Olhares do Amanhecer
2 Doce Prestígio
Notas iniciais
O que é pior do que receber um belo xingo do seu gerente?
O café estava frio.
Remexi o elemento com minha colher, com a bochecha de apoiando no braço. Nem os melhores saquinhos de açúcar resolveriam aquele impasse. Tanto para o pobre café, quanto para minha situação profissional. Bem... isso se poderíamos chamar minha burrada de "trabalho profissional".
Olhei para o prato vazio, dando um longo suspiro. Trabalhar com jornais tinha sido meu sonho, desde que eu entrei no Ensino Médio. Só não desconfiava que teria pessoas tão carrascas assim exigindo de mim. E meu texto não estava lá ruim, afinal de contas. Porque eu tinha que receber broncas? Só porque não tinha "sal" o suficiente?
–É, açúcar, parece que você não serve pro caso.
O açúcar continuou lá, naquele montinho, apenas aguardando as formigas. Quem me dera se eles pudessem dizer algo como "Olha lá! A matéria perfeita está dobrando a esquina". Açúcar é muito bom, mas não chega a ser essa solução formidável. Senão, não estariam sendo empacotados e despejados em cafés gelados.
Deixei uma nota de dez na mesa, e peguei minha pasta. O horário de almoço havia sido um pouco estendido para mim. Ordens do gerente, algo a ver com "Vai tomar um ar fresco pra sua cabeça, e vê se consegue tirar algo útil dela". Talvez seja um modo mais gentil de dizer "Você é horrível, sai daqui logo". Qual era melhor? Bom, ambos me eram drásticos. De qualquer maneira, meu pagamento estava correndo riscos enormes. E não era lá tão fácil achar emprego por aí. Jornalistas não são muito procurados em agências bancárias, se é que me entende.
Entre levas e outras de pessoas, fui despejado para a rua. O dia estava... bem... quente. E essa palavra já abria espaço para outras coisas, dentre suor e reclamações. Fora isso, era mais um belíssimo dia para se aproveitar. O centro estava meio lotado, apesar de não ser necessariamente o "centro". Eram as bordas dele, especificamente na parte sul. Talvez a expansão do centro, sem ser o centro. O que não alterava muito a quantia de gente e de calor.
Arrumei minha pequena bagagem, me preparando para voltar ao jornal... quando uma pequena visão me faz parar.
Curiosamente, notei uma confeitaria. Bem ali, na esquina. Ao térreo de um prédio de três andares, um pequeno estabelecimento comercial apresentava detalhes simples, mais elegantes. Janelonas de vidro revelavam um interior um tanto aconchegante, com mesinhas pequeninas e redondas. E bolos deliciosos na bancada.
Minha língua seguiu meu desejo. Um bolinho não faria nada mal, certo? Fora que eu estava fazendo uns exercícios a mais na praia. Coisas da mamãe. Enfim, não esperei muito para entrar na doceria.
E a primeira coisa que notei no ar já me fez saltar de felicidade.
Tinha ar-condicionado.
Me deixei derramar sobre a primeira cadeira que encontrei. Aquilo era dos deuses! Ar frio no meio de uma cidade tropical era algo que apenas a maior invenção do homem poderia proporcionar. E aquilo me foi praticamente anestesiante. Por um momento, me esqueci de onde eu estava.
–Ah... senhor? Posso ajudá-lo?
Ergui o olhar lentamente para a dona da voz. E, quando eu a vi... eu engasguei com minha própria saliva.
Era... era ela!
Olhos azuis me olhavam com um certo interesse curioso, enquanto eu tentava conter meu engasgo. Os cabelos de antes haviam sido amarrados em um coque, que estava um tanto solto naquele instante. O vestido de confeiteira era de um tom azul-claro, ainda mais claro do que o vestido, que eu tinha visto naquela mesma manhã. Um avental branco estava levemente manchado de cores, de diversos tipos e brilhos. Em mãos havia uma caderneta e, em outra, uma caneta preparada para anotar.
–Senhor...? Está bem?
Eu mal podia conter o vermelho que estava se espalhando por minha face. Deuses, era ela! A moça da minha rua... da padaria... das minhas espiadelas! Como... mas como? Eça trabalhava ali? Naquela confeitaria? Como eu nunca tinha visto ela ali antes? Como é que eu...
Quando notei um risinho, vindo dela, eu endireitei minha coluna, e me sentei melhor. Mas isso não tirava nem sequer uma gota do vermelho de minhas bochechas.
–Desculpe, senhor... mas fez uma cara engraçada, agora à pouco.
–Eu fiz...?
Primeiras palavras que eu disse para ela. "Eu fiz". Okay... essa foi tosca demais. Mas... não sei. Não pensei nisso pelas próximas duas horas. Eu, simplesmente... não consegui pensar em mais nada. Sem problemas, sem risco de demissão... nada. Ela estava ali, ali! Bem na minha frente. E... e tinha dado um riso. Mas... que riso! Um riso tão cheio de beleza, tão cheio de graça. Um riso que, apenas pelo fato de existir... já me deixava sem palavras.
