Oh Shit, Girl!
3 Bad news of the size of an ass
Califórnia, San Diego – Março de 2015
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“Porra, mulher! Acorda! Vai dormir o dia inteiro?”, ouvi a voz do sujeito, mais conhecido como meu irmão, com seu habitual vocabulário cortês.
Não havia, absolutamente, nada de engraçado em acordar assustada graças a um ser cuja gentileza era obviamente inexistente. Eu semicerrei os olhos o suficiente para vê-lo parado na porta entreaberta.
“Já tô indo, caralho!”, retruquei automaticamente com a voz rouca, jogando um travesseiro na direção da porta. A intenção era acertá-lo, mas ao mirar em sua cabeça, atingi o seu pé.
Era claro e cristalino, para qualquer um que nos observasse que a educação não veio do nosso berço.
Bufei, me encolhendo mais sob as cobertas enquanto tentava despertar. Uma tentativa falha e irracional que apenas contribuiu para que eu voltasse a dormir. Acordei com o meu celular tocando como um tarado no criado mudo. Tateei de olhos fechados a superfície até encontrar o responsável que me acordou e em um gesto involuntário desliguei o que pensei ser o despertador. Ele não parou de tocar, o que me obrigou a abrir os olhos para ver que era uma ligação. Atendi, colocando o objeto recém comprado no ouvido e fechando o olho novamente.
“Acorda, Philippa!”, ouvi o berro de Axel vindo do telefone e da sala do apartamento. Afastei o celular do ouvido, arregalando os olhos de susto, mas ainda podia ouvi-lo. “Eu nunca mais prometo te levar para a faculdade.”.
Quase chorei de decepção por ter que me livrar das cobertas e da cama tão aconchegante de Zac. Cocei os olhos e praguejei mentalmente meu irmão por ter me acordado e as forças superiores por terem inventado a manhã.
Zanzei pelo quarto sem objetivo duas vezes. Observei meu reflexo no espelho do armário por baixo dos cílios e eu parecia ter acabado de sair do apocalipse zumbi. Peguei minha toalha pendurada na porta e segui na direção do banheiro, encostando em uma parede no caminho. Uma parede cheirosa. Estalei a língua em desagrado. Abri os olhos e Zac estava parado na minha frente com expressão de poucos amigos.
“Olha por onde anda.”, ele avisou.
“Mesmo se eu olhasse não enxergaria uma pessoa tão insignificante quanto você.”, retruquei com a voz fanha.
Ele riu e saiu andando em alguma direção que eu não me dei o trabalho de olhar. Entrei de baixo da água do chuveiro, tentando incessantemente não dormir ali. Quando sai, estava tudo tão enfumaçado que parecia uma sauna, sair de lá parecia uma missão impossível.
Voltei para o quarto enrolada na toalha e olhei para a tela do meu celular piscando, alertando mensagem, entretanto o que me deixou em alerta não foi a mensagem e sim o horário. Eu estava atrasada pra um caralho.
Dei mais duas voltas desnecessárias pelo quarto pensando no que fazer. Se eu já era devagar de manhã cedo, estando sob a pressão do atraso eu era o bicho mais lerdo do mundo. Um caramujo, talvez.
Coloquei uma calça jeans preta e demorei, pelo menos, uns cinco minutos para conseguir passá-la pelos meus pés sem que um dos meus dedos entrasse nos rasgos dela, e mais dois minutos para passá-la pela minha bunda. Vesti uma camiseta que deixava boa parte da minha barriga e do meu sutiã à mostra e tinha uma frase arrogante na frente.
Rodei no meu próprio eixo, procurando o que estava faltando e encontrando uma jaqueta xadrez jogada no pé da cama que havia usado no dia anterior, no pé coloquei um tênis qualquer. Não era lá uma roupa muito digna de primeiro dia de faculdade, mas teria que servir.
