Oh Shit, Girl!
1 You can’t run away for a lifetime, my love.
Chicago, Illinois – Março de 2015
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Existiam várias coisas na vida das quais eu realmente não era boa.
A primeira delas, era tomar decisões.
“Querida, este cartão está bloqueado.”, a mulher disse, sem deixar o sorriso em seu rosto morrer.
“O que?!”, perguntei a mulher, cética. “Deve ter acontecido algo errado. Poderia tentar de novo, por favor?”, pedi, cruzando meus dedos debaixo do balcão e orando para todos os santos que aquilo fosse apenas um engano.
“Não.”, a mulher disse, torcendo a boca e retirando o cartão da máquina. “Realmente não está funcionando. Desculpe.”, a atendente me informou, com sua melhor expressão de pena.
Meu celular escolheu esse momento para apitar e, no segundo seguinte, eu estava abrindo a mensagem recebida de um número desconhecido, entretanto bastante familiar.
“Você não pode fugir a vida toda, meu bem.”.
Eu tremi, preciso admitir. Meu coração de repente atingiu uma velocidade absurda e insuportável. Tão atordoada, sequer me lembro de entregar o dinheiro a moça do caixa ou lhe agradecer. Mas, lembro do segundo agoniante em que eu joguei o celular na primeira lixeira que encontrei.
A não ser que estivesse sob uma grande pressão. Ai sim, eu era capaz de me resolver, mesmo que logo após fosse me contrapor. Quero dizer, por exemplo. Eu havia tomado a decisão de fugir novamente, já estava pronta para comprar minha passagem para um lugar qualquer.
Então, eu pensei. Daí o cenário mudou completamente. Estava cansada de me esgueirar para outro lugar por não ter coragem de encarar minha triste realidade.
Eu entrei num dilema. Mais uma vez. E mais uma vez, eu fiquei confusa.
Era nesses momentos em que eu recorria a voz da sabedoria, ou seja, qualquer pessoa próxima mais sensata que eu. Como minha vizinha idosa que vivia com seus incontáveis gatos, a mesma que estava no elevador comigo.
“A senhora acha que eu devo me mudar?”, eu perguntei, me virei de supetão, assustando a coitada, que já vivia aterrorizada. Ela deixou sua sacola cair no chão do elevador, porém nada saiu do controle.
Ajudei-a a pegar algumas frutas que caíram e quando ia lhe entregar a última maçã a porta do elevador se abriu. A olhada que ela me deu antes de correr para fora daquele cubículo de metal sem pegar sua maçã de volta, respondeu minha pergunta.
Minha presença era adorável, não deveria simplesmente ir embora.
Ok! Talvez eu precisasse recorrer a alguém mais confiável. Como minha colega de apartamento.
“Ah! Não acredito!”, ela gritou. Não era um grito de desespero, era de alegria. “Não acredito que vou voltar a ter meu cantinho só para mim.”.
Clarissa se jogou de braços abertos na cama e olhou para o teto toda sonhadora. Reproduzi o mesmo ato, logo depois.
“Não pode ser tão difícil assim conviver comigo.”, afirmei, passando a mão no rosto como se estivesse arrancando uma máscara de cansaço.
“Você ronca e não sabe colocar uma água para ferver. Philippa.”.
“Eu sei pedir pizza e o entregador sempre traz refrigerante e chocolate grátis para me agradar.”, constatei, orgulhosa.
“Touché.”, consentiu e rolou para o meu lado, encostando a cabeça na mão e franzindo o cenho. “Está preparada para encontrar com ela?”.
“É claro que não.”
“Então eu sugiro que vá.”, falou. Sua expressão determinava o quanto estava falando sério. “Não que eu ache legal essa sua ideia de evitá-la até o fim, porque imagino como isso deve ser para uma mãe, porém respeito isso. E acho que você tem seu tempo e deve usufruir dele até que esteja preparada.”.
Eu sabia seguir um rumo, mas era sempre bom ter um guia para dizer se o rumo era o certo ou só me dar confiança o suficiente para fazer o errado.
“Então, o que vai ser agora?”, Clarissa questionou, sentada em cima da cama e girando de forma ilógica o pequeno mapa em sua mão. Os olhos semicerrados e concentrados em sua função.
“Você vai arrumar uma nova hóspede e se alguém aparecer por aqui…”
“Nenhuma esquisita de cabelo platinado passou por esta residência.”, recapitulou minha recomendação, acrescentando características por sua conta.
Revirei os olhos na frente do espelho, contendo uma risada. Terminei de passar o rímel e notei pelo reflexo o novo objeto vítima da curiosidade de Clar. Balancei a cabeça em negativa, vendo que ela havia se perdido naquele mundo de informações contidas na minha passagem. Se ela lia bulas de remédio e achava interessante, aquilo não me surpreendia.
“Você podia ir também.”, insinuei sugestivamente.
Passei o batom minuciosamente e calmamente, fingindo desinteresse.
“Está com medo de ir sozinha, princesa?”, zombou.
“Não, mas se tudo der errado, pelo menos tem alguém para me ajudar.”, expliquei e joguei o batom em sua direção, que desviou antes de acertá-la.
“Não sei me desapegar das coisas tão fácil como você.”, ela falou, negando com a cabeça. “E agora posso ficar com o cara da pizza só para mim.”.
“O “cara da pizza” só quer que uma mulher gostosa o comprimente quando estiver no meio dos amigos.”.
“Eu posso fazer ele querer mais do que isso.”, afirmou convicta, me arrancando uma risada. Cruzei os braços na frente do peito, vendo-a cerrar os olhos para o pedaço de papel em suas mãos outra vez. “Tem certeza?”, perguntou.
Sentei ao seu lado e tirei a passagem de sua mão. Respirei fundo, olhando para o lugar de destino indicado. “Califórnia, San Diego.”. Confirmei com a cabeça, engolindo em seco.
“Não é como se minha lista de opções fosse extensa.”, respondi.
“Jura?”, Clarissa questionou, fazendo biquinho. “Eu tinha tanta fé na ideia de te vender como escrava sexual na Deep Web. Isso me daria um bom lucro e sua mãe não iria te achar nunca mais.”.
Revirei os olhos, sorrindo. Eu sentiria falta dela, bem como de toda a vida que eu construí dentro de um ano naquele apartamento. Respirei fundo e observei a passagem na minha mão mais uma vez.
“Que nostalgia! Não pode ser tão ruim assim voltar para o lugar onde nasceu.”, manifestou minha ex-colega de apartamento, indignada com a minha reação. Ela ajeitou os fios morenos atrás da orelha e me fitou.
“Veremos.”, declarei, tendo a breve noção do que me esperava naquele lugar. Voltei meu olhar para a passagem em minha mão. “Veremos...”.
Mais uma coisa que eu não era boa, tirando, claro, todas as outras. A segunda coisa principal: encarar a realidade.
Doía, me fazia pensar e era desgastante. A mania de viver no mundo da lua era tão mais cômoda. Ter responsabilidade e encarar os problemas e os traumas de frente parecia simples quando meu pai dizia.
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