Off Script
4 A Rachadura
Ela chegou na cafeteria mais cedo que o necessário.
Não havia motivo prático pra isso — Priya abria às sete, Lara entrava às sete e meia, e às seis e quarenta e cinco ela já estava lá com a chave emprestada, ligando as luzes e colocando a primeira fornada de café com uma concentração desproporcional à tarefa.
Não estava evitando nada. Estava sendo produtiva.
Era diferente.
A máquina de espresso acordou com seu ritual habitual de sons e vapor, as cadeiras foram tiradas das mesas uma por uma, o quadro de giz foi atualizado com as sugestões do dia que Priya deixava num bilhete na geladeira toda semana. Lara fez tudo isso com aquela eficiência que as pessoas desenvolvem quando precisam que as mãos estejam ocupadas enquanto a cabeça trabalha sozinha.
A cabeça estava trabalhando sozinha desde as seis da manhã.
Desde antes, na verdade. Tinha dormido mal — não de forma dramática, sem pesadelos ou ansiedade paralisante, simplesmente aquele sono fragmentado de quem tem alguma coisa não resolvida circulando nos bastidores. Tinha acordado três vezes. Na terceira tinha ficado olhando pro teto do quarto pequeno e ouvindo o silêncio de Edmonton às quatro da manhã, que era um silêncio diferente do silêncio de BH — mais fundo, mais frio, sem os sons de cidade quente que ela nem sabia que considerava normais até sumirem.
Acordar às quatro da manhã durante uma década.
Ela tinha pensado nisso. Involuntariamente.
Tinha fechado os olhos com mais força e esperado o sono voltar.
Priya chegou às sete, com dois croissants num saco de papel e a expressão de quem dormiu bem e não tem culpa nenhuma disso.
— Você veio cedo — disse ela, pendurado o casaco.
— Achei que ia ajudar na abertura.
— Hm. — Priya pegou um dos croissants e partiu ao meio com uma calma que era deliberada. — Como você dormiu?
— Bem.
— Hm.
— Para de fazer esse som.
— Que som?
— Esse hm que não é neutro.
Priya mordeu o croissant com inocência total.
— Estou só comendo.
Lara virou pra máquina.
Às sete e dezoito a campainha da porta soou.
Ela sabia, antes de virar, pelo horário. E soube pelo jeito que os ombros fizeram alguma coisa que ela preferiu não nomear — não era exatamente tensão, não era exatamente o oposto.
Virou.
Ele estava tirando o gorro com uma mão, os cabelos levemente amassados, o casaco do treino com o logo do time no peito. Tinha aquela presença de sempre, aquela forma de ocupar o espaço sem parecer que estava tentando, e ela olhou pra ele e pensou no número 29 no gelo e nas dezoito mil pessoas e no vídeo de dezoito anos com o rosto aberto, e alguma coisa que tinha sido bidimensional ficou tridimensional de uma forma que ela não tinha pedido.
— Bom dia — ele disse, no tom de sempre.
— Bom dia. — A voz saiu normal. Isso foi uma vitória pequena. — Americano grande sem açúcar.
Ele chegou no banco do balcão.
— Você memorizou.
— Você pede todo dia.
— A Priya levou três semanas. — Ele não estava se gabando, estava só observando, com aquele jeito factual que ela tinha notado nas outras manhãs. — Vai nevar hoje à tarde, falaram.
— Ainda não vi neve de verdade.
— Como assim?
— Choveu uma vez desde que cheguei, mas neve de verdade, cobrindo tudo — ela fez um gesto vago — ainda não.
Ele ficou olhando pra ela com uma expressão que ela não soube ler imediatamente.
— Quanto tempo você está aqui?
— Três semanas.
— Em outubro. — Ele assentiu devagar, como se estivesse calculando algo. — Você chegou bem no início do inverno.
— Ótimo timing.
— Ou péssimo, dependendo de como você encarar. — O meio sorriso. — De onde você é?
— Brasil. Belo Horizonte.
Ele repetiu o nome em silêncio, como se estivesse guardando a pronúncia.
— Nunca fui.
— É uma cidade que exige explicação pra quem não é de lá. — Ela pousou o copo na bancada. — Não tem praia, não é Rio, não é São Paulo. As pessoas de fora sempre ficam confusas sobre por que alguém seria de lá.
— E por que alguém seria?
Ela pensou por um segundo genuíno.
— As montanhas. O jeito que a cidade foi construída no meio delas, meio torta, meio improvisada. É uma cidade que parece que aconteceu sem planejamento e funcionou mesmo assim.
Ele ficou olhando pra ela.
— Legal — disse ele.
A mesma palavra de sempre. Mas dessa vez ela notou que não era automático — ele tinha ficado um segundo com a palavra antes de falar, como se tivesse considerado outras e escolhido aquela.
Ela não soube o que fazer com isso então guardou.
Ele estava quase na porta quando parou.
Virou.
— Você foi ontem.