Eu saí do quarto abafada, com a mochila no ombro e com o pensamento de estar esquecendo alguma coisa. Passei do lado do mármore da cozinha que nos servia de “mesa” e avistei um pacote de biscoitos recheados jogado ali. Olhei para todos os cantos do cômodo procurando algum ser humano que pudesse ser dono daquilo ou visualizar meu crime, não achei ninguém então peguei e desci as escadas comendo-o, tentando inutilmente alcançar a velocidade do Flash.
Cheguei no estacionamento com o biscoito na boca, o pacote de baixo do braço, a mochila equilibrada no outro e as duas mãos livres checando minhas mensagens no celular. Zac passou por mim, pegando o pacote de biscoitos e entrando no carro.
Mikael já estava dentro do veículo junto com meu irmão, que olhava para nós dois com uma expressão de tédio.
“Foi ele.”.
“Foi ela.”.
Eu e Hayes falamos juntos e apontamos um para o outro. Franzi o cenho para ele, tentando pegar o biscoito de sua mão.
“Sai fora! É meu.”, Zac, afastando sua mão com o pacote, falou.
“Foda-se. Divide.”, mandei, falhando mais uma vez na tentativa de pegar. “Eu estou com fome.”.
“Foda-se. Senta e fica caladinha.”, ele colocou o biscoito na boca, olhando para a janela da frente.
“Como é maduro.”, ironizei, revirando os olhos.
“Como são maduros!”, Axel disse do banco do motorista.
Axel me deixou junto com Mikael na porta do bloco da universidade onde ficavam as salas administrativas e desapareceu com o carro de vista.
Mikael estava com uma regata polo cinza, calças jeans e tênis Revolution 3 vermelhos. Tinha um cordão de prata rodeando o pescoço e só então percebi que usava um brinco na orelha. Seu cabelo estava penteado para o lado de uma forma surpreendentemente bonita e o cheiro de perfume exalando de longe. Ele espreguiçou e bocejou assim que saiu do carro, como se tivesse dormido toda a viagem.
“Bom dia, White.”, desejou e eu sorri com o novo apelido em referência aos meus cabelos platinados.
“Bom dia.”, bocejei involuntariamente por tê-lo visto fazer o mesmo.
Caminhamos para dentro do bloco, sentindo a lufada de ar gelado e cheiro de papéis. Mikael empurrou minhas costas, me direcionando a atendente. Expliquei para ela minha situação e ela rapidamente me passou várias folhas para assinar e uma folha solta com minha grade, sendo a todo momento muito gentil.
Estreitei os olhos, desconfiada com tanta bondade até lembrar que Mikael estava logo atrás de mim. Entreguei a ela os papéis e peguei os que ficariam comigo e, assim que eu agradeci. Mikael piscou um olho para a funcionária. Rindo, balancei a cabeça e o puxei pela camisa para sair daquele lugar.
“Faculdade de que?”, ele perguntou e sem nem ao menos esperar arrancou o papel da minha mão. “Ah! Arquitetura. Hm. Temos aulas na terça-feira juntos.”.
“Ótimo. Menos uma sala que precisarei encontrar sozinha.”, constatei e me dei conta de ainda não ter perguntado. “Você faz de que?”.
“História.”, ele me entregou o papel e assobiou alto, acenando com a mão para um conhecido a alguns metros de distância. “Tenho que ir, White. Tenho aula em dez minutos. A propósito, sua aula já começou faz meia hora. Tchau”, disse, me deu um beijo no rosto e saiu correndo afobado sem sequer me dar a informação de onde era minha aula.
As aulas da parte da manhã foram rápidas uma vez que, eu perdi duas de quatro por não encontrar as salas onde elas seriam aplicadas graças a técnica que possuía de me perder em qualquer lugar.
Suspirei de alívio ao observar que minhas próximas aulas eram só na parte da tarde e eu teria tempo de respirar e me situar.
Abri a porta do banheiro, me deparando com uma grande quantidade de garotas se produzindo e conversando. Permaneci respondendo o email em relação a uma entrevista de emprego e sorri. Levantei o olhar do celular, dando de cara com um rosto moreno e conhecido. Zara me fitava com curiosidade e um sorriso contido.
