Off Script

3 Oito Mil Pessoas


O Rogers Place era maior do que ela esperava.

Lara não sabia bem o que tinha imaginado — algo como um ginásio grande, talvez, com arquibancadas e uma quadra no meio. Mas quando elas entraram pelo corredor principal e ela viu o tamanho do lugar, a quantidade de pessoas, o barulho que já existia quarenta minutos antes do jogo começar, ela parou no meio do fluxo de gente e ficou parada tempo suficiente pra alguém esbarrar no ombro dela.

— Vem — Priya pegou o braço dela. — Você está no meio da corrente.

— Isso é enorme.

— Dezoito mil lugares.

— Você disse oito mil.

— Disse dezoito. — Priya a conduzia pelo corredor com a desenvoltura de quem conhece cada curva. — Você ouviu oito porque o cérebro estava processando outras coisas.

Lara não respondeu porque era provavelmente verdade.

Os assentos eram bons — Priya tinha conexões que ela ainda não tinha mapeado completamente — e ficavam no segundo nível, com visão do gelo inteiro. O gelo que, Lara notou, era diferente de tudo que ela tinha imaginado. Branco demais. Iluminado de uma forma que parecia irreal, quase de palco, com as marcações coloridas embaixo da superfície como algo vivo.

— O gelo é pintado? — ela perguntou.

— As linhas e os logos são, sim. A superfície é limpa.

— Parece CGI.

Priya riu.

Ao redor delas, Edmonton se preparava. E Edmonton em modo de jogo era uma versão diferente da cidade que Lara tinha começado a conhecer — a cidade das manhãs frias e das ruas tranquilas e das pessoas que seguravam a porta pros outros com naturalidade. Aqui havia preto, amarelo e vermelho em todo lugar, jerseys com nomes que ela não reconhecia na maioria, crianças com as bochechas pintadas, adultos com cachecóis e expressões de quem levou aquilo a sério a vida inteira.

— Eles sempre são assim? — ela perguntou.

— Nos jogos em casa, sim. — Priya estava abrindo um pacote de algo que cheirava bem. — Você precisa entender uma coisa sobre Edmonton. Não é uma cidade grande. Não tem o glamour de Toronto ou Vancouver. O que ela tem é o Wildfire. É o orgulho coletivo. Quando o time vai bem, a cidade inteira vai bem. É quase fisiológico.

Lara olhou ao redor.

Tinha vindo do Brasil — de um país que parava inteiro por onze homens chutando uma bola — e mesmo assim não tinha o referencial emocional pra isso. Tinha visto pessoas assim, nunca tinha sido uma delas. Sempre tinha observado de fora aquela entrega coletiva com uma mistura de carinho e estranheza, como turista num ritual que não era o seu.

Mas agora estava dentro do ritual.

E era diferente ser dentro.

O jogo começou com um barulho que ela sentiu no peito antes de processar com os ouvidos.

Priya explicava em tempo real — as zonas, as posições, o porquê de certas jogadas gerarem reação e outras não — e Lara ouvia com atenção genuína porque era o tipo de coisa que ela fazia, prestava atenção, tentava entender os sistemas. Mas havia uma diferença entre entender intelectualmente e acompanhar emocionalmente, e ela ficou os primeiros dez minutos num lugar intermediário, reconhecendo os padrões sem sentir os padrões.

Até o momento em que o narrador falou o nome.

— Carter com o disco na zona ofensiva—

O som que saiu das dezoito mil pessoas não foi um grito. Foi uma mudança de pressão atmosférica.

Lara se inclinou pra frente sem perceber.

Ela não conseguia acompanhar o disco — era rápido demais, e ela ainda não tinha o olho treinado — mas conseguia acompanhar ele. Número 29, preto com listras amarelo e vermelho , e havia algo na forma como ele se movia no gelo que era diferente dos outros, embora ela não soubesse nomear a diferença. Mais econômico, talvez. Sem movimentos desperdiçados.

O lance durou quatro segundos.

O disco entrou no gol.

O Rogers Place explodiu.

Lara pulou junto com todo mundo sem ter tomado a decisão de pular, e quando percebeu estava de pé, as mãos na grade à frente, e Priya do lado gritando alguma coisa que ela não conseguiu ouvir sobre o barulho.

Quando o barulho baixou — e levou tempo pra baixar — ela se sentou devagar.

Tinha alguma coisa acontecendo no peito que ela preferiu não examinar de perto.