Não era pergunta. Lara sentiu alguma coisa se contrair no peito.
— Como você sabe?
— Vi você no segundo nível. — Ele disse isso com uma naturalidade que a desarmou completamente. — Setor 211, perto da grade. Casaco verde.
Ela tinha um casaco verde. Comprado no dia anterior a passar frio na fila do supermercado, porque o marrom que tinha trazido do Brasil não estava sendo suficiente.
— Você consegue ver a plateia jogando?
— Às vezes. Nos intervalos, quando está esperando no banco. — Uma pausa. — Não é algo que eu costumo notar.
O jeito que ele disse a última frase era o jeito de alguém acrescentando uma informação que considera relevante. Lara ficou com isso por um segundo sem saber onde colocar.
— Foi meu primeiro jogo de hockey — disse ela.
— Eu sei. A Priya mencionou.
— Ah.
— O que você achou?
Ela podia ter dado a resposta curta — foi bom, gostei — e encerrado. Era o que faria normalmente. A resposta curta era segura, não abria espaço, não criava nada.
Ela não deu a resposta curta.
— Fiquei tentando entender as regras e não consegui acompanhar tudo. Mas teve um momento, quando você marcou o primeiro gol — ela não disse você, disse quase sem perceber, e percebeu depois — quando a arena inteira reagiu ao mesmo tempo, e eu pulei junto sem ter decidido pular. — Ela pausou. — Nunca tinha feito isso antes. Reagir a esporte assim.
Ele ficou parado na porta.
Havia algo diferente na expressão dele agora — ainda contida, ainda aquele rosto que não entregava tudo, mas havia alguma coisa nos olhos que estava presente de um jeito que não estava antes.
— Obrigado — disse ele. — Por ter ido.
Era uma coisa estranha de agradecer. Ela não tinha ido por ele, tinha ido porque Priya tinha insistido e porque a mãe tinha dito vai e porque ela estava tentando ser a pessoa que diz sim pras coisas.
Mas ele agradeceu como se tivesse ido por ele.
E o pior era que a gaveta que ela tinha fechado três vezes na véspera estava completamente aberta agora, e ela não tinha mais energia pra fingir que não estava.
— De nada — ela disse.
Ele saiu.
A campainha da porta fez o som de sempre.
Priya tinha ouvido tudo do lugar onde estava fingindo organizar os grãos de café, que não precisavam de organização nenhuma.
Ficou em silêncio por um tempo respeitoso — talvez quatro segundos, que pra Priya era contenção considerável.
— Quando você marcou o primeiro gol — ela repetiu, devagar, saboreando cada palavra.
— Não — disse Lara.
— Você disse você.
— Eu estava descrevendo o jogo.
— Você disse quando você marcou em vez de quando o time marcou ou quando o Carter marcou ou qualquer outra formulação que não fosse segunda pessoa do singular diretamente pra ele.
Lara começou a limpar o balcão com uma energia que o balcão não merecia.
— Priya.
— Estou só observando.
— Observa em silêncio.
Priya abriu a boca. Fechou. Ficou em silêncio por outros três segundos.
— Ele disse que você não é algo que ele costumar notar — ela disse. — E notou.
— Vou limpar os banheiros.
— Os banheiros estão limpos.
— Vou verificar.
Ela foi.
Priya ficou sozinha no balcão, olhou pra porta por onde Nolan Carter tinha saído, olhou pro corredor por onde Lara tinha ido, e sorriu pro espaço vazio entre os dois com a expressão tranquila de alguém que está vendo uma história se escrever e tem o bom senso de não atrapalhar.
À tarde, nevou.
Lara estava no turno da tarde quando os primeiros flocos começaram — pequenos, quase imperceptíveis, mais parecendo poeira branca do que neve de verdade. Depois foram aumentando, e ela foi até a janela da cafeteria com o pano de prato ainda na mão sem perceber que tinha parado de trabalhar.
A rua estava ficando branca devagar.
Não era dramático. Não era como nos filmes, com flocos grandes e visibilidade zero e o mundo transformado de uma vez. Era gradual, quase discreto, a neve cobrindo o asfalto e os carros e os galhos nus das árvores com uma paciência que ela achou estranhamente comovente.
Tirou o celular.
Fotografou a rua.
Mandou pro pai com uma legenda: Primeira neve.
A resposta veio em quarenta segundos — o pai respondia mensagens com uma velocidade que desmentía completamente a imagem de homem sério que cultivava no mundo físico.
"Que frio. Compra um casaco melhor."
E depois, um segundo depois:
"Orgulho de você."
Lara ficou olhando pra mensagem por um tempo.
Guardou o celular.
Voltou pro balcão.
A neve continuou caindo lá fora com aquela paciência toda, cobrindo Edmonton aos poucos, e ela trabalhou até o fim do turno com aquele peso no peito que não era triste exatamente — era mais como quando você carrega algo por tempo demais e só percebe o quanto pesa quando finalmente para.
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