“Não!”, anunciei desacreditada.
“Sim.”, ela afirmou e abriu um grande sorriso, afastando-se da parede e envolvendo meu pescoço em um abraço. Correspondi ao ato, mesmo não sendo muito apta de tanta demonstração de afeto. “Meu Deus, como foi difícil te reconhecer com esses cabelos platinados. Você está muito diferente e, ainda assim, continua incrível.”, ela pegou minha mão e me rodou, analisando todo minha matéria.
Ri, voltando a posição inicial e examinando toda sua corpulência tampada apenas por uma saia jeans e uma blusa curta com a logo do time da universidade. Seus cabelos longos e castanhos estavam soltos, caindo pelas suas costas em belos cachos. Sua pele negra estava maquiada, reduzindo as marcas das olheiras de uma noite mal dormida.
“Veja só quem fala. Achei que pararia de crescer depois dos dezoito, mas aí está você. Olha o tamanho desta bunda, Zara!”, comentei com falsa indignação e a negra riu.
“Nossa! Ainda não acredito que está aqui. Mal pude me conter quando me disseram que havia voltado.”, ela cumprimentou uma garota que estava saindo do banheiro, sem tirar o sorriso de animação em seu rosto.
Zara havia crescido comigo, consequentemente com meu irmão, e havia se tornado minha melhor amiga com o passar dos anos. Nós adquirimos muitos gostos em comum, como o amor por esportes, arquitetura e festas. Ainda assim, éramos muito diferentes, principalmente na estrutura corporal. Enquanto eu me contentava com a estrutura mediana e corpo acentuado de curvas, Zara esbanjava uma altura de modelo, pernas torneadas e uma bunda de arrasar.
“Te disseram?”, perguntei duvidosa.
“Axel disse.”, ela riu, revirando os olhos e foi até o grande espelho situado em frente aos lavabos e jogou o cabelo para o outro lado. “E algumas outras pessoas.”, completou. “As fofocas correm, meu bem.”.
Acompanhei-a, executando a tarefa que havia me proposto quando decidi visitar o banheiro, me olhar no espelho. Visualizei meu cabelo enrolado de forma desgrenhada em um coque frouxo, minhas bochechas coradas por ter andado debaixo de sol a procura da sala onde minha aula ocorreria e minha boca rachada. Cheguei a conclusão de que eu estava um desastre e me virei de costas para o espelho, esperando Zara terminar de se ajeitar.
“Não.”, afirmei. “Axel faz as fofocas correrem.”, Zara riu.
“E como estamos em um lugar onde as pessoas não amadurecem e você mora com três caras bastante cobiçados. Ai as fofocas realmente correm.”, explicou e rodou o indicador em minha direção.
“Não estou preparada para entrar em um filme da Disney.”, bufei.
Zara riu deu batidinhas ao redor dos olhos avivando a maquiagem. Em Illinois o cotidiano era tão mais simples. As pessoas não me conheciam, eu não conhecia ninguém e a vida seguia transparente. Eu havia acabado de chegar e meu nome já rodava por aí. A ideia de colocar meu irmão no cantinho do pensamento estava começando a ser considerada.
Passei o dedo pelo contorno da sereia que estava tatuada na parte de dentro do meu antebraço.
“São bem bonitas, inclusive.”, Zara constatou, desviando minha atenção. Ela apontou, se referindo as delicadas tatuagens espalhadas pelos meus braços. “Queria ter aceitação para fazer em lugares à vista.”.
Zara, assim como eu tinha certas desavenças com os pais. Seu pai era ex-militar, então seu pensamento conservador sempre a reprimia de atitudes comprometedoras. Sua mãe, ia de apoio ao marido, mesmo que não gostasse. Foi um grande esforço para Zara permanecer nas líderes de torcida, para virar capitã foi um desafio ainda maior. Acreditava que por estar de uniforme, ainda possuía esse fardo. De fato, eles tinham motivos para as suas preocupações, mesmo que fossem motivos antiquados. Com as líderes de torcida, vinha a grande reputação e em consequência, os garotos e as festas. Ainda assim, pelo meu conhecimento de Zara, ela dava um jeito de burlar regras e viver da sua maneira.
