviam regressado aos tempos de infância: iam para a colheita com os guris, para se ajudar no trabalho e, de regresso, jogavam na praia com os meninos até o Sol se pôr.
Nenhuma mulher tinha reclamações a fazer. Quando a filharada dormia, elas fugiam em busca de um lugar ermo para namorar com seus homens, e quando o Sol se punha eles corriam para casa para dormir algumas horas.
As poucas coisas que eles ensinaram aos filhos foram: agricultura, canoagem, mergulhos no mar e o desenvolvimento do “poder mental”. Ensinaram-lhes a desintegrar o cocô, a levitar pedras, a hipnose e a telepatia. Não se podia andar pelo mato sem saber primeiro a hipnose, para deixar leões transformados em gatinhos de estimação. E a telepatia entrou na prática diária, quando os filhos começaram a fazer acampamentos no meio do mato, para que cada pai soubesse o lugar onde eles se encontravam.
A única coisa que eles não previram era que a mãe Terra matava os homens aos sessenta anos. O clima selvagem, a comida vegetariana, o trabalho na roça envelheceu-os prematuramente, e alguns amigos morreram ao redor dos cem anos. Amon caiu na praia de morte súbita, e Ísis caiu ao seu lado da mesma maneira, quando regressavam depois namorar ao luar. Ares os encontrou ao amanhecer, e seus berros cruzaram a selva, deixando os amigos atônitos.
Suas mortes foram sentidas por Zeus, no outro lado do mundo. Nos dias seguintes, naves voadoras chegaram para visitá-los, para levar todos a outro lugar. Haviam terminado recentemente uma cidade superior, onde viveriam protegidos do clima da Terra, e morreriam com mais de mil anos.
Como autômatos, subiram nas naves e, finalmente, aquelas crianças nascidas na África entenderam o que era uma civilização superior. Adentraram uma cidade que brilhava em seu esplendor, com ruas repletas de árvores diferentes, a maioria com flores; jardins que se penduravam em cascatas de altos edifícios; carros que voavam, entrando e saindo; e pessoas lindíssimas. As mulheres eram cobertas de joias de ouro e pedras preciosas, e na cabeça luziam penteados estranhos, mas que as deixavam ainda mais belas. Os homens eram menos trajados, pois usavam camisetas sem mangas e bermudas ajustadas, o que fazia luzir o tamanho entre as pernas.
Ares e Afrodite, entre os amigos, ficaram encabulados, pois eles eram um grupo de índios seminus. Mas os jovens daquela cidade os receberam com abraços, beijos, carinho e, em pouco tempo, Ares media força com uns guris e Afrodite era cercada por homens lindos. Ela viu Apolo chegando junto e falando alto: “Com licença, eu a vi primeiro”. E Afrodite caiu na gargalhada. Afinal, Apolo não era humano, ele mais parecia um deus entre os homens
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