Notas iniciais
Olá, leitores. Mesmo com atraso, aqui está o terceiro, baseado na música River Flows in You, Yiruma. Espero que aproveitem o show. E até lá embaixo.



A vista era incrível.

Eu adorava dois momentos épicos do sol. Tanto sua entrada triunfal, que abria alas para que o mar azul viesse a tona aos céus... quanto o poente, quando o sol partia para seu descanso, deixando as estrelas fazerem o trabalho noturno por ele, mesmo que de modo nunca tão eficiente e radiante quanto a estrela dourada, que a todos os dias dava o privilégio de fazer sua luz visitar a Terra, iluminando terra, plantas, mares, cidades... e pessoas.

Eu via o último momento. O sol, descendo no horizonte, lançava sua belíssima luz dourada pelas planícies, morros e prédios daquela cidade que, assim que nela nasci, aprendi a chamar de lar. O mar reluzia, tanto no oceano, quanto na baía que dele brotava, levando a água para o interior destas terras. E dessa água, reluzia os brilhos dourados, que tornavam aquela visão ainda mais bela do que já é, apenas pelo sol. Isso sem contar os morros... e as sombras, que estes lançavam sobre as árvores e sobre a cidade, que entre eles se preparava para entrar na vida noturna e, logo... dormir, aguardando que o glorioso sol voltasse a abençoá-los com sua luz.

É, as vezes eu era poético demais.

Me debrucei sobre o parapeito, admirando tudo aquilo com olhos plácidos, relaxantes. Mesmo àquelas horas, eu achava aquele lugar um tanto cheio de gente. Pessoas iam e viam, cada uma com algo em mente... mas ambos pareciam curtir o fato de estarem num lugar tão privilegiado quanto qualquer lugar daquela cidade era. A estátua, de braços abertos, parecia saudar não apenas a cidade, mas também todos os que nela vinham, acolhendo-os como um verdadeiro mestre.

Não que eu fosse muito religioso, claro. Talvez eu fosse do tipo "irritante". Pelo menos, era o que meu gerente acreditava.

Mas... não tinha sido por um gerente que eu havia subido ali.

–Onde é que você está agora...?

Meu olhar estava tão desconexo, que nem poderia dizer que eu estava, de fato, admirando aquela cidade. Mas sim, imerso em meus próprios pensamentos, em meus próprios sentimentos. Meu coração batia de um jeito diferente. Talvez não do jeito irritado, ou impaciente de sempre... mas de um jeito calmo, relaxante... sentimental.

Eu só pensava nela. O que tinha rolado naquele almoço fora... incrível. Ela tinha falado comigo, comigo! E sorriu para mim. Tantas vezes... um sorriso puro. Não pálido, como os idealistas gritam ao mundo. Mas sim... sincero, um sorriso sincero, feliz. Um sorriso que eu nunca vira antes, que eu nunca sentira antes. E que não só tinha vindo de alguém... como tinha vindo dela.

Estava eu... apaixonado?

Meus dedos giravam entre pedrinhas, achadas à esmo, enquanto eu mesmo tentava me sintonizar com tudo aquilo. Estava eu sentindo algo assim por uma... por uma única pessoa? Não parecia algo real... melhor: Não parecia algo possível. Como eu poderia sentir algo tão belo assim?

Olhei para a cidade, novamente. Os tempos de escola me caíram a memória, e logo me lembrei das histórias. Tantos romances que tinham passado naquela mesma cidade, nos tempos em que era regida por um homem com coroa. Romances tão belos, fortes... e impossíveis. Brinquei muitas vezes com minha própria professora, dizendo que eram todos puramente exagerados, puramente... impossíveis. Como alguém poderia sentir algo tão forte assim, a ponto de se matar por mero feito? Talvez seja por isso que eu nunca tirava notas boas nas provas de livro.

Mas... eu estava sentindo, o que Alencar tanto se inspirava para escrever? Estava eu em algo dessa forma? Me deixei cair os ombros, enquanto meu pensamento apenas ficava denso, denso... e denso. Eu nunca pensei que sentiria algo assim... nunca pensei que alguém pudesse senti-lo por mim, também. Afinal, eu era tão útil quanto uma pedra na sola de um gênio.

E... lá estava eu, pensando em uma garota perfeita.

Pensei ser muito jovem para algo assim, ou simplesmente... muito idiota. Estava eu fascinado por algo que nunca ia poder alcançar? Bobo... eu tinha certeza que eu era. Nunca fora inteligente, nunca fora digno de nada. Mas... amor? O que era isso, afinal? Era o que eu estava sentindo? Era o que eu estava desejando?

Me deixei sorrir. Era um sentimento bom, disso eu tinha certeza. Um sentimento que vinha do mais profundo recanto do meu ser, e que o dominava por inteiro, tão rápido e silencioso quanto um vento frio, chegando dos recantos mais ao sul do mundo. Um sentimento tão bom... e que eu nunca havia sentido antes. Mas que, por algum motivo, o achava mais real do que a paisagem, do que minhas roupas... do que eu mesmo. Eu poderia ser apenas um devaneio de algum deus. Mas, aquele amor... não, aquilo era verdadeiro. Não podia ser falso, porque simplesmente... era impossível.

Ergui o olhar, encarando novamente a cidade. Logo eu teria que voltar. Voltar para minha casinha, para a minha vida. E... e ela estaria lá também. Minha vida era uma coisa tão monótona, tão triste e sem graça... tão cinza. Até a primeira vez que eu abri a janela... e a vi andando pela rua. A partir daquele relance... minhas pupilas dilataram, e meu coração acelerou. Era simplesmente a coisa mais incrível de todas... e eu estava tendo o privilégio de vê-la. Me deixei tomar por aquele sentimento, todos os dias... todas as horas. E isso foi deixando minha vida cada vez mais feliz... cada vez mais doce.

Tinha eu a chance de fazer isso ficar ainda melhor...? Eu não era nem um pouco digno de alguém assim, e nunca seria. E... ela gostava de mim? Ou era apenas eu, que nutria algo invisível e impossível?

De algum modo, ou por algum motivo... eu pensei em algo. Não... eu não era digno. Porém... era algo tão feliz, algo tão bonito. Eu simplesmente não conseguia pensar em outra coisa... além de tentar, além de seguir, de lutar... de amar. Eu queria amar. Por mais impossível que fosse, por mais sonhado que eu achava... eu queria aquilo. Uma coisa tão boa, tão bonita... e que tornava todo o resto bonito.

Talvez fosse como o sol. Em tudo que eu o via tocar, a luz intensificava a beleza da coisa, de uma forma tão avassaladora... que eu nem sequer sabia como fazia isso, e nem o porque. Só sabia que poderoso era... e que era capaz até de embelezar uma cidade inteira, com sua simples chegada e partida.

E também meu coração.

Desencostei da amurada, sorrindo para mim mesmo. Talvez eu devesse me deixar seguir... talvez eu devesse realmente deixar aquela beleza me levar. Mas, por agora, só sabia que tinha que me apressar, para chegar cedo em casa.

Porque... eu simplesmente não queria dormir demais, e perder o maior espetáculo da minha vida.

Notas finais
Lamento pela falta de "ação" aqui. Prometo mais no próximo =p Mas, até lá... nos vemos por aí.