“Mesmo dilema?”, perguntei.
Zara respirou fundo e maneou a cabeça para cima e para baixo em afirmação.
“Mesmo dilema.”, ela disse e suspirou. “Agora que Mark foi aceito em Stanford, o foco é garantir que eu também tenha um futuro promissor.”, contou, revirando os olhos. “Gemeos são tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes.”.
Zara abriu a boca para complementar, porém foi interrompida por um garoto que irrompeu o banheiro feminino. Ele estava ofegante e tinha a cabeça de um tritão no braço, que era complemento de sua roupa de mascote.
“Zara, o treino começou, as meninas só estão esperando você.”, ele alertou entre lufadas de ar.
“Eu sequer me dei conta da hora.”, a morena olhou a hora no relógio do celular e arregalou os olhos. “Se não tiver nada para fazer agora pode assistir nossa performance.”, ofereceu-me.
“Preciso comer algo antes da próxima aula.”, expliquei e Zara assentiu.
“Me desculpe por isso, mas preciso mesmo ir. Nossa conversa vai ter que ficar para outro momento.’, ela torceu a boca e caminhou de costas na direção da porta, de onde o garoto já tinha saído. “Estou ficando no dormitório misto. Apareça por lá qualquer hora, mas não peça informação a nenhum individuo do sexo masculino por lá”.
“Pode deixar.”, afirmei.
Ela sorriu abertamente e me mandou um beijo no ar.
“Foi bom te ver, Philippa. Fico feliz que voltou.”, falou e esperou apenas o meu sorriso para sair em disparada do banheiro.
Encarei-me mais uma vez no espelho, fazendo uma careta para o meu estado. Eu deveria ficar bem distante do meu reflexo pelo resto do dia. Eu não julgaria quem me esbarrasse comigo e levasse um susto. Eu mesma levei. Se meu cabelo estivesse loiro, eu com certeza aproveitaria a situação para encenar a Loira do Banheiro. Minha barriga roncou e fome, me indicando que estava na hora de abandonar o banheiro feminino e parar de me imaginar atormentando os universitários.
No caminho pelo campus, ouvi uma risada feminina histérica e atentei meu olhar até onde veio. Franzi o cenho, vendo uma garota de cabelos longos e loiros, de costas para mim e de frente para um indivíduo do sexo masculino, rindo alto. Mesmo de costas, parecia uma atitude forçada. Tive vontade de rir, mas me contive. Eles estavam a uma distância pequena, todavia segura o suficiente para que eu observasse. E eu queria muito observar melhor o sujeito e o sorriso galante que tomava conta de seus lábios. Ele tinha os braços cruzados em frente o peito e um pé reclinado na árvore. Seus cabelos eram castanhos e sua pose relaxada.
Voltei minha atenção ao meu caminho quando quase esbarrei em um garoto de óculos de grau passando na minha frente. Ele se desculpou e eu sorri gentilmente, retornando a minha contemplação escondida ao casal da árvore. Entretanto, minha contemplação já não parecia mais ser escondida uma vez que, o moreno olhava diretamente para minha direção. Mais especificamente para mim.
Estreitei os olhos, verificando sua expressão há pouco sorridente, então séria. Meus passos passaram a serem mais lentos. A garota na sua frente parecia divagar em palavras que ele não se dava o trabalho de escutar. Nossa troca de olhares perdurou por minutos. Sentia-me presa ao seu rosto, ao seu olhar duro, aos poucos me familiarizando com sua expressão. As lembranças me atingiram subitamente e eu prendi a respiração inconscientemente.
Damien.
Meu coração acelerou de uma forma ridícula e incompreensível, minha feição se contorceu de raiva e eu recuei meu olhar, prestando atenção no trajeto rápido que passei a trilhar. A boa notícia era que eu havia me interessado por alguém em pouco tempo dentro do campus, a má era que esse indivíduo consistia em ninguém mais que meu ex.
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