E ela pisca para mim, ainda com um sorrisinho formado.
–Fez sim, senhor. Mas... irá pedir algo?
Fiquei completamente desnorteado. É mesmo, o pedido!
–Tem cardápio?
–Ah... o seu cotovelo está encima dele, senhor.
–Oh... certo.
Me ruborizei ainda mais, e nem vi se ela sorrio mais, ou se voltou a uma certa neutralidade. Eu não sabia. Eu queria ver... estava me roendo interiormente para ver. Mas... sabia que isso ia me embaraçar ainda mais. Olhei o cardápio, enquanto meu coração batia acelerado. Bolos... bolos! Porque bolos... quando eu tinha uma mulher incrível, do meu lado? Porque se contentar com os prazeres do açúcar... quando eu podia simplesmente olhar para aquela beleza toda?
–Prestígio, por favor. Pedaço pequeno.
–Num instantinho!
A vi saltando feliz para detrás do balcão, onde rapidamente comenta para a amiga o que deve ser feito. Eu nem olhei se ela pegou o bolo que eu tinha visto na foto, ou se sequer se deu ao trabalho de fazê-lo direito. Ela estava ali! Bem na minha frente, bem ali! Rindo de alguma piada com a amiga... sorrindo. Com aquele olhar tão doce, e aquele sorriso bem tratado, simplesmente... simplesmente incrível. Eu não conseguia parar de olhar para ela, nem disfarçadamente... nem diretamente. Eu só olhava, porque... por simplesmente olhar. Por simplesmente não resistir.
Por simplesmente...
...amar...?
Abanei minha cabeça, quando notei uma massa branca e marrom se aproximando. A moça trouxe meu tal bolo de prestígio, que tinha até uma certa semelhança com o da foto. Mas, naquele instante... o bolo que eu tanto queria simplesmente se tornou algo monótono, descartável. A doçura do bolo... nem chegava perto da doçura daquele olhar. O simples existir daquele bolo... nem chegava perto do existir dela. E aquilo me contaminava, aquilo ia me invadindo, ia me dominando rapidamente. E, a cada batalha vencida... mais meu coração batia, mais sem palavras eu ficava.
E, por efeito, mais ela parecia sorrir docemente.
–O senhor está com algo na cabeça?
–Ah... bem... além de caspa?
Aquele riso foi tão... tão... perfeito. Uma voz ideal... uma risada sem defeitos... sem sequer alguma coisa ruim a se notar. Talvez ela tenha algo ruim, talvez ela tenha pontos fracos. Afinal... ela é humana. Mas... simplesmente, eu não conseguia achar. Não conseguia pensar, não conseguia imaginar algo de ruim vindo de algo tão celestial. Ela era mesmo humana? Ou era um anjo... que caiu na Terra, e em coincidência bem na minha frente? Era ela um anjo da guarda...?
–O senhor é engraçado. Faz piadas assim sempre?
–Bom... sempre quando possível.
–Isso é bom! Sorrir é bem melhor do que chorar.
–Nisso, nada pode descordar.
Ela dá outro sorrisinho caloroso, e volta ao balcão. Eu comia o prestígio... mas nem sequer sentia um gosto doce dele. Não sei... era como se, de repente, toda a doçura daquele bolo tivesse sumido... e tornado-se algo insignificante. Nem prestava mais tanta atenção no tal bolo, nem no seu conteúdo. Porque, mesmo forçando... mesmo lutando para não olhar... eu a olhava. Ela era tão linda... tão feliz. Simplesmente eu não achava motivos para não olha-la. Porque... eles não existiam.
Enrolei o garfo nos restos de bolo, com pedaços do doce já na minha boca. Mas... já estava acabando? Nem notei o quanto ele ia diminuindo, porque nele eu nem sequer estava prestando atenção. Nem senti direito o sabor dele. Mas... porque será? Eu costumava sentir tanto o sabor dos doces. Eles eram quase que como o café era para mim. Algo que me causava profundo prazer, fazia meu corpo se aquecer, e um sorriso me irromper.
Será que... era porque... uma coisa maior que isso... estava na minha mente?
Olhei novamente para ela. Estava atendendo outro cliente, que tinha acabado de chegar. Sentimentos passavam por mim, como uma cachoeira infinita, que caia eternamente pelos ares. E todos eles... todos eles tinham a mesma foto, estampada na capa, rodeada das mais belas flores e cantos. A foto dela... a foto que nunca me descola da mente.
Será... será que eu devia...?
Eu a conhecia apenas por olhado, apenas por uma visão de janela. E, mesmo assim... eu a achava a garota mais bonita que eu já tinha visto. Ela simplesmente me deixava sem palavras... e até me fazia esquecer o quão doce um bolo poderia ser. Porém... apenas isso. Apenas de olhar, apenas de admirar. Ela mal me conhecia... e eu nem poderia dizer que conhecia ela. Afinal... olhar para alguém não quer dizer conhecer.
E deveria eu... tentar conhecê-la?