No intervalo, Priya foi buscar café e Lara ficou no lugar olhando o gelo sendo limpo por uma máquina lenta e metódica que parecia estranhamente fora de lugar no contexto de tudo que tinha acontecido antes.

Tirou o celular. Abriu o Google sem um plano específico.

Nolan Carter draft 2024.

Os resultados carregaram. Ela clicou no primeiro vídeo que apareceu.

Era de dois anos atrás. Um ginásio diferente, uma multidão diferente, e um rapaz de dezoito anos numa mesa com representantes de algo que ela entendeu ser a liga — terno escuro, cabelo arrumado, aquele olhar verde-acinzentado que ela já conhecia mas que aqui estava contido de um jeito diferente, como alguém segurando algo grande.

E então o apresentador falou o nome dele.

E ele se levantou.

E o rosto dele abriu.

Não foi o meio sorriso do balcão. Foi outra coisa inteira — puro, sem camadas, o tipo de alegria que as pessoas adultas geralmente aprendem a modular porque parece demais. Ele não moderou. Abraçou o homem à frente, abraçou alguém que Lara assumiu ser o pai, e quando virou pro outro lado havia lágrimas que ele não tentou esconder.

Dezoito anos.

Ela fechou o vídeo quando Priya voltou com os cafés.

— Tudo bem? — Priya olhou pra ela com atenção.

— Sim. — Lara pegou o café. — Quanto tempo de treino você precisa pra chegar onde ele está?

Priya considerou.

— Depende do jogador. Mas pra ser draftado no primeiro round, geralmente você fala de uma década de gelo antes dos dezoito. Às vezes mais. Viagens, acordar às quatro da manhã pra treinar antes da escola, abrir mão de quase tudo que os outros adolescentes fazem. — Ela pausou. — Por quê?

— Curiosidade.

Priya olhou pra ela um segundo a mais.

Não disse nada.

O segundo tempo foi diferente do primeiro.

Não porque o jogo tivesse mudado — os Wildfire venciam por dois a zero e o ritmo era o mesmo — mas porque Lara estava vendo diferente. Não entendia as regras ainda, não sabia nomear as posições corretamente, não tinha o vocabulário. Mas tinha visto o vídeo de dezoito anos, e agora quando o número 29 aparecia com o disco ela pensava em acordar às quatro da manhã durante uma década, em abrir mão de coisas sem saber exatamente o que estava abrindo mão, em sentar numa mesa com dezoito anos e ter o nome chamado na frente de uma arena.

Era isso que Priya tinha tentado traduzir pra ela na cafeteria.

As crianças pedem o jersey de Natal.

Ela não tinha entendido então.

Estava começando a entender agora, e a compreensão tinha um peso diferente do que ela esperava. Não era abstrato. Era um rapaz que vinha todo dia entre sete e quinze e sete e vinte e cinco e pedia americano sem açúcar e tinha dito legal quando ela falou de Clarice Lispector e deixado 10 dólares de gorjeta em dinheiro.

O jogo terminou três a zero.

A arena cantou alguma coisa que Priya cantou junto e Lara ouviu sem entender a letra, mas o som era daqueles que ficam — coletivo, quente apesar do frio, a cidade inteira num único tom por um único momento.

No corredor de saída, espremidas no fluxo de dezoito mil pessoas indo pro mesmo lugar, Priya falou sem olhar pra ela:

— Então.

— Não — disse Lara.

— Eu não disse nada.

— Você ia dizer alguma coisa com aquele então.

Priya sorriu pro espaço à frente.

— Eu ia perguntar o que você achou do jogo.

— Foi bom — Lara disse. — Entendi mais do que esperava.

— Ótimo. — Uma pausa. — E mais nada?

— E mais nada.

Priya assentiu com a solenidade de quem está arquivando uma informação pra uso posterior.

Saíram pro frio de outubro, que às dez da noite tinha chegado em menos doze, e Lara respirou o ar gelado e sentiu ele entrar nos pulmões com aquela clareza específica do inverno canadense — tudo muito nítido, muito acordado, sem espaço pra ambiguidade.

Colocou as mãos nos bolsos do casaco.

O vídeo de dezoito anos ainda estava rodando em algum lugar no fundo da cabeça.

Ela fechou mentalmente a gaveta.

Abriu de novo, involuntariamente.

Fechou com mais firmeza.

Não é relevante, ela disse pra si mesma, com uma convicção que estava ficando cada vez mais difícil de sustentar.

Alberta, a planta em cima da cômoda, não saberia dizer se concordava.