Olhos de Prata - Série Encantados
2 Capítulo 2 - Maldita Grace!
Notas iniciais
– VOCÊ NÃO SABE DO QUE EU TÔ FALANDO!
Grace é tão irritante. Por que ela não facilita a vida de todos nós e se ausenta dessas birras?
– Eu sei do que está falando, Grace. Venha aqui.
– Não ouse tocar em mim! — ela encolheu o braço esquerdo e me olhou com uma cara de quem está trancando o choro.
– Pare de berrar, porra!
– Você não tem a mínima noção, não é?
Ela que não tinha.
– Mais do que você pensa.
– Não, você não sabe como é ter alguém desde a sua infância ao seu lado, conhecer essa pessoa a vida toda e ela, de repente, vira pra você e fala "sua vida é uma mentira, Grace, e vá se acostumando com elas. Esse é o meu trabalho e vai ser o seu também".
Grace acha que eu não a entendo, mas por mais que eu esteja sendo essa desgraçada que não dá a mínima para o que ela acha, isso é uma coisa que eu não queria fazer há um tempo. Mas isso tudo já está incumbido nos meus planos e no meu trabalho, isso já foi premeditado pra eu fazer desde que eu nasci.
Eu simplesmente não tive escolha.
– Cale a sua boquinha e venha até mim. Você está queimada, porra, entre na cabana, Grace.
– Não vou entrar, você vai querer fazer alguma merda comigo ali dentro.
– Ah, vou?! Acha que vou fazer o que? — olhei pra ela e me obriguei a forçar os olhos para o tom amarelo — entre agora, senão vou ter que agarrar seu braço queimado.
Ela baixou o olhar por alguns minutos e depois olhou pra mim, sorrindo.
– Você não tem nenhum curativo pra ajudar a estancar o sangramento e o pus?
Eu olhei bem no fundo dos olhos dela e vi ela estremecer, mas não mudou a feição.
– Você parece eu, desse jeito. — eu sorri um pouco, mas logo fechei a cara e comecei a entrar na cabana — se sair daí, eu vou atrás de você, vou foder com o resto da sua pele e enfiar minhas unhas na sua queimadura.
Ela virou a cara novamente e começou a olhar para o outro lado. Entrei e procurei uma caixa de acessórios que poderiam ajudá-la, mas só achei alguns poucos espalhados.
– Joseph nunca se machuca ou gosta de sofrer? — murmurei pra mim mesma.
– Eu gosto de sofrer — senti a respiração perto de mim.
– Quantas saudades, Ronald. — ele me olhou de cima a baixo, os cílios gigantes se mexendo e os olhos azuis claros espremidos.
– Quanta ironia, Libbyann.
– Não me chame assim, porra — apertei meu nariz, entre os olhos. — o que está fazendo aqui? Saco! Se Grace ou Joseph te virem aqui...
Ele deu um pulo discreto da bancada em que estava sentado.
– Grace está aqui?
Eu olhei com interesse. A pergunta dele foi muito sugestiva, poderia ser de um irmão com muitíssimas saudades, mas com tanta saudades que chegasse a doer, ou um garoto apaixonado.
– Sim... Ronald? Ela é sua irmã, você sabe né? — eu cheguei a fazer uma careta.
Ele me olhou sério, e não deu pra saber o que ele estava sentindo.
– Eu sei. — e desapareceu.
– Merda. — respirei fundo e fingi que nada havia acontecido, saí da cabana pra encontrar Grace. – Olha só, veja se você conseg... Grace? — eu não queria acreditar que ela havia... — Grace? Venha aqui, pelo amor de todos os Encantados!
Eu comecei a andar pra dentro da floresta e gritar o nome dela, mas ela não me respondia. Eu comecei a ficar irritada e berrar muito, mas quando decidi que tinha andado demais, me virei para voltar.
Só que quando olhei para trás, eu não tinha nenhum vestígio de trilha. Eu não conseguia ver o acampamento e comecei a pensar em algum modo de voltar. É cientificamente comprovado que sua mente te leva pro lado ao contrário que você veio em meio a desespero.
Não sei dizer como isso acontece, se soubesse eu teria ido para o lado correto.
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