Desviei o olhar dela... me voltando para mim mesmo. Não... isso não era uma possibilidade. Eu era um completo desconhecido, e que a olhava pela janela. Ela nem sabia da minha existência... e provavelmente, iria me esquecer de hoje. Eu não tinha nada demais... e tudo de menos. Tinha problemas financeiros, além de uma casa caindo aos pedaços, e um diploma de... bem... nenhuma faculdade relevante. Como ela iria se interessar por mim? Eu não era nada, do lado dela. Sem falar que, provavelmente, ela já devia estar comprometida...
E estava? Olhei-a de soslaio, temendo pelo pior. Seria ela casada, ou namorada de outro? Por esse mísero segundo, por menor que seja... meu coração pareceu ter virado cinzas, consumido pela chama de um desespero. Seria ela comprometida, já amada? Não a culparia... por ser a mais bela das belas. Mas...
–Teria eu chances...?
Murmurei comigo mesmo, me sentindo ainda mais encolhido. Eu nem tinha chances... nem ao menos de tentar. Seria pisoteado já de cara...
...Seria...?
Olhei para ela de novo, sentindo aquele calor no peito voltar. Eu adorava ela... simplesmente isso. Eu queria conhecer ela, queria ficar com ela. E, não sei... mesmo não tendo nenhuma chance, mesmo sabendo que eu posso fracassar... continuei olhando-a. Continuei sentindo o que eu sentia... e adorando isso. Deveria eu arriscar? Uma voz interna me dizia que sim, uma esperança interna me mandava ir pra frente. Me mandava tentar... por pior que fosse. Porque... por ela... eu me arriscaria muito mais que isso.
Mas... como eu faria?
–Posso retirar seu prato, senhor?
Olhei para ela, e logo assenti rapidamente. Com delicadeza, a moça retira o meu prato, depositando-o ao balcão, junto com o talher sujo. Logo, volta os olhos para mim.
–Deseja mais alguma coisa?
Naquele momento, senti um nó na garganta. Como eu faria isso? Não... eu não podia falar qualquer coisa. Ela não merecia qualquer coisa, simplesmente isso. Precisava ser algo bem pensado... e algo bem sentido.
–Você sempre trabalhou aqui? Não me lembro de ter visto você.
Ela faz uma cara de leve surpresa, mas logo de descontrai.
–Não, comecei semana passada. Minha tia é a dona, então digamos que a vaga foi garantida.
–Oh, sério? Dessa eu não sabia.
Ela dá um sorrisinho vermelho, enrolando uma mecha do cabelo.
–Bom, nem sei como poderia descobrir. Nem ela e nem eu somos lá muito populares por aqui.
–Verdade? Nem com um bolo desses?
Ela dá um risinho.
–Nem com um bolo desses. Tem muita concorrência, se é que me entende. E meu bolo não é tão ruim assim.
Fiz cara de surpreso, de repente.
–Você faz os bolos?
Ela, em contrapartida, ficou um tanto vermelha, sem jeito. Mesmo assim, manteve o sorrisinho.
–Alguns... eu ainda sou iniciante nisso.
–Você fez o de prestígio?
–Esse fui eu. Ficou bom?
–Se eu dissesse que não, meu nariz estaria enorme agora.
As reações eram bem parecidas, nada diferente de um sorriso. Mas... não sei. Não era aquele sorriso forçado, nem amarelo. Era algo real, era algo realmente feliz.
–Fico contente com isso. É provador de bolos?
–Não... eu faço coisinhas menos agradáveis.
–Não limpa esgotos, limpa?
–Não, também não isso.
Ambos rimos dessa e... e... eu me deixei corar, por algum motivo. E, junto disso, veio um sorriso. E foi o melhor sorriso que eu dava em semanas.
–O que seria tão desagradável assim, senhor?
–Nah, não vai querer saber.
–Ora, diga! Não seja um fresco.
–É que eu não sou lá um...
De repente, senti meu bolso tremer. Uma rápida olhada no celular me revela as horas, e eu quase caí da cadeira. Sério que tinha passado tanto tempo assim? Eu estava prestes a perder hora!
–O chefe lhe chama? — diz ela, olhando o celular.
–Infelizmente. Receber mais broncas, talvez.
–Bom... te desejo boa sorte, senhor.
Eu me levantei, quando uma força invisível me fez brecar. Talvez... será que eu deveria dizer algo a mais? Sair assim parecia tão... não sei. Só sei que me virei para ela, e dei um sorriso caloroso.
–Voltarei aqui mais vezes. Seu bolo é fenomenal, sério.
Ela cora, sorrindo timidamente.
–Volte o quando quiser, senhor. Estarei sempre aqui.
–Tudo bem. Então... até amanhã?
–Até!
E, quando eu finalmente saí da confeitaria... não importava se o ar não era mais condicionado, ou se eu tinha que voltar para aquele prédio chato, de volta para as mesmas coisas. Porque, de algum modo...
Me sentia o homem mais feliz do Universo.
Fale com o autor